Trabalho livre

O trabalho livre, espontâneo e não remunerado, cria bens e produtos que, em sua maior parte, são doados e não são objeto de troca. O atendimento à família, o serviço voluntário, o cuidado do próximo e uma extensa gama de outras atividades exercidas pelo ser humano têm uma enorme importância mas são desconsideradas.

O trabalho livre sempre existiu, e de forma expressiva. A produção de bens e serviços para o consumo familiar, o serviço doméstico, o estudo, treinamento e aprimoramento formais e informais, uma parte substancial da criação artística e científica, a atividade altruísta e a participação quando não remunerada e compulsória em guerras, conquistas, lutas sociais e de reconstrução após catástrofes e guerras são historicamente os exemplos mais interessantes. É a sua presença que, em boa parte, explica o surgimento e o progresso das civilizações.

Mais recentemente, a ação voluntária e a produção de informação digital destacaram-se e tornaram ainda maior e crescente a importância do trabalho livre.

São três as principais razões para tal expansão do trabalho livre. Em primeiro lugar, o trabalho remunerado tem sido profundamente afetado pela inovação tecnológica e pela globalização tornando inevitável uma maior disponibilidade do ser humano para o lazer e para o trabalho livre.

Uma segunda razão é que a sociedade civil está cada vez mais capacitada para o estimulo e uso efetivo do trabalho voluntário principalmente através de organizações presentes em praticamente todos os setores da vida humana. A construção de moradias em mutirão, a assistência social e a defesa do meio ambiente são alguns exemplos desta atuação.

A ação voluntária através de ONGs, associações, mutirões, partidos e outras organizações vem se expandindo rápida e consistentemente. A ação destas e outras organizações sem fins lucrativos assumiram uma dimensão tão importante a ponto de existirem muitas tentativas, expressivas mas conceitualmente erradas, de adaptar o modelo da economia de mercado acrescentando-se ao setor privado e governamental, um terceiro setor.

A outra razão é que a disseminação ampla e global da informação em meio digital graças à Internet abriu um novo e enorme espaço para a expressão da criatividade humana fazendo com que uma parcela significativa e crescente da informação digital disponível seja resultado de trabalho livre.

Hoje, ao contrário da mídia tradicional, milhões de pessoas criam obras que serão vistas através da Internet por, em geral, centenas ou milhares de outras. Sítios próprios, blogs, fóruns, comunidades e grupos de discussão tem sido a principal forma encontrada para a divulgação do trabalho de criação individual ou em grupo.

Mesmo tão expressivo, o trabalho livre, em todas as suas facetas, não é contabilizado e analisado no âmbito do sistema econômico de mercado. E não precisa nem deve ser, mesmo no caso do exercido dentro dos limites do que a ONU denomina “setor sem fins lucrativos”. Como se verá, a economia dual à de mercado deve ser vista com olhos de quem percebe o outro lado da moeda e medida com foco no trabalho livre.

Apesar das evidências, pode-se imaginar um certo irrealismo ao crer que seja possível existir trabalho livre, tal o peso da crença que se cristalizou de que o que motiva o ser humano é o ganho material e o que o obriga a trabalhar é a necessidade de sobrevivência.

No entanto, a existência de trabalho livre pode ser explicada pelo fato do ser humano precisar atender necessidades pessoais e as dos que lhe são próximos, desejar ser produtivo e querer ser útil ao semelhante e com ele interagir em ONGs, associações, mutirões, partidos, e outras organizações, além é claro da criação cultural, apoio familiar e tantas outras atividades não reconhecidas pela economia tradicional.

Imaginar, ao contrário, que o que o ser humano necessita e deseja quando não está realizando um trabalho obrigatório e remunerado é exercer uma atividade contemplativa ou de lazer é que não encontra respaldo no dia a dia das pessoas.

Sobre isto, cabe lembrar a conhecida e alardeada argumentação de Domênico Di Masi em “O ócio criativo”, que, ao contrário do que o título possa dar a entender, não afirma nem concluí que ócio seja só o que as pessoas desejem e exerçam quando não estão dedicadas ao trabalho remunerado.

De fato, o que Masi apresenta é a ideia de que trabalho, jogo, e estudo se deem concomitantemente, pois isto permite o florescimento da criatividade necessária para que o ser humano exerça melhor as atividades do mundo contemporâneo cada vez mais abstratas. Tal formulação, muito interessante, vale para os dois mundos, o do trabalho remunerado e o do livre.

Soa como uma contradição, tal a crença que se formou que trabalho e remuneração andam juntos. Mas não. Basta relembrar que outros tipos além do remunerado ocorreram com maior ou menor intensidade ao longo da história, dentre eles os trabalhos isolado, cooperativo, coletivo, não remunerado, escravo e feudal. Uma ou mais destas formas de trabalho e de sua apropriação parcial ou total por terceiros foram dominantes em cada época. Algumas, se mantém até hoje.

Inicialmente o trabalho humano era uma atividade rudimentar e esporádica destinada a atender as necessidades básicas dos seres humanos. Mas, este foi se modificando, especialmente com o início da vida em sociedade, que remonta há cerca de dez mil anos, para formas cada vez mais exigentes em termos de dedicação, conhecimento e organização.

É com base naqueles vários tipos de trabalho que o ser humano, além de atender as suas necessidades do dia a dia, que foram se sofisticando, construiu, ao longo de centenas de gerações um incrível acervo de conhecimento, cultura e bens materiais em todas as áreas.

Somente bem mais recentemente, com o modo de produção capitalista, é que o trabalho remunerado se impôs como relação dominante na produção dos bens e serviços seja para consumo seja para investimento.

O foco no desenvolvimento da economia de mercado que se justificou durante os estágios de consolidação do sistema obscureceu uma outra parcela do trabalho humano, principalmente o livre, realizado fora dos contornos do mercado. Isto, além de atender aos interesses estabelecidos, simplificou o entendimento do sistema econômico global e de sua inter-relação com os demais aspectos da vida contemporânea.

Chega a surpreender, ao se detalhar e exemplificar o trabalho doado, como foi possível ignorar uma atividade tão importante. Mas, foi.

Os tipos de trabalho livre mais importantes são o voluntário, a criação digital, o doméstico, o de autossubsistência, o do investimento pessoal, a criação artística, cultural ou científica, as atividades sociais e as atividades amadorísticas. Vamos à uma rápida menção a cada um deles.

A atividade voluntária é essencial ao setor sem fins lucrativos e é nele que ocorre, principalmente. Só a título de exemplo, a Anistia Internacional é um movimento global com mais de 3 milhões de apoiadores, membros e ativistas, em sua grande maioria atuando voluntariamente e visando proteger os direitos humanos.

A criação digital, fenômeno relativamente recente, ganhou incrível força com a internet e a possibilidade que trouxe a milhões de pessoas em todo o mundo de escreverem, através de blogs e sítios próprios, para centenas ou milhares de outras, subvertendo totalmente a forma como a difusão da informação se dava até então. Ah, isto sem falar no software livre. Este artigo por exemplo, foi escrito usando o Ubuntu (Linux), o LibreOffice, o Mozilla Firefox e e o Ubuntu One (nuvem), todos livres e que acho bem melhores que os equivalentes disponíveis no mercado.

O mais importante deles, a meu ver, é o trabalho doméstico, em especial o das mães, que se entregam na criação e educação de seus filhos. Bilhões de mães em todo mundo dão o exemplo, dia a dia.

A autossubsistência ocorre em grande escala em países onde parte da população está fora dos contornos de mercado, e curiosamente, é uma possibilidade, parcial, imaginada para um mundo pós-mercado.

E as centenas de milhões de pessoas que investem em si mesmos estudando e se aprimorando?

Ao contrário do que se diz, as criações artística, cultural e científica são essencialmente uma atividade de doação em que os autores procuram, antes de tudo, produzirem e com isto, se realizarem.

Os movimentos sociais e todas as outras atividades de cunho associativo, formais ou informais, são também de grande expressão e marcadamente levados a frente pela doação e abnegação dos envolvidos.

Os clubes são um bom exemplo de atividade amadorística onde muitos se dedicam a garantir as atividades fins em geral esportivas ou recreativas.

Incrível, não?

Finalmente cabe mencionar que quem faz trabalho remunerado precisa também, em sua maioria, exercer o trabalho livre por razões pessoais e sociais. E, quem faz trabalho livre precisa também buscar remuneração para sua sobrevivência, no nível que lhe seja possível e desejado. Ou seja, uma mesma pessoa exercerá, em geral, os dois tipos. O que em nada prejudica a ideia de uma economia dual à de mercado.

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