Por que é necessária

  1. Utilize preferencialmente a central de comentários para as suas críticas, sugestões e observações.
  2. Veja notícias e artigos relacionados à Nova Economia na coluna da esquerda.
  3. A Pesquisa da Semana é sobre o tema tratado no post e está apresentada em seguida a ele.
'Daikokuten at Shinagawa Shrine' photo (c) 2004, Stéfan - license: http://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0/

Daikokuten, deus da riqueza

A parte 2 está publicada neste mesmo post em seguida à parte 1.

Parte 1 (publicada em 16 de maio de 2012):

Retomo hoje a caracterização, detalhada, da Nova Economia, objeto central deste blog.

Convém lembrar, antes de mais nada, que esta caracterização está alinhada com a do movimento que nasceu na Inglaterra em 1983 e que é representado hoje por uma ampla rede de organizações de pesquisa e de ação, dentre elas a nef e a NEI, cujos sites podem ser acessados através da seção “links de referência” à esquerda da página principal.

Num primeiro post sobre o assunto, “Por que, o que, como?“, procurei mostrar que é preciso saber com clareza e precisão o “por que” uma Nova Economia é necessária. Sem, isto, o movimento fica à deriva. É necessário também ser objetivo e seletivo no o “que é” preciso fazer, evitando a dispersão de esforços e aprofundando o debate em torno de alguns poucos pontos que tenham o necessário poder mobilizador. Mas, conceber uma Nova Economia é relativamente fácil. O difícil é agir para que ocorra o mais rápida e suavemente possível. Para tanto é preciso saber o “como” deve ser feita a transição para uma Nova Economia. Em outras palavras, quais as formas de mobilização que levarão ao sucesso do movimento.

No post de hoje, entro em mais detalhe em relação ao primeiro ponto.

A Nova Economia redireciona a atividade produtiva de forma a privilegiar diretamente e ao mesmo tempo a redução da desigualdade social, a preservação ambiental e o bem estar do ser humano.

Estes três objetivos foram abordados em muitos dos posts já publicados e que podem ser acessados optando pelo item correspondente na seção “Tópicos” à esquerda da página principal. Como visto, a mudança é necessária e decisiva para a própria sobrevivência de nossa civilização. Além disto, os dois primeiros objetivos são perfeitamente factíveis, já que a atual capacidade produtiva da humanidade os permitem. O último, o bem estar, concorre decisivamente e ao mesmo tempo decorre dos primeiros.

Acho interessante portanto, agora, tratar das principais dúvidas que vêm à mente quando se trata do assunto. Creio que elas são:

  • Mas, não é com crescimento econômico que se alcançam tais objetivos?
  • Não é a proposta de tal modo assustadora que impeça que seja sequer considerada?
  • Na prática, uma Nova Economia não significa o fim do capitalismo?

De fato, desde a 1ª revolução industrial, há mais de 300 anos, vem se consolidando a crença da importância do crescimento econômico. Inicialmente, a ampliação dos mercados e dos produtos e serviços consumidos foi naturalmente vista como a forma de dar vazão ao impeto dos empreendedores e à vontade dos que tinham capital de criar novos negócios e expandir os existentes. No início do século passado em resposta às crises, à luta trabalhista e aos levantes socialistas, foi-se também, principalmente no ocidente, associando ao crescimento econômico a ideia de que é ele que permite o progresso da civilização, e que ele só é plenamente atingido quando há liberdade de mercado e de iniciativa.

É a via indireta. Nesta ótica, as empresas precisam ter lucro para que possam investir e ampliar seus negócios e com isto gerar mais empregos. Ampliam-se em consequência os mercados, diminuí a desigualdade social e melhora o bem estar da população.

Parte 2:

Mesmo no campo socialista, que ganhou força a partir do final da 1ª guerra mundial e e ruiu na década de 90, o crescimento econômico, numa versão sem a liberdade de iniciativa, definiu o rumo das ações, principalmente relacionadas às chamadas indústrias de base indispensáveis para a sua defesa militar.

Até meados do século passado, tanto no mundo capitalista quando socialista, a ideologia do crescimento econômico reinou sem questionamentos e com bastante razão já que, além das necessidades bélicas, os demais bens materiais e serviços eram e continuam escassos em muitos países.

Aos poucos, o crescimento exponencial começou a ser questionado e, como mostrado em diversos posts, é hoje inviável tanto social quanto ambientalmente, sendo necessário que ao invés de esperar que o crescimento econômico traga os benefícios desejados, a humanidade passe a pensar e agir para conquistar aqueles benefícios diretamente, colocando, produção, consumo e investimento a seu serviço.

Restringir o crescimento gera, no entanto uma imensa reação, já que sua limitação acarreta queda na lucratividade das empresas e, como dito anteriormente, o lucro é que é o real motivador da chamada iniciativa privada.

E provoca também um imenso receio de depressão econômica e com ela a drástica queda no nível de emprego, a falta de bens materiais e de serviços para a população e a convulsão social.

Fica-se, entre a “cruz e caldeirinha”. De um lado a pressão dos grupos desfavorecidos, o risco de colapso ambiental e a evidência de que maior bem estar já é possível para todos e de outro o espectro da depressão e tudo de ruim que ela traz.

Mas é um falso dilema, pois o quadro de depressão somente ocorre num cenário onde o crescimento econômico comanda as ações. No outro, onde a capacidade produtiva é posta a serviço da humanidade a ameaça se dissolve. Os próximos dois posts mostrarão isto ao detalharem o que fazer e como chegar à Nova Economia.

E não se trata do fim do capitalismo. Não há uma mudança inevitável no sistema econômico. É claro que sem crescimento econômico as taxas de acumulação e de lucro declinam continuamente. Mas, permanece o espaço para a livre iniciativa atuar, provavelmente com uma tendência declinante pelo atrativo de outras formas de atuação. Novos tempos, novas práticas, novos indicadores e taxas decrescentes.

É que, à medida que a mudança se afirma, é maior o tempo livre das pessoas, levando a que, além de mais lazer, o trabalho não remunerado e altruísta ganhe força e prestígio por ser o canal natural para o ser humano satisfazer sua necessidade de ser produtivo e útil. Neste ponto vale a pena recorrer à “História da Riqueza do Homem” de Leo Huberman que mostra que diferentes sistemas produtivos conviveram e evoluíram ao mesmo tempo. O exemplo mais notável é o do capitalismo que nasceu de dentro do feudalismo. Traços deste último, aliás, perduram até hoje.

Termino sugerindo que você participe da pesquisa relacionada ao tema, no post que se segue.

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Serviços, imaterial?

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'Fantasmas' photo (c) 2008, Santiago Rodríguez - license: http://creativecommons.org/licenses/by/2.0/Já de volta de viagem de férias, completo hoje a abordagem do setor de serviços sob a ótica de sua contribuição para a redução relativa no uso de recursos materiais.

Acredito que ficou claramente demonstrado no último post, com base no detalhamento do PIB divulgado pelo IBGE, que o chamado setor de serviços é dominante. Mas, detalhando o setor em serviços por atividade no Brasil, também segundo o IBGE, para o ano de 2009 (em milhões de reais), vê-se que pela definição do que seja serviços, este está longe de ser imaterial.

Observo, que há uma diferença de R$ 10 bilhões entre o total dos serviços da tabela abaixo (R$ 1.887.448.000) e o da tabela do post anterior, ambas produzidas pelo IBGE, que, embora não distorça a análise, é um pouco preocupante.

Bem, vamos ao detalhamento dos serviços:

0601 Comércio 349.061 18%
0701 Transporte, armazenagem e correio 134.232 7%
0801 Serviços de informação 99.741 5%
0901 Intermediação financeira, seguros, 202.216 11%
previdência complementar e serviços relacionados
1001 Atividades imobiliárias e aluguéis 233.757 12%
1101 Serviços de manutenção e reparação 2 9.076 2%
1102 Serviços de alojamento e alimentação 54.407 3%
1103 Serviços prestados às empresas 139.004 7%
1104 Educação mercantil 32.544 2%
1105 Saúde mercantil 55.017 3%
1106 Serviços prestados às famílias e associativas 64.266 3%
1107 Serviços domésticos 37.701 2%
1201 Educação pública 112.042 6%
1202 Saúde pública 5 8.621 3%
1203 Administração pública e seguridade social 285.763 15%

Pelo quadro comprova-se que o comércio é o carro-chefe do setor. Mas, é uma atividade que existe tão simplesmente porque é o veículo para escoar a produção agrícola e industrial. A segunda atividade mais representativa é a administração pública. Esta, além de depender das demais para se financiar, envolve, em boa parte, a contratação ou execução direta de atividades que nada tem a ver com a prestação de serviços.

As seguintes, em termos e representatividade, não deixam por menos. As atividades imobiliárias dependem essencialmente da construção civil. A intermediação financeira faz sentido quando apoia o consumo e o investimento. Os transportes, conduzem bens físicos e pessoas e são os maiores responsáveis pelo uso de energia. Mesmo educação, saúde e segurança são atividades altamente dependentes de bens físicos.

Na verdade, não há erro na definição que é adotada na contabilidade dos países, mas, sim, uma indução ao engano, já que a definição de serviços pouco tem a ver com atividades em que predomine a prestação de serviços e onde o suporte material seja secundário.

Mesmo no caso de serviços especializados, isto é verdade. O serviço de um engenheiro, por exemplo, ao elaborar um projeto, pode ou não ser considerado uma atividade que cria um bem imaterial. Se ele tiver algum vínculo, além do objeto específico do serviço, com o contratante, sua atividade é parte do resultado produzido pelo contratante.

É claro que interessa a qualquer país ter uma prestação de serviços independente, capaz e forte, pois gera empregos de qualidade. Projetistas, calculistas, cirurgiões, consultores são alguns exemplos deste tipo de atividade. Mas, o impacto de um imaginado setor de prestação de serviços, de qualquer forma, é muito pequeno frente aos demais e não altera o quadro.

É ilusório, portanto, supor que o chamado setor de serviços possa representar o desacoplamento da base material, o que, aliás, era de se esperar. Aventar uma sociedade virtual, como diz o Goodall, só mesmo com um ser humano também imaginário, o que pode ser o caso se continuarmos neste caminho desvairado.

Termino sugerindo que você, leitor, participe da pesquisa relacionada ao tema, no post que se segue.

Serviços, última esperança?

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'call center' photo (c) 2006, Vitor Lima - license: http://creativecommons.org/licenses/by/2.0/É possível que o setor de serviços demande, relativamente aos demais, menos bens físicos e, por ter participação crescente na economia, ser a razão para que o crescimento exponencial possa continuar sem aumento da base material?

A resposta é, claramente, não. O setor é uma extensão da atividade agrícola ou industrial (comércio, transportes, etc.) ou depende fortemente de produtos para que o serviço possa ser prestado (saúde, informação, etc.). E, no caso da administração pública, além desta depender das demais para se financiar, envolve, em boa parte, a contratação ou execução direta de atividades que nada tem a ver com a prestação de serviços.

Não resta dúvida que o setor, na forma como é definido, é o mais importante, pois tem uma dimensão maior do que a dos demais, juntos. No caso brasileiro, O PIB, segundo o IBGE, teve a seguinte composição, tanto por classe de atividade quanto pela ótica da despesa, em valores correntes (milhões de reais):

2009
2010
Agropecuária 166.705 180.831
Indústria 696.611 841.024
Serviços 1.877.417 2.113.788
Valor adicionado a preços básicos 2.740.733 3.135.643
Impostos sobre produtos 444.392 539.321
PIB a preços de mercado 3.185.125
3.674.964
Despesas de consumo das famílias 1.966.492 2.226.056
Despesas de consumo do governo 694.597 778.013
Formação bruta de capital fixo 539.757 677.862
Exportação de bens e serviços 354.235 409.868
Importação de bens e serviços 356.015 446.386
Variação de estoque -13.941 29.551

Realmente, os números comprovam o que foi dito. Os serviços representaram em 2010, 58% do total. O mesmo ocorre nas principais economias. O artigo Don’t Be Afraid of the Service Sector publicado pelo International Economic Bulletin por Uri Dadush e Zaahira Wyne em 10 de novembro último, ilustra bem este fato: “Nos países desenvolvidos o setor de serviços respondeu por 90% do crescimento do PIB entre 1985 e 2005. Em 1991, os serviços constituíram 2/3 do PIB, saltando para 3/4 em 2008. O setor de serviços respondeu por todo o crescimento no número de empregos. Em 2008 o setor empregava 72% da força de trabalho, 10% a mais do que em 1991″.

É bom lembrar que é baixa a qualidade dos empregos que o setor de serviços gera em grande quantidade. Dentre outros, os postos de atendentes nas áreas de saúde, comercial e de telemarketing são mal remunerados, estressantes e desestimulantes. Um excelente artigo no The Nation do último dia 27 de fevereiro “One mancession later, are women really victors in the new economy?” mostra como este fato é especialmente relevante nos EUA, onde boa parte destes novos postos são ocupados por mulheres o que as levou a ocupar, hoje, metade do mercado de trabalho daquele país.

O artigo salienta ainda que uma das consequências da maior participação das mulheres é que num cenário de alto desemprego, os homens são os mais atingidos por este. É este tipo degradado de posto de trabalho, aliás, que está evitando o aumento acentuado do desemprego naquele país e explica eventuais pequenas melhoras, aspecto que não aparece nas estatísticas. Cabe explicar que o termo “new economy” no artigo significa apenas a economia como ela é, hoje.

Mas, o principal é que, como foi dito anteriormente e que será detalhado no próximo post, o setor é totalmente dependente dos demais. Redefinido, retirando-se dele as atividades subordinadas aos demais, ele deixa de ter um papel relevante.

Basta ver o caso do comércio, seu carro-chefe. A atividade existe tão simplesmente porque é o veículo para escoar a produção agrícola e industrial. O que faz com que, sem sua base material, o comércio não faça o menor sentido, esvaziando, em relação a esta atividade em particular, qualquer ilusão de pico de recursos materiais.

Termino sugerindo que você, leitor, participe da pesquisa relacionada ao tema, no post que se segue.

Mais emissões significa…

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'Air polution' photo (c) 2006, Konstantinos Mavroudis - license: http://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0/Outro a contestar com veemência a tese do pico material é George Monbiot. O faz no post Is the ‘peak consumption’ hypothesis correct? publicado em 3 de novembro último em seu blog. Dentre os inúmeros argumentos destaco a pergunta que faz sobre a disparidade entre o uso de recursos e a emissão de gases de efeito estufa.

“Por que existe uma aguda disparidade entre o uso de recursos – incluindo a produção primária de energia – e a emissão de gases de efeito estufa? Enquanto a produção primária de energia atingiu seu pico em 2001, a emissão de gases de efeito estufa no Reino Unido cresceu ininterruptamente ao longo dos anos de “boom” da última década (2000 a 2006). E isto sem levar em conta as emissões de terceiros (geradas em outros países para produzir bens que nós consumimos). Tais emissões parecem anular todas as reduções materiais havidas no Reino Unido desde 1990 e que foram largamente o resultado da mudança de carvão por gás natural e do declínio da indústria manufatureira”.

Já Hugo Penteado, da lista “Decrescimento” lembra em e-mail que consumo menor por unidade de produto jamais interrompeu a pressão absoluta sobre os ecossistemas, porque a produção cresce exponencialmente.

E Philippe Lena, da mesma lista, comenta em e-mail um outro aspecto do artigo do Goodall, que transcrevo:

“O crescimento do PIB é perfeitamente compatível com um menor consumo energético e material numa sociedade onde crescem as desigualdades sociais. No caso da Inglaterra, o crescimento do PIB pré-crise era justamente devido, em grande parte, à financeirização da economia inglesa e mundial (primeira praça financeira mundial). O consumo de muitos encolheu. O que provocou as rebeliões urbanas às quais assistimos.

O próprio autor diz que pode haver um viés nesse sentido e também no fato de se tratar de séries muito curtas, pouca expressivas para se tirar conclusões precipitadas”.

E ainda: “Se a sociedade inglesa voltasse a ter o mesmo nível de “igualdade” que em 1970, com certeza o consumo material conheceria um aumento que corresponderia a toda a demanda reprimida. Essa recente diminuição da demanda não parece corresponder a uma orientação virtuosa mas sim a um arrocho salarial e ao desemprego. Sem mais estudos, esses dados parecem mostrar que sem uma maior igualdade e sem a escolha de outros rumos econômicos, qualquer diminuição do consumo material pode significar injustiça social”.

Termino sugerindo que você, leitor, participe da pesquisa relacionada ao tema, no post que se segue.

A “prima-dona” da economia

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'Dia Mundial Sem Carro na 23 de Maio 1' photo (c) 2009, Milton Jung - license: http://creativecommons.org/licenses/by/2.0/A economia moderna gira, sem exagero, em torno do automóvel. Sua produção, os serviços que demanda, a infraestrutura que necessita e a energia que consome são o principal impulso da atividade produtiva. Não importa que mais carros entulhem ao absurdo as cidades, que o transporte rodoviário seja ineficiente, que a poluição que gera seja insuportável e que a garantia de seu suprimento energético tenha sido o principal objetivo das recentes guerras “antiterror”. O fato é que o PIB se “alimenta” do automóvel.

Repare leitor que no caso dos automóveis, utilitários, caminhões e ônibus o que mais importa, na avaliação dos efeitos nefastos, é a frota e não o aumento da produção anual. E o Reino Unido continua absorvendo, segundo o artigo Peak stuff: the data cerca de 2 milhões de carros por ano (2,5 milhões em 2007, antes da crise e em ascensão desde 2010), com consequente aumento constante da frota. O que é agravado pelo fato de que os carros duram mais, com a crise tendem a rodar por mais tempo e apesar de menores são mais pesados. O mesmo ocorre com os demais tipos de veículos mencionados.

Duas consequências deste fato saltam aos olhos imediatamente. Não faz o menor sentido falar em pico material enquanto a frota continua crescendo. E, ainda mais importante e dramático, é que enquanto o automóvel for a “prima dona” da economia, o modelo econômico não muda.

Aliás, nem queda do número de veículos novos é razoável esperar-se. No artigo Carros de sobra de Míriam Leitão publicado em O Globo em 20 de janeiro pode-se perceber que o setor fará de tudo para escoar sua produção potencial. A indústria mundial está ociosa em 20 milhões de veículos, cinco vezes mais que o mercado brasileiro que consumiu 3,7 milhões em 2011. A previsão é que este número aumente para 24 milhões em 2012 e que a capacidade produtiva chegue a 103 milhões de veículos.

Esta é alias uma das principais razões para suspeitar da chamada economia verde. Se as novas tecnologias forem destinadas, entre outros usos, à troca de motores a combustão por elétricos não estarão dando uma real contribuição para superar os agudos problemas que a inviável enfase no transporte individual, em detrimento do público, geram.

Bem, prosseguindo na questão do pico material, o próprio conceito de recurso material e sua medida precisam ser ser revistos. O peso é importante mas não decisivo para afirmar que seja possível crescimento sem aumento no uso de recursos. A quantidade é um indicador que tem que ser considerado também, e provavelmente, é tão importante quanto.

De fato, a tendência à miniaturização e diminuição do peso de uma parte dos produtos consumidos não significa que o uso de recursos naturais e intermediários seja menor. Eles vem em muitos casos de cadeias produtivas distintas com impactos diferentes na absorção de recursos e no meio ambiente, como os encanamentos prediais, por exemplo.

Em geral temos visto também o aumento na quantidade de itens consumidos resultado da redução nos custos, aprimoramento e criação de novos tipos de produtos e serviços. Computadores pessoais, notebooks, netbooks, tablets, celulares e os chamados “smart phones” são claros exemplos de expansão, aprimoramento e inovação.

Tal aumento na quantidade de itens consumidos, independentemente do peso, parece ser uma tendência inevitável gerada pela inovação tecnológica e a sofisticação dos hábitos das pessoas, o que leva à crescente diversificação dos bens que consomem. E não parece razoável atribuir isto ao consumismo ou pressão do marketing das empresas. Linhas inteiras de novos produtos são geradas a partir de novos conceitos, dos quais tiram partido as empresas. Um bom exemplo é o do crescente reconhecimento da importância do exercício físico. Academias, vestuários, calçados, alimentos, bebidas e outro produtos deste segmento passaram a ser indispensáveis.

Ainda em relação à questão do pico de recursos, Alan Boccatto, da lista “Decrescimento“, lembra que mesmo que houvesse redução no uso de recursos, o que não é o caso, estes em muitos casos são finitos e não renováveis no horizonte da civilização humana. Minérios, petróleo e atmosfera são bons exemplos.

Assim é, pois, que por mais que se queira, a tese da sustentabilidade já nasceu capenga. Tudo o que não é fluxo, como bens agropastoris, não é sustentável por definição, já que ocorre degradação contínua do estoque.

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Guerra e P…IB

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'Bombs Away - The bombing of Baghdad' photo (c) 2010, 4WardEver  Campaign UK - license: http://creativecommons.org/licenses/by/2.0/Deixei de falar no post “Quanto pior, melhor” sobre dois outros absurdos do uso do PIB como indicador, propositalmente, para destacá-los agora.

Veja só. A guerra e a destruição, sofrimento e miséria que causa, do ponto de vista do PIB, são a glória. Produção acelerada, destruição do que é produzido e de seus alvos e a reconstrução do que foi destruído não poderiam encontrar melhor acolhida.

E o desperdício? Basta pensar o oposto. Diminuir o desperdício significa queda no PIB. Daí o horror ao uso racional e parcimonioso dos bens e serviços. E pensar que a usina de Belo Monte, por exemplo, poderia ser mais do que substituída pelo aumento da eficiência energética na geração, distribuição e consumo. O leitor encontrará no estudo elaborado, sob pressão, pelo próprio Ministério das Minas e Energia intitulado “Plano Nacional de Eficiência Energética” a informação de que é possível reduzir o gasto em pelo menos 10%. É claro, até o ano 2030, para não prejudicar os interesses vigentes.

Bem, vamos a outras contestações à tese do pico material. Tim Jackson, autor de “Prosperity without Growth – economics for a finite planet” apresenta em artigo no Guardian dede novembro último “Peak stuff’ message is cold comfort – we need to embrace green technology” 3 argumentos que indicam que as conclusões da pesquisa analisada no post “Pico de recursos materiais?” não são aceitáveis.

Apesar de ser confortável, diz Jackson, acreditar que nós estejamos nos livrando da avidez por coisas materiais, a análise histórica mostra que qualquer declínio no consumo material do Reino Unido é no máximo muito pequeno, uns poucos centésimos ao longo de uma década. Em muitos casos, tais números são menores do que a margem de erro estatístico de sua medida. E quando você considera o aumento na intensidade de carbono nos produtos importados de parceiros como a China, tais possíveis benefícios desaparecem de vez.

E continua. Existem outras razões para ser cético em relação à rósea mensagem do pico material. Muito do crescimento econômico do Reino Unido nos anos do “boom” ocorreu pela expansão do setor financeiro que foi ou ilusória em termos de crescimento real ou apenas resultado da apropriação da renda dos mercados de commodities. Em outras palavras, o crescimento foi não apenas ecologicamente insustentável mas, diretamente responsável pela própria crise, e, ainda por cima, nos deixou mal equipados em relação à própria sustentabilidade financeira. De uma forma ou de outra, a extração e uso de mais recursos do exterior é a base de nosso estilo de vida. O modelo da economia globalizada permanece inalterado.

Finalmente, diz que o impacto na economia global não pode ser contestado: a extração global de recursos materiais está aumentando inexoravelmente em quase todas as categorias. A construção de infraestrutura pode ter caído no Reino Unido, mas a produção mundial de cimento até o ano anterior ao do início da crise financeira foi 125% superior ao nível de 1990. A extração de minério de ferro, 100%. E a bauxita, cobre e níquel aumentaram mais de 70%. A emissão de carbono aumentou em mais de 40%. As únicas commodities que sofreram redução (como os fosfatos) foram as que se tornaram escassas.

Termino sugerindo que você, leitor, participe da pesquisa relacionada ao tema, no post que se segue.

Pico de recursos materiais?

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'Junk Shop, Astoria' photo (c) 2009, John Gullo - license: http://creativecommons.org/licenses/by/2.0/Mais uma surpresa. Desta vez, uma pesquisa do ambientalista inglês Chris Goodall publicada no Carbon Commentary em 31 de outubro de 2011 e intitulada Peak Stuff – did the UK reach a maximum use of material resources in the early part of the last decade?, sugerindo que há fortes indícios de que em economias desenvolvidas é possível haver crescimento econômico sem aumento no uso de recursos.

O trabalho levanta questões muito interessantes o que me levou, apesar de contestar as conclusões, a apresentar um resumo no post de hoje. A quantificação, mesmo imprecisa, torna mais perceptível a atividade produtiva e seu impacto, impressionante. São cerca de 2.100 milhões de toneladas por ano no Reino Unido, ou 34 toneladas por habitante. Imagine transpor esta realidade para 9 ou 10 bilhões de habitantes em todo o mundo.

Trata-se de um trabalho criterioso, com muitas ressalvas sobre imprecisões nas medidas e validade das conclusões. É restrito ao Reino Unido, que dispõe de uma contabilidade específica do fluxo de recursos materiais.

Os tipos de recursos materiais considerados na pesquisa são a biomassa, os minerais e os combustíveis fósseis. O principal indicador utilizado é o da matéria total necessária, em inglês, TMR, que expressa o peso da biomassa, minerais e combustível fóssil retirados do solo no Reino Unido, adicionado das respectivas importações e deduzidas as exportações e acrescido de estimativa dos materiais empregados em outros países relativos a produtos importados.

O TMR do Reino Unido teria atingido o pico de 2.174 milhões toneladas em 2001, caindo 3,8% para 2.091 milhões toneladas em 2007, antes do início da recessão. Isto ocorreu ao mesmo tempo em que a população aumentou em 2,3% e o GDP (produto doméstico bruto) aumentou em 24%.

O autor parte em seguida para a análise de itens que concentram a maior parte do impacto ambiental na vida moderna: água, alimentos, papel, têxteis, fertilizantes, cimento, carros, energia, transporte e perdas.

Água: A distribuição de água atingiu o pico de 15,7 milhões de litros por dia em 2003 reduzindo-se em 4% até 2007.

Alimentos: A despeito do aumento da obesidade o consumo de calorias por pessoa por dia, incluindo bebidas alcoólicas, refeições fora, refrigerantes, e confeitos caiu de 2.400 kcal em 2001 para 2.300 kcal em 2007, cerca de 4% de redução.

Papel: O consumo de papel e cartolina atingiu o pico de 12,9 milhões de toneladas em 2001 e reduziu-se para 12,1 milhões de toneladas em 2007, cerca de 6% de redução.

Têxteis: Este é o único item em que há um aumento constante no consumo. Entre 2002 e 2007 aumentou em 16% chegando a cerca de 1,2 milhões de toneladas.

Fertilizantes: A aplicação de nitrogênio por hectare teve seu pico em 1991, 25% a mais do que em 2007. O fosfato teve uma redução de 40% entre meados da década de 80 e 2007. O uso de potássio caiu em cerca de 30% entre meados da década de 90 e 2007.

Cimento: Em 2007 as entregas de cimento foram de 11.6 milhões de toneladas, a maior quantidade em 10 anos, período em que esteve praticamente estável em torno de 11.2 milhões de toneladas por ano.

Carros: O número de carros novos chegou ao auge em 2003 com 2,75 milhões de veículos. Este número caiu 10% para 2,5 milhões. Novos veículos de transporte, motocicletas e ônibus tiveram reduções ainda maiores.

Energia: O total de energia primária inclui todo o consumo de combustíveis, como gasolina, carvão, e gás natural, tendo atingido 240 milhões de toneladas equivalentes de óleo em 2001, caindo 3% até 2007.

Transporte: O número de viagens de mais de 1 milha por todos os meios de transporte atingiu seu máximo em 2002 e caiu mais de 4% até 2007. Já o total de óleo refinado para transporte atingiu seu pico em 2007 com um aumento de 4% em relação aos 10 anos anteriores.

Perdas: O total de lixo doméstico coletado caiu 5% entre 2002 e 2007, tendo havido no período um sensível aumento na reciclagem. O entulho de construções e demolições caiu de 113,3 milhões de toneladas em 2004 para 109,5 em 2006. Já o lixo comercial e industrial caiu de 67,9 milhões de toneladas em 2002 para 47,9 milhões de toneladas em 2009.

Acredito que a análise dos itens destacados, com queda ou não, torna ainda mais palpável a realidade da atividade produtiva. Os números absolutos do consumo de uma sociedade desenvolvida valem por mil palavras.

Antecipo um dos pontos da análise que farei nos próximos posts, talvez o mais importante: A frota de automóveis, e tudo o que gira em torno dela, continua crescendo, mantendo o carro como um dos elementos mais dinâmicos da atividade econômica do Reino Unido, o que bate de frente com a ideia do crescimento econômico ambientalmente sustentável.

Termino sugerindo que você, leitor, participe da pesquisa relacionada ao tema, no post que se segue.

Faz de conta

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  3. A Pesquisa da Semana é sobre o tema tratado no post e está apresentada em seguida a ele.

Bem, para iniciar o ano, um pouco de humor. Por indicação do leitor Edson Franco cheguei ao blog Chá de Burro que faz um breve resumo das consequências da crise na Grécia.

E vamos ao assunto do dia. Recebi do economista Hugo Penteado através da lista “Decrescimento” um e-mail com o título: “Desesperador”. Indignado com as projeções otimistas e a insistência no crescimento econômico como solução ele apresenta uma crítica irônica invertendo os fatos.

É um texto que, de uma forma original, serve também como um resumo dos principais aspectos envolvidos na Nova Economia. Vamos a ele:

Faz de conta que a produção brota do nada.
Faz de conta que a economia está totalmente separada da natureza, do tamanho do planeta, dos serviços ecológicos.
Faz de conta que o crescimento econômico jamais é deseconômico.
Faz de conta que o crescimento gera justiça social e bem estar e não guerras e devastação.
Faz de conta que poderemos dessalinizar e ressalinizar a água dos oceanos a um custo energético mínimo.
Faz de conta que a economia pode ser maior que o planeta.
Faz de conta que iremos usar terras de outros planetas para depositar nossas produções.
Faz de conta que a produção, a partir de um determinado ponto crítico, irá se tornar imaterial.
Faz de conta que as leis da termodinâmica são falsas.
Faz de conta que a economia não é uma pseudo-ciência autista que não se comunica com nenhuma outra descoberta científica relevante, como aquecimento global e a maior extinção em massa de espécies animais e vegetais dos últimos 65 milhões de anos causados por nossa espécie.
Faz de conta que do ponto de vista da biologia não somos todos um e que o ser humano não faz parte dessa teia da vida sem a qual não teríamos água, ar para respirar, comida.

E para finalizar:

Faz de conta que todo esse faz de conta não rege universalmente todas as decisões governamentais e empresariais à nossa volta e que isso não irá causar a extinção da vida desse planeta e da nossa espécie animal.

Faz de conta.

Num segundo e-mail ele menciona que a saúde dos balanços dos sistemas previdenciário, tributário, fiscal, financeiro e empresarial está de tal forma vinculada ao crescimento econômico que apesar de contraproducente, é a única solução que os que decidem, antevem. Claro, sempre afirmando que é o caminho para a salvação social. E os governos, na melhor das hipóteses, fingem acreditar nessa mentira ao se mancomunarem com os interesses corporativos e produzirem as piores atrocidades contra as pessoas. Surreal, diz ele.

Termino sugerindo que você, leitor, participe da pesquisa relacionada ao tema, no post que se segue.

Luz dissolve tese da USP

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'Blocos de gelo caindo no Glaciar Perito Moreno - Parque Nacional Los Glaciares - Patagônia - Argentina' photo (c) 2007, CasalMALY - license: http://creativecommons.org/licenses/by/2.0/Levei um susto com a divulgação em 29 de setembro último pela Agência USP de Notícias de uma matéria intitulada “Existência do aquecimento global é questionada em pesquisa” sobre a tese de doutorado: “Quando o Sol brilha, eles fogem para a sombra…”: a ideologia do aquecimento global. O título da matéria é até suave frente à incrível e principal “conclusão” da tese: “a hipótese do aquecimento global constitui a maior fraude científica e social de nosso tempo”.

Bem, fui verificar o fundamento do questionamento, resultado de extenso trabalho de uma pesquisadora do Departamento de Geografia de uma das melhores universidades do país, orientada por um doutor do mesmo departamento e aprovado por uma banca com outros 4 examinadores, todos doutores.

Para tanto, passei por uma “pegadinha” de mau gosto já que a autora deixa de fazer um resumo informando no capítulo de abertura que sente “muito em frustrá-lo e aconselhamos a repensar” o uso de resumos. “Por favor, leia o trabalho completo. Inicie a leitura na página 1, obedeça ao movimento da esquerda para a direita e de cima para baixo e leve o tempo necessário para segui-la até o fim, na página 521”. Fui portanto obrigado a ler a coisa toda, na verdade, 557 páginas.

O resultado é que posso informar que o fundamento é nenhum e, o que é mais preocupante, a universidade, o departamento, o orientador e a banca deram respaldo a um trabalho que nada tem de original e não trouxe sequer uma contribuição para o tema, contrariando uma exigência óbvia de inovação em teses de doutorado. É, a USP não faz mais do que seguir o triste papel da maioria de nossas instituições. Enfim …

Em prol do leitor, apresento em anexo os os meus comentários, capítulo a capítulo. Em síntese, constatei que o trabalho é composto por três partes principais devidamente desconexas:

  1. A transcrição durante 4 longos capítulos de textos já conhecidos de geografia.

  2. Um ataque irresponsável, em 5 capítulos, ao IPCC, aos pesquisadores de todo o mundo que colaboram voluntariamente com a organização e aos, coitados, modelos matemáticos, enfeitiçadores.

  3. E a conclusão, do nada, em 2 capítulos, de que a tese do aquecimento global é resultado de uma trama sinistra dos que querem perpetuar a ideologia capitalista, quando a verdade é exatamente o oposto.

Bem, não foi desta vez que o bombardeamento às evidências do aquecimento global vingou. Além do mais, recente estudo do Berkeley Earth Project confirma-o e responde diretamente às alegações mais competentes dos céticos.

“Nossa maior surpresa foi que os novos resultados concordam com os valores de aquecimento publicados anteriormente por outras equipes nos Estados Unidos e Grã-Bretanha”, afirmou o professor Richard Muller, que estabeleceu o Berkeley Earth Project na Universidade da Califórnia reunindo dez cientistas renomados.

“Isto confirma que estes estudos foram feitos cuidadosamente e que o potencial de (estudos) tendenciosos, identificados pelos céticos em relação ao aquecimento global, não afetam seriamente as conclusões”, acrescentou.

O grupo de cientistas também relata que, apesar de o efeito de aumento de calor perto de cidades – o chamado efeito ilha de calor urbano – ser real e já ter sido estabelecido, ele não é o responsável pelo aquecimento registrado pela maioria das estações climáticas no mundo todo.

O irônico desta estória, é que após a leitura de toda a tese (?) da USP não descobri a resposta à pergunta implícita no título: Quem foge para a sombra? Mas, em compensação, descobri que com um pouco de luz ela se dissolve.

Intrigante, também, é que logo na abertura da sua tese a autora transcreve um e-mail informando que os 3 trabalhos submetidos por ela à 3ª Conferência Regional sobre Mudanças Globais: América do Sul, na mesma linha da tese, foram rejeitados pelo comitê cientifico por falta de fundamentação cientifica. 5 doutores ignoraram este aviso e assinaram embaixo de um trabalho que tem nenhuma, também. E com isto, além de não preservarem a pesquisadora em formação, comprometeram o nome do departamento e da instituição.

Termino sugerindo que você, leitor, participe da pesquisa relacionada ao tema, no post que se segue.

Piratas da Somália são europeus

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'Pirates of corse' photo (c) 2004, keyboardsamurai - license: http://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0/

Clique na figura para assistir ao vídeo

Recebi do leitor Luiz Rogatto a indicação de um impressionante vídeo, Piratas, sobre a depleção das áreas de pesca e poluição tóxica e radioativa na costa da Somália provocada por países desenvolvidos (?) e com consequências desastrosas para a já combalida população local.

Ganhe 23 minutos de informação preciosa neste cuidadoso vídeo feito por Juan Falque e verá que os “piratas” da Somália surgiram como reação aos que estão de fato saqueando o país aproveitando-se de sua fraqueza e incapacidade de defender-se.

É terrível. A Tsunami de 2004 levou às areias do litoral e revelou o conteúdo do que se despejava nas águas da Somália: resíduos tóxicos e radioativos. E despeja-se até hoje. Quem? Barcos da Espanha, França, EUA, Japão… E a pesca predatória, onde mais de 1/4 do que se pesca é jogado fora do próprio navio? Lamentável, mas de tão terrível, serve para marcar mais fundo na mente a importância da luta por uma Nova Economia.

E como é difícil aguentar a brutalidade dos fatos. Não para a ONU, que tem até observador especial para a Somália e que tem feito inúmeros alertas sobre a situação. Apesar dele e de outros, a entidade nada fez. Pelo contrário, Quando os países desenvolvidos (?) foram atingidos, sob que auspícios, formou-se uma força tarefa militar liderada pela Espanha e a França? Da ONU.

Não é a toa que a nef vem se preocupando cada vez mais com a depleção das áreas de pesca. Recentes e importantes trabalhos da fundação tratam do assunto. Destaco um, pois reforça e explica o que vem acontecendo na Somália e em outros países africanos.

O estudo Fish dependence – 2011 update mostra que “os europeus estão consumindo muito mais peixes do que os seus oceanos podem produzir, tornando-se cada vez mais dependentes da pesca em outras áreas. Se a Europa consumisse somente de suas águas não teria mais peixe a partir de 2 de julho de cada ano, ficando, a partir daí, totalmente dependente de peixe de outras fontes”.

Mas, a questão é global. A conclusão do sumário Scientific facts on fisheries produzido pela GreenFacts em colaboração com o Departamento de Pesca e Aquicultura da FAO, a partir do relatório World review of fisheries and aquaculture retratando a situação ao final de 2008, é dramática: “Cerca de três quartos dos estoques marinhos monitorados em todo o mundo estão totalmente explorados, super explorados ou esgotados. Em consequência, a indicação é que não há potencial para aumento da produção marinha e que o estado corrente dos peixes e de seus ecossistemas deixam pouco espaço para adiamento de ações para o melhor gerenciamento dos estoques de peixes que já deveriam ter sido tomadas nas últimas três décadas”.

E o Brasil não escapa desta realidade. O artigo Pesca no Brasil e seus aspectos institucionais – um registro para o futuro de José Dias Neto publicado na Revista CEPSUL – Biodiversidade e Conservação Marinha em janeiro de 2010 e no Blog do Axel Grael traz além de um resumo da situação mundial uma detalhada análise da crise da pesca no Brasil.

É, estamos diante de mais uma claríssima demonstração de que o crescimento exponencial é inviável e que tem consequências explosivas social e ambientalmente.

Termino sugerindo que você, leitor, participe da pesquisa relacionada ao tema, no post que se segue.

Por que, o que, como?

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'Postal' photo (c) 2011, Isaac  AraGuim - license: http://creativecommons.org/licenses/by/2.0/Bem, conforme prometido, explico hoje as recentes alterações que fiz no blog e que tornam explícitos os tópicos “por que” uma Nova Economia é necessária e “o que” e “como” fazer para para suavizar e acelerar a transição.

Evidentemente, os posts já publicados trataram, direta ou indiretamente, de um ou mais destes aspectos. O que procurei com este novo enfoque foi tornar mais clara e direta a caracterização e o que me parece ser o melhor caminho para chegarmos a uma Nova Economia. O leitor poderá observar o acréscimo, na página principal, de uma seção focada nos três tópicos, e seus sub tópicos. Agora, ao optar por um tópico ou sub tópico serão mostrados todos os posts que dele tratam. Além disto, a seção “Post por assunto” está organizada segundo palavras-chave e com destaque proporcional ao número de referências.

Uma Nova Economia é necessária porque intenciona e possibilita promover diretamente e ao mesmo tempo, a redução da desigualdade social, a preservação ambiental e a melhora do bem estar do ser humano. São necessidades inter-relacionadas e que se não atendidas comprometem a própria sobrevivência da humanidade. Veja só. Levas de seres humanos, cerca de 200 milhões, são incorporados ao mercado anualmente. Com o livre acesso à informação, estes e os que já estão no mercado sabem o que é possível e desejam os mesmos bens e serviços. Para atendê-los, no estilo de vida vigente, é preciso um contínuo aumento na produção de bens e serviços, o que compromete gravemente o equilíbrio ambiental. É uma situação inviável, que terá que ser mudada.

As pressões das catástrofes naturais, das tensões sociais e da procura por maior bem estar não são entretanto suficientes para garantir que a transição para uma Nova Economia ocorra a tempo e na direção correta, já que a reação a ela é imensa. Assim, é central convergir a luta para questões que ao mesmo tempo acelerem a transição e que possam, impulsionadas pelas crises, serem implementadas gradualmente ainda sob as regras vigentes. Quatro questões me parecem prioritárias, são viáveis de serem objeto de consideração imediata e aceleram e suavizam a inevitável mudança.

Resumidamente, uma destas questões é a de serem considerados os impactos sociais e ambientais quando da formulação dos preços dos produtos serviços e nas decisões de investimentos. Por exemplo, o preço da gasolina deveria levar em conta o custo que traz em termos de poluição. Os economistas tradicionais chamam tais impactos de externalidades, forma confortável de definir privilégios. Trata-se, pois, de internalizar tais externalidades.

Uma segunda questão é a da jornada de trabalho. Um estudo da nef “21 hours” mostra que uma redução drástica já é possível e que traz inúmeros benefícios, dentre eles maior tempo livre para atividades não remuneradas e eliminação do flagelo do desemprego. Uma versão em português do estudo da nef está disponível em 21 horas.

A terceira questão é a do rompimento com a teoria econômica ortodoxa que faz do crescimento econômico um objetivo intocável em torno do qual todo o esforço produtivo tem que se adaptar. E, passar a entender que a capacidade produtiva da humanidade deve ser usada em prol de seus verdadeiros interesses.

A última, é o fortalecimento da ONU de forma a superar o atual impasse nas decisões globais. Hoje 5 países podem vetar decisões dos demais, e estas têm que ser, no que interessa, consensuais. E o mundo precisa de decisões mandatórias globais.

Mas, falar em transição é relativamente fácil. Difícil é agir para que ocorra o mais rápida e suavemente possível. Três ações me parecem essenciais para tanto.

A mais importante delas é o ativismo principalmente o daqueles mais atingidos. Os acontecimentos no norte da Africa, na Espanha, na Itália, na Inglaterra e agora nos EUA, mostram que o impensável começa a ocorrer, a rebelião. Fôrça, é claro, da crise.

Infelizmente não se pode contar com a democracia de representação para apoiar a mudança. Ao contrário, a função dela tende a ser a de preservar o status quo. A forma de superar esta barreira é a adoção da democracia direta, local, regional e nacionalmente, e que hoje é tremendamente facilitada pela internet, tanto para decidir quanto para pressionar pelas necessárias mudanças.

E o papel das entidades civis é fundamental para canalizar corretamente a insatisfação. É através delas que pode se dar um grande impulso à transição. Sua atuação vai desde a formulação das ideias que instruem a transformação até o apoio para que a luta pela mudança possa ocorrer.

As questões e ações acima mencionadas precisam, é claro, de detalhamento, o que será feito em novos posts, específicos.

Termino sugerindo que você participe da pesquisa relacionada ao tema, no post que se segue.

A Rio +20. É possível

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Apesar das considerações trazidas no último post apontando para as dificuldades resultantes da persistente reação dos interesses constituídos às inadiáveis mudanças, acredito que é possível que a cúpula de 2012 traga importantes e inesperados resultados.

Vale lembrar que 20 anos atrás, a conferência de então enfrentou muitas resistências. Um bom exemplo é o do presidente americano (Bush, pai) que compareceu em decisão de última hora pressionado pelo impacto negativo de sua atitude. Mesmo assim, a conferência extrapolou seus limites, produziu documentos marcantes e foi, como mencionei em post anterior (A Rio +20. Decisiva?) a origem de 2 vertentes, cada uma com inúmeros desdobramentos, uma delas desembocando agora na Rio +20.

O mesmo deve se repetir e com impacto multiplicado.

De 1992 para cá as entidades civis expandiram-se enormemente em número, força e atuação. O Greenpeace, a WWF, a Fundação Onda Azul e o Fórum Social Mundial são apenas exemplos deste fenômeno que abrange não só a causa ambiental como a social. Assim, é de se prever, que a forte ação de ONGs havida em 1992 se reproduza amplificadamente. Os sinais disto já são visíveis. Alguns exemplos:

Cerca de 150 entidades de 27 países constituíram a Cúpula dos Povos da Rio+20 por Justiça Social e Ambiental para acompanhar os eventos preparatórios e funcionar paralelamente à conferência, denunciando o “mito da economia verde”.

A ISEEThe International Society for Ecological Economics fará sua 12ª conferência bianual de 29 de maio a 1 de junho de 2012 no Rio de Janeiro com o objetivo explícito de influenciar a Rio +20. A Sociedade Brasileira de Economia Ecológica (ECOECO), afiliada à ISEE promove o seu IX Encontro Nacional de 4 a 8 de outubro de 2011, preparatório para a conferência da ISEE.

O “World Symposium on Sustainable Development at Universities” e que visa refletir e trazer a contribuição de universidades de todo o mundo para a Rio +20, ocorrerá no Rio de janeiro paralelamente ao evento.

Curiosamente, apesar da tese da economia verde, como mostrei em post anterior (A economia verde. Ilusão?), não sobreviver à cúpula de 2012, mesmo com os interesses econômicos favoráveis em jogo, as duas vertentes devem voltar a convergir e é possível que a conferência, da mesma forma que em 1992, extrapole os seus limites e venha a ser o início de uma ação com efeito global produzindo um acordo climático mandatório e uma diretriz que comece a colocar a força produtiva a serviço do equilíbrio social e do bem estar, e, de passagem, resolva a parafernália de organizações e eventos que foram surgindo desde 1992.

Em algum momento a força dos fatos irá se impor. Aliás, uma versão simplificada de uma citação de Keynes expressa isto bem: “quando os fatos mudam, eu mudo de ideia. E você?” A conferência pode ser o gatilho da mudança, justificando o esforço da diplomacia brasileira pelo sucesso do evento.

Termino sugerindo que você participe da pesquisa relacionada ao tema.

A Rio +20 já fracassou?

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Volto a tratar da Rio +20 neste e no próximo post após desvio provocado pela nova onda da “grande recessão” que, aliás, passou a ser considerada por muitos como a 2ª “grande contração” explicitando a gravidade da conjuntura econômica atual.

Antes, note que o blog tem agora uma central de comentários e que fiz também alterações visando deixar claro o “por que” uma Nova Economia é necessária, o “que é” preciso mudar para que ocorra e “como” tal mudança pode ocorrer. Em posts após este e o próximo pretendo detalhar e explicar estes tópicos.

Bem, vamos ao tema de hoje. O título do post é uma pergunta que pode parecer precipitada pois a conferência só irá ocorrer em junho do próximo ano. Mas, não, porque está centrada em uma proposta que, muitos pensam, conforme analisei no post (A economia verde. Ilusão?) nunca foi viável. Explico.

Os temas da conferência Rio+20 são:

  • A economia verde no contexto do desenvolvimento sustentável e erradicação da pobreza.
  • A base institucional para o desenvolvimento sustentável.

O primeiro tema já indica a tentativa de dar uma roupagem de “economia verde” ao desenvolvimento sustentável e de incluir naquela a erradicação da pobreza. Evidentemente, isto vem da força dos interesses econômicos que tentam preservar a ideologia do crescimento econômico. Em vão, como vimos.

A razão do segundo tema, dita pela própria ONU, é superar “a proliferação de acordos ambientais multilaterais e a fragmentação de instituições para este mesmo fim”. É a burocracia lutando contra a burocracia.

Vale lembrar que o desenvolvimento sustentável propõe-se a ser um que garanta às gerações futuras os bens naturais existentes seja pela preservação seja por reposição. Como já ficou claro que isto requer, entre outras providências, a substituição da energia fóssil pelas de baixo carbono, ele evoluiu para a economia verde. Esta, além de propor a substituição das fontes energéticas, defende a tese de que ao fazê-lo e com o uso intenso de novas tecnologias haverá um descasamento cada vez maior entre a quantidade de insumos materiais e o aumento do produto, o que permite, nesta visão, crescimento econômico com preservação ambiental e maior justiça social.

Se já não bastasse, espera-se ainda na conferência, como dito, que a “economia verde” contenha os ingredientes para a erradicação da pobreza. Isto, mesmo tendo como pano de fundo a previsão populacional divulgada pela própria ONU e as recentes conclusões do painel de mudanças climáticas da mesma ONU evidenciando o acirramento da crise ambiental e social. A saber.

A ONU prevê que a população do mundo somente estabilize em 2100 alcançando cerca de 10 bilhões de pessoas, a partir das hoje 7 bilhões de pessoas e chegando a 9,3 bilhões em meados do século. O terrível é que o aumento vem de países com alta taxa de fertilidade e pobreza: 39 da africa, 9 da Asia, 6 da Oceania e 4 da América Latina.

O IPCC – Painel de Mudanças Climáticas da ONU, em sua última estimativa mostra que para conter o aumento da temperatura global à faixa de 2.0 a 2.4 graus centigrados será necessário haver uma redução até 2050 entre 50 e 85% nas emissões relativamente ao ano 2000. Neste caso o pico das emissões ocorreria no máximo até 2015. À medida que o mundo for se distanciando deste objetivo o aumento da temperatura vai se tornando mais intenso podendo no pior caso chegar um valor entre 4,9 e 6,4 graus centigrados, e com ele, mais e piores catástrofes naturais.

Em 2010, segundo a AIE o mundo emitiu 30,6 giga toneladas de CO2 o que significa um aumento de cerca de 40% em relação a 1990 e 30% em relação ao ano 2000.

Alguma esperança vem da estimativa do IPCC divulgada em junho último de que é possível alcançar em 2050, 77% de uso de fontes renováveis de energia. Isto, partindo-se de 12,9% em 2008. Mas, mostra, infelizmente, que o pior cenário possível é um aumento para apenas 15% em 2050.

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A economia verde. Ilusão?

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2) A Pesquisa da Semana é sobre o tema tratado no post e está apresentada em seguida a ele.

'Green Economy resized' photo (c) 2011, Philippe Put - license: http://creativecommons.org/licenses/by/2.0/

Como ressaltei no último post, em junho de 2012 ocorrerá no Rio de Janeiro uma nova conferência de cúpula da ONU centrada no que tem se chamado de economia verde. Convém pois, antes de descrever em mais detalhe o encontro e comentar suas propostas e possibilidades, analisar o seu tema principal. A UNEP define a economia verde “como sendo aquela que resulta em aumento do bem estar e justiça social, e ao mesmo tempo reduz significantemente os riscos ambientais e a escassez ecológica. Em sua expressão simples, pode ser pensada como uma de baixo carbono, eficiente no uso de recursos e inclusiva socialmente”.

Desconsiderando uma certa imprecisão, a semelhança com as propostas por uma Nova Economia logo desaparece, pois, continua: “em termos práticos, a economia verde é uma onde o crescimento e o emprego são movidos por investimentos públicos e privados que reduzem a emissão de carbono e a poluição, aumenta a eficiência energética e de uso dos recursos e evita a perda na biodiversidade e nos serviços do ecossistema”. Ou seja, quer dirigir a onda verde para que ao invés de colidir promova e dê continuidade ao crescimento econômico como objetivo maior para a humanidade. Muito mais do que sobrevida ao desenvolvimento sustentável, a economia verde é uma proposta para “fazer do limão uma limonada” transformando a inadiável transição para o baixo carbono num novo motor do crescimento econômico, superando os impasses da grande recessão em curso.

O passe de mágica da proposta de uma economia verde está na ideia de que “o descolamento relativo” entre a quantidade produzida e o uso de recursos supere os limites naturais cada vez mais evidentes do crescimento econômico.

O “decoupling” realmente ocorre, por força principalmente do avanço tecnológico. Por exemplo, Por 25 anos, até 2006, o CO2 emitido no mundo por uso de energias fósseis caiu de pouco mais de um quilo para 770 gramas por unidade do PIB medido em dólares. Mas, o que realmente importa são os valores absolutos.

Leitor, veja a gravidade da situação. O recomendável é que a humanidade alcance uma redução de 50% nas emissões até 2050, relativamente à 1990. Isto para limitar o aquecimento global a 2º minimizando os riscos de calamidades. Mas, caminhou em sentido contrário. Hoje, em termos absolutos, as emissões globais oriundas do uso de energias fósseis já são 40% superiores às de 1990.

Aprofundando a questão, lembro, conforme o post “Dúvidas sobre a declaração do CASSE” que princípios consolidados da física e da ecologia sustentam a obviedade dos limites ao crescimento econômico. Dentre eles, as duas primeiras leis da termodinâmica, o conceito de nível trófico (cadeia alimentar) e o da exclusão competitiva. Não há como esperar que o “decoupling” evite mais e mais uso de recursos naturais.

Além disto, há a possibilidade, muito bem apresentada no artigo “O grande embaraço da Rio – 2012” de José Eli da Veiga, “da poupança obtida com aumento de eficiência energética ser empregada no consumo de outros bens e serviços com custos energéticos que podem até provocar um jogo de soma zero, situação descrita como “tiro pela culatra”. Basta pensar, por exemplo, em uma economia feita com a aquisição de um carro flex que viabilize a compra de mais uma viagem aérea”.

Bem, fica assim claro que a “economia verde” mesmo com o “descasamento” não é solução.

Interessante é que a economia verde parece estar se dividindo em duas correntes. Uma centrada na transição para o baixo carbono e outra com grande identidade com as propostas por uma Nova Economia. O belo, amplo e profundo trabalho patrocinado pela Conservação Internacional Brasil publicado no número 8 de sua revista eletrônica “Política Ambiental” mostra isto. São 18 artigos de especialistas de diversos setores da sociedade sobre alternativas econômicas e sociais rumo a uma economia de baixo carbono, mais inclusiva e sustentável.

Termino sugerindo que você participe da pesquisa relacionada ao tema.

A Rio +20. Decisiva?

1)  Para ler notícias relacionadas à Nova Economia, acesse o link à direita.
2) A Pesquisa da Semana é sobre o tema tratado no post e está apresentada em seguida a ele.

A conferência de Cúpula da ONU Rio+20 realiza-se de 4 a 6 de junho de 2012. (O evento foi transferido para 20 a 22 de junho, parte do esforço do governo brasileiro de tentar garantir a presença dos chefes de estado ou de governo dos principais países. Durante a 2ª quinzena de junho ocorrerão importantes eventos paralelos, em especial os promovidos pela sociedade civil).  É +20 pois decorre da Cúpula da Terra de 1992 também realizada na cidade.

Da Cúpula da Terra participaram 172 países, 108 dos quais liderados por seus chefes de estado ou de governo. Dentre estes últimos, os mais expressivos em termos econômicos. Contou ainda com a presença de 2.400 representantes de Organizações Não Governamentais e deu voz ao Fórum das ONGs, evento paralelo do qual participaram 17.000 pessoas. Ao longo de quase duas semanas cerca de 10.000 jornalistas credenciados foram os porta-vozes da mensagem que despertou o mundo para a importância do desenvolvimento sustentável.

A Agenda 21, a declaração do Rio sobre desenvolvimento e meio ambiente, a formalização dos Princípios das Florestas, a convenção sobre mudança climática e a convenção sobre a diversidade biológica, todos, resultaram do evento.

A Cúpula da Terra influenciou decisivamente todas as conferências subsequentes da ONU relacionadas a assuntos como direitos humanos, população, desenvolvimento social, valorização da mulher e da criança e o desenvolvimento ambiental sustentável.

Dela derivaram duas vertentes, uma voltada para a questão climática e outra voltada para o desenvolvimento sustentável.

O protocolo de Kyoto, o roteiro de Bali, a conferência de Cancún e a próxima conferência em Durban, Africa do Sul, em dezembro são expressões da 1ª vertente. Em Kyoto, em 1997, pela 1ª vez firmou-se um compromisso obrigatório de redução de 5% (em relação aos níveis de 1990) das emissões por 37 países mais desenvolvidos além dos 15, na época, países membros da comunidade europeia, a iniciar-se em 2005 e com duração até 2012. Ressalto que os EUA assinaram mas até hoje não ratificaram o acordo e nada indica que venha a fazê-lo ou mesmo que venha a concordar com sua renovação, mesmo que incluídos os demais países, especialmente a China.

Note ainda que, ao contrário do acordado, os países desenvolvidos aumentaram as emissões de 1990 até 2010 em cerca de 30%, conforme a Agéncia Internacional de Energia.

A 2ª vertente, teve vários desdobramentos e desemboca, agora, na Rio +20. O plano de implementação de Johannesburg, de 2002 e o documento resultante da cúpula mundial de 2005 com a consequente criação do Conselho Econômico e Social (ECOSOC) são as suas manifestações mais importantes.

Bem, espera-se que na conferência de 2012 repita-se a presença massiva de chefes de estado e de governo e que haja uma movimentação ainda maior do que na de 1992, dada a gravidade do quadro ambiental e social. Se produzirá resultados, são “outros quinhentos”, questão a ser abordada em próximo post.

Termino sugerindo que você participe da pesquisa relacionada ao tema.

Decrescimento – qual a consistência?

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2) A Pesquisa da Semana é sobre o tema tratado no post e está apresentada em seguida a ele.

'qual é a dúvida?' photo (c) 2007, Diego Dacal - license: http://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0/

O título deste post, peguei “emprestado” do trabalho “Décroissance: Qual a consistência?” de Elimar do Nascimento e Gisella Colares apresentado no VIII Encontro da Sociedade Brasileira de Economia Ecológica em 2009, e que é uma excelente fonte para um aprofundamento das questões propostas pelo decrescimento, objeto do último post. Ele é a fonte também da citação e resumo transcritos no texto a seguir. Para uma visão geral do trabalho, veja os slides da apresentação feita no encontro.

O leitor encontrará também, no blog, 2 links de sites que se dedicam ao assunto e que contém excelentes informações, indicações de outros sites e bibliografia.

Dito isto, passo aos meus comentários sobre o assunto.

O mais importante é que o movimento pelo decrescimento tem uma abordagem de convivência e diálogo com as obras, autores e outros movimentos que tratam da mesma temática, e que não se vê como detentor exclusivo da visão crítica do papel do crescimento econômico. E isto é muito bom, pois é juntando forças, como diz bem Gus Speth (do Ambientalismo à Nova Economia) que os movimentos ambientalistas, por uma Nova Economia, por uma Economia em Equilíbrio, Decrescimento e outros similares poderão antecipar e viabilizar as mudanças e com isto abreviar o sofrimento, especialmente o das populações carentes.

Um segundo comentário é sobre o nome. Citando Serge Latouche: “…o decrescimento não é um conceito, no sentido tradicional do termo, e que não seria o caso de falar propriamente de “teoria do decrescimento” como os economistas souberam elaborar as teorias do crescimento. O decrescimento é simplesmente um slogan, lançado por aqueles que procedem a uma crítica radical do desenvolvimento a fim de quebrar a rigidez economicista e de desenhar um projeto de reserva para uma política de pós-desenvolvimento”. O termo decrescimento, parece-me pois, é usado para expressar o rompimento com a ideologia do crescimento econômico a qualquer custo.

 Finalmente, ressalto a quase completa afinidade do decrescimento com o movimento pela Nova Economia, o por uma Economia em Equilíbrio e outros. Basta comparar a proposta dos oito erres, de autoria de Latouche, apresentadas resumidamente a seguir, com a “declaração do CASSE” e o documento “The Great Transition” da nef:

“1. Reduzir o consumo em geral, e com isso a produção, afinal é possível viver melhor com menos, pois grande parte de nosso consumo é induzido e pouca relação tem com nossas mais profundas necessidades;

2. Reciclar os produtos existentes para dispensar a produção de novos, criando a cultura da conservação e do reaproveitamento ao invés do descarte;

3. Reutilizar o que já existe de forma inteligente economizando recursos naturais e energia;

4. Reavaliar os nossos consumos, os nossos hábitos, os nossos procedimentos que são na maioria das vezes degradadores da natureza;

5. Reconceituar a nossa vida, o nosso consumo, as nossas relações e vínculos sociais para uma direção mais saudável;

6. Reestruturar, ou seja, adaptar as estruturas econômicas e as instituições políticas e sociais aos novos objetivos de uma sociedade convivial;

7. Redistribuir melhor os bens existentes, incluindo a participação nos processos decisórios, portanto, uma redistribuição econômica, mas também política, cultura e social;

8. Relocalizar a produção, o trabalho, a moradia para que o “não transporte” possa ser disseminado, para que os transportes de mercadorias sejam reduzidos, assim como o de pessoas;”

Termino sugerindo que você participe da pesquisa relacionada ao tema, no post que se segue.

Decrescimento

1) Para ler notícias relacionadas à Nova Economia, acesse o link à direita.
2) A Pesquisa da Semana é sobre o tema tratado no post e está apresentada em seguida a ele.

Na Europa, em especial na França e na Espanha, o movimento pelo “decrescimento” vem defendendo ideias que têm muita afinidade com as da Nova Economia. Por isto, convidei Edson Franco, economista e co-moderador da lista brasileira sobre o decrescimento para fazer uma apresentação do tema.

Edson Franco

O avanço da ciência e da técnica tem trazido benefícios para as populações, mas também vários problemas de ordem econômica, política, ambiental e social. O decrescimento é uma proposta para resolver esses problemas de forma profunda e eficaz.

O decrescimento é uma evolução conceitual do pensamento de críticos à modernização de nossas sociedades. Dentre muitos, vale destacar, já no início da década de 60, Ivan Illich (pensador austríaco) e Rachel Carson (bióloga estadunidense) que alertaram para os efeitos negativos da economia contemporânea, Ernst Schumacher, autor do livro “Small is beautiful” lançado em 1973 e Nicholas Georgescu Roegen, que em estudo de 1971 inovou ao utilizar as leis da termodinâmica para demonstrar a limitação do crescimento econômico.

A proposta formal do decrescimento econômico veio a ser lançada somente três décadas depois, mais precisamente em novembro de 2003, através do artigo “Pour une société de décroissance” no jornal “Le monde diplomatique” escrito por Serge Latouche. A ideia ganhou força e conta desde então com a contribuição teórica de Latouche e vários outros pensadores.

Bem a proposito, o simbolo do decrescimento é o caracol, adotando um exemplo trazido por Ivan Illich. O caracol constrói espirais cada vez maiores até bruscamente começar a fazer voltas cada vez menores. Se continuasse crescendo, em apenas uma volta sua concha seria 16 vezes maior inviabilizando sua existência.

'Caracol sobre hoja' photo (c) 2007, Enrique Dans - license: http://creativecommons.org/licenses/by/2.0/É importante destacar que o decrescimento nada tem a ver com o conceito de desenvolvimento sustentável. O decrescimento alerta que não é possível um crescimento infinito num planeta finito. A escassez de recursos naturais e energia, entre outros, faz com que o paradigma do crescimento infinito tenha que ser superado com urgência. Por isso, defender o desenvolvimento sustentável é ludibriar-se.

Uma outra forma de abordar tal limitação ambiental é através da “pegada ecológica” que expressa a quantidade de terra e água necessária para sustentar uma determinada população tendo em vista todos os recursos materiais e energéticos gastos por essas mesma população. A pegada ecológica da humanidade alcançou tamanhos alarmantes. Segundo a WWF, o aumento do consumo dos países subdesenvolvidos, aos índices de consumo dos EUA, representaria a necessidade de outros 6 planetas Terra.

Isso aponta para mais um problema: a superpopulação. E, dados recentes divulgados pela ONU prevendo que a população total da terra em 2100 será de 10,1 bilhões de pessoas mostram que ficará ainda mais agudo. Falta de alimento, água e trabalho, e piora ainda maior na qualidade de vida, violência urbana e desigualdade social são algumas das consequências do quadro demográfico.

Para resolver estes e outros problemas, o decrescimento econômico propõe a diminuição das atividades econômicas: menos produção de bens comerciáveis, menos deslocamentos, menos quantidade de horas trabalhadas, menos poluição e desmatamento. O decrescimento enxerga no menos, o mais, e propõe que as pessoas retirem do seu imaginário o crescimento econômico como um valor inquestionável.

Bem, no próximo post apresentarei mais informações e comentários a respeito.

Termino sugerindo que você participe da pesquisa relacionada ao tema, no post que se segue.

Os pobres vão herdar a Terra

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2) A Pesquisa da Semana é sobre o tema tratado no post e está apresentada em seguida a ele.

Metáfora Guerra Preventivaphoto © 2009 Amio Cajander | more info (via: Wylio)

O post da semana passada Pobreza Extrema: apenas uma questão de renda? gerou um interesse muito grande. Em um só dia foram 152 acessos. E diversos comentários ao longo da semana. Continuo no tópico, agora com uma abordagem global.

“Hoje, 4 das 7 maiores economias são países em desenvolvimento: China, Índia, Rússia e Brasil. 30 anos de crescimento anual de 10% transformaram a China de uma economia pobre e agrária num gigante industrial e 2ª economia em tamanho do mundo”. “E nós prevemos que já na próxima geração, o Japão e a Alemanha sairão da lista e os EUA serão o único país desenvolvido a constar da lista dos 7 maiores”.

São dados apresentados no artigo “The Poor Will Inherit the Earth” de Uri Dadush e William Shaw publicado no último dia 20 no site do “The Carnegie Endowment for International Peace“. E o artigo aprofunda-se, citando que:

“Paradoxalmente, as novas potencias devem manter-se relativamente pobres. O PIB chines em torno de 2035 ultrapassará o dos EUA, mas a renda per capita será apenas a metade. A economia da Índia, a terceira então, será 3 vezes maior do que a japonesa, mas com renda per capita quatro vezes menor”.

É a visão de um mundo onde as nações pobres têm cada vez mais influência, e que reforça, sob uma outra perspectiva, o diagnóstico da necessidade de uma Nova Economia.

De um lado, a divisão internacional do poder terá que, inevitavelmente, acompanhar esta nova realidade, o que traz um enorme risco de conflitos graves, dado que, com o seu poderio militar desproporcional, dificilmente os EUA cederão espaço sem luta.

De outro, e tão preocupante quanto, os habitantes destas nações emergentes estarão ávidos pelos bens e serviços aos quais grande parte das populações dos países desenvolvidos se acostumaram. Como isto é inviável, a acomodação será ainda mais dura, pois todos terão que se mover na direção do equilíbrio econômico de forma a preservar o meio ambiente e buscar justiça social. E, junto com o equilíbrio, vem a afirmação do bem estar como valor maior a ser perseguido.

Felizmente, nesta visão, é remota a possibilidade de persistirem grandes áreas de exclusão social, devido à forte presença econômica destes que estão herdando (ou conquistando) a terra.

É uma Nova Economia que está sendo forjada, mas que não é inevitável, e que, portanto, depende da luta por ela por todos nós e desde agora.

Termino sugerindo que você participe da pesquisa relacionada ao tema, no post que se segue.

A democracia sobreviverá ao século 21?

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2) A Pesquisa da Semana é sobre o tema tratado no post e está apresentada em seguida a ele.

Republico hoje, com a devida licença, artigo de 30 de maio último no Correio Brasiliense do professor Elimar Pinheiro do Nascimento, sociólogo e diretor do Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Brasília. Ao expor em detalhes a questão da viabilidade da democracia o artigo, acredito, traz uma imensa contribuição para a discussão do “como” fazer a transição para uma Nova Economia. Vamos a ele:

Elimar do Nascimento

A democracia é uma das mais belas invenções da sociedade moderna. Não é algo completamente novo, com suas raízes encravadas na Grécia Antiga, nem nasceu de repente, resultado de um longo processo social que ocorreu na Europa entre os séculos 18 e 20.

 A democracia transformou-se, juntamente com a produção capitalista, no projeto europeu da modernidade, que se disseminou no mundo de maneira desigual. O capitalismo vingou um pouco em toda parte, a democracia encontrou mais resistências. A novidade é que essas resistências parecem crescer hoje em dia. Esse foi um dos temas abordados pela Université Internationale d´Été, em evento que teve lugar em Poitiers, entre 27 e 30 de novembro de 2010, no Espace Mendès France, e que terá sequência agora em junho de 2011, em Dijon.

A grande pergunta que surgiu naquele seminário foi: a democracia conseguirá sobreviver ao século 21? Os cinco principais argumentos que fundamentam a pergunta e alimentam a desconfiança quanto a uma resposta positiva e inequívoca estão relacionados nos parágrafos seguintes.

Primeiro, a capacidade de representação e funcionalidade do espaço político democrático declina. As suas instituições e atores, como os partidos políticos e os governos, não são capazes de responder às demandas de seus povos. Aos poucos, as pessoas se afastam da política, não se reconhecem nos políticos e abominam os governantes. A apatia política se alastra na Europa e nas Américas. No Brasil por ocasião das eleições de 3 de outubro, metade da população declarou que vota apenas porque o voto é obrigatório.

Segundo argumento: diversos povos e culturas do Sul têm enormes dificuldades de se reger sob o regime democrático. O mundo islâmico parece-lhe impenetrável. Com algumas exceções, como a Índia e o Japão, a democracia é uma estranha na Ásia, e igualmente na África, onde ela morre e renasce constantemente. Tem dificuldades também de se consolidar no continente americano. A resistência advém, em geral, de traços culturais de povos nativos que compreendem os processos decisórios, de representação e participação, de maneira distinta.

Em terceiro lugar, há um claro deslocamento, nos países sob regime democrático, do processo decisório do espaço público para o espaço privado. Cada vez mais as verdadeiras decisões residem nas direções das empresas multinacionais que controlam governos, organismos multilaterais e a mídia. As ações no espaço público da política tornam-se cada vez mais ritualísticas, despidas de sentido e eficácia.

Quarto ponto: o espaço da política deixa gradativamente de ser o espaço originário das mudanças sociais. Todo o século 20 foi regido pelas mudanças provocadas pelo (e no) espaço da política, opondo-se ou afirmando a democracia, desde a revolução russa, passando pelo nazismo e a vitória dos aliados em 1945, até as independências africanas nos anos 1960. Esse período encerra-se em 1989 com a queda do muro de Berlim, último acontecimento político de monta do século 20. Desde então, é o espaço das inovações tecnológicas a origem das mudanças sociais — ele cria uma nova noção de tempo e espaço, introduz novos valores e desfaz antigos.

a crise ambiental suscita dúvidas sobre a capacidade de os regimes democráticos implantarem políticas consistentes para enfrentar os riscos das mudanças climáticas. Opinião de um número crescente de intelectuais, entre os quais Hans Jonas e David Shearman. A razão central parece residir no antagonismo entre a temporalidade da dinâmica política e da ambiental. Uma funciona com um parâmetro de meses e a outra de décadas. Uma asseguraria a liberdade e a outra a sobrevivência. Entre as duas opções parece não existir dúvidas quando, tornando-se excludentes, os homens tiverem que optar.

Esses processos, que ocorrem desigualmente nos diversos países, se articularão com força suficiente para extinguir a democracia? E o que poderá vir em seu lugar, caso isso ocorra?

Observo que tomei a liberdade de grifar alguns trechos do artigo.

Volto ao assunto em próximos posts comentando este duro e, me parece, excelente e original diagnóstico, explorando a possibilidade de uma evolução das práticas democráticas, quem sabe apoiada no mencionado “espaço das inovações tecnológicas”.

Termino sugerindo que você participe da pesquisa relacionada ao tema, no post que se segue.

Mountebank é o novo Nobel

1) Para ler notícias relacionadas à Nova Economia, acesse o link à direita.
2) A Pesquisa da Semana é sobre o tema tratado no post e está apresentada em seguida a ele.

O post de hoje traz um pouco de ironia e humor. É uma tradução, feita por mim e revista por Fernando Goulart, diretor do CASSE, de um texto postado recentemente pelo diretor executivo do CASSE, Rob Dietz, no site da organização: “Mountebank Wins Nobel for Infinite Planet Theory“. Vamos a ele:

Rob Dietz

 Poucas pessoas leram os densos volumes publicados pelo economista Milton Mountebank, mas sua obra afetou a você, a mim e a cada pessoa do planeta. O Dr. Mountebank revolucionou o pensamento econômico e agora vê seus singulares esforços recompensados. Numa recepção de gala em Estocolmo, Suécia, o presidente do Banco Central da Suécia, Peter Norborg, entregou ao Dr. Mountebank o premio Nobel de economia por sua vida de trabalho dedicada à teoria do planeta infinito.

Na entrega do premio o Sr. Norborg declarou: “O Dr. Mountebank demonstrou imaginação e criatividade além do que uma mente racional possa compreender”. De fato, é devido à suas teorias que nós todos fazemos o que fazemos em termos econômicos. As nações batalham pelo crescimento continuo do GDP e expansão sem fim do consumo graças à teoria do planeta infinito. O Sr. Norborg continuou dizendo: “Todos os bancos, incluindo o Banco Central da Suécia, devemos muito a ele. Nós financiamos a expansão econômica. Nossas ações e decisões seriam moralmente suspeitas caso vivêssemos num planeta finito”.

Dr. Mountebank (foto de Derrick Tyson)

Num momento de descontração durante sua apresentação, o Sr. Norborg afirmou que o Dr. Mountebank é responsável por um benefício ainda maior para a humanidade ao reduzir o estresse dos indivíduos. Melhor do que tudo, ele disse: “É que nos podemos extrair, consumir e digerir recursos, sem culpa. As restrições planetárias foram conquistadas. Elas foram-se da mesma forma que se foram os drontes, o império romano e as principais áreas de pesca”.

Apesar dos livros do Dr. Mountebank não terem atingido grande audiência, seu trabalho teve forte influência sobre a elite política e empresarial. Ronald Reagan é um exemplo proeminente. É famosa a citação do Presidente Reagan: “Não há limites para o crescimento e progresso humano quando os homens e as mulheres são livres para irem atrás de seus sonhos”. Esta é aliás a citação com que o Dr. Mountebank fecha sua obra magna: “O infinito e além – O mágico triunfo da economia sobre a física”. Na mesma linha, Phillip van Uppington, ex vice-presidente do Lehman Brothers afirmou que o Dr. Mountebank teve enorme influência em sua empresa: “Nós costumávamos citá-lo a toda a hora. Um dos pontos altos de minha careira foi um simpósio que eu organizei há poucos anos atrás com Mountebank e Milton Friedman. Nós o chamamos de o dia dos dois Miltons. Eles realmente abriram nossas mentes para as possibilidades das inovações financeiras. Uma vez implementadas as doutrinas dos dois Miltons, nós passamos a ter mais receita do que a maioria das pequenas nações”.

Em seu discurso. o Dr. Mountebank contou como ele desenvolveu a teoria do planeta infinito. “Equações, Equações, Equações”, ele disse, “eu as via dançando ao deitar e de manhã, ao acordar, as escrevia. Fiz isto por três anos seguidos até conseguir finalmente juntá-las”. O núcleo da demonstração matemática da viabilidade do crescimento infinito apresentada por Mountebank foi a equação do escamoteamento, uma nebulosa expressão diferencial multivariável que, aceita-se, é entendida por menos do que 4 economistas no mundo. “Esta é a razão pela qual estou hoje neste palco”, disse Mountebank. “Infelizmente a equação é grande demais para caber na tela atrás de mim, mas é a chave para o crescimento econômico infinito. Felizmente, vocês não precisam ser economistas ou estatísticos para usá-la como um guia em seu dia a dia”.

O Dr. Mountebank continuou, segurando um globo em suas mãos e dizendo: “Nós todos reconhecemos que a terra é uma esfera, e da geometria básica, nós todos compreendemos que a esfera não tem principio nem fim. Se você sair em uma direção da superfície da esfera, não haverá ponto de término – é o infinito”. Ele moveu o globo com seus dedos ao redor dele para provar seu ponto. “C.Q.D, Sem fim. E isto significa que o planeta pode ser explorado ilimitadamente para o ganho econômico”.

A teoria do planeta infinito ganhou aceitação quase unanime nos círculos econômicos, mas tem havido algumas vozes críticas. No dia da premiação um pequeno grupo fez um piquete em frente ao Banco Central. Dentre eles, uma carregava um cartaz dizendo “Steady State”. Perguntado por que estava protestando ela disse: “Mountebank? Você não pode estar falando sério. O Nobel deveria ir para Herman Dale”. O Dr. Dale é conhecido pelo seu trabalho sobre os limites do crescimento e a Economia em Equilíbrio, conceitos que se chocam com a teoria do planeta infinito. Aliás, o Clube de Roma subscreveu tal posição ao publicar o seu “best seller “Os limites do crescimento”.

Em seus escritos, contudo, o Dr. Mountebank desconsiderou a noção de limites. Em uma das passagens do “O infinito e além” afirma: “O fim do petróleo barato, a extinção das espécies, a mudança climática, o desmatamento, o esgotamento de recursos, a pobreza extrema, a perda de serviços do ecossistema e a degradação do solo e dos aquíferos – estes são problemas sem importância, desde que continuemos a crescer a economia em direção ao seu último estágio: o infinito e além. Em nenhuma circunstância nós devemos permitir que pensamentos furtivos a respeito de um planeta finito ou restrições advindas das leis da física interfiram na construção de uma economia maior. E certamente, não devemos ouvir os pessimistas contumazes que continuam a perfilar seus fatos vazios sobre o nosso desfile de crescimento. Crescimento, por si só, é o ideal moral e político”.

O Dr. Mountebank encerrou seu discurso com uma nota pessoal, lembrando como a teoria do planeta infinito aplacou os temores de seus netos. “Eles me disseram que estavam com medo do que estava ocorrendo com o meio ambiente. Eu os acariciei e disse para não terem medo. Porque, acima de tudo, não se consegue prejudicar a natureza num planeta infinito. Por definição, há sempre mais”.

O Dr. Mountebank (cujo nome em português seria Dr. Milton Trapaça) já é o oitavo agraciado com o premio Nobel em economia oriundo da “Fantasia University”.

Termino sugerindo que você participe da pesquisa relacionada ao tema, no post que se segue.

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