Por que uma sociedade pós-capitalista?

”Não se consegue nem imaginar este mar de gente consumindo no chamado padrão “desenvolvido”: automóvel, estradas e vias de circulação para veículos individuais, bens descartáveis, desperdício, educação e saúde privadas, casa própria, saneamento, segurança, energia abundante e barata, lazer, viagens, e mais, muito mais.”

Porque o sistema econômico atual não tem como oferecer uma resposta apta para as questões ambientais e sociais e com isto, ameaça, de morte, a civilização. Umbilicalmente atrelado ao lucro e tratando-o como o motivador principal da ação humana, é incapaz de dirigir suas ações priorizando a redução da desigualdade, a preservação ambiental e maior bem estar.

E porque, a necessidade de uma nova economia, decorrente do acima exposto, traz, por sua vez, invitáveis e profundos desdobramentos nas dimensões política, social e demais aspectos da vida humana, o que significa, portanto, uma nova forma de convivência entre as pessoas.

Acesse aqui o post completo.

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Benefícios da redução da jornada de trabalho.

(Participe da pesquisa de opinião acima, sobre este post)

Você já se perguntou por que está tão ocupado, onde passa o seu tempo, ou o quanto o seu tempo realmente vale?”

 Antes de apresentar, no próximo post, as respostas às principais objeções à redução da jornada de trabalho, relaciono e comento hoje alguns artigos e notícias que reforçam os benefícios, sob novas, e as vezes controversas, óticas, desta mudança inevitável.

Acesse aqui o post completo.

Classes sociais e o movimento por uma Nova Economia.

(Participe da pesquisa de opinião sobre este post, logo em seguida a ele.)

Destas mudanças, a que maior impacto causou, a meu ver, é a televisão. Ao levar informação à imensa maioria da população, acelerou a subversão das antigas rígidas fronteiras ideológicas…”

Família de Pernambuco em frente à TV

A tendência contínua de expansão do mercado consumidor mundial fruto da necessidade de crescimento exponencial do sistema produtivo de mercado na luta pela preservação de sua margens de lucro tem provocado ondas gigantescas de mudança no ambiente social.

E, o mundo de hoje é marcado, claro, por tais mudanças. A afirmação da globalização, a facilidade de comunicação, a rapidez nos transportes e a difusão da informação pelos jornais, radio, TV e internet, todos tendo como base principal a evolução tecnológica, são exemplos evidentes no nosso dia a dia.

Acesse aqui o post completo.

Impasse à vista: Câmara aprova criação de Secretaria da Micro e Pequena Empresa.

“… o fórum da economia solidária passa por uma prova de fogo quanto à sua capacidade de atuar com independência financeira e gerencial, aspecto, aliás, vital para as organizações da sociedade civil que agem genuinamente em prol do interesse público”.

Plenário da Câmara em 7 de novembro de 2012

6º e último post da série, continuo hoje o detalhamento de como fazer para que a Nova Economia se imponha, última parte da caracterização do objeto central deste blog e que foi antecedida pela abordagem, também detalhada, do por que e o que fazer.

A importância da sociedade civil.

O célebre, e nem por isto verdadeiro, ditado de Churchill “a democracia é a pior forma de governo, à exceção de todas as outras” expressa bem o teor de algumas das reações, as contrárias, ao último post sobre as limitações dos processo eleitoral e a impossibilidade de ser o caminho para se chegar a uma Nova Economia. O ditado faz apenas um jogo de palavras e, ao mesmo tempo em que defende, expõe, de fato, a profunda fraqueza do regime eleitoral.

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Os cinco patrocínios mais hipócritas

McDonalds, Coca-Cola, Walmart, o banco Wells Fargo, o plano de saúde United Health e a empresa de alimentos ConAgra, dentre muitas, tentam associar suas imagens com organizações de cunho social que praticam exatamente o oposto a elas.

'Coca-Cola & McDonald's' photo (c) 2012, Walter Lim - license: http://creativecommons.org/licenses/by/2.0/Patrocínio hipócrita.

Um recente artigo de Alyssa FigueroaThe Top 5 Most Hypocritical Corporate Sponsors” publicado na revista AlterNet traz casos gritantes de conflito de interesses entre organizações que promovem ações de grande alcance social e corporações que, de fato, remam no sentido contrário e que as patrocinam.

O caso é grave por envolver o argumento de que as entidades da sociedade civil precisam de recursos. Mas, a que preço? Bem, vamos aos 5 casos.

1) McDonalds e Coca-Cola patrocinaram as Olimpíadas de 2012 em Londres.

Este caso provocou grande polemica pela evidente contradição entre uma das missões das olimpíadas, “a promoção da saúde e da atividade física”, e os efeitos nocivos da “fast food” e de bebidas com ciclamato de sódio e/ou açúcar. Isto ocorreu num país onde 60.8% dos adultos e 31.1 das crianças estão acima do peso.

E não é que o prefeito de Londres declarou que: “Trata-se de esnobismo burguês, uma histeria liberal clássica contra alimentos nutritivos, deliciosos e muito bons para as pessoas, fui informado – não que eu os consuma”.

2) Walmart patrocina a “American Cancer Society”.

Por mais que tente limpar sua reputação a empresa é especialmente não sustentável em suas práticas, financia candidatos “anti-ambientais”, oferece e estimula o consumo de alimentos de baixo preço mas prejudiciais à saúde e não tem plano de saúde para a maioria de seus empregados.

3) O banco Wells Fargo patrocina a “Habitat for Humanity”.

Um dos campeões, nos EUA, da retomada de cerca de 4 milhões de imóveis hipotecados em processos em muitos casos fraudulentos e resultado da crise de 2007 provocada pelos próprios bancos.

4) Os planos de saúde da United Health e WellPoint patrocinam a “American Red Cross”.

As duas maiores corporações de seguro saúde dos EUA em conluio com outras do setor fazem lobby, ao mesmo tempo, contra o “Affordable Care Act” que garante acesso à saúde a toda a população e acabam de doar, com o mesmo propósito, USD 100 milhões para a Câmara de Comércio.

5) A empresa de alimentos ConAgra patrocina a “Feeding America”.

A “Feeding America” é a organização americana líder na ajuda aos que precisam de alimentos e tem entre suas prioridades “aumentar o acesso à comida nutritiva e saudável pelos americanos carentes”. E isto nada tem a ver com a ConAgra. A empresa já foi flagrada com salmonela em suas instalações e produtos, etiquetas fraudulentas, e faz lobby para preservar a batata frita e pizzas no almoço escolar e cortar a ajuda federal para alimentos.

Bem, termino pedindo ao leitor que, se os souber, me envie exemplos brasileiros de patrocínio indevido para divulgação em um próximo post. Desde já, incluo os casos da Vale, Santander e Petrobrás, dentre outros, que procuram, oportunisticamente, mostrarem-se como defensores do meio ambiente e que são sérios candidatos aos cinco mais.

E, sugerindo que você participe da pesquisa relacionada ao tema, no post que se segue, e que utilize preferencialmente a central de comentários para as suas críticas, sugestões e observações.

As perguntas existenciais do mineiro: quécosô?, oncotô? e proncovô?

Uma das maiores trapaças da tecnologia moderna está na política da obsolescência planejada, ou seja, no envelhecimento premeditado dos objetos, com as mudanças desnecessárias de modelo ou “styling” (este anglicismo já é para enganar), e com peças calculadas para não durarem, ou sistemas que não permitem reparação. O auge desta trapaça está no objeto de um só uso.” José A. Lutzenberger.

Recebi de Dan Moche um excelente comentário ao último post. Com a devida autorização, selecionei trechos, incluindo a citação acima, para apresentá-lo em num post. A versão completa pode ser vista em “comentário de Dan Moche”. Vamos ao post:

Parque Nacional Grande Sertão – Veredas

Post escrito por Dan Moche Schneider:

Um amigo meu lá de Minas, véio Cássio, lixólogo de longuíssima data, foi quem me ensinou que as perguntas existenciais do mineiro: “quécosô?, oncotô? e proncovô?” podem ser úteis não somente para o autoconhecimento mas pra entender muitas situações.

Quécosô?

Já me perguntei muitas vezes; e sempre tive respostas diferentes. O mundo muda a gente muda, de onde concluo que sou mudança, viajante, filho dessa espaçonave Terra, tão extraordinariamente criada, que mantém a vida a bordo em regeneração, a despeito da entropia, graças à energia que obtemos da nave mãe – o Sol , que seguimos por espaços nunca dantes navegados.

Sou imaginação. A imaginação não é um detalhe de nossas vidas, é a própria essência do que somos. Somos co-criadores da nossa realidade. Mas sobre todas as crises, a crise da imaginação é a pior. Qual realidade precisa ser criada? Fecho os olhos, imagino e sinto: a ética controla a técnica; a dança substituiu o ritmo do capital; o antagonismo e controle foram substituídos pelo cuidado entre os homens e deles com a natureza. A economia passou a servir o ser humano. Os objetos já são produzidos para durar e serem compartilhados por todos. Já não um mundo de consumidores, mas de seres criativos, livres e cuidadosos. Um mundo com menos lixo.

Oncotamos?

Estamos numa nave em crise, provocada por modos de produção e consumo que desregulam os sistemas de regeneração da vida a bordo, e cujos timoneiros são incapazes de medidas arrojadas para alterar o curso do desastre. Os sistemas de regeneração de vida da nave, que criam, purificam e reintegram resíduos em ritmo natural, já não acolhem, pelo ritmo industrial em que são produzidos, tantos e tão diferentes tipos de resíduos.

Energia e recursos naturais são crescentemente demandados para a produção de objetos projetados para serem inviabilizados em seu uso prolongado . Pela necessidade de consumo dos objetos produzidos, desenvolveu-se também um complexo sistema de produção de consumidores para os objetos, pela colonização da imaginação. As desigualdades entre os tripulantes da espaçonave se acentuam e, pela primeira vez, a massa de passageiros não é mais necessária para manter o padrão de vida da primeira classe. Nesse sistema, o que, para que e com que consequências se produz, no fundo não interessa.

Proncovamos?

A Política Nacional de Resíduos Sólidos – PNRS, com a Lei Nacional de Saneamento Básico e a Lei de Consórcios Públicos constituem um marco na história recente das políticas ambientais e de saneamento brasileiro e passaram a nortear todas as ações de gestão e manejo de resíduos sólidos.

Depois de mais de vinte de anos de luta por esse marco regulatório, cuja implantação tem pela frente antigas mazelas e novos desafios, vamos proteger a saúde pública e o meio ambiente, segundo a PNRS, pela gestão e gerenciamento de resíduos sólidos:

“Na gestão e gerenciamento de resíduos sólidos, deve ser observada a seguinte ordem de prioridade: não geração, redução, reutilização, reciclagem, tratamento dos resíduos sólidos e disposição final ambientalmente adequada dos rejeitos”.

A PNRS não indica, no entanto, como isso pode ser alcançado. Os desafios portanto permanecem:

– Como proibir a produção de objetos que não possam ser reutilizados ou reciclados?
– Como aumentar significativamente o prazo de garantia sobre objetos produzidos?
– Como estabelecer limites à produção e ao consumo, sobretudo das elites planetárias?
– Para onde direcionar o crescimento econômico nas regiões que ainda não atingiram condições mínimas?

Termino sugerindo que você participe da pesquisa relacionada ao tema, no post que se segue, e que utilize preferencialmente a central de comentários para as suas críticas, sugestões e observações.

O caso da impressora com chip que pré-define sua vida útil

Os produtos, hoje, são projetados e construídos para deixarem de funcionar e com isto forçar sua substituição periódica, e quando não, o são já com novos modelos em vista, sem alterar as suas funcionalidades, e que por meio de marketing agressivo são “empurrados” para o consumidor. Tudo em nome de vendas incessantes e crescentes.

Feito para quebrar, velho por imposição.

Recebi do leitor Paulo Garcia um excelente vídeo sobre a pratica generalizada de fabricar produtos que durem muito menos do que poderiam. O vídeo é relativamente longo, 52 minutos, mas vale a pena. O título do vídeo “obsolescência programada” indica na verdade duas possibilidades principais. Uma, a do feito para quebrar. Lâmpadas, por exemplo, que duram 1.000 horas e poderiam ter vida útil quase que interminável. O vídeo mostra, aliás, uma festa de aniversário dos 100 anos de vida de uma lâmpada. Produtos descartáveis que não precisariam o ser, é um outro bom exemplo. O vídeo mostra o caso de uma impressora que tem embutido um chip que limita o número máximo de impressões.

A outra pratica, a do velho por imposição, talvez um pouco menos criminosa que a anterior, mas muito mais danosa, consiste na “imposição” de modelos novos fazendo com que o consumidor se sinta “obrigado” a trocar, acrescentar ou jogar fora um produto para ter a versão mais recente. E para isto o “marketing” tem um papel decisivo. O automóvel é talvez o exemplo mais marcante. Ano após ano vai aumentando a pressão “psicológica” em cima do consumidor para trocar o seu veículo visivelmente “velho” por um novo com a mesma funcionalidade.

Curiosamente, o vídeo é muito bom na parte factual, mas as conclusões tem pouco embasamento nos fatos que mostra. Tende a concluir que a prática mostra que é preciso diminuir, reduzir, encolher, decrescer, enfim, já que o mundo não é capaz de suportar o crescimento infinito.

Peca pela lógica, neste caso. Ora, se os produtos podem ser fabricados com vida útil de outra ordem de grandeza que os atuais, isto quer dizer, sim, que pode-se atender as necessidades de muito mais gente com a mesma base instalada. Isto, combinado com práticas de consumo mais saudáveis e um desenvolvimento material que não transgrida as barreiras ambientais, pode permitir que uma população estável venha a ter uma vida plena, saudável e com acesso a tudo de bom que a civilização criou até aqui, e virá a criar.

É óbvio que este mundo imaginado contempla práticas que se chocam com os interesses das empresas como existem hoje. Transporte público ao invés de automóveis, prevenção e saneamento em lugar de mais hospitais e assim por diante. Mas isto já é assunto para outro post.

Termino sugerindo que você participe da pesquisa relacionada ao tema, no post que se segue, e que utilize preferencialmente a central de comentários para as suas críticas, sugestões e observações.

Culpe o aposentado

  1. Utilize preferencialmente a central de comentários para as suas críticas, sugestões e observações.
  2. Veja notícias e artigos (novo) relacionados à Nova Economia na coluna da esquerda.
  3. A Pesquisa da Semana é sobre o tema tratado no post e está apresentada em seguida a ele.

'domino' photo (c) 2009, jmarconi - license: http://creativecommons.org/licenses/by/2.0/A nova ministra do trabalho italiana chorou mas fez sua parte no ajuste de 30 bilhões de euros nas contas do país apresentado no último dia 4 de dezembro: A idade mínima de aposentadoria foi elevada para 62 anos no caso das mulheres e 66 anos para os homens. Pensões acima de 960 euros foram congeladas.

O desemprego grassa, a economia engasga e a solução é mais aperto, mais cortes. Isto vem acontecendo em todo o mundo. Irlanda, Grécia, Portugal, Espanha e Itália são os destaques. E nos EUA, o FED não deixa por menos. Tudo pelo PIB, mesmo a custa de empregos.

E não foi com menos espanto que li o recente artigo de Fábio Giambiagi intitulado “O desafio demográfico” publicado em O Globo em 11 de novembro último e que me levou a escrever um e-mail para o autor, que transcrevo:

Prezado Fábio,
O seu recente artigo publicado no O Globo parece indicar que se deve alongar o prazo para a aposentadoria em resposta à nova realidade demográfica. É isto mesmo?
Tenho observado que algumas das recomendações para os países europeus em crise vão pela mesma linha, o que me parece estarrecedor.
Num mundo onde falta trabalho, a solução é concentrar as ofertas?
Não será que a nossa época já permite um maior bem estar ao ser humano diminuindo a intensidade do trabalho remunerado e aumentando o tempo livre para outro tipo de atividade produtiva ou não? Abraços, Christopher.

Em resposta, ele escreveu:

Prezado Christopher,
Recebi seu e-mail, que agradeço. De fato, eu defendo essas ideias, mas leve em conta que: a) a idade em que na média as mulheres se aposentam por tempo de contribuição no Brasil é de 51 anos, sendo que no caso dos homens é de 54 anos, o que honestamente me parece muito cedo; e
b) nossa situação é diferente da europeia, uma vez que a União Europeia está passando por uma recessão severa, enquanto que nós estamos no mínimo histórico da taxa de desemprego.
O que eu defendo é uma adaptação suave e diluída ao longo de décadas das condições de aposentadoria à realidade demográfica dos próximos 30 a 40 anos, quando as pessoas tenderão a viver cada vez mais.
Novamente, obrigado pela sua mensagem. Cordialmente, Fábio Giambiagi

Respeito o trabalho do autor do artigo mas, fico pasmo ao verificar o impasse em que os economistas se colocam, impedindo-se de pensar no aparato produtivo posto a serviço do homem. Aumentou a expectativa de vida, o que parece ótimo? Arrocho. Aumentou a produtividade, o que em tese é excelente? Aumente-se o desemprego.

Ao contrário do que o Fábio Giambiagi diz em seu artigo, não há um mega desafio demográfico pela frente. O que há, sim, é a premente necessidade de mudar a teoria econômica vigente, superar a obsessão pelo PIB e relativizar a importância do lucro frente a questões mais importantes para todos nós: preservação ambiental, equidade social e bem estar.

Bem, estas questões mostram, me parece, é que, por bem ou por mal, uma Nova Economia terá que se impor.

Termino sugerindo que você, leitor, participe da pesquisa relacionada ao tema, no post que se segue.

Faz de conta

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  2. Para ler notícias relacionadas à Nova Economia, acesse o link à direita.
  3. A Pesquisa da Semana é sobre o tema tratado no post e está apresentada em seguida a ele.

Bem, para iniciar o ano, um pouco de humor. Por indicação do leitor Edson Franco cheguei ao blog Chá de Burro que faz um breve resumo das consequências da crise na Grécia.

E vamos ao assunto do dia. Recebi do economista Hugo Penteado através da lista “Decrescimento” um e-mail com o título: “Desesperador”. Indignado com as projeções otimistas e a insistência no crescimento econômico como solução ele apresenta uma crítica irônica invertendo os fatos.

É um texto que, de uma forma original, serve também como um resumo dos principais aspectos envolvidos na Nova Economia. Vamos a ele:

Faz de conta que a produção brota do nada.
Faz de conta que a economia está totalmente separada da natureza, do tamanho do planeta, dos serviços ecológicos.
Faz de conta que o crescimento econômico jamais é deseconômico.
Faz de conta que o crescimento gera justiça social e bem estar e não guerras e devastação.
Faz de conta que poderemos dessalinizar e ressalinizar a água dos oceanos a um custo energético mínimo.
Faz de conta que a economia pode ser maior que o planeta.
Faz de conta que iremos usar terras de outros planetas para depositar nossas produções.
Faz de conta que a produção, a partir de um determinado ponto crítico, irá se tornar imaterial.
Faz de conta que as leis da termodinâmica são falsas.
Faz de conta que a economia não é uma pseudo-ciência autista que não se comunica com nenhuma outra descoberta científica relevante, como aquecimento global e a maior extinção em massa de espécies animais e vegetais dos últimos 65 milhões de anos causados por nossa espécie.
Faz de conta que do ponto de vista da biologia não somos todos um e que o ser humano não faz parte dessa teia da vida sem a qual não teríamos água, ar para respirar, comida.

E para finalizar:

Faz de conta que todo esse faz de conta não rege universalmente todas as decisões governamentais e empresariais à nossa volta e que isso não irá causar a extinção da vida desse planeta e da nossa espécie animal.

Faz de conta.

Num segundo e-mail ele menciona que a saúde dos balanços dos sistemas previdenciário, tributário, fiscal, financeiro e empresarial está de tal forma vinculada ao crescimento econômico que apesar de contraproducente, é a única solução que os que decidem, antevem. Claro, sempre afirmando que é o caminho para a salvação social. E os governos, na melhor das hipóteses, fingem acreditar nessa mentira ao se mancomunarem com os interesses corporativos e produzirem as piores atrocidades contra as pessoas. Surreal, diz ele.

Termino sugerindo que você, leitor, participe da pesquisa relacionada ao tema, no post que se segue.

Cidadania é o caminho

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'Crowd' photo (c) 2007, James Cridland - license: http://creativecommons.org/licenses/by/2.0/Como estabilizar a população mundial que acaba de chegar a 7 bilhões e se prevê que possa atingir 10 bilhões até o fim do século? Isto, num mundo onde os seus habitantes têm mais e mais acesso à informação e desejam os mesmos bens e serviços.

Em excelente artigo Como estabilizar a população mundial?  publicado no EcoDebate em 26 de outubro o pesquisador e professor do ENCE/IBGE, José Eustáquio Diniz Alves, responde de forma detalhada, cuidadosa e especialmente respeitosa em relação aos direitos dos mais humildes.

Assunto de tremenda importância para a Nova Economia, tomei a liberdade de transcrever os trechos que me pareceram mais importantes, em especial as propostas, e deixar ao leitor a oportunidade de acessar a íntegra do artigo através do link acima. É o que passo a fazer.

Sete bilhões de habitantes no mundo poderia não ser muito se houvesse a adoção de um nível de consumo compatível com a sustentabilidade ambiental. Porém, o consumo médio da população mundial já está acima da capacidade de regeneração do Planeta e a demanda agregada continua crescendo.

E,

…devido à estrutura etária jovem prevalecente em uma parcela ampla da população mundial, mesmo com uma queda rápida da fecundidade, o crescimento atual da população vai continuar devido à inércia demográfica. Depois dos 7 bilhões de habitantes de 2011 os 8 bilhões de habitantes já estão encomendados para algum ano entre 2025 e 2030. Entretanto, a população mundial pode parar de crescer antes de chegar aos 9 bilhões de habitantes.

A estabilidade da população mundial não requer esforços extraordinários. Já existem países nos quais a população está decrescendo, como: Cuba, Rússia, Japão, Ucrânia, etc. Existem outros que vão ter suas populações caindo num futuro próximo, pois já possuem taxas de fecundidade abaixo do nível de reposição, tais como: Brasil, Chile, China, Coreia do Sul, Irã, Vietnã, etc. Também há um grande grupo de países que estão em processo de transição de altas para baixas taxas de fecundidade e devem atingir o nível de reposição em um espaço curto de tempo.

Contudo, existem atualmente cerca de 30 países que possuem taxas de fecundidade muito altas e cujos governos apresentam dificuldades para ajudar suas populações a atingir o tamanho de famílias que desejam. Nestes países – que geralmente são pobres e possuem altos índices de violência e insegurança – o fenômeno da gravidez indesejada é muito alto. A maior parte do crescimento populacional projetado até 2.100 está concentrada nestes poucos países (a grande maioria na África ao sul do Saara).

Para estabilizar a população dos países com alto crescimento demográfico, ainda no século XXI, seria preciso trazer as taxas de fecundidade para o nível de reposição (2,1 filhos por mulher)…

É fato também, e os hábitos das pessoas nos países com baixas taxas de fecundidade comprovam isto, mesmo na China onde houve fortíssima ingerência do estado, que

…com inclusão social as famílias tendem a limitar seu tamanho pelos seus próprios meios.

E para isto, é necessário em todo o mundo e em especial para os mais pobres:

  1. Universalizar o ensino fundamental para todas as crianças e jovens do mundo;
  2. Garantir o pleno emprego e o trabalho decente;
  3. Garantir direitos iguais para homens e mulheres (equidade de gênero);
  4. Garantir habitação e serviços adequados de água, esgoto, lixo e luz para todos;
  5. Reduzir a mortalidade infantil e garantir o acesso universal à saúde, à higiene, combatendo as principais causas de epidemias;
  6. Garantir acesso universal à saúde sexual e reprodutiva (o que inclui disponibilidade e variedade de métodos de regulação da fecundidade);
  7. Garantir liberdade de organização, manifestação e acesso à informação;
  8. Garantir a governança nacional e o apoio e a coordenação internacional para implementar, de maneira universal e indivisível, a plenitude dos direitos humanos.

É claro, respeitando a soberania de cada país, mas num contexto onde todos precisam colaborar de forma digna para um objetivo comum de nossa civilização.

Termino sugerindo que você, leitor, participe da pesquisa relacionada ao tema, no post que se segue.

O quanto é o bastante?

1) Novo: Para ler notícias relacionadas à Nova Economia, acesse o link à direita.
2) A Pesquisa da Semana é sobre o tema tratado no post e está apresentada em seguida a ele.

Conforme mencionei anteriormente, o documento “Enough Is Enough“, resultado de uma conferência promovida pelo CASSE e a organização “Economic Justice for All” em 2010 é uma importante referência para a Economia em Equilíbrio.

Cerca de 250 economistas, cientistas e outros interessados se reuniram com dois objetivos:

  • Chamar a atenção a respeito do volume substancial de evidências cientificas que mostram que o crescimento econômico não é ambientalmente sustentável e não está melhorando a qualidade de vida nos países desenvolvidos.
  • Identificar políticas específicas e implementáveis para se chegar à uma Economia em Equilíbrio.

 O documento realça uma importante e interessante ideia: Ao invés de mais, o bastante, baseada na noção que a partir de um nível, dito suficiente, de bens e serviços, mais não significa maior bem estar. É de se supor que o bastante é alcançável e viável para todos. Em sendo, tendo em vista, como vimos em post anteriores, que os desejos dos seres humanos são ilimitados e contidos apenas pela renda disponível, limitar o consumo ao bastante implica em renda compatível com tal nível de consumo.

Bem, sobre o 1º objetivo da conferência, o documento destaca que “a humanidade já ultrapassou 3 (*) de 9 fronteiras do planeta”. Tais fronteiras definem limites cuja ultrapassagem podem causar abruptas e catastróficas mudanças ambientais. E são: mudança climática (*), perda de biodiversidade (*), ciclos de nitrogênio (*) e fósforo, redução da camada de ozônio, acidificação dos oceanos, uso da água, uso da terra, carga de aerosol e poluição química.

Outros indicadores, como a “pegada ecológica” indicam que estamos num estado de esgotamento ecológico global: a devastação de florestas e a pesca ocorrem em ritmo mais rápido do que a reposição. Resíduos como CO2 não mais conseguem ser absorvidos. O resultado é a erosão do estoque de recursos naturais e do suprimento de serviços do ecosistema dos quais a economia e a sociedade, em última instância, dependem.

No documento são identificadas 10 principais políticas para se chegar a uma Economia em Equilíbrio e para cada uma indica porque é necessária e como pode ser implementada. Tais políticas são:

Limitar o uso de recursos e as perdas.
Estabilizar a população.
Distribuição equitativa da renda e riqueza.
Reformar o sistema monetário.
Mudança nos critérios de medida do progresso.
Pleno emprego.
Repensar a estrutura das empresas e os métodos de produção.
Cooperação entre as nações.
Mudança no comportamento do consumidor.
Atrair os políticos e a mídia para a nova realidade.

E salienta a necessidade de uma nova teoria econômica que reformule conceitos fundamentais como investimento, produtividade e propriedade, de forma que a economia gere retornos sociais e ambientais, a produtividade seja otimizada e haja estimulo a cooperativas e outras formas de controle dos empreendimentos.

O documento menciona também o mais importante, o que fazer para se chegar lá, e propõe um plano de transição para avançar em direção a uma Economia em Equilíbrio:

Estimular a mudança comportamental do “mais” para o “necessário”.
Aprofundar as pesquisas relacionadas a uma nova teoria econômica.
Divulgar os males do crescimento econômico e as vantagens de uma Economia em Equilíbrio.
Dar suporte e implementar as políticas de transição para uma Economia em Equilíbrio.

 Vê-se em algumas das políticas propostas a esperança, infundada a meu ver, de que seja possível induzir a mudança no comportamento de cada um. Também, não se menciona o “como” fazer, o que será objeto de um post específico.

Termino sugerindo que você participe da pesquisa de opinião da semana, apresentada no post que se segue, e relacionada ao tema.

Xingu: Os Caminhos de um Rio

Leitor: A Pesquisa da Semana é sobre o tema tratado no post e está apresentada em seguida a ele.

Bem, comece vendo o belo (e curto) vídeo produzido pelo Movimento Xingu Vivo para Sempre.

O post desta semana é sobre o artigo da antropóloga Cecília Campello do Amaral Mello “Xingu: os inúmeros caminhos de um rio” publicado em O Globo em 23 de abril último.

O trabalho complementa o vídeo e aponta para aspectos decisivos do porque não construir a usina de Belo Monte. Bem elaborado e de leitura fácil vale a pena ler o artigo. Dele, vou me ater à parte que que se refere aos estilos de vida dos que vivem na área.

Destaco dois trechos. Um após questionar a destinação da energia que será gerada em Belo Monte:

“A perspectiva da justiça ambiental indaga: e se os processos de tomada de decisão política incorporarem seriamente como critério que não deverá haver impactos desproporcionais de grandes obras sobre grupos sociais vulnerabilizados? E se esses grupos puderem fazer ver e valer seu modo de vida e terem respeitados os muitos aspectos não monetarizáveis de seu mundo? E se os grupos potencialmente atingidos puderem mostrar para a sociedade abrangente todas suas riquezas incomensuráveis em relação às quais o nosso modo de vida — baseado no consumo incessante e no uso predatório dos recursos naturais — é cego? O que há no rio Xingu que não pode ser simplesmente esmagado e transformado em mercadoria? O que é este rio para os povos indígenas e ribeirinhos que ali vivem?”

E outro com o qual termina o artigo:

“Como se vê, as crianças e populações indígenas do Xingu têm muito a nos ensinar. Eles nos mostram, por um lado, que um outro modelo de produção e consumo — sustentável e democrático — já existe Brasil adentro. Este modelo, ou melhor, essas saídas sempre criativas e combativas dos que escapam à mercantilização do seu território e modo de vida vêm sendo arduamente defendidas pelos indígenas, ribeirinhos, pequenos agricultores e pescadores do rio Xingu. Esses grupos sociais — que alguns já chamaram de “entraves ao desenvolvimento” — são os poucos ainda capazes de traçar linhas de fuga em relação ao modelo de produção e consumo hegemônico e apontar saídas para os impasses societais que vivemos. As soluções que propõem não envolvem, porém, grandes empreiteiras, empréstimos vultuosos de bancos públicos, construções faraônicas e predação de pessoas. São mais simples e eficientes. Suprem necessidades e vontades e garantem autonomias. Desconfiam do tal “desenvolvimento”.

Os povos do Xingu nos mostram, enfim, que um outro mundo já está sendo possível há muito tempo, nós é que pouca atenção prestamos a ele…”

O que mais me marcou nestes trechos foi perceber que já existem experiências concretas de um “outro mundo” marcado pela desmercantilização (aspecto tratado no post Simples e Relevante) e que estas trazem ensinamentos importantes para o delineamento e implementação de uma Nova Economia.

Infelizmente entretanto, tudo indica que as várias feições de “um outro mundo” somente se tornarão regra quando além da nossa ação consciente, a força dos acontecimentos as imponha. E mesmo assim, com alguma sorte e tremendos custos sociais e ambientais.

Termino sugerindo que você participe da pesquisa de opinião da semana, apresentada no post que se segue, e relacionada ao tema.

As Regras para o Bem Estar

Leitor: A Pesquisa da Semana é sobre o tema tratado no post e está apresentada em seguida a ele.

Ciclista en la paredphoto © 2010 Toni Perelló | more info (via: Wylio)

Conectar-se, ser ativo, estar informado, aprender, dar.

Verdadeira receita de autoajuda.

Bem, vamos ao detalhe da proposta da nef (Five Ways to Well-being) que é baseada em evidências e que busca identificar regras a serem adotadas pelos indivíduos em seu dia a dia e que possam ser objeto da ação de políticas governamentais visando melhorar o bem estar.

Conectar-se: “As relações sociais são críticas para nosso bem estar”. … “O governo pode propor políticas que encorajem os cidadãos a dispender mais tempo com a família e amigos e menos no ambiente de trabalho”. Redução da jornada de trabalho e trabalho local são algumas das recomendações.

Ser ativo: “Exercitar-se melhora o humor e reduz as taxas de depressão e ansiedade”. O uso da bicicleta e mais áreas verdes são sugestões apresentadas.

Estar informado: “Refletir sobre nossas experiências” … “conscientizando sensações, pensamentos e impressões aumenta nosso auto conhecimento e bem estar”. Treinamento e regulação publicitária são algumas das ideias de políticas públicas.

Aprender: “O aprendizado encoraja a interação social, aumenta a autoestima e a sensação de competência”. O aprendizado em todas as fases da vida é a principal recomendação.

Dar: “… o comportamento cooperativo ativa áreas de satisfação do cérebro, sugerindo que nós somos voltados para ajudar-nos mutuamente”. A participação comunitária é o destaque.

Duas observações vêm logo à mente ao ler-se a proposta.

Muita coisa importante para o nosso bem estar ficou de fora, não é mesmo? Onde ficam, nesta estória, os sentimentos, os prazeres, as sensações e tudo o mais que compõe o nosso dia a dia e a nossa vida?

A segunda é ainda mais forte. Como é complicado e perigoso tentar reunir os dois mundos, o do nosso bem estar e o das políticas públicas para melhorá-lo. A ideia que transparece é a de que o agente é o governo e não o contrário, o individuo, que em sua ação dirige, ou ao menos procura, o seu destino.

Termino sugerindo que você participe da pesquisa de opinião da semana, apresentada no post que se segue, e relacionada ao tema.

Medir o bem estar?

Leitor: A Pesquisa da Semana é sobre o tema tratado no post e está apresentada em seguida a ele.

oscar Niemeyer art museum - tile muralphoto © 2006 Ian Burt | more info (via: Wylio)

Parece-lhe adequado, leitor, tentar medir o bem estar humano em toda sua amplitude, material, social e psicológica? Creio que não.

Levanto esta questão porque alguns do movimento pela Nova Economia defendem tal abordagem. Em especial a nef que propõe inclusive uma detalhada quantificação objetiva e subjetiva. É a National Accounts of Well-being. E acaba de produzir um novo documento aprofundando a abordagem: Measuring our Progress.

Acredito que seja prudente preservar a singeleza de de um conceito que expressa o que cada um de nós sente e que é fugaz como a própria vida. E deixar que outras áreas de conhecimento procurem decifrar os enigmas que encerram o bem estar, a felicidade, a satisfação e outros conceitos ligados a nossos sentimentos.

Veja a obra de arte ao lado. Sem dúvida, expressa uma forma de beleza, simplicidade e movimento, que pode ou não ser parte dos valores reais de cada um de nós, mas que, nem por isto, deixamos de admirar.

Isto em nada diminui a importância do bem estar no contexto de uma Nova Economia. Apenas indica que não é conveniente substituir um indicador, o PIB, por outro que expresse de forma completa o bem estar. Ao contrário, o uso de um “painel” de indicadores, retratando as questões ambientais, sociais e do bem estar, na linha do proposto pelo relatório Stiglitz, tem mais a ver com a complexidade do mundo em que vivemos.

Complexidade evidente, dadas as ameaças ambientais, as graves tensões sociais decorrentes da incorporação ao mercado de bilhões de pessoas e de uma incontrolável difusão de informações que leva a todos desejarem os mesmos bens e serviços, e a crescente percepção de que a coletividade já pode prover os meios para que cada um de nós tenha uma vida feliz e plena, dentro das condicionantes, é claro, muito mais amplas, das circunstâncias particulares a cada um de nós.

A polemica vai longe, pois traz o perigoso potencial de ainda maior interferência do estado em nossas vidas. Prova disto, é a recente decisão do governo inglês de se propor a quantificar o bem estar para ajudar na formulação de políticas públicas. Nos próximos posts vou detalhar e criticar as propostas de regras para o bem estar e de quantificação do bem estar e tratar da questão da qualidade de vida, esta sim, apropriada ao contexto da Nova Economia.

Bem, a respeito, deixo-os com uma “máxima” do Riobaldo, personagem do Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa – “Viver é muito perigoso…” – e que retrata por um outro angulo a complexidade mencionada.

E termino sugerindo que você participe da pesquisa de opinião da semana, apresentada no post que se segue, e relacionada ao tema.

Sociedade consumista?

 

Vimos até aqui que o que se consome é, via de regra, de utilidade e que a crítica ao individuo consumista é vazia e não leva a mudanças substancias nas práticas de consumo. Vimos, por outro lado, que o estilo de vida moderno, necessário para manter e melhorar o padrão de consumo é altamente estressante e não leva ao bem estar pessoal e social.

Esta é a ótica de cada um de nós. Mas, será que para a sociedade como um todo a crítica ao consumismo se aplica e pode ser transformadora? Metade dos que responderam à pesquisa da semana anterior, cujo resultado é mostrado no espaço da própria pesquisa, acredita que sim. A outra metade divide-se entre os que, parece-me, privilegiam os valores espirituais, e os que, como eu, acreditam que não caiba falar-se em sociedade consumista. Explico-me.

Antes de mais nada, vale citar que poucas exceções no mundo fogem ao modelo que valoriza o consumo de bens e serviços. Um contra exemplo interessante é mostrado no artigo “Crescimento na economia budista“, escrito por Jeffrey D. Sachs para o Project Syndicate em agosto 2010. Em viagem ao país o autor verificou que no Butão a felicidade é vista como uma consequência de um trabalho sério de reflexão interna e de compaixão pelos outros e que o crescimento econômico é subordinado à sustentabilidade ambiental e à preservação da estabilidade psicológica mesmo no curso de mudanças velozes, marcadas pela urbanização e a investida dos meios de comunicação globais.

Mas o fato é que esta experiência de cerca de 700 mil pessoas não consegue se contrapor aos bilhões de pessoas das mais diferentes nações e classes sociais que almejam e estão cada vez mais tendo acesso aos benefícios materiais que o mundo moderno pode propiciar. Não há duvida. A sociedade atual é movida e voltada para o consumo. Contudo, não há indicação neste contexto de uma cultura social baseada no consumo “desenfreado”, supérfluo ou “desnecessário”, que amplie desejos que de outra forma seriam limitados e seja a causa do consumo por comparação e “status”. Sem isto, não há como falar-se em uma sociedade consumista.

Entretanto, mesmo sem a validade da crítica, o mencionado modelo de consumo, como vimos em posts anteriores, não tem como sobreviver às barreiras ambientais e sociais que se ampliam dramaticamente devido a duas razões principais que se realimentam. De um lado, os agentes econômicos precisam do crescimento para que haja excedente, e, para que haja crescimento precisam do aumento constante do consumo para escoar o que produzem. De outro, para que mais pessoas possam consumir mais e melhor é necessário que haja crescimento econômico.

É um impasse que leva inevitavelmente a um novo cenário com a radical diminuição na diferença de renda e do consumo individual e, aí sim, a novos estilos de vida que previsivelmente terão enfase no bem estar. Mudam-se os hábitos para que possamos viver num mundo de recursos finitos e onde, estima-se, 9 bilhões de pessoas o habitarão em 2050. E, aspirando o mesmo padrão.

É a velha história, nossos hábitos e práticas se adequam ao que o momento econômico e social permite e exige, e não o contrário. Qual o preço que humanidade pagará para que tal mudança ocorra é talvez o que mais assusta em todo este quadro. Este é, alias, o objeto da pesquisa desta semana.

Estilo de vida

Vimos no post anterior que o que as pessoas consomem é de utilidade para elas. Se puderem, consumirão cada vez mais, seus estilos de vida continuarão se adaptando à necessidade de consumir e não faltarão novas necessidades despertadas por novos produtos e serviços.

Este estilo de vida é bom ou ruim? Não cabe julgar. Mas é possível dizer, e o resultado da pesquisa da semana anterior confirma isto, que muito provavelmente ele deteriora continuamente o bem estar pessoal e social já que a prática de viver para trabalhar, trabalhar para ganhar e ganhar para consumir, numa corrida incessante dado o aumento continuo das expectativas e possibilidades de consumo e a necessidade de cada um em manter seu padrão relativo praticamente impede que se usufrua a vida.

Nunca é demais lembrar, que a grande marca deste período foi e ainda é o automóvel, cujo uso define em boa medida desde como se dão, entre outros, a urbanização, o transporte público e o perfil de práticas e hábitos de consumo. E que muito provavelmente, os novos tempos virão junto com a sua superação.

É claro que novos conhecimentos, o acesso e a difusão da informação e o nível de educação ampliam-se ao longo do tempo, e isto pode alterar os hábitos e estilos de vida das pessoas na direção de maior bem estar.

É claro também que existe um enorme espaço para a luta pela mudança voluntária de hábitos que vão se afirmando como mais saudáveis. Governos, em seus diversos níveis, inúmeras organizações em todo o mundo e pessoas independentes o fazem em nome da promoção do bem estar pessoal, ou do que consideram exigências ambientais ou sociais.

Mas, é muito duvidoso que um e outro possam mudar radicalmente o estilo de vida moderno na direção de um maior bem estar pessoal e social. Poderia se considerar que isto aconteceria numa longa e penosa mudança de mentalidade e conceitos. Mas, se depender apenas da vontade das pessoas e dos agentes econômicos essas mudanças tendem a ter um caráter contraditório. Basta ver o que ocorre atualmente, onde convivem uma aumento da noção da importância de uma dieta equilibrada para uma vida saudável e o aumento no consumo de álcool, da obesidade e do sedentarismo.

Bem, até aqui, analisamos a questão do consumismo sob a ótica do individuo. No próximo post encerramos esta breve analise do consumismo abordando sua relação com a sociedade como um todo. Até lá, deixo-os com a pesquisa da semana.

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