Quanto pior, melhor

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  3. A Pesquisa da Semana é sobre o tema tratado no post e está apresentada em seguida a ele.

Arte: Uccello-nella-Primavera, por Anita Klein http://www.anitaklein.com

Bem, a hipótese de pico no uso de recursos materiais em economias desenvolvidas abre uma oportunidade de contestações de grande interesse para uma Nova Economia.

A primeira delas é sobre o PIB já que este é usado para dizer que há diminuição no uso de recursos ao mesmo tempo em que ocorre crescimento econômico.

A todo momento somos informados de medições, estimativas e ações justificadas pelo PIB. A crise e a queda do PIB na Europa, por exemplo, levam a medidas as mais absurdas, dentre elas, o aumento na idade da aposentadoria. Quer dizer, num ambiente onde já grassa o desemprego, principalmente dos jovens, os gênios de plantão, apresentam como solução mais desgraça, tudo em nome das condições para que no futuro o PIB possa crescer.

Hoje, a meu ver, é simplesmente ridículo que se use tal indicador. Num mundo altamente sofisticado onde um simples automóvel dispõe de um painel com vários indicadores para uma condução segura e um avião comercial, muito mais, é incrível que a atividade econômica seja monitorada por apenas 1 indicador, e ainda por cima, errado, para tal fim, como se verá a seguir.

É claro que isto interessa a muitos pois deixam de entrar no mérito do que realmente interessa: bem estar, preservação ambiental e equidade social, mas, mesmo com a força que têm na manutenção do status quo, nem para aqueles a prática se sustentará.

E digo isto porque fica cada dia mais evidente que o indicador é totalmente falho para fins de avaliação de crescimento, o que dirá, do desenvolvimento econômico.

Veja só, o PIB mede quantidade, não qualidade. Aos olhos dele as coisas mais incríveis são bem vindas.

Neste ponto vale a pena recorrer a um belo artigo do Herman Dale “Wealth, Illth, and Net Welfare” publicado no blog do CASSE em 13 de novembro último, adaptado de um artigo publicado na revista “Resurgence” do mesmo mês.

“A contabilidade nacional mede apenas a atividade econômica. Esta não é separada em custos e benefícios. Tudo é somado ao GDP, nada é subtraído”.

“O lixo nuclear, as áreas mortas no Golfo do México, a perda da biodiversidade, a mudança climática pelo excesso de carbono na atmosfera, minas exauridas, solo erodido, poços secos, trabalho perigoso e exaustivo, transito, etc, não entram na contabilidade”.

Mas é pior. Em um completo “nonsense” o custo para contornar tais problemas entra na contabilidade. A limpeza da poluição, por exemplo entra como aumento do PIB. As doenças, um outro exemplo, em boa parte advindas da miséria humana e ambiental não são computadas mas o seu tratamento, sim. Quanto mais doença, melhor, do ponto de vista do PIB, principalmente em países que privilegiam a medicina privada.

E se já não bastasse isto, a depleção de capital natural como florestas, peixes, petróleo, carvão, minérios, etc, é contabilizada como renda. Chegamos quase ao máximo do contrassenso ao lembrar que a reposição de bens produzidos pelo homem, como a manutenção de estradas e pontes, entra na contabilidade, sem, é claro, sua contrapartida, a depreciação.

Para culminar, quanto mais se produz, mais difícil é obter recursos naturais, o que aumenta o PIB. A extração do petróleo, por exemplo, é cada vez mais difícil, o que faz com que cresça a participação dessa industria no PIB. Do ponto de vista do PIB o pré-sal é o “nirvana”. Pode?

Termino sugerindo que você, leitor, participe da pesquisa relacionada ao tema, no post que se segue.

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Pico de recursos materiais?

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'Junk Shop, Astoria' photo (c) 2009, John Gullo - license: http://creativecommons.org/licenses/by/2.0/Mais uma surpresa. Desta vez, uma pesquisa do ambientalista inglês Chris Goodall publicada no Carbon Commentary em 31 de outubro de 2011 e intitulada Peak Stuff – did the UK reach a maximum use of material resources in the early part of the last decade?, sugerindo que há fortes indícios de que em economias desenvolvidas é possível haver crescimento econômico sem aumento no uso de recursos.

O trabalho levanta questões muito interessantes o que me levou, apesar de contestar as conclusões, a apresentar um resumo no post de hoje. A quantificação, mesmo imprecisa, torna mais perceptível a atividade produtiva e seu impacto, impressionante. São cerca de 2.100 milhões de toneladas por ano no Reino Unido, ou 34 toneladas por habitante. Imagine transpor esta realidade para 9 ou 10 bilhões de habitantes em todo o mundo.

Trata-se de um trabalho criterioso, com muitas ressalvas sobre imprecisões nas medidas e validade das conclusões. É restrito ao Reino Unido, que dispõe de uma contabilidade específica do fluxo de recursos materiais.

Os tipos de recursos materiais considerados na pesquisa são a biomassa, os minerais e os combustíveis fósseis. O principal indicador utilizado é o da matéria total necessária, em inglês, TMR, que expressa o peso da biomassa, minerais e combustível fóssil retirados do solo no Reino Unido, adicionado das respectivas importações e deduzidas as exportações e acrescido de estimativa dos materiais empregados em outros países relativos a produtos importados.

O TMR do Reino Unido teria atingido o pico de 2.174 milhões toneladas em 2001, caindo 3,8% para 2.091 milhões toneladas em 2007, antes do início da recessão. Isto ocorreu ao mesmo tempo em que a população aumentou em 2,3% e o GDP (produto doméstico bruto) aumentou em 24%.

O autor parte em seguida para a análise de itens que concentram a maior parte do impacto ambiental na vida moderna: água, alimentos, papel, têxteis, fertilizantes, cimento, carros, energia, transporte e perdas.

Água: A distribuição de água atingiu o pico de 15,7 milhões de litros por dia em 2003 reduzindo-se em 4% até 2007.

Alimentos: A despeito do aumento da obesidade o consumo de calorias por pessoa por dia, incluindo bebidas alcoólicas, refeições fora, refrigerantes, e confeitos caiu de 2.400 kcal em 2001 para 2.300 kcal em 2007, cerca de 4% de redução.

Papel: O consumo de papel e cartolina atingiu o pico de 12,9 milhões de toneladas em 2001 e reduziu-se para 12,1 milhões de toneladas em 2007, cerca de 6% de redução.

Têxteis: Este é o único item em que há um aumento constante no consumo. Entre 2002 e 2007 aumentou em 16% chegando a cerca de 1,2 milhões de toneladas.

Fertilizantes: A aplicação de nitrogênio por hectare teve seu pico em 1991, 25% a mais do que em 2007. O fosfato teve uma redução de 40% entre meados da década de 80 e 2007. O uso de potássio caiu em cerca de 30% entre meados da década de 90 e 2007.

Cimento: Em 2007 as entregas de cimento foram de 11.6 milhões de toneladas, a maior quantidade em 10 anos, período em que esteve praticamente estável em torno de 11.2 milhões de toneladas por ano.

Carros: O número de carros novos chegou ao auge em 2003 com 2,75 milhões de veículos. Este número caiu 10% para 2,5 milhões. Novos veículos de transporte, motocicletas e ônibus tiveram reduções ainda maiores.

Energia: O total de energia primária inclui todo o consumo de combustíveis, como gasolina, carvão, e gás natural, tendo atingido 240 milhões de toneladas equivalentes de óleo em 2001, caindo 3% até 2007.

Transporte: O número de viagens de mais de 1 milha por todos os meios de transporte atingiu seu máximo em 2002 e caiu mais de 4% até 2007. Já o total de óleo refinado para transporte atingiu seu pico em 2007 com um aumento de 4% em relação aos 10 anos anteriores.

Perdas: O total de lixo doméstico coletado caiu 5% entre 2002 e 2007, tendo havido no período um sensível aumento na reciclagem. O entulho de construções e demolições caiu de 113,3 milhões de toneladas em 2004 para 109,5 em 2006. Já o lixo comercial e industrial caiu de 67,9 milhões de toneladas em 2002 para 47,9 milhões de toneladas em 2009.

Acredito que a análise dos itens destacados, com queda ou não, torna ainda mais palpável a realidade da atividade produtiva. Os números absolutos do consumo de uma sociedade desenvolvida valem por mil palavras.

Antecipo um dos pontos da análise que farei nos próximos posts, talvez o mais importante: A frota de automóveis, e tudo o que gira em torno dela, continua crescendo, mantendo o carro como um dos elementos mais dinâmicos da atividade econômica do Reino Unido, o que bate de frente com a ideia do crescimento econômico ambientalmente sustentável.

Termino sugerindo que você, leitor, participe da pesquisa relacionada ao tema, no post que se segue.

Capitalismo. Sem início nem fim?

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'Wall Street Bull Behind Bars - Illustration' photo (c) 2011, DonkeyHotey - license: http://creativecommons.org/licenses/by/2.0/Ex economista-chefe do FMI, professor de Harvard e autor de livros e artigos importantes, Kenneth Rogoff é mais um que não consegue, ou não quer, encontrar soluções para o impasse atual. E o pior, lança ainda mais confusão. Em recente artigo “O moderno capitalismo é sustentável?” publicado no site do ProjectSyndicate e, traduzido, em O Globo em 18 de dezembro último, surge com uma “pérola”: “O capitalismo moderno tem tido um extraordinário curso desde o início da revolução industrial dois séculos atrás, tirando bilhões de pessoas comuns da pobreza”.

Ele começa o artigo respondendo a pergunta do título de seu artigo ao dizer que não há um substituto viável à espreita. E aí, fica a vontade para desfiar um rosário de problemas para os quais o capitalismo não tem tido resposta: preços para produtos públicos como ar e energia, desigualdade, saúde, bem estar e crise financeira.

Tanto num caso como no outro o autor, me parece, inverte a questão e transfere os méritos e críticas a um sistema econômico que nada mais é do que o resultado histórico do que foi possível ao homem construir. Pelo relato, parece que sempre existiu e continuará existindo. É claro que se aceitar o óbvio, que é resultado da evolução do sistema feudal, terá que aceitar também que mesmo que não consiga ver, sua superação é inevitável, o que, aliás, parece mais a espreita do que nunca.

É sempre bom lembrar que quem gerou o sistema, quem produziu bens e serviços e quem é responsável pelo progresso social é o próprio ser humano a despeito de formulas econômicas. E a que preço? Sofrimento, fome, miséria para a maioria e que perduram até hoje.

Rogoff termina o artigo com a mesma inversão que faz crer que, criado, aí sim, é que os benefícios do capitalismo se afirmaram, com a pergunta: “Será o capitalismo uma vítima de seu próprio sucesso ao produzir prosperidade maciça?

É, o que é efeito vira causa. E ao fazer a inversão, foge da perspectiva histórica e perde a chance de imaginar e lutar por sua natural, porém traumática, é claro, evolução.

Interessante é que em seu último artigo “Rethinking the growth imperative” cuja tradução foi publicada em O Globo no último dia 5, ao questionar seriamente o crescimento econômico como objetivo, apesar de não tornar explícito no artigo que diminuição do crescimento significa diminuição nas taxas de acumulação e lucro, ele, de fato, parece ter concluído pela insustentabilidade do moderno capitalismo.

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Faz de conta

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Bem, para iniciar o ano, um pouco de humor. Por indicação do leitor Edson Franco cheguei ao blog Chá de Burro que faz um breve resumo das consequências da crise na Grécia.

E vamos ao assunto do dia. Recebi do economista Hugo Penteado através da lista “Decrescimento” um e-mail com o título: “Desesperador”. Indignado com as projeções otimistas e a insistência no crescimento econômico como solução ele apresenta uma crítica irônica invertendo os fatos.

É um texto que, de uma forma original, serve também como um resumo dos principais aspectos envolvidos na Nova Economia. Vamos a ele:

Faz de conta que a produção brota do nada.
Faz de conta que a economia está totalmente separada da natureza, do tamanho do planeta, dos serviços ecológicos.
Faz de conta que o crescimento econômico jamais é deseconômico.
Faz de conta que o crescimento gera justiça social e bem estar e não guerras e devastação.
Faz de conta que poderemos dessalinizar e ressalinizar a água dos oceanos a um custo energético mínimo.
Faz de conta que a economia pode ser maior que o planeta.
Faz de conta que iremos usar terras de outros planetas para depositar nossas produções.
Faz de conta que a produção, a partir de um determinado ponto crítico, irá se tornar imaterial.
Faz de conta que as leis da termodinâmica são falsas.
Faz de conta que a economia não é uma pseudo-ciência autista que não se comunica com nenhuma outra descoberta científica relevante, como aquecimento global e a maior extinção em massa de espécies animais e vegetais dos últimos 65 milhões de anos causados por nossa espécie.
Faz de conta que do ponto de vista da biologia não somos todos um e que o ser humano não faz parte dessa teia da vida sem a qual não teríamos água, ar para respirar, comida.

E para finalizar:

Faz de conta que todo esse faz de conta não rege universalmente todas as decisões governamentais e empresariais à nossa volta e que isso não irá causar a extinção da vida desse planeta e da nossa espécie animal.

Faz de conta.

Num segundo e-mail ele menciona que a saúde dos balanços dos sistemas previdenciário, tributário, fiscal, financeiro e empresarial está de tal forma vinculada ao crescimento econômico que apesar de contraproducente, é a única solução que os que decidem, antevem. Claro, sempre afirmando que é o caminho para a salvação social. E os governos, na melhor das hipóteses, fingem acreditar nessa mentira ao se mancomunarem com os interesses corporativos e produzirem as piores atrocidades contra as pessoas. Surreal, diz ele.

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Piratas da Somália são europeus

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'Pirates of corse' photo (c) 2004, keyboardsamurai - license: http://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0/

Clique na figura para assistir ao vídeo

Recebi do leitor Luiz Rogatto a indicação de um impressionante vídeo, Piratas, sobre a depleção das áreas de pesca e poluição tóxica e radioativa na costa da Somália provocada por países desenvolvidos (?) e com consequências desastrosas para a já combalida população local.

Ganhe 23 minutos de informação preciosa neste cuidadoso vídeo feito por Juan Falque e verá que os “piratas” da Somália surgiram como reação aos que estão de fato saqueando o país aproveitando-se de sua fraqueza e incapacidade de defender-se.

É terrível. A Tsunami de 2004 levou às areias do litoral e revelou o conteúdo do que se despejava nas águas da Somália: resíduos tóxicos e radioativos. E despeja-se até hoje. Quem? Barcos da Espanha, França, EUA, Japão… E a pesca predatória, onde mais de 1/4 do que se pesca é jogado fora do próprio navio? Lamentável, mas de tão terrível, serve para marcar mais fundo na mente a importância da luta por uma Nova Economia.

E como é difícil aguentar a brutalidade dos fatos. Não para a ONU, que tem até observador especial para a Somália e que tem feito inúmeros alertas sobre a situação. Apesar dele e de outros, a entidade nada fez. Pelo contrário, Quando os países desenvolvidos (?) foram atingidos, sob que auspícios, formou-se uma força tarefa militar liderada pela Espanha e a França? Da ONU.

Não é a toa que a nef vem se preocupando cada vez mais com a depleção das áreas de pesca. Recentes e importantes trabalhos da fundação tratam do assunto. Destaco um, pois reforça e explica o que vem acontecendo na Somália e em outros países africanos.

O estudo Fish dependence – 2011 update mostra que “os europeus estão consumindo muito mais peixes do que os seus oceanos podem produzir, tornando-se cada vez mais dependentes da pesca em outras áreas. Se a Europa consumisse somente de suas águas não teria mais peixe a partir de 2 de julho de cada ano, ficando, a partir daí, totalmente dependente de peixe de outras fontes”.

Mas, a questão é global. A conclusão do sumário Scientific facts on fisheries produzido pela GreenFacts em colaboração com o Departamento de Pesca e Aquicultura da FAO, a partir do relatório World review of fisheries and aquaculture retratando a situação ao final de 2008, é dramática: “Cerca de três quartos dos estoques marinhos monitorados em todo o mundo estão totalmente explorados, super explorados ou esgotados. Em consequência, a indicação é que não há potencial para aumento da produção marinha e que o estado corrente dos peixes e de seus ecossistemas deixam pouco espaço para adiamento de ações para o melhor gerenciamento dos estoques de peixes que já deveriam ter sido tomadas nas últimas três décadas”.

E o Brasil não escapa desta realidade. O artigo Pesca no Brasil e seus aspectos institucionais – um registro para o futuro de José Dias Neto publicado na Revista CEPSUL – Biodiversidade e Conservação Marinha em janeiro de 2010 e no Blog do Axel Grael traz além de um resumo da situação mundial uma detalhada análise da crise da pesca no Brasil.

É, estamos diante de mais uma claríssima demonstração de que o crescimento exponencial é inviável e que tem consequências explosivas social e ambientalmente.

Termino sugerindo que você, leitor, participe da pesquisa relacionada ao tema, no post que se segue.

1º Ano

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'Construção' photo (c) 2008, nandinhazinha - license: http://creativecommons.org/licenses/by/2.0/Na última 5ª feira completou-se 1 ano desde o lançamento deste blog. Com um número crescente de acessos semanais, atualmente 600, alcançou 12 mil no total.

O blog é inteiramente dedicado à causa da Nova Economia. A sua grande referência foi e continua sendo a nef, the new economics foundation, que é, a meu ver, o principal centro de estudos sobre o assunto. É espantosa a alta qualidade e a quantidade de estudos e atividades desenvolvidas pela fundação.

A Nova Economia tem uma mensagem relativamente simples: voltar a capacidade produtiva da humanidade para seu próprio benefício, reduzindo a desigualdade social, preservando o meio ambiente e buscando o bem estar. Difícil é implementá-la, pois as resistências são enormes e variadas. É verdade que a crise, que vem desde 2008, com fortes efeitos em todo o mundo, trouxe um novo impulso para que a mudança se imponha.

No Brasil, especificamente, frente às enormes carências de grande parcela da população, é mais difícil escapar da lógica do “crescimento econômico” como meio para resolver os problemas, apesar dele ser, de fato, a sua causa. Mas, cedo ou tarde, é inevitável que por aqui também, o movimento se afirme.

Enfim, difícil ou não, a causa me entusiasma, torna leve o trabalho e faz desta uma marcante experiência de vida.

De todos os posts, dois foram, para mim, especiais. Um, Do Ambientalismo para a Nova Economia focado numa brilhante palestra de Gus Speth (preso recentemente por protestar em frente da Casa Branca) e que mostra a necessidade de entendimento e ação conjunta de todos os que militam em áreas afins. O outro, A democracia sobreviverá?, foi o 1º post de outro autor neste blog, uma transcrição de artigo publicado por Elimar do Nascimento e que faz um preciso e inovador diagnóstico da democracia por representação.

Foram ao todo 45 posts, além de pesquisas semanais, das notícias e textos “Em destaque” e de citações em “Você concorda?”. O que mais me surpreende e agrada, apesar de não ter sido fácil entender isto antes de decidir-me a lança-lo, é que o blog está sempre em elaboração, mutação, melhoria, mesmo conservando sua concepção original. E que é com o passar do tempo e publicação de posts que ele vai ganhando consistência e qualidade.

A criação da central de comentários foi uma destas mudanças, permitindo a troca de ideias independentemente do tema de um post ou da publicação de um novo. Ela começa a ser usada e espero que se afirme ao longo do próximo ano.

A criação da página de notícias permitiu a informação diária de links para notícias e textos que possam interessar o leitor e que sejam relevantes para a Nova Economia.

A reindexação do conteúdo nos tópicos “por que”, “o que” e “como”, e seus sub tópicos foi outra mudança importante, que, aliás, ainda está em processo à medida que procuro caracterizar os principais aspectos envolvendo a Nova Economia.

Tornar-se um apoio para o CASSE (Centro para o avanço da economia em equilíbrio) no Rio de Janeiro foi outro acontecimento importante no período. A partir daí seguiu-se a preparação, divulgação e coleta de assinaturas para versão brasileira de sua declaração de princípios e a troca de ideias com colaboradores do centro. 

Bem, vamos em frente. A causa vale a pena.

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A Rio +20. É possível

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Apesar das considerações trazidas no último post apontando para as dificuldades resultantes da persistente reação dos interesses constituídos às inadiáveis mudanças, acredito que é possível que a cúpula de 2012 traga importantes e inesperados resultados.

Vale lembrar que 20 anos atrás, a conferência de então enfrentou muitas resistências. Um bom exemplo é o do presidente americano (Bush, pai) que compareceu em decisão de última hora pressionado pelo impacto negativo de sua atitude. Mesmo assim, a conferência extrapolou seus limites, produziu documentos marcantes e foi, como mencionei em post anterior (A Rio +20. Decisiva?) a origem de 2 vertentes, cada uma com inúmeros desdobramentos, uma delas desembocando agora na Rio +20.

O mesmo deve se repetir e com impacto multiplicado.

De 1992 para cá as entidades civis expandiram-se enormemente em número, força e atuação. O Greenpeace, a WWF, a Fundação Onda Azul e o Fórum Social Mundial são apenas exemplos deste fenômeno que abrange não só a causa ambiental como a social. Assim, é de se prever, que a forte ação de ONGs havida em 1992 se reproduza amplificadamente. Os sinais disto já são visíveis. Alguns exemplos:

Cerca de 150 entidades de 27 países constituíram a Cúpula dos Povos da Rio+20 por Justiça Social e Ambiental para acompanhar os eventos preparatórios e funcionar paralelamente à conferência, denunciando o “mito da economia verde”.

A ISEEThe International Society for Ecological Economics fará sua 12ª conferência bianual de 29 de maio a 1 de junho de 2012 no Rio de Janeiro com o objetivo explícito de influenciar a Rio +20. A Sociedade Brasileira de Economia Ecológica (ECOECO), afiliada à ISEE promove o seu IX Encontro Nacional de 4 a 8 de outubro de 2011, preparatório para a conferência da ISEE.

O “World Symposium on Sustainable Development at Universities” e que visa refletir e trazer a contribuição de universidades de todo o mundo para a Rio +20, ocorrerá no Rio de janeiro paralelamente ao evento.

Curiosamente, apesar da tese da economia verde, como mostrei em post anterior (A economia verde. Ilusão?), não sobreviver à cúpula de 2012, mesmo com os interesses econômicos favoráveis em jogo, as duas vertentes devem voltar a convergir e é possível que a conferência, da mesma forma que em 1992, extrapole os seus limites e venha a ser o início de uma ação com efeito global produzindo um acordo climático mandatório e uma diretriz que comece a colocar a força produtiva a serviço do equilíbrio social e do bem estar, e, de passagem, resolva a parafernália de organizações e eventos que foram surgindo desde 1992.

Em algum momento a força dos fatos irá se impor. Aliás, uma versão simplificada de uma citação de Keynes expressa isto bem: “quando os fatos mudam, eu mudo de ideia. E você?” A conferência pode ser o gatilho da mudança, justificando o esforço da diplomacia brasileira pelo sucesso do evento.

Termino sugerindo que você participe da pesquisa relacionada ao tema.

A Rio +20 já fracassou?

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Volto a tratar da Rio +20 neste e no próximo post após desvio provocado pela nova onda da “grande recessão” que, aliás, passou a ser considerada por muitos como a 2ª “grande contração” explicitando a gravidade da conjuntura econômica atual.

Antes, note que o blog tem agora uma central de comentários e que fiz também alterações visando deixar claro o “por que” uma Nova Economia é necessária, o “que é” preciso mudar para que ocorra e “como” tal mudança pode ocorrer. Em posts após este e o próximo pretendo detalhar e explicar estes tópicos.

Bem, vamos ao tema de hoje. O título do post é uma pergunta que pode parecer precipitada pois a conferência só irá ocorrer em junho do próximo ano. Mas, não, porque está centrada em uma proposta que, muitos pensam, conforme analisei no post (A economia verde. Ilusão?) nunca foi viável. Explico.

Os temas da conferência Rio+20 são:

  • A economia verde no contexto do desenvolvimento sustentável e erradicação da pobreza.
  • A base institucional para o desenvolvimento sustentável.

O primeiro tema já indica a tentativa de dar uma roupagem de “economia verde” ao desenvolvimento sustentável e de incluir naquela a erradicação da pobreza. Evidentemente, isto vem da força dos interesses econômicos que tentam preservar a ideologia do crescimento econômico. Em vão, como vimos.

A razão do segundo tema, dita pela própria ONU, é superar “a proliferação de acordos ambientais multilaterais e a fragmentação de instituições para este mesmo fim”. É a burocracia lutando contra a burocracia.

Vale lembrar que o desenvolvimento sustentável propõe-se a ser um que garanta às gerações futuras os bens naturais existentes seja pela preservação seja por reposição. Como já ficou claro que isto requer, entre outras providências, a substituição da energia fóssil pelas de baixo carbono, ele evoluiu para a economia verde. Esta, além de propor a substituição das fontes energéticas, defende a tese de que ao fazê-lo e com o uso intenso de novas tecnologias haverá um descasamento cada vez maior entre a quantidade de insumos materiais e o aumento do produto, o que permite, nesta visão, crescimento econômico com preservação ambiental e maior justiça social.

Se já não bastasse, espera-se ainda na conferência, como dito, que a “economia verde” contenha os ingredientes para a erradicação da pobreza. Isto, mesmo tendo como pano de fundo a previsão populacional divulgada pela própria ONU e as recentes conclusões do painel de mudanças climáticas da mesma ONU evidenciando o acirramento da crise ambiental e social. A saber.

A ONU prevê que a população do mundo somente estabilize em 2100 alcançando cerca de 10 bilhões de pessoas, a partir das hoje 7 bilhões de pessoas e chegando a 9,3 bilhões em meados do século. O terrível é que o aumento vem de países com alta taxa de fertilidade e pobreza: 39 da africa, 9 da Asia, 6 da Oceania e 4 da América Latina.

O IPCC – Painel de Mudanças Climáticas da ONU, em sua última estimativa mostra que para conter o aumento da temperatura global à faixa de 2.0 a 2.4 graus centigrados será necessário haver uma redução até 2050 entre 50 e 85% nas emissões relativamente ao ano 2000. Neste caso o pico das emissões ocorreria no máximo até 2015. À medida que o mundo for se distanciando deste objetivo o aumento da temperatura vai se tornando mais intenso podendo no pior caso chegar um valor entre 4,9 e 6,4 graus centigrados, e com ele, mais e piores catástrofes naturais.

Em 2010, segundo a AIE o mundo emitiu 30,6 giga toneladas de CO2 o que significa um aumento de cerca de 40% em relação a 1990 e 30% em relação ao ano 2000.

Alguma esperança vem da estimativa do IPCC divulgada em junho último de que é possível alcançar em 2050, 77% de uso de fontes renováveis de energia. Isto, partindo-se de 12,9% em 2008. Mas, mostra, infelizmente, que o pior cenário possível é um aumento para apenas 15% em 2050.

Termino sugerindo que você participe da pesquisa relacionada ao tema.

A economia verde. Ilusão?

1) Para ler notícias relacionadas à Nova Economia, acesse o link à direita.
2) A Pesquisa da Semana é sobre o tema tratado no post e está apresentada em seguida a ele.

'Green Economy resized' photo (c) 2011, Philippe Put - license: http://creativecommons.org/licenses/by/2.0/

Como ressaltei no último post, em junho de 2012 ocorrerá no Rio de Janeiro uma nova conferência de cúpula da ONU centrada no que tem se chamado de economia verde. Convém pois, antes de descrever em mais detalhe o encontro e comentar suas propostas e possibilidades, analisar o seu tema principal. A UNEP define a economia verde “como sendo aquela que resulta em aumento do bem estar e justiça social, e ao mesmo tempo reduz significantemente os riscos ambientais e a escassez ecológica. Em sua expressão simples, pode ser pensada como uma de baixo carbono, eficiente no uso de recursos e inclusiva socialmente”.

Desconsiderando uma certa imprecisão, a semelhança com as propostas por uma Nova Economia logo desaparece, pois, continua: “em termos práticos, a economia verde é uma onde o crescimento e o emprego são movidos por investimentos públicos e privados que reduzem a emissão de carbono e a poluição, aumenta a eficiência energética e de uso dos recursos e evita a perda na biodiversidade e nos serviços do ecossistema”. Ou seja, quer dirigir a onda verde para que ao invés de colidir promova e dê continuidade ao crescimento econômico como objetivo maior para a humanidade. Muito mais do que sobrevida ao desenvolvimento sustentável, a economia verde é uma proposta para “fazer do limão uma limonada” transformando a inadiável transição para o baixo carbono num novo motor do crescimento econômico, superando os impasses da grande recessão em curso.

O passe de mágica da proposta de uma economia verde está na ideia de que “o descolamento relativo” entre a quantidade produzida e o uso de recursos supere os limites naturais cada vez mais evidentes do crescimento econômico.

O “decoupling” realmente ocorre, por força principalmente do avanço tecnológico. Por exemplo, Por 25 anos, até 2006, o CO2 emitido no mundo por uso de energias fósseis caiu de pouco mais de um quilo para 770 gramas por unidade do PIB medido em dólares. Mas, o que realmente importa são os valores absolutos.

Leitor, veja a gravidade da situação. O recomendável é que a humanidade alcance uma redução de 50% nas emissões até 2050, relativamente à 1990. Isto para limitar o aquecimento global a 2º minimizando os riscos de calamidades. Mas, caminhou em sentido contrário. Hoje, em termos absolutos, as emissões globais oriundas do uso de energias fósseis já são 40% superiores às de 1990.

Aprofundando a questão, lembro, conforme o post “Dúvidas sobre a declaração do CASSE” que princípios consolidados da física e da ecologia sustentam a obviedade dos limites ao crescimento econômico. Dentre eles, as duas primeiras leis da termodinâmica, o conceito de nível trófico (cadeia alimentar) e o da exclusão competitiva. Não há como esperar que o “decoupling” evite mais e mais uso de recursos naturais.

Além disto, há a possibilidade, muito bem apresentada no artigo “O grande embaraço da Rio – 2012” de José Eli da Veiga, “da poupança obtida com aumento de eficiência energética ser empregada no consumo de outros bens e serviços com custos energéticos que podem até provocar um jogo de soma zero, situação descrita como “tiro pela culatra”. Basta pensar, por exemplo, em uma economia feita com a aquisição de um carro flex que viabilize a compra de mais uma viagem aérea”.

Bem, fica assim claro que a “economia verde” mesmo com o “descasamento” não é solução.

Interessante é que a economia verde parece estar se dividindo em duas correntes. Uma centrada na transição para o baixo carbono e outra com grande identidade com as propostas por uma Nova Economia. O belo, amplo e profundo trabalho patrocinado pela Conservação Internacional Brasil publicado no número 8 de sua revista eletrônica “Política Ambiental” mostra isto. São 18 artigos de especialistas de diversos setores da sociedade sobre alternativas econômicas e sociais rumo a uma economia de baixo carbono, mais inclusiva e sustentável.

Termino sugerindo que você participe da pesquisa relacionada ao tema.

A Rio +20. Decisiva?

1)  Para ler notícias relacionadas à Nova Economia, acesse o link à direita.
2) A Pesquisa da Semana é sobre o tema tratado no post e está apresentada em seguida a ele.

A conferência de Cúpula da ONU Rio+20 realiza-se de 4 a 6 de junho de 2012. (O evento foi transferido para 20 a 22 de junho, parte do esforço do governo brasileiro de tentar garantir a presença dos chefes de estado ou de governo dos principais países. Durante a 2ª quinzena de junho ocorrerão importantes eventos paralelos, em especial os promovidos pela sociedade civil).  É +20 pois decorre da Cúpula da Terra de 1992 também realizada na cidade.

Da Cúpula da Terra participaram 172 países, 108 dos quais liderados por seus chefes de estado ou de governo. Dentre estes últimos, os mais expressivos em termos econômicos. Contou ainda com a presença de 2.400 representantes de Organizações Não Governamentais e deu voz ao Fórum das ONGs, evento paralelo do qual participaram 17.000 pessoas. Ao longo de quase duas semanas cerca de 10.000 jornalistas credenciados foram os porta-vozes da mensagem que despertou o mundo para a importância do desenvolvimento sustentável.

A Agenda 21, a declaração do Rio sobre desenvolvimento e meio ambiente, a formalização dos Princípios das Florestas, a convenção sobre mudança climática e a convenção sobre a diversidade biológica, todos, resultaram do evento.

A Cúpula da Terra influenciou decisivamente todas as conferências subsequentes da ONU relacionadas a assuntos como direitos humanos, população, desenvolvimento social, valorização da mulher e da criança e o desenvolvimento ambiental sustentável.

Dela derivaram duas vertentes, uma voltada para a questão climática e outra voltada para o desenvolvimento sustentável.

O protocolo de Kyoto, o roteiro de Bali, a conferência de Cancún e a próxima conferência em Durban, Africa do Sul, em dezembro são expressões da 1ª vertente. Em Kyoto, em 1997, pela 1ª vez firmou-se um compromisso obrigatório de redução de 5% (em relação aos níveis de 1990) das emissões por 37 países mais desenvolvidos além dos 15, na época, países membros da comunidade europeia, a iniciar-se em 2005 e com duração até 2012. Ressalto que os EUA assinaram mas até hoje não ratificaram o acordo e nada indica que venha a fazê-lo ou mesmo que venha a concordar com sua renovação, mesmo que incluídos os demais países, especialmente a China.

Note ainda que, ao contrário do acordado, os países desenvolvidos aumentaram as emissões de 1990 até 2010 em cerca de 30%, conforme a Agéncia Internacional de Energia.

A 2ª vertente, teve vários desdobramentos e desemboca, agora, na Rio +20. O plano de implementação de Johannesburg, de 2002 e o documento resultante da cúpula mundial de 2005 com a consequente criação do Conselho Econômico e Social (ECOSOC) são as suas manifestações mais importantes.

Bem, espera-se que na conferência de 2012 repita-se a presença massiva de chefes de estado e de governo e que haja uma movimentação ainda maior do que na de 1992, dada a gravidade do quadro ambiental e social. Se produzirá resultados, são “outros quinhentos”, questão a ser abordada em próximo post.

Termino sugerindo que você participe da pesquisa relacionada ao tema.

Decrescimento – qual a consistência?

1) Para ler notícias relacionadas à Nova Economia, acesse o link à direita.
2) A Pesquisa da Semana é sobre o tema tratado no post e está apresentada em seguida a ele.

'qual é a dúvida?' photo (c) 2007, Diego Dacal - license: http://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0/

O título deste post, peguei “emprestado” do trabalho “Décroissance: Qual a consistência?” de Elimar do Nascimento e Gisella Colares apresentado no VIII Encontro da Sociedade Brasileira de Economia Ecológica em 2009, e que é uma excelente fonte para um aprofundamento das questões propostas pelo decrescimento, objeto do último post. Ele é a fonte também da citação e resumo transcritos no texto a seguir. Para uma visão geral do trabalho, veja os slides da apresentação feita no encontro.

O leitor encontrará também, no blog, 2 links de sites que se dedicam ao assunto e que contém excelentes informações, indicações de outros sites e bibliografia.

Dito isto, passo aos meus comentários sobre o assunto.

O mais importante é que o movimento pelo decrescimento tem uma abordagem de convivência e diálogo com as obras, autores e outros movimentos que tratam da mesma temática, e que não se vê como detentor exclusivo da visão crítica do papel do crescimento econômico. E isto é muito bom, pois é juntando forças, como diz bem Gus Speth (do Ambientalismo à Nova Economia) que os movimentos ambientalistas, por uma Nova Economia, por uma Economia em Equilíbrio, Decrescimento e outros similares poderão antecipar e viabilizar as mudanças e com isto abreviar o sofrimento, especialmente o das populações carentes.

Um segundo comentário é sobre o nome. Citando Serge Latouche: “…o decrescimento não é um conceito, no sentido tradicional do termo, e que não seria o caso de falar propriamente de “teoria do decrescimento” como os economistas souberam elaborar as teorias do crescimento. O decrescimento é simplesmente um slogan, lançado por aqueles que procedem a uma crítica radical do desenvolvimento a fim de quebrar a rigidez economicista e de desenhar um projeto de reserva para uma política de pós-desenvolvimento”. O termo decrescimento, parece-me pois, é usado para expressar o rompimento com a ideologia do crescimento econômico a qualquer custo.

 Finalmente, ressalto a quase completa afinidade do decrescimento com o movimento pela Nova Economia, o por uma Economia em Equilíbrio e outros. Basta comparar a proposta dos oito erres, de autoria de Latouche, apresentadas resumidamente a seguir, com a “declaração do CASSE” e o documento “The Great Transition” da nef:

“1. Reduzir o consumo em geral, e com isso a produção, afinal é possível viver melhor com menos, pois grande parte de nosso consumo é induzido e pouca relação tem com nossas mais profundas necessidades;

2. Reciclar os produtos existentes para dispensar a produção de novos, criando a cultura da conservação e do reaproveitamento ao invés do descarte;

3. Reutilizar o que já existe de forma inteligente economizando recursos naturais e energia;

4. Reavaliar os nossos consumos, os nossos hábitos, os nossos procedimentos que são na maioria das vezes degradadores da natureza;

5. Reconceituar a nossa vida, o nosso consumo, as nossas relações e vínculos sociais para uma direção mais saudável;

6. Reestruturar, ou seja, adaptar as estruturas econômicas e as instituições políticas e sociais aos novos objetivos de uma sociedade convivial;

7. Redistribuir melhor os bens existentes, incluindo a participação nos processos decisórios, portanto, uma redistribuição econômica, mas também política, cultura e social;

8. Relocalizar a produção, o trabalho, a moradia para que o “não transporte” possa ser disseminado, para que os transportes de mercadorias sejam reduzidos, assim como o de pessoas;”

Termino sugerindo que você participe da pesquisa relacionada ao tema, no post que se segue.

Decrescimento

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2) A Pesquisa da Semana é sobre o tema tratado no post e está apresentada em seguida a ele.

Na Europa, em especial na França e na Espanha, o movimento pelo “decrescimento” vem defendendo ideias que têm muita afinidade com as da Nova Economia. Por isto, convidei Edson Franco, economista e co-moderador da lista brasileira sobre o decrescimento para fazer uma apresentação do tema.

Edson Franco

O avanço da ciência e da técnica tem trazido benefícios para as populações, mas também vários problemas de ordem econômica, política, ambiental e social. O decrescimento é uma proposta para resolver esses problemas de forma profunda e eficaz.

O decrescimento é uma evolução conceitual do pensamento de críticos à modernização de nossas sociedades. Dentre muitos, vale destacar, já no início da década de 60, Ivan Illich (pensador austríaco) e Rachel Carson (bióloga estadunidense) que alertaram para os efeitos negativos da economia contemporânea, Ernst Schumacher, autor do livro “Small is beautiful” lançado em 1973 e Nicholas Georgescu Roegen, que em estudo de 1971 inovou ao utilizar as leis da termodinâmica para demonstrar a limitação do crescimento econômico.

A proposta formal do decrescimento econômico veio a ser lançada somente três décadas depois, mais precisamente em novembro de 2003, através do artigo “Pour une société de décroissance” no jornal “Le monde diplomatique” escrito por Serge Latouche. A ideia ganhou força e conta desde então com a contribuição teórica de Latouche e vários outros pensadores.

Bem a proposito, o simbolo do decrescimento é o caracol, adotando um exemplo trazido por Ivan Illich. O caracol constrói espirais cada vez maiores até bruscamente começar a fazer voltas cada vez menores. Se continuasse crescendo, em apenas uma volta sua concha seria 16 vezes maior inviabilizando sua existência.

'Caracol sobre hoja' photo (c) 2007, Enrique Dans - license: http://creativecommons.org/licenses/by/2.0/É importante destacar que o decrescimento nada tem a ver com o conceito de desenvolvimento sustentável. O decrescimento alerta que não é possível um crescimento infinito num planeta finito. A escassez de recursos naturais e energia, entre outros, faz com que o paradigma do crescimento infinito tenha que ser superado com urgência. Por isso, defender o desenvolvimento sustentável é ludibriar-se.

Uma outra forma de abordar tal limitação ambiental é através da “pegada ecológica” que expressa a quantidade de terra e água necessária para sustentar uma determinada população tendo em vista todos os recursos materiais e energéticos gastos por essas mesma população. A pegada ecológica da humanidade alcançou tamanhos alarmantes. Segundo a WWF, o aumento do consumo dos países subdesenvolvidos, aos índices de consumo dos EUA, representaria a necessidade de outros 6 planetas Terra.

Isso aponta para mais um problema: a superpopulação. E, dados recentes divulgados pela ONU prevendo que a população total da terra em 2100 será de 10,1 bilhões de pessoas mostram que ficará ainda mais agudo. Falta de alimento, água e trabalho, e piora ainda maior na qualidade de vida, violência urbana e desigualdade social são algumas das consequências do quadro demográfico.

Para resolver estes e outros problemas, o decrescimento econômico propõe a diminuição das atividades econômicas: menos produção de bens comerciáveis, menos deslocamentos, menos quantidade de horas trabalhadas, menos poluição e desmatamento. O decrescimento enxerga no menos, o mais, e propõe que as pessoas retirem do seu imaginário o crescimento econômico como um valor inquestionável.

Bem, no próximo post apresentarei mais informações e comentários a respeito.

Termino sugerindo que você participe da pesquisa relacionada ao tema, no post que se segue.

Simplesmente, uma loucura

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Equilibriophoto © 2007 Toni Castillo Quero | more info (via: Wylio)

Bem, o professor Mountebank está em intensa atividade. Divirta-se lendo a entrevista que ele acaba de conceder ao pessoal do CASSE.

Na entrevista ele analisa o artigo “Simply madness” publicado na “National Review” e escrito por Jonah Goldberg no dia 10 de junho último. Este sim, convém levar a sério pois retrata as principais críticas à Economia em Equilíbrio e típicas da parcela conservadora da sociedade americana.

O Artigo começa com uma grotesca negação da bela frase atribuída a Gandhi: “Viva simplesmente para que os outros possam simplesmente viver”, dizendo que a simplicidade não vai resolver os problemas americanos, mas que o crescimento econômico, sim.

E vai daí para pior.

Vou me deter em uma das críticas apontadas na parte que se segue do artigo. As demais, deixo para os leitores a diversão de responder. Vale consultar para isto a seção “Mitos e realidade” no site do CASSE.

Ele compara o estado de equilíbrio com a parte reta e horizontal da curva de um eletrocardiograma. Ou seja, com a morte, que segundo ele é o mais equilibrado de todos os estados. Como diz o José Eli em recentes artigos, nada mais tosco.

Explico. O equilíbrio se dá quando cessam os efeitos transientes de um fenômeno, mas é dinâmico, aspecto aliás muito bem posto, em relação à economia, no livro “The New Economics“. Em outras palavras, equilíbrio é movimento após superadas as ocorrências transitórias.

O oceano, por exemplo, está em equilíbrio (quando não ocorrem tsunamis) mas em permanente movimento. Até nos casos estacionários, o estado é apenas aparente. Por exemplo, quando um objeto é dito em órbita estacionária é porque ele está fixo apenas em relação a um planeta de referência.

Os exemplos confirmam a noção que vale para qualquer fenômeno de que no equilíbrio contínua havendo movimento mas já cessaram os efeitos transitórios.

E, é evidente, o crescimento econômico é característico de uma época e será entendido como um efeito transiente na historia da evolução da capacidade produtiva da humanidade.

Termino sugerindo que você participe da pesquisa relacionada ao tema, no post que se segue.

Os pobres vão herdar a Terra

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Metáfora Guerra Preventivaphoto © 2009 Amio Cajander | more info (via: Wylio)

O post da semana passada Pobreza Extrema: apenas uma questão de renda? gerou um interesse muito grande. Em um só dia foram 152 acessos. E diversos comentários ao longo da semana. Continuo no tópico, agora com uma abordagem global.

“Hoje, 4 das 7 maiores economias são países em desenvolvimento: China, Índia, Rússia e Brasil. 30 anos de crescimento anual de 10% transformaram a China de uma economia pobre e agrária num gigante industrial e 2ª economia em tamanho do mundo”. “E nós prevemos que já na próxima geração, o Japão e a Alemanha sairão da lista e os EUA serão o único país desenvolvido a constar da lista dos 7 maiores”.

São dados apresentados no artigo “The Poor Will Inherit the Earth” de Uri Dadush e William Shaw publicado no último dia 20 no site do “The Carnegie Endowment for International Peace“. E o artigo aprofunda-se, citando que:

“Paradoxalmente, as novas potencias devem manter-se relativamente pobres. O PIB chines em torno de 2035 ultrapassará o dos EUA, mas a renda per capita será apenas a metade. A economia da Índia, a terceira então, será 3 vezes maior do que a japonesa, mas com renda per capita quatro vezes menor”.

É a visão de um mundo onde as nações pobres têm cada vez mais influência, e que reforça, sob uma outra perspectiva, o diagnóstico da necessidade de uma Nova Economia.

De um lado, a divisão internacional do poder terá que, inevitavelmente, acompanhar esta nova realidade, o que traz um enorme risco de conflitos graves, dado que, com o seu poderio militar desproporcional, dificilmente os EUA cederão espaço sem luta.

De outro, e tão preocupante quanto, os habitantes destas nações emergentes estarão ávidos pelos bens e serviços aos quais grande parte das populações dos países desenvolvidos se acostumaram. Como isto é inviável, a acomodação será ainda mais dura, pois todos terão que se mover na direção do equilíbrio econômico de forma a preservar o meio ambiente e buscar justiça social. E, junto com o equilíbrio, vem a afirmação do bem estar como valor maior a ser perseguido.

Felizmente, nesta visão, é remota a possibilidade de persistirem grandes áreas de exclusão social, devido à forte presença econômica destes que estão herdando (ou conquistando) a terra.

É uma Nova Economia que está sendo forjada, mas que não é inevitável, e que, portanto, depende da luta por ela por todos nós e desde agora.

Termino sugerindo que você participe da pesquisa relacionada ao tema, no post que se segue.

Mountebank é o novo Nobel

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O post de hoje traz um pouco de ironia e humor. É uma tradução, feita por mim e revista por Fernando Goulart, diretor do CASSE, de um texto postado recentemente pelo diretor executivo do CASSE, Rob Dietz, no site da organização: “Mountebank Wins Nobel for Infinite Planet Theory“. Vamos a ele:

Rob Dietz

 Poucas pessoas leram os densos volumes publicados pelo economista Milton Mountebank, mas sua obra afetou a você, a mim e a cada pessoa do planeta. O Dr. Mountebank revolucionou o pensamento econômico e agora vê seus singulares esforços recompensados. Numa recepção de gala em Estocolmo, Suécia, o presidente do Banco Central da Suécia, Peter Norborg, entregou ao Dr. Mountebank o premio Nobel de economia por sua vida de trabalho dedicada à teoria do planeta infinito.

Na entrega do premio o Sr. Norborg declarou: “O Dr. Mountebank demonstrou imaginação e criatividade além do que uma mente racional possa compreender”. De fato, é devido à suas teorias que nós todos fazemos o que fazemos em termos econômicos. As nações batalham pelo crescimento continuo do GDP e expansão sem fim do consumo graças à teoria do planeta infinito. O Sr. Norborg continuou dizendo: “Todos os bancos, incluindo o Banco Central da Suécia, devemos muito a ele. Nós financiamos a expansão econômica. Nossas ações e decisões seriam moralmente suspeitas caso vivêssemos num planeta finito”.

Dr. Mountebank (foto de Derrick Tyson)

Num momento de descontração durante sua apresentação, o Sr. Norborg afirmou que o Dr. Mountebank é responsável por um benefício ainda maior para a humanidade ao reduzir o estresse dos indivíduos. Melhor do que tudo, ele disse: “É que nos podemos extrair, consumir e digerir recursos, sem culpa. As restrições planetárias foram conquistadas. Elas foram-se da mesma forma que se foram os drontes, o império romano e as principais áreas de pesca”.

Apesar dos livros do Dr. Mountebank não terem atingido grande audiência, seu trabalho teve forte influência sobre a elite política e empresarial. Ronald Reagan é um exemplo proeminente. É famosa a citação do Presidente Reagan: “Não há limites para o crescimento e progresso humano quando os homens e as mulheres são livres para irem atrás de seus sonhos”. Esta é aliás a citação com que o Dr. Mountebank fecha sua obra magna: “O infinito e além – O mágico triunfo da economia sobre a física”. Na mesma linha, Phillip van Uppington, ex vice-presidente do Lehman Brothers afirmou que o Dr. Mountebank teve enorme influência em sua empresa: “Nós costumávamos citá-lo a toda a hora. Um dos pontos altos de minha careira foi um simpósio que eu organizei há poucos anos atrás com Mountebank e Milton Friedman. Nós o chamamos de o dia dos dois Miltons. Eles realmente abriram nossas mentes para as possibilidades das inovações financeiras. Uma vez implementadas as doutrinas dos dois Miltons, nós passamos a ter mais receita do que a maioria das pequenas nações”.

Em seu discurso. o Dr. Mountebank contou como ele desenvolveu a teoria do planeta infinito. “Equações, Equações, Equações”, ele disse, “eu as via dançando ao deitar e de manhã, ao acordar, as escrevia. Fiz isto por três anos seguidos até conseguir finalmente juntá-las”. O núcleo da demonstração matemática da viabilidade do crescimento infinito apresentada por Mountebank foi a equação do escamoteamento, uma nebulosa expressão diferencial multivariável que, aceita-se, é entendida por menos do que 4 economistas no mundo. “Esta é a razão pela qual estou hoje neste palco”, disse Mountebank. “Infelizmente a equação é grande demais para caber na tela atrás de mim, mas é a chave para o crescimento econômico infinito. Felizmente, vocês não precisam ser economistas ou estatísticos para usá-la como um guia em seu dia a dia”.

O Dr. Mountebank continuou, segurando um globo em suas mãos e dizendo: “Nós todos reconhecemos que a terra é uma esfera, e da geometria básica, nós todos compreendemos que a esfera não tem principio nem fim. Se você sair em uma direção da superfície da esfera, não haverá ponto de término – é o infinito”. Ele moveu o globo com seus dedos ao redor dele para provar seu ponto. “C.Q.D, Sem fim. E isto significa que o planeta pode ser explorado ilimitadamente para o ganho econômico”.

A teoria do planeta infinito ganhou aceitação quase unanime nos círculos econômicos, mas tem havido algumas vozes críticas. No dia da premiação um pequeno grupo fez um piquete em frente ao Banco Central. Dentre eles, uma carregava um cartaz dizendo “Steady State”. Perguntado por que estava protestando ela disse: “Mountebank? Você não pode estar falando sério. O Nobel deveria ir para Herman Dale”. O Dr. Dale é conhecido pelo seu trabalho sobre os limites do crescimento e a Economia em Equilíbrio, conceitos que se chocam com a teoria do planeta infinito. Aliás, o Clube de Roma subscreveu tal posição ao publicar o seu “best seller “Os limites do crescimento”.

Em seus escritos, contudo, o Dr. Mountebank desconsiderou a noção de limites. Em uma das passagens do “O infinito e além” afirma: “O fim do petróleo barato, a extinção das espécies, a mudança climática, o desmatamento, o esgotamento de recursos, a pobreza extrema, a perda de serviços do ecossistema e a degradação do solo e dos aquíferos – estes são problemas sem importância, desde que continuemos a crescer a economia em direção ao seu último estágio: o infinito e além. Em nenhuma circunstância nós devemos permitir que pensamentos furtivos a respeito de um planeta finito ou restrições advindas das leis da física interfiram na construção de uma economia maior. E certamente, não devemos ouvir os pessimistas contumazes que continuam a perfilar seus fatos vazios sobre o nosso desfile de crescimento. Crescimento, por si só, é o ideal moral e político”.

O Dr. Mountebank encerrou seu discurso com uma nota pessoal, lembrando como a teoria do planeta infinito aplacou os temores de seus netos. “Eles me disseram que estavam com medo do que estava ocorrendo com o meio ambiente. Eu os acariciei e disse para não terem medo. Porque, acima de tudo, não se consegue prejudicar a natureza num planeta infinito. Por definição, há sempre mais”.

O Dr. Mountebank (cujo nome em português seria Dr. Milton Trapaça) já é o oitavo agraciado com o premio Nobel em economia oriundo da “Fantasia University”.

Termino sugerindo que você participe da pesquisa relacionada ao tema, no post que se segue.

Dúvidas sobre a declaração do CASSE

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Recebi e-mails dos leitores e amigos Mario Simas e Benedito Oliveira com questionamentos a respeito da declaração do CASSE. Ao analisá-los percebi que os pontos levantados e as respostas poderiam ser de interesse dos demais leitores, daí este post, que aborda, a seguir, cada um dos pontos mencionados. Ressalto que o artigo mencionado ao final deste post é uma excelente referência para aqueles que desejarem aprofundar-se nas questões.

1) Estão realmente consolidados os princípios da física e da ecologia indicando limites para o crescimento econômico, e quais são eles?

As duas primeiras leis da termodinâmica, o conceito de nível trófico (cadeia alimentar) e o da exclusão competitiva são os princípios cuja aplicação já está bastante consolidada no estudo e configuração da necessidade de uma Nova Economia.

2) É viável esperar que as nações movam-se em comum acordo na direção de uma Economia em Equilíbrio e que as mais ricas aportem recursos para tanto sem afetar a soberania dos demais?

Acredito que não. As nações estão muito longe de aceitarem a tão mencionada governança global. Assim, é previsível supor que será necessário que as catástrofes ambientais, o aumento do consumo per capita e da massa de consumidores e o acirramento da crise social fiquem mais do que evidentes para que os países se vejam forçados a convergirem para um entendimento, isto, se houver tempo.

3) Porque não não é viável esperar que o progresso tecnológico possa vir a amenizar o conflito entre crescimento econômico, ecologia e bem estar, a longo prazo?

As inovações não tem sido usadas para tal fim e não é de se esperar que o venham a ser por estrem intimamente ligadas ao crescimento econômico e dele depender para o seu financiamento.

4) Por que o aumento do consumo per capita é apenas marginalmente afetado pelo aumento da população?

A incorporação anual ao mercado de cerca de 200 milhões de pessoas faz com que parte do que é produzido seja consumido por estes, mas num quadro em que continua havendo crescimento per capita.

5) No cenário de uma Economia em Equilíbrio, terão as nações mais ricas recursos para apoiar as demais, na transição?

É claro que sim, quando estiverem suficientemente aflitas.

6) Por que é adequado manter-se o aumento do consumo per capita como objetivo para as nações que não tenham atingido patamar estabelecido de bem estar?

Para atender as necessidades das populações carentes.

7) E, por fim, uma questão mais ampla: será que a situação vai realmente ficar tão ruim?

O tempo dirá. Além de indicações muito fortes de crise ambiental e social ainda existe o fato de que já é possível ao ser humano conquistar um maior bem estar saindo da “roda viva” do crescimento econômico. Assim, o quanto antes a humanidade puder agir, melhor.

Observo que, buscando melhor expressar o ponto de vista do CASSE, conversei com o seu presidente, Brian Czech, principalmente sobre as respostas às primeira e terceira perguntas. Observo ainda que consultei, ao responder, o artigo por ele escrito e publicado na “Conservation Biology” e que é, ao meu ver, uma das melhores fontes para aprofundar-se o assunto.

Aproveito para mencionar que o site do CASSE está muito bem feito, apresenta os assuntos de maneira leve e bastante completa além de apresentar uma excelente lista de leitura atualizada e por tópicos.

Termino sugerindo que você participe da pesquisa de opinião da semana, apresentada no post que se segue, e relacionada ao tema.

Os Princípios da Declaração do CASSE

Leitor: A Pesquisa da Semana é sobre o tema tratado no post e está apresentada em seguida a ele.

US 1st Lady Eleanor Roosevelt & Declaration, 1949photo © 2010 Blatant World | more info (via: Wylio)

Antes da apresentação dos princípios, em continuação ao post da última 4ª feira, uma nota que mostra que, aos poucos, a ideia de uma Nova Economia está se difundindo e fortalecendo: A importante “National Wildlife Federation“, em 15 de abril deste ano, emitiu uma resolução condenando o uso do PIB como indicador de bem estar econômico e propondo a adoção de indicadores que reflitam mais apropriadamente o bem estar e a preservação ambiental.

A  2ª parte da declaração pública em favor da Economia em Equilíbrio afirma os princípios que norteiam o trabalho do CASSE:

1) Existe um conflito fundamental entre o crescimento econômico e a proteção ambiental (especialmente em relação à conservação da biodiversidade, à proteção da qualidade do ar e da água e à estabilidade atmosférica);

2) Existe um conflito fundamental entre o crescimento econômico e os serviços ambientais que servem de base para a economia e a vida humana (especialmente, a polinização, a decomposição e a regulação do clima);

3) Não é viável esperar que o progresso tecnológico, que tem tido impactos positivos e negativos, possa vir a amenizar o conflito entre crescimento econômico, ecologia e bem estar, a longo prazo;

4) O crescimento econômico medido pelo aumento do PIB é um objetivo cada vez mais perigoso e anacrônico, especialmente para nações ricas e com população majoritariamente afluente;

5) Uma Economia em Equilíbrio (isto é, com pequena variação no nível de consumo per capita) é uma alternativa viável à uma economia em crescimento e já é um objetivo apropriado para as nações mais ricas;

6) A sustentabilidade a longo prazo de uma Economia em Equilíbrio requer que sejam minimizados os riscos tanto ecológicos quanto de atendimento das necessidades da população na ocorrência de fenômenos naturais e acidentes, como secas e falhas de energia;

7) Uma Economia em Equilíbrio não significa abrir mão do desenvolvimento econômico, processo dinâmico e qualitativo apoiado no uso da inovação tecnológica e na mudança da importância relativa dos setores econômicos ao longo do tempo;

8) É necessário que as nações movam-se em comum acordo na direção de uma Economia em Equilíbrio, que o façam no ritmo adequado ao estágio de desenvolvimento de cada uma e que possam contar para tanto com recursos aportados pelas nações mais ricas.

9) O aumento do consumo per capita, com a qualidade e a minimização do desperdício e perdas próprias de uma Economia em Equilíbrio, mantem-se como objetivo adequado para as nações que não tenham atingido patamar estabelecido de bem estar;

Se você concordou com as premissas e agora concorda com os princípios, e achando importante, assine a declaração.

O documento “Enough Is Enough“, resultado de uma conferência promovida pelo CASSE e a organização “Economic Justice for All” em 2010 é uma importante referência sobre o assunto e vai além apresentando passos concretos para a transição. Vou comentá-lo em um dos próximos posts.

Termino sugerindo que você participe da pesquisa de opinião da semana, apresentada no post que se segue, e relacionada ao tema.

As Premissas da Declaração do CASSE

Leitor: A Pesquisa da Semana é sobre o tema tratado no post e está apresentada em seguida a ele.

Abaixo-assinado em Jundiaíphoto © 2010 Milton Jung | more info (via: Wylio)

Bem, antes de entrar no assunto, registro que este blog atingiu ontem a marca de 5.000 acessos de terceiros computados pelo provedor do serviço, o WordPress, em pouco menos de 7 meses. Um resultado que mostra o interesse que o assunto está começando a despertar no Brasil.

O CASSE (centro de estudos e ação em prol da Economia em Equilíbrio) trabalha ativamente para conquistar adesões para sua declaração pública em favor da Economia em Equilíbrio. A declaração está construída em duas partes. A 1ª estabelece algumas premissas e a 2ª os princípios de sua ação.

A ideia de uma declaração vem da necessidade de deixar claro o posicionamento do centro tanto para aqueles que se interessem em aderir à causa quanto para os que por ela trabalham. E, também, por ser um instrumento de mobilização na luta pela mudança.

Até hoje já houve em todo o mundo, cerca de 200 adesões de organizações e 7.200, individuais, muitas, de pessoas de destaque em suas áreas de atuação.

As premissas são:

1) O crescimento econômico como definido pela teoria econômica vigente resulta do aumento da produção e do consumo de bens e serviços;

2) O crescimento econômico provoca, na grande maioria dos casos, o aumento do consumo per capita, o qual, é apenas marginalmente afetado pelo aumento da população;

3) A economia global, por seus setores agrícola, extrativo, industrial e de serviços, requer crescentes insumos materiais e energéticos e gera perdas e desperdício também crescentes;

4) O crescimento econômico é, via de regra, medido pelo aumento do produto interno bruto (PIB) ou do produto nacional bruto (PNB);

5) O crescimento econômico tem sido o objetivo principal e perene da maioria das sociedades e de seus governos;

6) Princípios consolidados da física e da ecologia indicam que existem limites ao crescimento econômico;

7) É crescente a evidência de que o crescimento econômico global tem impactos negativos a longo prazo tanto para a ecologia quanto para o bem estar;

Se você concorda com as premissas, leia o restante da declaração e concordando e achando importante, assine-a. Ou, aguarde o próximo post que descreve a parte final da declaração.

Termino sugerindo que você participe da pesquisa de opinião da semana, apresentada no post que se segue, e relacionada ao tema.

Consumismo, fato ou mito?

Comprasphoto © 2007 Daniel Lobo | more info (via: Wylio)

Será que os afluentes praticam o chamado “consumo desenfreado” adquirindo sem cessar o que não precisam e tendo como principal motivação o status que a posse dos bens lhe dá?

Será que uma vez que as pessoas tenham o suficiente para satisfazer suas necessidades básicas e possam sobreviver com razoável conforto, níveis maiores de consumo tendam a não representar níveis maiores de satisfação ou bem estar?

Será que consome-se não somente para sobreviver e aproveitar a vida, mas para indicar quem se é e qual a respectiva posição no mundo, o que leva a inflar o que se acha que se precisa e o que satisfará as necessidades para muito além do que é realmente necessário para viver bem?

Acredito que não. O que significa dizer que não concordo com os principais conceitos sintetizados no termo “consumismo”. E explico no próximo post.

Tal posição, é claro, não altera minha visão sobre o esgotamento do modelo de crescimento do consumo e a crise aguda que gera para as pessoas, a sociedade e o planeta, aspectos já abordados em vários posts. Sobre isto, leitor, gostaria de contar, além de seus comentários, com a sua resposta  à  pesquisa desta semana e que reflete, de fato, a dúvida de como se dará a inevitável mudança social.

As limitações do PIB como indicador

No sea...photo © 2007 Marina Carvalho | more info (via: Wylio)

 

Há tempos questionei o uso do PIB em comentário a um artigo do Carlos Alberto Sardenberg intitulado “Porque não crescer 10%” e publicado no O Globo. Recebi do autor a seguinte resposta: “Dizia John Kennedy: quando a maré sobe, leva todos os barcos”. É provável que Kennedy tenha feito tal afirmativa em outro contexto, mas, usando a metáfora da maré e os números que mostrei no último post, ao subir a maré, se o “navio” do crescimento econômico chegar a 16 nós, o “navio” da redução da pobreza extrema estará a apenas 0,6 nós. Ora, como a velocidade do comboio é a do navio mais lento, o que ocorre é o abandono deste navio mais lento. Nem abandono, de fato, já que dele nunca fez parte.

Aliás, o irmão, Robert Kennedy, em palestra na Universidade do Kansas em 18 de março de 1968, durante campanha eleitoral, fez uma brilhante síntese das limitações do indicador:

“O Produto Nacional Bruto contabiliza a poluição atmosférica e a publicidade de cigarros. E as ambulâncias para remover os feridos em auto estradas. Considera as fechaduras especiais para as nossas portas e as prisões para as pessoas que as arrombam … Conta a destruição das florestas e a perda, que se espalha caoticamente, de nossas belezas naturais. Ao mesmo tempo, o PNB não leva em conta a saúde de nossas crianças, a qualidade de sua educação e a alegria de suas brincadeiras. Não inclui a beleza de nossa poesia ou a solidez de nossos casamentos, a inteligência de nossos debates públicos ou a integridade de nossos homens públicos … Mede tudo, em resumo, menos aquilo que faz com que a vida valha a pena”.

Mais recentemente, o jornalista Jon Gertner no belo e completo artigo “The Rise and Fall of the GDP” publicado no New York Times de 10 de maio 2010, faz uma divertida comparação entre duas pessoas: Uma, chamada de “Alto PNB” e outra, chamada de “Baixo PNB”. A primeira usa um carro de alto consumo e leva duas horas para chegar ou voltar do trabalho, isto lhe causa “stress” e problemas de saúde, e por aí vai o autor descrevendo a dura vida deste personagem. O outro, caminha para o trabalho, produz uma parte e prepara sua própria comida, e por aí vai o autor, salientando detalhes de um outro tipo de vida. Os hábitos do primeiro são a matéria prima do crescimento econômico, e os do segundo, o caminho para a recessão. Estranho, não?

Nas duas citações acima, parece-me que salta aos olhos a questão da qualidade da medida, a saber, o que está e o que não está sendo medido, muito mais do que como a medida é feita. O desperdício, por exemplo, não é medido nem entra negativamente na contabilização. Em consequência, se a sociedade se mobilizar para reduzir a perda de energia, de alimentos e de bens e serviços em geral, estará contribuindo para a redução do PIB e de empregos.

Este exemplo do desperdício mostra que crescimento econômico só faz sentido quando gera riqueza real. E mesmo assim, vale lembrar, ele está inevitavelmente limitado, conforme mostrado em posts anteriores, pelas imposições ambientais, pelo chamado “pico das energias intensas em carbono” e pelos conflitos sociais, dada a impossibilidade de oferecer a todos padrão de vida similar ao das classes mais favorecidas.

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