Por que, o que, como?

  1. Utilize a central de comentários para as suas críticas, sugestões e observações. Mais do que bem vindos, os seus comentários ajudam a melhorar e aprofundar o conteúdo deste blog.
  2. Para ler notícias relacionadas à Nova Economia, acesse o link à direita.
  3. A Pesquisa da Semana é sobre o tema tratado no post e está apresentada em seguida a ele.

'Postal' photo (c) 2011, Isaac  AraGuim - license: http://creativecommons.org/licenses/by/2.0/Bem, conforme prometido, explico hoje as recentes alterações que fiz no blog e que tornam explícitos os tópicos “por que” uma Nova Economia é necessária e “o que” e “como” fazer para para suavizar e acelerar a transição.

Evidentemente, os posts já publicados trataram, direta ou indiretamente, de um ou mais destes aspectos. O que procurei com este novo enfoque foi tornar mais clara e direta a caracterização e o que me parece ser o melhor caminho para chegarmos a uma Nova Economia. O leitor poderá observar o acréscimo, na página principal, de uma seção focada nos três tópicos, e seus sub tópicos. Agora, ao optar por um tópico ou sub tópico serão mostrados todos os posts que dele tratam. Além disto, a seção “Post por assunto” está organizada segundo palavras-chave e com destaque proporcional ao número de referências.

Uma Nova Economia é necessária porque intenciona e possibilita promover diretamente e ao mesmo tempo, a redução da desigualdade social, a preservação ambiental e a melhora do bem estar do ser humano. São necessidades inter-relacionadas e que se não atendidas comprometem a própria sobrevivência da humanidade. Veja só. Levas de seres humanos, cerca de 200 milhões, são incorporados ao mercado anualmente. Com o livre acesso à informação, estes e os que já estão no mercado sabem o que é possível e desejam os mesmos bens e serviços. Para atendê-los, no estilo de vida vigente, é preciso um contínuo aumento na produção de bens e serviços, o que compromete gravemente o equilíbrio ambiental. É uma situação inviável, que terá que ser mudada.

As pressões das catástrofes naturais, das tensões sociais e da procura por maior bem estar não são entretanto suficientes para garantir que a transição para uma Nova Economia ocorra a tempo e na direção correta, já que a reação a ela é imensa. Assim, é central convergir a luta para questões que ao mesmo tempo acelerem a transição e que possam, impulsionadas pelas crises, serem implementadas gradualmente ainda sob as regras vigentes. Quatro questões me parecem prioritárias, são viáveis de serem objeto de consideração imediata e aceleram e suavizam a inevitável mudança.

Resumidamente, uma destas questões é a de serem considerados os impactos sociais e ambientais quando da formulação dos preços dos produtos serviços e nas decisões de investimentos. Por exemplo, o preço da gasolina deveria levar em conta o custo que traz em termos de poluição. Os economistas tradicionais chamam tais impactos de externalidades, forma confortável de definir privilégios. Trata-se, pois, de internalizar tais externalidades.

Uma segunda questão é a da jornada de trabalho. Um estudo da nef “21 hours” mostra que uma redução drástica já é possível e que traz inúmeros benefícios, dentre eles maior tempo livre para atividades não remuneradas e eliminação do flagelo do desemprego. Uma versão em português do estudo da nef está disponível em 21 horas.

A terceira questão é a do rompimento com a teoria econômica ortodoxa que faz do crescimento econômico um objetivo intocável em torno do qual todo o esforço produtivo tem que se adaptar. E, passar a entender que a capacidade produtiva da humanidade deve ser usada em prol de seus verdadeiros interesses.

A última, é o fortalecimento da ONU de forma a superar o atual impasse nas decisões globais. Hoje 5 países podem vetar decisões dos demais, e estas têm que ser, no que interessa, consensuais. E o mundo precisa de decisões mandatórias globais.

Mas, falar em transição é relativamente fácil. Difícil é agir para que ocorra o mais rápida e suavemente possível. Três ações me parecem essenciais para tanto.

A mais importante delas é o ativismo principalmente o daqueles mais atingidos. Os acontecimentos no norte da Africa, na Espanha, na Itália, na Inglaterra e agora nos EUA, mostram que o impensável começa a ocorrer, a rebelião. Fôrça, é claro, da crise.

Infelizmente não se pode contar com a democracia de representação para apoiar a mudança. Ao contrário, a função dela tende a ser a de preservar o status quo. A forma de superar esta barreira é a adoção da democracia direta, local, regional e nacionalmente, e que hoje é tremendamente facilitada pela internet, tanto para decidir quanto para pressionar pelas necessárias mudanças.

E o papel das entidades civis é fundamental para canalizar corretamente a insatisfação. É através delas que pode se dar um grande impulso à transição. Sua atuação vai desde a formulação das ideias que instruem a transformação até o apoio para que a luta pela mudança possa ocorrer.

As questões e ações acima mencionadas precisam, é claro, de detalhamento, o que será feito em novos posts, específicos.

Termino sugerindo que você participe da pesquisa relacionada ao tema, no post que se segue.

Anúncios

Mountebank é o novo Nobel

1) Para ler notícias relacionadas à Nova Economia, acesse o link à direita.
2) A Pesquisa da Semana é sobre o tema tratado no post e está apresentada em seguida a ele.

O post de hoje traz um pouco de ironia e humor. É uma tradução, feita por mim e revista por Fernando Goulart, diretor do CASSE, de um texto postado recentemente pelo diretor executivo do CASSE, Rob Dietz, no site da organização: “Mountebank Wins Nobel for Infinite Planet Theory“. Vamos a ele:

Rob Dietz

 Poucas pessoas leram os densos volumes publicados pelo economista Milton Mountebank, mas sua obra afetou a você, a mim e a cada pessoa do planeta. O Dr. Mountebank revolucionou o pensamento econômico e agora vê seus singulares esforços recompensados. Numa recepção de gala em Estocolmo, Suécia, o presidente do Banco Central da Suécia, Peter Norborg, entregou ao Dr. Mountebank o premio Nobel de economia por sua vida de trabalho dedicada à teoria do planeta infinito.

Na entrega do premio o Sr. Norborg declarou: “O Dr. Mountebank demonstrou imaginação e criatividade além do que uma mente racional possa compreender”. De fato, é devido à suas teorias que nós todos fazemos o que fazemos em termos econômicos. As nações batalham pelo crescimento continuo do GDP e expansão sem fim do consumo graças à teoria do planeta infinito. O Sr. Norborg continuou dizendo: “Todos os bancos, incluindo o Banco Central da Suécia, devemos muito a ele. Nós financiamos a expansão econômica. Nossas ações e decisões seriam moralmente suspeitas caso vivêssemos num planeta finito”.

Dr. Mountebank (foto de Derrick Tyson)

Num momento de descontração durante sua apresentação, o Sr. Norborg afirmou que o Dr. Mountebank é responsável por um benefício ainda maior para a humanidade ao reduzir o estresse dos indivíduos. Melhor do que tudo, ele disse: “É que nos podemos extrair, consumir e digerir recursos, sem culpa. As restrições planetárias foram conquistadas. Elas foram-se da mesma forma que se foram os drontes, o império romano e as principais áreas de pesca”.

Apesar dos livros do Dr. Mountebank não terem atingido grande audiência, seu trabalho teve forte influência sobre a elite política e empresarial. Ronald Reagan é um exemplo proeminente. É famosa a citação do Presidente Reagan: “Não há limites para o crescimento e progresso humano quando os homens e as mulheres são livres para irem atrás de seus sonhos”. Esta é aliás a citação com que o Dr. Mountebank fecha sua obra magna: “O infinito e além – O mágico triunfo da economia sobre a física”. Na mesma linha, Phillip van Uppington, ex vice-presidente do Lehman Brothers afirmou que o Dr. Mountebank teve enorme influência em sua empresa: “Nós costumávamos citá-lo a toda a hora. Um dos pontos altos de minha careira foi um simpósio que eu organizei há poucos anos atrás com Mountebank e Milton Friedman. Nós o chamamos de o dia dos dois Miltons. Eles realmente abriram nossas mentes para as possibilidades das inovações financeiras. Uma vez implementadas as doutrinas dos dois Miltons, nós passamos a ter mais receita do que a maioria das pequenas nações”.

Em seu discurso. o Dr. Mountebank contou como ele desenvolveu a teoria do planeta infinito. “Equações, Equações, Equações”, ele disse, “eu as via dançando ao deitar e de manhã, ao acordar, as escrevia. Fiz isto por três anos seguidos até conseguir finalmente juntá-las”. O núcleo da demonstração matemática da viabilidade do crescimento infinito apresentada por Mountebank foi a equação do escamoteamento, uma nebulosa expressão diferencial multivariável que, aceita-se, é entendida por menos do que 4 economistas no mundo. “Esta é a razão pela qual estou hoje neste palco”, disse Mountebank. “Infelizmente a equação é grande demais para caber na tela atrás de mim, mas é a chave para o crescimento econômico infinito. Felizmente, vocês não precisam ser economistas ou estatísticos para usá-la como um guia em seu dia a dia”.

O Dr. Mountebank continuou, segurando um globo em suas mãos e dizendo: “Nós todos reconhecemos que a terra é uma esfera, e da geometria básica, nós todos compreendemos que a esfera não tem principio nem fim. Se você sair em uma direção da superfície da esfera, não haverá ponto de término – é o infinito”. Ele moveu o globo com seus dedos ao redor dele para provar seu ponto. “C.Q.D, Sem fim. E isto significa que o planeta pode ser explorado ilimitadamente para o ganho econômico”.

A teoria do planeta infinito ganhou aceitação quase unanime nos círculos econômicos, mas tem havido algumas vozes críticas. No dia da premiação um pequeno grupo fez um piquete em frente ao Banco Central. Dentre eles, uma carregava um cartaz dizendo “Steady State”. Perguntado por que estava protestando ela disse: “Mountebank? Você não pode estar falando sério. O Nobel deveria ir para Herman Dale”. O Dr. Dale é conhecido pelo seu trabalho sobre os limites do crescimento e a Economia em Equilíbrio, conceitos que se chocam com a teoria do planeta infinito. Aliás, o Clube de Roma subscreveu tal posição ao publicar o seu “best seller “Os limites do crescimento”.

Em seus escritos, contudo, o Dr. Mountebank desconsiderou a noção de limites. Em uma das passagens do “O infinito e além” afirma: “O fim do petróleo barato, a extinção das espécies, a mudança climática, o desmatamento, o esgotamento de recursos, a pobreza extrema, a perda de serviços do ecossistema e a degradação do solo e dos aquíferos – estes são problemas sem importância, desde que continuemos a crescer a economia em direção ao seu último estágio: o infinito e além. Em nenhuma circunstância nós devemos permitir que pensamentos furtivos a respeito de um planeta finito ou restrições advindas das leis da física interfiram na construção de uma economia maior. E certamente, não devemos ouvir os pessimistas contumazes que continuam a perfilar seus fatos vazios sobre o nosso desfile de crescimento. Crescimento, por si só, é o ideal moral e político”.

O Dr. Mountebank encerrou seu discurso com uma nota pessoal, lembrando como a teoria do planeta infinito aplacou os temores de seus netos. “Eles me disseram que estavam com medo do que estava ocorrendo com o meio ambiente. Eu os acariciei e disse para não terem medo. Porque, acima de tudo, não se consegue prejudicar a natureza num planeta infinito. Por definição, há sempre mais”.

O Dr. Mountebank (cujo nome em português seria Dr. Milton Trapaça) já é o oitavo agraciado com o premio Nobel em economia oriundo da “Fantasia University”.

Termino sugerindo que você participe da pesquisa relacionada ao tema, no post que se segue.

Dúvidas sobre a declaração do CASSE

1) Para ler notícias relacionadas à Nova Economia, acesse o link à direita.
2) A Pesquisa da Semana é sobre o tema tratado no post e está apresentada em seguida a ele.

Recebi e-mails dos leitores e amigos Mario Simas e Benedito Oliveira com questionamentos a respeito da declaração do CASSE. Ao analisá-los percebi que os pontos levantados e as respostas poderiam ser de interesse dos demais leitores, daí este post, que aborda, a seguir, cada um dos pontos mencionados. Ressalto que o artigo mencionado ao final deste post é uma excelente referência para aqueles que desejarem aprofundar-se nas questões.

1) Estão realmente consolidados os princípios da física e da ecologia indicando limites para o crescimento econômico, e quais são eles?

As duas primeiras leis da termodinâmica, o conceito de nível trófico (cadeia alimentar) e o da exclusão competitiva são os princípios cuja aplicação já está bastante consolidada no estudo e configuração da necessidade de uma Nova Economia.

2) É viável esperar que as nações movam-se em comum acordo na direção de uma Economia em Equilíbrio e que as mais ricas aportem recursos para tanto sem afetar a soberania dos demais?

Acredito que não. As nações estão muito longe de aceitarem a tão mencionada governança global. Assim, é previsível supor que será necessário que as catástrofes ambientais, o aumento do consumo per capita e da massa de consumidores e o acirramento da crise social fiquem mais do que evidentes para que os países se vejam forçados a convergirem para um entendimento, isto, se houver tempo.

3) Porque não não é viável esperar que o progresso tecnológico possa vir a amenizar o conflito entre crescimento econômico, ecologia e bem estar, a longo prazo?

As inovações não tem sido usadas para tal fim e não é de se esperar que o venham a ser por estrem intimamente ligadas ao crescimento econômico e dele depender para o seu financiamento.

4) Por que o aumento do consumo per capita é apenas marginalmente afetado pelo aumento da população?

A incorporação anual ao mercado de cerca de 200 milhões de pessoas faz com que parte do que é produzido seja consumido por estes, mas num quadro em que continua havendo crescimento per capita.

5) No cenário de uma Economia em Equilíbrio, terão as nações mais ricas recursos para apoiar as demais, na transição?

É claro que sim, quando estiverem suficientemente aflitas.

6) Por que é adequado manter-se o aumento do consumo per capita como objetivo para as nações que não tenham atingido patamar estabelecido de bem estar?

Para atender as necessidades das populações carentes.

7) E, por fim, uma questão mais ampla: será que a situação vai realmente ficar tão ruim?

O tempo dirá. Além de indicações muito fortes de crise ambiental e social ainda existe o fato de que já é possível ao ser humano conquistar um maior bem estar saindo da “roda viva” do crescimento econômico. Assim, o quanto antes a humanidade puder agir, melhor.

Observo que, buscando melhor expressar o ponto de vista do CASSE, conversei com o seu presidente, Brian Czech, principalmente sobre as respostas às primeira e terceira perguntas. Observo ainda que consultei, ao responder, o artigo por ele escrito e publicado na “Conservation Biology” e que é, ao meu ver, uma das melhores fontes para aprofundar-se o assunto.

Aproveito para mencionar que o site do CASSE está muito bem feito, apresenta os assuntos de maneira leve e bastante completa além de apresentar uma excelente lista de leitura atualizada e por tópicos.

Termino sugerindo que você participe da pesquisa de opinião da semana, apresentada no post que se segue, e relacionada ao tema.

O quanto é o bastante?

1) Novo: Para ler notícias relacionadas à Nova Economia, acesse o link à direita.
2) A Pesquisa da Semana é sobre o tema tratado no post e está apresentada em seguida a ele.

Conforme mencionei anteriormente, o documento “Enough Is Enough“, resultado de uma conferência promovida pelo CASSE e a organização “Economic Justice for All” em 2010 é uma importante referência para a Economia em Equilíbrio.

Cerca de 250 economistas, cientistas e outros interessados se reuniram com dois objetivos:

  • Chamar a atenção a respeito do volume substancial de evidências cientificas que mostram que o crescimento econômico não é ambientalmente sustentável e não está melhorando a qualidade de vida nos países desenvolvidos.
  • Identificar políticas específicas e implementáveis para se chegar à uma Economia em Equilíbrio.

 O documento realça uma importante e interessante ideia: Ao invés de mais, o bastante, baseada na noção que a partir de um nível, dito suficiente, de bens e serviços, mais não significa maior bem estar. É de se supor que o bastante é alcançável e viável para todos. Em sendo, tendo em vista, como vimos em post anteriores, que os desejos dos seres humanos são ilimitados e contidos apenas pela renda disponível, limitar o consumo ao bastante implica em renda compatível com tal nível de consumo.

Bem, sobre o 1º objetivo da conferência, o documento destaca que “a humanidade já ultrapassou 3 (*) de 9 fronteiras do planeta”. Tais fronteiras definem limites cuja ultrapassagem podem causar abruptas e catastróficas mudanças ambientais. E são: mudança climática (*), perda de biodiversidade (*), ciclos de nitrogênio (*) e fósforo, redução da camada de ozônio, acidificação dos oceanos, uso da água, uso da terra, carga de aerosol e poluição química.

Outros indicadores, como a “pegada ecológica” indicam que estamos num estado de esgotamento ecológico global: a devastação de florestas e a pesca ocorrem em ritmo mais rápido do que a reposição. Resíduos como CO2 não mais conseguem ser absorvidos. O resultado é a erosão do estoque de recursos naturais e do suprimento de serviços do ecosistema dos quais a economia e a sociedade, em última instância, dependem.

No documento são identificadas 10 principais políticas para se chegar a uma Economia em Equilíbrio e para cada uma indica porque é necessária e como pode ser implementada. Tais políticas são:

Limitar o uso de recursos e as perdas.
Estabilizar a população.
Distribuição equitativa da renda e riqueza.
Reformar o sistema monetário.
Mudança nos critérios de medida do progresso.
Pleno emprego.
Repensar a estrutura das empresas e os métodos de produção.
Cooperação entre as nações.
Mudança no comportamento do consumidor.
Atrair os políticos e a mídia para a nova realidade.

E salienta a necessidade de uma nova teoria econômica que reformule conceitos fundamentais como investimento, produtividade e propriedade, de forma que a economia gere retornos sociais e ambientais, a produtividade seja otimizada e haja estimulo a cooperativas e outras formas de controle dos empreendimentos.

O documento menciona também o mais importante, o que fazer para se chegar lá, e propõe um plano de transição para avançar em direção a uma Economia em Equilíbrio:

Estimular a mudança comportamental do “mais” para o “necessário”.
Aprofundar as pesquisas relacionadas a uma nova teoria econômica.
Divulgar os males do crescimento econômico e as vantagens de uma Economia em Equilíbrio.
Dar suporte e implementar as políticas de transição para uma Economia em Equilíbrio.

 Vê-se em algumas das políticas propostas a esperança, infundada a meu ver, de que seja possível induzir a mudança no comportamento de cada um. Também, não se menciona o “como” fazer, o que será objeto de um post específico.

Termino sugerindo que você participe da pesquisa de opinião da semana, apresentada no post que se segue, e relacionada ao tema.

Um Mundo Irreconhecível em 2050

Crisis in Haitiphoto © 2010 Cliff | more info (via: Wylio)Com este título, O Globo publicou ontem uma reportagem com o subtitulo “População de 9 bilhões, aquecimento e escassez de comida mudarão a terra”. A reportagem é baseada em painel de 20 de fevereiro de 2011 em evento da conferência anual da Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS).

3 renomados pesquisadores “alertaram para um mundo irreconhecível em 2050, com pessoas brigando pelos últimos recursos. A Organização das Nações Unidas (ONU) prevê que a população global chegue a sete bilhões de pessoas este ano e seja de nove bilhões em 2050, com quase todo o crescimento nos países pobres, particularmente África e sul da Ásia”.

“Mais pessoas, mais dinheiro, mais consumo, mas o mesmo planeta” diz um dos pesquisadores.

Como solução a reportagem menciona duas medidas: mudanças na forma de produção de alimentos e enfase nos programas de planejamento familiar para controlar o crescimento populacional.

Esta reportagem é especialmente relevante por ressaltar a dimensão social do diagnóstico que justifica a proposta de uma Nova Economia onde a preservação ambiental, a limitação de recursos naturais, as desigualdades sociais e o bem estar humano, e não apenas o crescimento econômico, sejam considerados.

Veja, leitor, que as soluções descritas na reportagem ainda são parte do contexto de “mais do mesmo” tentando simplesmente remendar o modelo de crescimento e consumo. Esta consideração é aliás a base para a pesquisa da semana.

Sociedade consumista?

 

Vimos até aqui que o que se consome é, via de regra, de utilidade e que a crítica ao individuo consumista é vazia e não leva a mudanças substancias nas práticas de consumo. Vimos, por outro lado, que o estilo de vida moderno, necessário para manter e melhorar o padrão de consumo é altamente estressante e não leva ao bem estar pessoal e social.

Esta é a ótica de cada um de nós. Mas, será que para a sociedade como um todo a crítica ao consumismo se aplica e pode ser transformadora? Metade dos que responderam à pesquisa da semana anterior, cujo resultado é mostrado no espaço da própria pesquisa, acredita que sim. A outra metade divide-se entre os que, parece-me, privilegiam os valores espirituais, e os que, como eu, acreditam que não caiba falar-se em sociedade consumista. Explico-me.

Antes de mais nada, vale citar que poucas exceções no mundo fogem ao modelo que valoriza o consumo de bens e serviços. Um contra exemplo interessante é mostrado no artigo “Crescimento na economia budista“, escrito por Jeffrey D. Sachs para o Project Syndicate em agosto 2010. Em viagem ao país o autor verificou que no Butão a felicidade é vista como uma consequência de um trabalho sério de reflexão interna e de compaixão pelos outros e que o crescimento econômico é subordinado à sustentabilidade ambiental e à preservação da estabilidade psicológica mesmo no curso de mudanças velozes, marcadas pela urbanização e a investida dos meios de comunicação globais.

Mas o fato é que esta experiência de cerca de 700 mil pessoas não consegue se contrapor aos bilhões de pessoas das mais diferentes nações e classes sociais que almejam e estão cada vez mais tendo acesso aos benefícios materiais que o mundo moderno pode propiciar. Não há duvida. A sociedade atual é movida e voltada para o consumo. Contudo, não há indicação neste contexto de uma cultura social baseada no consumo “desenfreado”, supérfluo ou “desnecessário”, que amplie desejos que de outra forma seriam limitados e seja a causa do consumo por comparação e “status”. Sem isto, não há como falar-se em uma sociedade consumista.

Entretanto, mesmo sem a validade da crítica, o mencionado modelo de consumo, como vimos em posts anteriores, não tem como sobreviver às barreiras ambientais e sociais que se ampliam dramaticamente devido a duas razões principais que se realimentam. De um lado, os agentes econômicos precisam do crescimento para que haja excedente, e, para que haja crescimento precisam do aumento constante do consumo para escoar o que produzem. De outro, para que mais pessoas possam consumir mais e melhor é necessário que haja crescimento econômico.

É um impasse que leva inevitavelmente a um novo cenário com a radical diminuição na diferença de renda e do consumo individual e, aí sim, a novos estilos de vida que previsivelmente terão enfase no bem estar. Mudam-se os hábitos para que possamos viver num mundo de recursos finitos e onde, estima-se, 9 bilhões de pessoas o habitarão em 2050. E, aspirando o mesmo padrão.

É a velha história, nossos hábitos e práticas se adequam ao que o momento econômico e social permite e exige, e não o contrário. Qual o preço que humanidade pagará para que tal mudança ocorra é talvez o que mais assusta em todo este quadro. Este é, alias, o objeto da pesquisa desta semana.

Estilo de vida

Vimos no post anterior que o que as pessoas consomem é de utilidade para elas. Se puderem, consumirão cada vez mais, seus estilos de vida continuarão se adaptando à necessidade de consumir e não faltarão novas necessidades despertadas por novos produtos e serviços.

Este estilo de vida é bom ou ruim? Não cabe julgar. Mas é possível dizer, e o resultado da pesquisa da semana anterior confirma isto, que muito provavelmente ele deteriora continuamente o bem estar pessoal e social já que a prática de viver para trabalhar, trabalhar para ganhar e ganhar para consumir, numa corrida incessante dado o aumento continuo das expectativas e possibilidades de consumo e a necessidade de cada um em manter seu padrão relativo praticamente impede que se usufrua a vida.

Nunca é demais lembrar, que a grande marca deste período foi e ainda é o automóvel, cujo uso define em boa medida desde como se dão, entre outros, a urbanização, o transporte público e o perfil de práticas e hábitos de consumo. E que muito provavelmente, os novos tempos virão junto com a sua superação.

É claro que novos conhecimentos, o acesso e a difusão da informação e o nível de educação ampliam-se ao longo do tempo, e isto pode alterar os hábitos e estilos de vida das pessoas na direção de maior bem estar.

É claro também que existe um enorme espaço para a luta pela mudança voluntária de hábitos que vão se afirmando como mais saudáveis. Governos, em seus diversos níveis, inúmeras organizações em todo o mundo e pessoas independentes o fazem em nome da promoção do bem estar pessoal, ou do que consideram exigências ambientais ou sociais.

Mas, é muito duvidoso que um e outro possam mudar radicalmente o estilo de vida moderno na direção de um maior bem estar pessoal e social. Poderia se considerar que isto aconteceria numa longa e penosa mudança de mentalidade e conceitos. Mas, se depender apenas da vontade das pessoas e dos agentes econômicos essas mudanças tendem a ter um caráter contraditório. Basta ver o que ocorre atualmente, onde convivem uma aumento da noção da importância de uma dieta equilibrada para uma vida saudável e o aumento no consumo de álcool, da obesidade e do sedentarismo.

Bem, até aqui, analisamos a questão do consumismo sob a ótica do individuo. No próximo post encerramos esta breve analise do consumismo abordando sua relação com a sociedade como um todo. Até lá, deixo-os com a pesquisa da semana.

Consumo inútil (2ª parte)?

Mercado de Barcelonaphoto © 2005 Pedro Dias | more info (via: Wylio)

Terminei o último post com duas questões relacionadas à utilidade dos bens. Uma, diz respeito à eficácia da manipulação do consumo e a outra, à validade da desqualificação do desejo por bens. A primeira foi objeto da pesquisa da semana anterior e na qual a opinião da totalidade dos que responderam foi diferente da minha. Repensei o assunto, é claro, mas continuo achando que o meu ponto de vista está correto.

A teoria afirma e inúmeros exemplos confirmam que a manipulação dos desejos pode ter um efeito até negativo se os produtos e serviços ofertados não corresponderem ao proposto e esperado e, principalmente, se não atenderem de fato a uma necessidade concreta, mesmo que nova. O que me leva a acreditar que a manipulação apesar de intensa é, em geral, inócua. É nociva, claro, pois exacerba desejos existentes, os anúncios de cerveja são um ótimo exemplo entre inúmeros, mas limita-se a isto.

Quanto à segunda questão, da desqualificação, além de infrutífera, não cabe dar ao desejo das pessoas um sentido positivo ou negativo, interpretar às “reais” necessidades humanas e propor controles à opção individual.

Este último argumento vale também para negar a afirmação de que a comparação com os outros e o “status” que se pretende adquirir pelo consumo sejam fatores não válidos de decisão.

Esta questão da utilidade fica ainda mais aguda quando se considera que o incessante avanço tecnológico, a evolução no transporte, a revolução nas comunicações e a globalização, permitem produtos e serviços novos ou em contínua evolução e com preços relativamente menores. Isto faz com que em todos os segmentos as possibilidades de consumo sejam praticamente ilimitadas. Os bens ofertados o são porque têm utilidade para as pessoas e seu consumo é contida apenas por razões econômicas e sociais. Fica claro, portanto, que do ponto de vista individual, os desejos por bens não são limitados.

Exemplifico o que foi dito até aqui através do segmento da alimentação. O leitor, certamente, terá muitos outros exemplos. Quanto melhores a variedade da dieta, a frescura dos produtos, a sua qualidade e preparo, os complementos, os serviços, entre outros, maior a satisfação individual. É isto que abre o espaço para que os agentes econômicos ofereçam incessantemente melhorias e ampliações nos produtos e serviços oferecidos.

Concluindo, verifica-se, frente a argumentação apresentada, que por qualquer um dos ângulos de abordagem, o significado do termo consumismo, do ponto de vista individual, é vazio. Questioná-lo, não leva a lugar nenhum.

O que não que dizer que consumir não tenha implicações. Têm, e muitas, entre elas o alto preço que cada um de nós paga para ter seus desejos atendidos. Este será o tema do próximo post. Até lá, deixo-os com a pesquisa da semana.

Publicado em Bem estar. Tags: , . 1 Comment »

Consumo inútil (1ª parte)?

Un dia en logos

Primeiro, um comentário sobre a última pesquisa cujos resultados estão apresentados na própria pesquisa. A maioria optou pela mobilização das pessoas. O item mais votado foi a mobilização através de ONGs. Durante a semana, mudei de opinião (mas não o voto) passando a achar que o essencial para a transição é a mobilização das pessoas, “punto e basta”. A ação através de ONGs é apenas uma das formas da mobilização. O bem sucedido movimento “Ficha Limpa”, parece-me, confirma isto.

Agora sim, apresento minha explicação da discordância aos principais conceitos sintetizados no termo consumismo.

Relembrando, a noção de consumismo tem pelo menos 3 aspectos importantes. Afirma a significância do consumo “desenfreado”, supérfluo ou “desnecessário”. Imagina que os desejos humanos são limitados. E, por fim, critica a comparação com os outros e o “status” que se pretende adquirir pelo consumo como fator importante de decisão.

A noção engloba dois ângulos. Um, o do individuo consumista. Outro, o da sociedade consumista. Noto que a argumentação a seguir refere-se ao primeiro. Em novo post, mais adiante, abordarei o outro.

Considero inicialmente que a melhor forma para abordar o consumo “desenfreado”, supérfluo ou “desnecessário” e o quanto estes pesam no consumo em geral é tratar da utilidade dos bens consumidos.

A utilidade, por sua vez, está intimamente ligada ao desejo das pessoas por bens, que é obviamente limitado por um lado, pela possibilidade econômica e por outro, pelas restrições sociais. É dentro deste espaço que os desejos de consumo na sociedade atual são manipulados pelos agentes econômicos tentando ao máximo induzir as pessoas a ampliarem o que consomem.

O desejo por bens, é claro, se manifesta em todos os extratos sociais. Os mais pobres são obrigados a limitar fortemente o seu atendimento. A classe média, à medida que sua renda aumenta consegue ampliar o atendimento de seus desejos. E a classe alta, tem um leque ainda maior de vontades atendidas.

Isto dito, surgem duas questão básicas em relação à utilidade. Uma, se os agentes econômicos, via de regra, provocam o consumo que, de outra forma, não ocorreria? Outra, se é válido desqualificar o desejos das pessoas e desta forma negar a utilidade do que é ofertado?

Termino minha explicação no próximo post. Até lá deixo-os com a pesquisa desta semana sobre uma de tais questões.

Publicado em Bem estar. Tags: , . 1 Comment »

Consumismo, fato ou mito?

Comprasphoto © 2007 Daniel Lobo | more info (via: Wylio)

Será que os afluentes praticam o chamado “consumo desenfreado” adquirindo sem cessar o que não precisam e tendo como principal motivação o status que a posse dos bens lhe dá?

Será que uma vez que as pessoas tenham o suficiente para satisfazer suas necessidades básicas e possam sobreviver com razoável conforto, níveis maiores de consumo tendam a não representar níveis maiores de satisfação ou bem estar?

Será que consome-se não somente para sobreviver e aproveitar a vida, mas para indicar quem se é e qual a respectiva posição no mundo, o que leva a inflar o que se acha que se precisa e o que satisfará as necessidades para muito além do que é realmente necessário para viver bem?

Acredito que não. O que significa dizer que não concordo com os principais conceitos sintetizados no termo “consumismo”. E explico no próximo post.

Tal posição, é claro, não altera minha visão sobre o esgotamento do modelo de crescimento do consumo e a crise aguda que gera para as pessoas, a sociedade e o planeta, aspectos já abordados em vários posts. Sobre isto, leitor, gostaria de contar, além de seus comentários, com a sua resposta  à  pesquisa desta semana e que reflete, de fato, a dúvida de como se dará a inevitável mudança social.

Do Ambientalismo para a Nova Economia

O professor e ambientalista Gus Speth encerra uma brilhante palestra no Conselho Americano de Ciência e Meio Ambiente em janeiro último com uma ótima citação. Curiosamente, ele cita o expoente do monetarismo e quem hoje seria o mais ferrenho e credenciado opositor às teses da Nova Economia, o que não tira o valor da citação apresentada a seguir, é verdade.

Somente uma crise – real ou pressentida – possibilita reais mudanças. Quando tal crise ocorre, as ações que são tomadas dependem das ideias que estão disponíveis. Esta, eu acredito, é a nossa função básica: desenvolver alternativas às políticas existentes, mantê-las vivas e disponíveis até que o que era politicamente impossível se torne inevitável” – Milton Friedman.

Superando a realidade política e a “arte do possível” Gus Speth propõe na palestra que o ambientalismo amplie seu foco centrando-se em uma nova economia e para tanto, também em uma nova política. Isto, a partir da conclusão de que após 40 anos de lutas pela causa ambiental “ a esperança de real mudança na América está na fusão dos que se preocupam com o meio ambiente, a justiça social e uma democracia forte, gerando uma poderosa força progressista”.

O impulso sem fim pelo crescimento da economia americana mina as comunidades e o meio ambiente, alimenta uma destrutiva procura internacional por energia e outros recursos, e se apoia no consumismo, o que não está atendendo às reais necessidades humanas. Nós estamos substituindo as questões reais que realmente promovam o bem estar humano pelo crescimento e consumismo”.

Antes que seja muito tarde, eu penso que a América deveria mover-se para uma sociedade pós-crescimento onde o trabalho, o meio ambiente, as comunidades e o setor público não sejam mais sacrificados pelo simples objetivo do mero crescimento do PIB”.

Na transcrição da palestra o leitor encontrará um surpreendente histórico das conquistas ambientais desde o início da década de 70, um impressionante relato da situação ambiental atual e tendências, tanto americana quanto mundial, uma crítica detalhada ao modo de vida que a humanidade está sendo levada a praticar, uma caracterização das políticas públicas inerentes à sociedade pós-crescimento imaginada, e o relato de experiências concretas que proliferam-se relacionadas a novos modelos de vida em comunidade e empresas que priorizam a comunidade e o meio ambiente caracterizando um emergente 4º setor e que lhe permite dizer que “as sementes da Nova Economia já estão sendo plantadas por todo o canto”, enquanto, com diz a citação inicial, as condições para a mudança amadurecem.

%d blogueiros gostam disto: