A grande recessão recrudesce. E a diretora do FMI tenta repassar a “bomba” para os emergentes.

(O) sistema … atingiu o limite de suas possibilidades, sendo incapaz de sobreviver à crise atual. Se ainda temos dificuldade para compreender o alcance das transformações em curso é porque, presos à inércia, demoramos a aceitar que há alguns dilemas insolúveis. Nada dura para sempre – nem o Universo”. Immanuel Wallerestein.

A grande recessão recrudesce.

Algumas “pérolas” do pensamento da diretora gerente do FMI publicadas no último dia 10 em O Globo sob o título: Para FMI, países ricos devem levar adiante políticas monetárias expansionistas:

O crescimento mundial continuará fraco, o que torna necessária a continuidade da política monetária expansionista dos países ricos”.

A ferramenta implica em riscos para emergentes, como o Brasil, referentes à taxa de câmbio, ao fluxo de capitais, à formação de bolhas de ativos e crédito e à estabilidade dos sistemas financeiros”.

A maior preocupação é que, assim como tudo que sobe desce, tudo que entra sai. Uma reversão abrupta de grandes fluxos de capital pode levar junto as economias. Por ora, o risco está sob controle”.

Acesse aqui o post completo.

Anúncios

Reforma, revolução ou reconstrução evolucionária, qual o caminho para a Nova Economia?

É cada vez mais evidente que os Estados Unidos enfrentam problemas sistêmicos…
As disparidades de renda e riqueza tornaram-se mais agudas e corroem as possibilidades democráticas. A economia está em frangalhos. Desemprego, pobreza e decadência ecológica acentuam-se dia a dia. O poder das corporações dominam agora as decisões através de lobby, contribuições políticas sem controle e publicidade política”.
Gar Alperovitz e Steve Dubb.

'March on Washington for Jobs and Freedom, Martin Luther King, Jr. and Joachim Prinz pictured, 1963' photo (c) 2012, Center for Jewish History, NYC - license: http://www.flickr.com/commons/usage/

Marcha pelos direitos civis. Washington, 1963.

Reforma ou revolução?

Continuo hoje o detalhamento de como fazer para que a Nova Economia se imponha, terceira e última parte da caracterização do objeto central deste blog e que foi antecedida pela abordagem, também detalhada, do por que e o que fazer.

No último post, acredito que ficou claro que uma Nova Economia somente se tornará realidade através de movimentos sociais de enorme alcance e motivados pelos que estão à margem dos benefícios da civilização moderna e que são a grande maioria das populações do mundo.

Hoje vou procurar detalhar um dos aspectos destes movimentos recorrendo a um artigo em inglês de Gar Alperovitz e Steve Dubb: “Se você não gosta do capitalismo nem do socialismo, o que é que você quer? onde descrevem três possibilidades básicas de mudança social:

“É cada vez mais evidente que os Estados Unidos enfrentam problemas sistêmicos…

As disparidades de renda e riqueza tornaram-se mais agudas e corroem as possibilidades democráticas. A economia está em frangalhos. Desemprego, pobreza e decadência ecológica acentuam-se dia a dia. O poder das corporações dominam agora as decisões através de lobby, contribuições políticas sem controle e publicidade política. O planeta como um todo está ameaçado pelo aquecimento global. A vida de milhões esta afetada pelo sofrimento social e econômico. Nossas comunidades estão em decadência. Existe alguma saída para isto?…

Pensadores e ativistas têm abordado as possibilidades de mudança a partir de duas perspectivas. Uma, a tradição reformista que acredita que as instituições existentes são capazes de se adaptar e promover o progresso… Outra, a tradição revolucionária que prevê eliminação das instituições existentes, na maior parte dos casos, violentamente, e normalmente precipitada por um colapso do sistema vigente.

Mas, o que ocorre se o sistema nem se reforma nem entra em colapso?

Este é exatamente o caso dos EUA, que pode ficar nesta situação por décadas… Neste contexto, possibilidades estratégicas muito interessantes podem ser viáveis…São processos de longo prazo que podem ser bem descritos como reconstrução evolucionária, a saber, uma transformação institucional e sistêmica da politica econômica ao longo do tempo”.

A marca da reconstrução evolucionária me parece ser a da implantação prática, em relativamente pequena escala, de experiências que se dão à margem do sistema vigente e que podem ganhar massa crítica para o transformar. No dizer dos autores: “Cooperativas, áreas comuns, propriedades mistas com a municipalidade, propriedade pública, são algumas destas possibilidades e que levam à democratização da propriedade”.

O artigo todo é muito interessante, ajuda a pensar a questão da mudança mas me parece induzir a uma conclusão de que a reconstrução evolucionária é quase que uma síntese do conflito entre reforma e revolução. Não creio.

Na verdade, gradualismo e mudança de qualidade, assim como reforma e revolução no caso das mudanças sociais, se opõe mas, são parte do mesmo quadro. As instituições evoluem até o ponto de ruptura, e em seguida a evolução retoma seu curso, agora em novas bases. Isto não quer dizer que se possa ficar esperando a evolução gradual. Ao contrário, a história mostra que a pressão dos movimentos organizados levados adiante pelos grupos interessados é indispensável para que a mudança ocorra na direção que interessa à grande maioria.

Trata-se, acredito, de movimento de longo prazo, organizativo, que assume ao longo do tempo várias formas: reformista, revolucionário e evolutivo, adaptativo às circunstâncias e culturas e com vários polos e viéses. De grande complexidade, enfim.

Termino sugerindo que você participe da pesquisa relacionada ao tema, no post que se segue, e que utilize preferencialmente a central de comentários para as suas críticas, sugestões e observações.

Quanto pior, melhor

  1. Utilize preferencialmente a central de comentários para as suas críticas, sugestões e observações.
  2. Veja notícias e artigos relacionados à Nova Economia na coluna da esquerda.
  3. A Pesquisa da Semana é sobre o tema tratado no post e está apresentada em seguida a ele.

Arte: Uccello-nella-Primavera, por Anita Klein http://www.anitaklein.com

Bem, a hipótese de pico no uso de recursos materiais em economias desenvolvidas abre uma oportunidade de contestações de grande interesse para uma Nova Economia.

A primeira delas é sobre o PIB já que este é usado para dizer que há diminuição no uso de recursos ao mesmo tempo em que ocorre crescimento econômico.

A todo momento somos informados de medições, estimativas e ações justificadas pelo PIB. A crise e a queda do PIB na Europa, por exemplo, levam a medidas as mais absurdas, dentre elas, o aumento na idade da aposentadoria. Quer dizer, num ambiente onde já grassa o desemprego, principalmente dos jovens, os gênios de plantão, apresentam como solução mais desgraça, tudo em nome das condições para que no futuro o PIB possa crescer.

Hoje, a meu ver, é simplesmente ridículo que se use tal indicador. Num mundo altamente sofisticado onde um simples automóvel dispõe de um painel com vários indicadores para uma condução segura e um avião comercial, muito mais, é incrível que a atividade econômica seja monitorada por apenas 1 indicador, e ainda por cima, errado, para tal fim, como se verá a seguir.

É claro que isto interessa a muitos pois deixam de entrar no mérito do que realmente interessa: bem estar, preservação ambiental e equidade social, mas, mesmo com a força que têm na manutenção do status quo, nem para aqueles a prática se sustentará.

E digo isto porque fica cada dia mais evidente que o indicador é totalmente falho para fins de avaliação de crescimento, o que dirá, do desenvolvimento econômico.

Veja só, o PIB mede quantidade, não qualidade. Aos olhos dele as coisas mais incríveis são bem vindas.

Neste ponto vale a pena recorrer a um belo artigo do Herman Dale “Wealth, Illth, and Net Welfare” publicado no blog do CASSE em 13 de novembro último, adaptado de um artigo publicado na revista “Resurgence” do mesmo mês.

“A contabilidade nacional mede apenas a atividade econômica. Esta não é separada em custos e benefícios. Tudo é somado ao GDP, nada é subtraído”.

“O lixo nuclear, as áreas mortas no Golfo do México, a perda da biodiversidade, a mudança climática pelo excesso de carbono na atmosfera, minas exauridas, solo erodido, poços secos, trabalho perigoso e exaustivo, transito, etc, não entram na contabilidade”.

Mas é pior. Em um completo “nonsense” o custo para contornar tais problemas entra na contabilidade. A limpeza da poluição, por exemplo entra como aumento do PIB. As doenças, um outro exemplo, em boa parte advindas da miséria humana e ambiental não são computadas mas o seu tratamento, sim. Quanto mais doença, melhor, do ponto de vista do PIB, principalmente em países que privilegiam a medicina privada.

E se já não bastasse isto, a depleção de capital natural como florestas, peixes, petróleo, carvão, minérios, etc, é contabilizada como renda. Chegamos quase ao máximo do contrassenso ao lembrar que a reposição de bens produzidos pelo homem, como a manutenção de estradas e pontes, entra na contabilidade, sem, é claro, sua contrapartida, a depreciação.

Para culminar, quanto mais se produz, mais difícil é obter recursos naturais, o que aumenta o PIB. A extração do petróleo, por exemplo, é cada vez mais difícil, o que faz com que cresça a participação dessa industria no PIB. Do ponto de vista do PIB o pré-sal é o “nirvana”. Pode?

Termino sugerindo que você, leitor, participe da pesquisa relacionada ao tema, no post que se segue.

Capitalismo. Sem início nem fim?

  1. Utilize a central de comentários para as suas críticas, sugestões e observações.
  2. Veja notícias e artigos relacionados à Nova Economia na coluna da esquerda.
  3. A Pesquisa da Semana é sobre o tema tratado no post e está apresentada em seguida a ele.

'Wall Street Bull Behind Bars - Illustration' photo (c) 2011, DonkeyHotey - license: http://creativecommons.org/licenses/by/2.0/Ex economista-chefe do FMI, professor de Harvard e autor de livros e artigos importantes, Kenneth Rogoff é mais um que não consegue, ou não quer, encontrar soluções para o impasse atual. E o pior, lança ainda mais confusão. Em recente artigo “O moderno capitalismo é sustentável?” publicado no site do ProjectSyndicate e, traduzido, em O Globo em 18 de dezembro último, surge com uma “pérola”: “O capitalismo moderno tem tido um extraordinário curso desde o início da revolução industrial dois séculos atrás, tirando bilhões de pessoas comuns da pobreza”.

Ele começa o artigo respondendo a pergunta do título de seu artigo ao dizer que não há um substituto viável à espreita. E aí, fica a vontade para desfiar um rosário de problemas para os quais o capitalismo não tem tido resposta: preços para produtos públicos como ar e energia, desigualdade, saúde, bem estar e crise financeira.

Tanto num caso como no outro o autor, me parece, inverte a questão e transfere os méritos e críticas a um sistema econômico que nada mais é do que o resultado histórico do que foi possível ao homem construir. Pelo relato, parece que sempre existiu e continuará existindo. É claro que se aceitar o óbvio, que é resultado da evolução do sistema feudal, terá que aceitar também que mesmo que não consiga ver, sua superação é inevitável, o que, aliás, parece mais a espreita do que nunca.

É sempre bom lembrar que quem gerou o sistema, quem produziu bens e serviços e quem é responsável pelo progresso social é o próprio ser humano a despeito de formulas econômicas. E a que preço? Sofrimento, fome, miséria para a maioria e que perduram até hoje.

Rogoff termina o artigo com a mesma inversão que faz crer que, criado, aí sim, é que os benefícios do capitalismo se afirmaram, com a pergunta: “Será o capitalismo uma vítima de seu próprio sucesso ao produzir prosperidade maciça?

É, o que é efeito vira causa. E ao fazer a inversão, foge da perspectiva histórica e perde a chance de imaginar e lutar por sua natural, porém traumática, é claro, evolução.

Interessante é que em seu último artigo “Rethinking the growth imperative” cuja tradução foi publicada em O Globo no último dia 5, ao questionar seriamente o crescimento econômico como objetivo, apesar de não tornar explícito no artigo que diminuição do crescimento significa diminuição nas taxas de acumulação e lucro, ele, de fato, parece ter concluído pela insustentabilidade do moderno capitalismo.

Termino sugerindo que você, leitor, participe da pesquisa relacionada ao tema, no post que se segue.

Em destaque

  1. Utilize a central de comentários para as suas críticas, sugestões e observações. Mais do que bem vindos, os seus comentários ajudam a melhorar e aprofundar o conteúdo deste blog.
  2. Para ler notícias relacionadas à Nova Economia, acesse o link à direita.
  3. A Pesquisa da Semana é sobre o tema tratado no post e está apresentada em seguida a ele.

'Festa Junina' photo (c) 2008, Daniel Jaeger - license: http://creativecommons.org/licenses/by/2.0/Inicio hoje uma nova seção, “Em destaque”, na forma de um post com notícias ou textos recém divulgados no site “notícias” sempre que ache que devam ter um destaque especial, com comentário e link para cada item. Isto, além do post semanal, à exceção deste. Caso você deseje receber um e-mail sempre que um novo “Em destaque” for publicado basta fornecer seu endereço na opção à direita.

Gostaria de contar com a sua contribuição, leitor, informando via “central de comentários” notícias e textos recém divulgados, que tenham relação com a Nova Economia e que lhes pareça mereçam ser divulgados e/ou ressaltados. Aproveito para lembrar que este blog está disponível para a publicação de posts de terceiros, como aliás já ocorreu.

Adio portanto por uma semana a explicação da recente reorganização do conteúdo do blog em três tópicos principais, e sub tópicos.

Vamos aos destaques de hoje:

1) O poeta Marco Lucchesi escreve uma belíssima carta a um poeta turco, “Do Mediterrâneo vieste…“, sobre falências e convulsões que agitam o berço do ocidente e do capitalismo.

2) “O ajuste vai ser pela deflação“, artigo de Carlos Thadeu publicado no último sábado (24 de setembro) permite, a meu ver, uma precisa compreensão da conjuntura econômica mundial.

3) A jornalista Deborah Berlinck teve publicada no último domingo uma importante matéria: “Nas barricadas da indignação” com o perfil de Stéphane Hessel, inspirador do movimento dos indignados que ganha força especialmente na Espanha.

4) “Compradores de tempo” é um artigo escrito pelo professor Cristovam Buarque que consegue de forma muito feliz mostrar que os atuais tomadores de decisão estão apenas tentando “empurrar com a barriga” os problemas. E o faz com argumentos bastante pertinentes ao conceito de uma Nova Economia. Aproveito para destacar um artigo anterior do autor, “Quase 200 anos“, descrevendo encontro recente com Stéphane Hessel (objeto da notícia anterior) e Edgar Morin, e um outro, “Economia colorida“, também muito pertinente às questões da Nova Economia.

Bem, espero que esta nova seção agrade.

Termino sugerindo que você participe da pesquisa relacionada ao tema, no post que se segue.

O profeta do apocalipse retorna

  1. Utilize a central de comentários acima para críticas, sugestões e observações. Mais do que bem vindos, os seus comentários ajudam a melhorar e aprofundar o conteúdo deste blog.
  2. Para ler notícias relacionadas à Nova Economia, acesse o link à direita.
  3. A Pesquisa da Semana é sobre o tema tratado no post e está apresentada em seguida a ele.

Helicopter Ben

Os acontecimentos das últimas semanas me levaram a interromper uma série de posts sobre a Rio +20 e comentar o que parece ser um repentino acirramento da grande recessão. No último post, expus a surpreendente, apesar de óbvia, comparação feita por Jacques Attali da rolagem da dívida pelos países desenvolvidos com o esquema da piramide.

O post de hoje centra-se em nova previsão de Nouriel Roubini professor de economia da NYU e um dos poucos a antecipar a eclosão da crise de 2008. Ignorado e criticado até então, chegou a receber a alcunha de “senhor apocalipse”, mas acabou por obter grande reconhecimento, o que fez sua empresa de consultoria econômica RGE tornar-se voz importante. Tão importante que ficou nítido o cuidado excessivo com que passou, desde então, a tratar os temas e o alinhamento com os novos cavaleiros do apocalipse (Bernanke, presidente do FED e Geithner, secretário do Tesouro).

Em seu último artigo, entretanto, “Estará o capitalismo arruinado?”, ele rompe com esta passividade e volta a fazer uma cuidadosa, embasada e dramática análise da situação atual, certamente optando por manter sua base de leitores (na verdade, clientes) corretamente informados.

Um dos pontos que mais me chamou a atenção no artigo foi a afirmativa de que o FED (banco central americano) já esgotou os mecanismos de manipulação capazes de contornar a crise. Em enfática afirmação na entrevista ao WSJ em apoio ao artigo ele voltou ao ponto: Evitar nova recessão é missão impossível. O mundo caminha para um segundo mergulho na crise e não se pode mais “tirar coelho da cartola”.

Nesta sexta-feira, espera-se que que Bernanke anuncie novas medidas e será possível confirmar se há ainda algum “coelho na cartola”. O que parece certo é que o banco central americano tentará uma nova rodada de afrouxamento monetário (“quantitative easing”). Vale a pena lembrar que Bernanke, estudioso da grande depressão, é adepto da tese de que com afrouxamento monetário não se teria chegado à tamanha crise na década de 30. É por isto que em 2002 chegou a dizer que se fosse necessário “jogaria” dólares de helicóptero para garantir a fluidez do sistema, o que lhe valeu o apelido de “helicopter Ben”. É claro que pôde dizer isto apoiado no fato que o dólar é a moeda de referência mundial. Num primeiro momento, pelo menos, pode emitir sem maiores consequências.

 “Jogar” dinheiro do céu dá uma ideia de imparcialidade na sua distribuição. Mas, é sintomático que quando pôs sua teoria em ação atingiu do seu “helicóptero” os  alvos com precisão: Bancos. Nem ao menos os que estavam com o pagamento de suas hipotecas atrasado foram contemplados. Enfim …

Voltando ao artigo do Roubini, mais adiante ele afirma ainda que o doloroso processo de desalavancagem das famílias, bancos, instituições financeiras, corporações e governos locais e centrais mal começou e que a redução forçada do débito (calote) será necessária para que aqueles possam reequilibrar suas finanças.

E, talvez para chamar atenção para suas propostas, ele afirma que a possibilidade aventada por Marx de autodestruição do capitalismo se confirmará caso não se consiga evitar que a atual crise evolua para o que ele chama de “a grande depressão 2.0”, daí o título do artigo.

Roubini termina com uma série de sugestões para que o capitalismo possa sobreviver e se desenvolver. Para tanto, sugere a criação de empregos via estímulo, taxação, rigor fiscal, reforço na atuação monetária dos bancos centrais, redução dos débitos (calote) das famílias e outros agentes que estejam insolventes, políticas efetivas de crescimento, supervisão e regulação da atividade financeira, e investimento no capital humano.

É mais um a insistir no crescimento econômico como solução. E pior, as medidas que propõe para tanto ou já foram implementadas ou são politicamente inviáveis, como se viu no recente impasse na renegociação do teto da dívida americana.

Uma coisa é certa. A necessidade de soluções efetivas torna inevitável considerar novos caminhos. O que amplia e antecipa a possibilidade de transição para uma Nova Economia. E com ela, forjar um mundo com justiça social, que preserve o meio ambiente e que nos permita maior bem estar. Infelizmente, não sem grandes traumas sociais, já que uma mudança de tal porte somente ocorrerá após vencidos os interesses estabelecidos.

Termino sugerindo que você participe da pesquisa relacionada ao tema, no post que se segue.

Madoff é o grande mestre

1) Para ler notícias relacionadas à Nova Economia, acesse o link à direita.
2) A Pesquisa da Semana é sobre o tema tratado no post e está apresentada em seguida a ele.

'three horsemen of the apocalypse, greenspan, et al' photo (c) 2009, derek visser - license: http://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0/

Os três cavaleiros do apocalipse: Greenspan (centro), Rubin e Summers

As nações desenvolvidas estão fazendo de suas dívidas enormes pirâmides, agindo como o Madoff. A pertinente afirmação foi feita por Jacques Attali em entrevista para o Le Monde na última 4ª feira e reproduzida no O Globo no dia seguinte.

Bernard Madoff, financista americano, foi quem provocou, em 2008, perdas de 65 bilhões de dólares com o golpe da piramide, pagando a seus investidores altos rendimentos, enquanto pôde, utilizando os recursos advindos dos novos investidores atraídos pelos mesmos altos rendimentos.

Vale lembrar que no post publicado em maio último A Grande Recessão se desdobra e apoiado em estudo da Auvest ficou claro que “o problema de débito excessivo não pode ser resolvido assumindo-se mais débito” e que estamos apenas na 2ª de 5 fases de acirramento da crise global, cujo ápice foi previsto para meados desta década. As ocorrências da última semana, provocadas pelo rebaixamento da classificação da dívida soberana americana e a impossibilidade da Europa gerir a crise da dívida que agora atinge a Espanha, a Itália e a França, por contágio da que se instalou na Irlanda, Grécia e Portugal, indicam que o desfecho pode se dar antes do que o imaginado.

É um mundo em turbulência, com o desemprego instalado e ampliando-se e que leva à revoltas populares na Espanha, Grécia, Norte da África, Israel e Síria, e agora com grande fúria, na Inglaterra.

Retornando à entrevista, o entrevistado vê fundamento no pânico que se instalou na semana passada, já que “a crise não foi resolvida, nem a do endividamento, nem a da governança tanto na Europa quanto nos Estados Unidos. O sistema está super endividado e os mercados sabem que um dia será preciso pagar a conta”.

O problema está concentrado nos países desenvolvidos. No estudo “Debt burden in advanced economies, now a global threat” de Eswar Prasad e Mengjie Ding, tanto o problema quanto a concentração ficam claros: “O percentual do débito líquido em relação ao PIB dos países desenvolvidos foi de 46% em 2007 para 70% em 2011 e chegará a 80% em 2016. Já para as economias emergentes o mesmo percentual foi de 28% em 2007 para 26% em 2011 e chegará a 21% em 2016. Para mais e impressionantes detalhes, comparando países, o leitor poderá cessar o gráfico interativo online do Financial Times mediante registro gratuito.

O entrevistado não para por ai. Ele ressalta que na Espanha e nos EUA já começaram as moratórias no setor privado e que um calote da dívida americana só não ocorre graças ao poder que tem de imprimir dólares. E mencionou que após 2008 o ocidente não fez as reformas estruturais, apenas adiou o problema. Foi como dizer: “um momento, senhor carrasco”.

Mas, capitula na conclusão ao insistir no crescimento econômico como solução. Curiosamente, ele “esqueceu” que da mesma forma que mais dívida não resolve a dívida, mais crescimento somente irá aguçar os problemas que este mesmo gerou.

A crise se acirra e tem desfecho incerto. As guerras impulsionaram, historicamente, a “destruição criadora” teorizada por Schumpeter (ver o post Socialismo?) mas hoje teriam, se entre potencias bélicas, consequências catastróficas. A inflação, dissolveria as dívidas, mas traria efeitos políticos e sociais igualmente graves.

Em algum momento, portanto, a humanidade irá iniciar a transição para uma Nova Economia, forjando um mundo com justiça social, que preserve o meio ambiente e que nos permita maior bem estar.  Infelizmente, não sem grandes traumas sociais já que uma mudança de tal porte somente ocorrerá, previsivelmente, após esgotadas as tentativas via crescimento, guerra e inflação.

Termino sugerindo que você participe da pesquisa relacionada ao tema, no post que se segue.

A “grande recessão” se desdobra

Leitor: A Pesquisa da Semana é sobre o tema tratado no post e está apresentada em seguida a ele.

A Nova Economia é uma resposta concreta à crise ambiental, ao desiquilíbrio social e à procura por um já possível bem estar. Estas são questões que, mesmo urgentes, tendem a ser enfrentadas somente a longo prazo. Um fato contudo, pode levar a que a mudança se antecipe e comece em meados desta década. Trata-se da “Grande Recessão” que ao contrario de estar acabando, tudo indica, está se desdobrando em movimentos ainda mais graves.

Um artigo que acaba de ser publicado no RGE – Roubini Global Economics – “The End of Financial Vandalism – Moving Forward to the Real Economy” de Humayun Shahryar e Santi Rasanayagam no último dia 5, e principalmente o cuidadoso estudo, com o mesmo título, que o embasa e preparado pela Auvest Services Limited traz uma descrição contundente dos mencionados desdobramentos.

Os autores dão consequência em termos de análise a uma constatação já evidente: “O problema de débito excessivo não pode ser resolvido assumindo-se mais débito” e que foi exatamente o recurso utilizado pelos Bancos Centrais dos países desenvolvidos. Isto dá grande solidez à previsão que fazem. No documento a crise é vista em 5 grandes movimentos:

Crise de Crédito Global (já ocorrido): A escalada da alavancagem e o subsequente colapso no preço dos ativos levou a uma crise bancária e contração no crédito. Uma repentina queda no consumo e falta de financiamento para o comercio levou a um acirrado declínio no comércio internacional.

 Suicídio soberano (implementado nos países desenvolvidos): O amplo resgate de bancos e empresas pelo estado e os imensos estímulos fiscais em conjunto com menor receita de impostos resultou na disparada no débito governamental. Já sem opções de políticas fiscais, os bancos centrais recorreram a políticas monetárias não convencionais para gerar crescimento econômico.

A Falência do Mercado Emergente (em curso): O excesso de liquidez esta levando à inflação dos ativos, “commodities” e preços dos produtos e serviços nos mercados emergentes ao mesmo tempo em que cresce a pressão dos países desenvolvidos pela reavaliação das moedas. O aumento da inflação gera conflitos nas políticas econômicas e instabilidade política e social.

A Destruição do Débito (a ocorrer nos países desenvolvidos): O forte aumento no endividamento levará a um aumento no custo de seu financiamento nos próximos anos. Muitos devedores não vão conseguir honrar ou terão que reestruturar suas obrigações e o contágio resultante causará um colapso no preço dos ativos.

O Fim da Globalização (a ocorrer até meados da década): Falta de demanda final, alto desemprego no mundo desenvolvido e inflação nos países emergentes levará ao protecionismo e eventualmente a uma guerra de moedas e de cambio. Um novo sistema monetário terá que substituir o atual.

 Os autores indicam a Índia como o país emergente com maior possibilidade de iniciar a fuga de capitais. Isto devido à inflação, o custo dos alimentos e os déficits fiscal e de conta corrente. Ressaltam também a crise no mercado europeu. Mas, como outras crises têm demonstrado, qualquer acontecimento mais forte, ou mesmo o passar do tempo, pode deflagrar o desdobramento desta.

Sobre a crise europeia em particular, a jornalista Míriam Leitão publicou um excelente artigo, “De novo, a Europa” em O Globo, no último dia 10, onde ressalta que “Em algum momento os países mais fragilizados financeiramente do continente terão que renegociar suas dívidas, dando calote parcial nos bancos”. E mais adiante, reforça a visão de uma crise ainda se desdobrando: “A situação na Europa é crítica. Não há saídas fáceis pela frente. Tudo ainda é consequência da crise que atingiu o mundo desenvolvido em 2008”.

Aliás, ela volta ao assunto de forma ainda mais enfática na coluna de hoje “Na corda bamba” focando na situação da Grécia. “O país enfrenta enorme fuga de capitais dos próprios gregos para outros países”. A renegociação parece inevitável e “… a possibilidade de contágio em caso de calote grego é grande” porque “… a renegociação da dívida implicaria em perda para os bancos, e como a crise americana mostrou todo o sistema está interligado”.

É provável que o Brasil não venha a estar no epicentro da crise já que esta se deslocará para os países desenvolvidos a partir do 4º movimento, mas sofrerá com a inflação, uma forte redução no valor dos ativos (ações, imóveis, etc.) e recessão devida à redução no volume e valor do comércio internacional.

Termino sugerindo que você participe da pesquisa de opinião da semana, apresentada no post que se segue, e relacionada ao tema. 

%d blogueiros gostam disto: