Serviços, imaterial?

  1. Utilize preferencialmente a central de comentários para as suas críticas, sugestões e observações.
  2. Veja notícias e artigos relacionados à Nova Economia na coluna da esquerda.
  3. A Pesquisa da Semana é sobre o tema tratado no post e está apresentada em seguida a ele.

'Fantasmas' photo (c) 2008, Santiago Rodríguez - license: http://creativecommons.org/licenses/by/2.0/Já de volta de viagem de férias, completo hoje a abordagem do setor de serviços sob a ótica de sua contribuição para a redução relativa no uso de recursos materiais.

Acredito que ficou claramente demonstrado no último post, com base no detalhamento do PIB divulgado pelo IBGE, que o chamado setor de serviços é dominante. Mas, detalhando o setor em serviços por atividade no Brasil, também segundo o IBGE, para o ano de 2009 (em milhões de reais), vê-se que pela definição do que seja serviços, este está longe de ser imaterial.

Observo, que há uma diferença de R$ 10 bilhões entre o total dos serviços da tabela abaixo (R$ 1.887.448.000) e o da tabela do post anterior, ambas produzidas pelo IBGE, que, embora não distorça a análise, é um pouco preocupante.

Bem, vamos ao detalhamento dos serviços:

0601 Comércio 349.061 18%
0701 Transporte, armazenagem e correio 134.232 7%
0801 Serviços de informação 99.741 5%
0901 Intermediação financeira, seguros, 202.216 11%
previdência complementar e serviços relacionados
1001 Atividades imobiliárias e aluguéis 233.757 12%
1101 Serviços de manutenção e reparação 2 9.076 2%
1102 Serviços de alojamento e alimentação 54.407 3%
1103 Serviços prestados às empresas 139.004 7%
1104 Educação mercantil 32.544 2%
1105 Saúde mercantil 55.017 3%
1106 Serviços prestados às famílias e associativas 64.266 3%
1107 Serviços domésticos 37.701 2%
1201 Educação pública 112.042 6%
1202 Saúde pública 5 8.621 3%
1203 Administração pública e seguridade social 285.763 15%

Pelo quadro comprova-se que o comércio é o carro-chefe do setor. Mas, é uma atividade que existe tão simplesmente porque é o veículo para escoar a produção agrícola e industrial. A segunda atividade mais representativa é a administração pública. Esta, além de depender das demais para se financiar, envolve, em boa parte, a contratação ou execução direta de atividades que nada tem a ver com a prestação de serviços.

As seguintes, em termos e representatividade, não deixam por menos. As atividades imobiliárias dependem essencialmente da construção civil. A intermediação financeira faz sentido quando apoia o consumo e o investimento. Os transportes, conduzem bens físicos e pessoas e são os maiores responsáveis pelo uso de energia. Mesmo educação, saúde e segurança são atividades altamente dependentes de bens físicos.

Na verdade, não há erro na definição que é adotada na contabilidade dos países, mas, sim, uma indução ao engano, já que a definição de serviços pouco tem a ver com atividades em que predomine a prestação de serviços e onde o suporte material seja secundário.

Mesmo no caso de serviços especializados, isto é verdade. O serviço de um engenheiro, por exemplo, ao elaborar um projeto, pode ou não ser considerado uma atividade que cria um bem imaterial. Se ele tiver algum vínculo, além do objeto específico do serviço, com o contratante, sua atividade é parte do resultado produzido pelo contratante.

É claro que interessa a qualquer país ter uma prestação de serviços independente, capaz e forte, pois gera empregos de qualidade. Projetistas, calculistas, cirurgiões, consultores são alguns exemplos deste tipo de atividade. Mas, o impacto de um imaginado setor de prestação de serviços, de qualquer forma, é muito pequeno frente aos demais e não altera o quadro.

É ilusório, portanto, supor que o chamado setor de serviços possa representar o desacoplamento da base material, o que, aliás, era de se esperar. Aventar uma sociedade virtual, como diz o Goodall, só mesmo com um ser humano também imaginário, o que pode ser o caso se continuarmos neste caminho desvairado.

Termino sugerindo que você, leitor, participe da pesquisa relacionada ao tema, no post que se segue.

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Serviços, última esperança?

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'call center' photo (c) 2006, Vitor Lima - license: http://creativecommons.org/licenses/by/2.0/É possível que o setor de serviços demande, relativamente aos demais, menos bens físicos e, por ter participação crescente na economia, ser a razão para que o crescimento exponencial possa continuar sem aumento da base material?

A resposta é, claramente, não. O setor é uma extensão da atividade agrícola ou industrial (comércio, transportes, etc.) ou depende fortemente de produtos para que o serviço possa ser prestado (saúde, informação, etc.). E, no caso da administração pública, além desta depender das demais para se financiar, envolve, em boa parte, a contratação ou execução direta de atividades que nada tem a ver com a prestação de serviços.

Não resta dúvida que o setor, na forma como é definido, é o mais importante, pois tem uma dimensão maior do que a dos demais, juntos. No caso brasileiro, O PIB, segundo o IBGE, teve a seguinte composição, tanto por classe de atividade quanto pela ótica da despesa, em valores correntes (milhões de reais):

2009
2010
Agropecuária 166.705 180.831
Indústria 696.611 841.024
Serviços 1.877.417 2.113.788
Valor adicionado a preços básicos 2.740.733 3.135.643
Impostos sobre produtos 444.392 539.321
PIB a preços de mercado 3.185.125
3.674.964
Despesas de consumo das famílias 1.966.492 2.226.056
Despesas de consumo do governo 694.597 778.013
Formação bruta de capital fixo 539.757 677.862
Exportação de bens e serviços 354.235 409.868
Importação de bens e serviços 356.015 446.386
Variação de estoque -13.941 29.551

Realmente, os números comprovam o que foi dito. Os serviços representaram em 2010, 58% do total. O mesmo ocorre nas principais economias. O artigo Don’t Be Afraid of the Service Sector publicado pelo International Economic Bulletin por Uri Dadush e Zaahira Wyne em 10 de novembro último, ilustra bem este fato: “Nos países desenvolvidos o setor de serviços respondeu por 90% do crescimento do PIB entre 1985 e 2005. Em 1991, os serviços constituíram 2/3 do PIB, saltando para 3/4 em 2008. O setor de serviços respondeu por todo o crescimento no número de empregos. Em 2008 o setor empregava 72% da força de trabalho, 10% a mais do que em 1991″.

É bom lembrar que é baixa a qualidade dos empregos que o setor de serviços gera em grande quantidade. Dentre outros, os postos de atendentes nas áreas de saúde, comercial e de telemarketing são mal remunerados, estressantes e desestimulantes. Um excelente artigo no The Nation do último dia 27 de fevereiro “One mancession later, are women really victors in the new economy?” mostra como este fato é especialmente relevante nos EUA, onde boa parte destes novos postos são ocupados por mulheres o que as levou a ocupar, hoje, metade do mercado de trabalho daquele país.

O artigo salienta ainda que uma das consequências da maior participação das mulheres é que num cenário de alto desemprego, os homens são os mais atingidos por este. É este tipo degradado de posto de trabalho, aliás, que está evitando o aumento acentuado do desemprego naquele país e explica eventuais pequenas melhoras, aspecto que não aparece nas estatísticas. Cabe explicar que o termo “new economy” no artigo significa apenas a economia como ela é, hoje.

Mas, o principal é que, como foi dito anteriormente e que será detalhado no próximo post, o setor é totalmente dependente dos demais. Redefinido, retirando-se dele as atividades subordinadas aos demais, ele deixa de ter um papel relevante.

Basta ver o caso do comércio, seu carro-chefe. A atividade existe tão simplesmente porque é o veículo para escoar a produção agrícola e industrial. O que faz com que, sem sua base material, o comércio não faça o menor sentido, esvaziando, em relação a esta atividade em particular, qualquer ilusão de pico de recursos materiais.

Termino sugerindo que você, leitor, participe da pesquisa relacionada ao tema, no post que se segue.

Mais emissões significa…

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'Air polution' photo (c) 2006, Konstantinos Mavroudis - license: http://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0/Outro a contestar com veemência a tese do pico material é George Monbiot. O faz no post Is the ‘peak consumption’ hypothesis correct? publicado em 3 de novembro último em seu blog. Dentre os inúmeros argumentos destaco a pergunta que faz sobre a disparidade entre o uso de recursos e a emissão de gases de efeito estufa.

“Por que existe uma aguda disparidade entre o uso de recursos – incluindo a produção primária de energia – e a emissão de gases de efeito estufa? Enquanto a produção primária de energia atingiu seu pico em 2001, a emissão de gases de efeito estufa no Reino Unido cresceu ininterruptamente ao longo dos anos de “boom” da última década (2000 a 2006). E isto sem levar em conta as emissões de terceiros (geradas em outros países para produzir bens que nós consumimos). Tais emissões parecem anular todas as reduções materiais havidas no Reino Unido desde 1990 e que foram largamente o resultado da mudança de carvão por gás natural e do declínio da indústria manufatureira”.

Já Hugo Penteado, da lista “Decrescimento” lembra em e-mail que consumo menor por unidade de produto jamais interrompeu a pressão absoluta sobre os ecossistemas, porque a produção cresce exponencialmente.

E Philippe Lena, da mesma lista, comenta em e-mail um outro aspecto do artigo do Goodall, que transcrevo:

“O crescimento do PIB é perfeitamente compatível com um menor consumo energético e material numa sociedade onde crescem as desigualdades sociais. No caso da Inglaterra, o crescimento do PIB pré-crise era justamente devido, em grande parte, à financeirização da economia inglesa e mundial (primeira praça financeira mundial). O consumo de muitos encolheu. O que provocou as rebeliões urbanas às quais assistimos.

O próprio autor diz que pode haver um viés nesse sentido e também no fato de se tratar de séries muito curtas, pouca expressivas para se tirar conclusões precipitadas”.

E ainda: “Se a sociedade inglesa voltasse a ter o mesmo nível de “igualdade” que em 1970, com certeza o consumo material conheceria um aumento que corresponderia a toda a demanda reprimida. Essa recente diminuição da demanda não parece corresponder a uma orientação virtuosa mas sim a um arrocho salarial e ao desemprego. Sem mais estudos, esses dados parecem mostrar que sem uma maior igualdade e sem a escolha de outros rumos econômicos, qualquer diminuição do consumo material pode significar injustiça social”.

Termino sugerindo que você, leitor, participe da pesquisa relacionada ao tema, no post que se segue.

A “prima-dona” da economia

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'Dia Mundial Sem Carro na 23 de Maio 1' photo (c) 2009, Milton Jung - license: http://creativecommons.org/licenses/by/2.0/A economia moderna gira, sem exagero, em torno do automóvel. Sua produção, os serviços que demanda, a infraestrutura que necessita e a energia que consome são o principal impulso da atividade produtiva. Não importa que mais carros entulhem ao absurdo as cidades, que o transporte rodoviário seja ineficiente, que a poluição que gera seja insuportável e que a garantia de seu suprimento energético tenha sido o principal objetivo das recentes guerras “antiterror”. O fato é que o PIB se “alimenta” do automóvel.

Repare leitor que no caso dos automóveis, utilitários, caminhões e ônibus o que mais importa, na avaliação dos efeitos nefastos, é a frota e não o aumento da produção anual. E o Reino Unido continua absorvendo, segundo o artigo Peak stuff: the data cerca de 2 milhões de carros por ano (2,5 milhões em 2007, antes da crise e em ascensão desde 2010), com consequente aumento constante da frota. O que é agravado pelo fato de que os carros duram mais, com a crise tendem a rodar por mais tempo e apesar de menores são mais pesados. O mesmo ocorre com os demais tipos de veículos mencionados.

Duas consequências deste fato saltam aos olhos imediatamente. Não faz o menor sentido falar em pico material enquanto a frota continua crescendo. E, ainda mais importante e dramático, é que enquanto o automóvel for a “prima dona” da economia, o modelo econômico não muda.

Aliás, nem queda do número de veículos novos é razoável esperar-se. No artigo Carros de sobra de Míriam Leitão publicado em O Globo em 20 de janeiro pode-se perceber que o setor fará de tudo para escoar sua produção potencial. A indústria mundial está ociosa em 20 milhões de veículos, cinco vezes mais que o mercado brasileiro que consumiu 3,7 milhões em 2011. A previsão é que este número aumente para 24 milhões em 2012 e que a capacidade produtiva chegue a 103 milhões de veículos.

Esta é alias uma das principais razões para suspeitar da chamada economia verde. Se as novas tecnologias forem destinadas, entre outros usos, à troca de motores a combustão por elétricos não estarão dando uma real contribuição para superar os agudos problemas que a inviável enfase no transporte individual, em detrimento do público, geram.

Bem, prosseguindo na questão do pico material, o próprio conceito de recurso material e sua medida precisam ser ser revistos. O peso é importante mas não decisivo para afirmar que seja possível crescimento sem aumento no uso de recursos. A quantidade é um indicador que tem que ser considerado também, e provavelmente, é tão importante quanto.

De fato, a tendência à miniaturização e diminuição do peso de uma parte dos produtos consumidos não significa que o uso de recursos naturais e intermediários seja menor. Eles vem em muitos casos de cadeias produtivas distintas com impactos diferentes na absorção de recursos e no meio ambiente, como os encanamentos prediais, por exemplo.

Em geral temos visto também o aumento na quantidade de itens consumidos resultado da redução nos custos, aprimoramento e criação de novos tipos de produtos e serviços. Computadores pessoais, notebooks, netbooks, tablets, celulares e os chamados “smart phones” são claros exemplos de expansão, aprimoramento e inovação.

Tal aumento na quantidade de itens consumidos, independentemente do peso, parece ser uma tendência inevitável gerada pela inovação tecnológica e a sofisticação dos hábitos das pessoas, o que leva à crescente diversificação dos bens que consomem. E não parece razoável atribuir isto ao consumismo ou pressão do marketing das empresas. Linhas inteiras de novos produtos são geradas a partir de novos conceitos, dos quais tiram partido as empresas. Um bom exemplo é o do crescente reconhecimento da importância do exercício físico. Academias, vestuários, calçados, alimentos, bebidas e outro produtos deste segmento passaram a ser indispensáveis.

Ainda em relação à questão do pico de recursos, Alan Boccatto, da lista “Decrescimento“, lembra que mesmo que houvesse redução no uso de recursos, o que não é o caso, estes em muitos casos são finitos e não renováveis no horizonte da civilização humana. Minérios, petróleo e atmosfera são bons exemplos.

Assim é, pois, que por mais que se queira, a tese da sustentabilidade já nasceu capenga. Tudo o que não é fluxo, como bens agropastoris, não é sustentável por definição, já que ocorre degradação contínua do estoque.

Termino sugerindo que você, leitor, participe da pesquisa relacionada ao tema, no post que se segue.

Guerra e P…IB

  1. Utilize preferencialmente a central de comentários para as suas críticas, sugestões e observações.
  2. Veja notícias e artigos relacionados à Nova Economia na coluna da esquerda.
  3. A Pesquisa da Semana é sobre o tema tratado no post e está apresentada em seguida a ele.

'Bombs Away - The bombing of Baghdad' photo (c) 2010, 4WardEver  Campaign UK - license: http://creativecommons.org/licenses/by/2.0/Deixei de falar no post “Quanto pior, melhor” sobre dois outros absurdos do uso do PIB como indicador, propositalmente, para destacá-los agora.

Veja só. A guerra e a destruição, sofrimento e miséria que causa, do ponto de vista do PIB, são a glória. Produção acelerada, destruição do que é produzido e de seus alvos e a reconstrução do que foi destruído não poderiam encontrar melhor acolhida.

E o desperdício? Basta pensar o oposto. Diminuir o desperdício significa queda no PIB. Daí o horror ao uso racional e parcimonioso dos bens e serviços. E pensar que a usina de Belo Monte, por exemplo, poderia ser mais do que substituída pelo aumento da eficiência energética na geração, distribuição e consumo. O leitor encontrará no estudo elaborado, sob pressão, pelo próprio Ministério das Minas e Energia intitulado “Plano Nacional de Eficiência Energética” a informação de que é possível reduzir o gasto em pelo menos 10%. É claro, até o ano 2030, para não prejudicar os interesses vigentes.

Bem, vamos a outras contestações à tese do pico material. Tim Jackson, autor de “Prosperity without Growth – economics for a finite planet” apresenta em artigo no Guardian dede novembro último “Peak stuff’ message is cold comfort – we need to embrace green technology” 3 argumentos que indicam que as conclusões da pesquisa analisada no post “Pico de recursos materiais?” não são aceitáveis.

Apesar de ser confortável, diz Jackson, acreditar que nós estejamos nos livrando da avidez por coisas materiais, a análise histórica mostra que qualquer declínio no consumo material do Reino Unido é no máximo muito pequeno, uns poucos centésimos ao longo de uma década. Em muitos casos, tais números são menores do que a margem de erro estatístico de sua medida. E quando você considera o aumento na intensidade de carbono nos produtos importados de parceiros como a China, tais possíveis benefícios desaparecem de vez.

E continua. Existem outras razões para ser cético em relação à rósea mensagem do pico material. Muito do crescimento econômico do Reino Unido nos anos do “boom” ocorreu pela expansão do setor financeiro que foi ou ilusória em termos de crescimento real ou apenas resultado da apropriação da renda dos mercados de commodities. Em outras palavras, o crescimento foi não apenas ecologicamente insustentável mas, diretamente responsável pela própria crise, e, ainda por cima, nos deixou mal equipados em relação à própria sustentabilidade financeira. De uma forma ou de outra, a extração e uso de mais recursos do exterior é a base de nosso estilo de vida. O modelo da economia globalizada permanece inalterado.

Finalmente, diz que o impacto na economia global não pode ser contestado: a extração global de recursos materiais está aumentando inexoravelmente em quase todas as categorias. A construção de infraestrutura pode ter caído no Reino Unido, mas a produção mundial de cimento até o ano anterior ao do início da crise financeira foi 125% superior ao nível de 1990. A extração de minério de ferro, 100%. E a bauxita, cobre e níquel aumentaram mais de 70%. A emissão de carbono aumentou em mais de 40%. As únicas commodities que sofreram redução (como os fosfatos) foram as que se tornaram escassas.

Termino sugerindo que você, leitor, participe da pesquisa relacionada ao tema, no post que se segue.

Quanto pior, melhor

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Arte: Uccello-nella-Primavera, por Anita Klein http://www.anitaklein.com

Bem, a hipótese de pico no uso de recursos materiais em economias desenvolvidas abre uma oportunidade de contestações de grande interesse para uma Nova Economia.

A primeira delas é sobre o PIB já que este é usado para dizer que há diminuição no uso de recursos ao mesmo tempo em que ocorre crescimento econômico.

A todo momento somos informados de medições, estimativas e ações justificadas pelo PIB. A crise e a queda do PIB na Europa, por exemplo, levam a medidas as mais absurdas, dentre elas, o aumento na idade da aposentadoria. Quer dizer, num ambiente onde já grassa o desemprego, principalmente dos jovens, os gênios de plantão, apresentam como solução mais desgraça, tudo em nome das condições para que no futuro o PIB possa crescer.

Hoje, a meu ver, é simplesmente ridículo que se use tal indicador. Num mundo altamente sofisticado onde um simples automóvel dispõe de um painel com vários indicadores para uma condução segura e um avião comercial, muito mais, é incrível que a atividade econômica seja monitorada por apenas 1 indicador, e ainda por cima, errado, para tal fim, como se verá a seguir.

É claro que isto interessa a muitos pois deixam de entrar no mérito do que realmente interessa: bem estar, preservação ambiental e equidade social, mas, mesmo com a força que têm na manutenção do status quo, nem para aqueles a prática se sustentará.

E digo isto porque fica cada dia mais evidente que o indicador é totalmente falho para fins de avaliação de crescimento, o que dirá, do desenvolvimento econômico.

Veja só, o PIB mede quantidade, não qualidade. Aos olhos dele as coisas mais incríveis são bem vindas.

Neste ponto vale a pena recorrer a um belo artigo do Herman Dale “Wealth, Illth, and Net Welfare” publicado no blog do CASSE em 13 de novembro último, adaptado de um artigo publicado na revista “Resurgence” do mesmo mês.

“A contabilidade nacional mede apenas a atividade econômica. Esta não é separada em custos e benefícios. Tudo é somado ao GDP, nada é subtraído”.

“O lixo nuclear, as áreas mortas no Golfo do México, a perda da biodiversidade, a mudança climática pelo excesso de carbono na atmosfera, minas exauridas, solo erodido, poços secos, trabalho perigoso e exaustivo, transito, etc, não entram na contabilidade”.

Mas é pior. Em um completo “nonsense” o custo para contornar tais problemas entra na contabilidade. A limpeza da poluição, por exemplo entra como aumento do PIB. As doenças, um outro exemplo, em boa parte advindas da miséria humana e ambiental não são computadas mas o seu tratamento, sim. Quanto mais doença, melhor, do ponto de vista do PIB, principalmente em países que privilegiam a medicina privada.

E se já não bastasse isto, a depleção de capital natural como florestas, peixes, petróleo, carvão, minérios, etc, é contabilizada como renda. Chegamos quase ao máximo do contrassenso ao lembrar que a reposição de bens produzidos pelo homem, como a manutenção de estradas e pontes, entra na contabilidade, sem, é claro, sua contrapartida, a depreciação.

Para culminar, quanto mais se produz, mais difícil é obter recursos naturais, o que aumenta o PIB. A extração do petróleo, por exemplo, é cada vez mais difícil, o que faz com que cresça a participação dessa industria no PIB. Do ponto de vista do PIB o pré-sal é o “nirvana”. Pode?

Termino sugerindo que você, leitor, participe da pesquisa relacionada ao tema, no post que se segue.

Pico de recursos materiais?

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'Junk Shop, Astoria' photo (c) 2009, John Gullo - license: http://creativecommons.org/licenses/by/2.0/Mais uma surpresa. Desta vez, uma pesquisa do ambientalista inglês Chris Goodall publicada no Carbon Commentary em 31 de outubro de 2011 e intitulada Peak Stuff – did the UK reach a maximum use of material resources in the early part of the last decade?, sugerindo que há fortes indícios de que em economias desenvolvidas é possível haver crescimento econômico sem aumento no uso de recursos.

O trabalho levanta questões muito interessantes o que me levou, apesar de contestar as conclusões, a apresentar um resumo no post de hoje. A quantificação, mesmo imprecisa, torna mais perceptível a atividade produtiva e seu impacto, impressionante. São cerca de 2.100 milhões de toneladas por ano no Reino Unido, ou 34 toneladas por habitante. Imagine transpor esta realidade para 9 ou 10 bilhões de habitantes em todo o mundo.

Trata-se de um trabalho criterioso, com muitas ressalvas sobre imprecisões nas medidas e validade das conclusões. É restrito ao Reino Unido, que dispõe de uma contabilidade específica do fluxo de recursos materiais.

Os tipos de recursos materiais considerados na pesquisa são a biomassa, os minerais e os combustíveis fósseis. O principal indicador utilizado é o da matéria total necessária, em inglês, TMR, que expressa o peso da biomassa, minerais e combustível fóssil retirados do solo no Reino Unido, adicionado das respectivas importações e deduzidas as exportações e acrescido de estimativa dos materiais empregados em outros países relativos a produtos importados.

O TMR do Reino Unido teria atingido o pico de 2.174 milhões toneladas em 2001, caindo 3,8% para 2.091 milhões toneladas em 2007, antes do início da recessão. Isto ocorreu ao mesmo tempo em que a população aumentou em 2,3% e o GDP (produto doméstico bruto) aumentou em 24%.

O autor parte em seguida para a análise de itens que concentram a maior parte do impacto ambiental na vida moderna: água, alimentos, papel, têxteis, fertilizantes, cimento, carros, energia, transporte e perdas.

Água: A distribuição de água atingiu o pico de 15,7 milhões de litros por dia em 2003 reduzindo-se em 4% até 2007.

Alimentos: A despeito do aumento da obesidade o consumo de calorias por pessoa por dia, incluindo bebidas alcoólicas, refeições fora, refrigerantes, e confeitos caiu de 2.400 kcal em 2001 para 2.300 kcal em 2007, cerca de 4% de redução.

Papel: O consumo de papel e cartolina atingiu o pico de 12,9 milhões de toneladas em 2001 e reduziu-se para 12,1 milhões de toneladas em 2007, cerca de 6% de redução.

Têxteis: Este é o único item em que há um aumento constante no consumo. Entre 2002 e 2007 aumentou em 16% chegando a cerca de 1,2 milhões de toneladas.

Fertilizantes: A aplicação de nitrogênio por hectare teve seu pico em 1991, 25% a mais do que em 2007. O fosfato teve uma redução de 40% entre meados da década de 80 e 2007. O uso de potássio caiu em cerca de 30% entre meados da década de 90 e 2007.

Cimento: Em 2007 as entregas de cimento foram de 11.6 milhões de toneladas, a maior quantidade em 10 anos, período em que esteve praticamente estável em torno de 11.2 milhões de toneladas por ano.

Carros: O número de carros novos chegou ao auge em 2003 com 2,75 milhões de veículos. Este número caiu 10% para 2,5 milhões. Novos veículos de transporte, motocicletas e ônibus tiveram reduções ainda maiores.

Energia: O total de energia primária inclui todo o consumo de combustíveis, como gasolina, carvão, e gás natural, tendo atingido 240 milhões de toneladas equivalentes de óleo em 2001, caindo 3% até 2007.

Transporte: O número de viagens de mais de 1 milha por todos os meios de transporte atingiu seu máximo em 2002 e caiu mais de 4% até 2007. Já o total de óleo refinado para transporte atingiu seu pico em 2007 com um aumento de 4% em relação aos 10 anos anteriores.

Perdas: O total de lixo doméstico coletado caiu 5% entre 2002 e 2007, tendo havido no período um sensível aumento na reciclagem. O entulho de construções e demolições caiu de 113,3 milhões de toneladas em 2004 para 109,5 em 2006. Já o lixo comercial e industrial caiu de 67,9 milhões de toneladas em 2002 para 47,9 milhões de toneladas em 2009.

Acredito que a análise dos itens destacados, com queda ou não, torna ainda mais palpável a realidade da atividade produtiva. Os números absolutos do consumo de uma sociedade desenvolvida valem por mil palavras.

Antecipo um dos pontos da análise que farei nos próximos posts, talvez o mais importante: A frota de automóveis, e tudo o que gira em torno dela, continua crescendo, mantendo o carro como um dos elementos mais dinâmicos da atividade econômica do Reino Unido, o que bate de frente com a ideia do crescimento econômico ambientalmente sustentável.

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Capitalismo. Sem início nem fim?

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'Wall Street Bull Behind Bars - Illustration' photo (c) 2011, DonkeyHotey - license: http://creativecommons.org/licenses/by/2.0/Ex economista-chefe do FMI, professor de Harvard e autor de livros e artigos importantes, Kenneth Rogoff é mais um que não consegue, ou não quer, encontrar soluções para o impasse atual. E o pior, lança ainda mais confusão. Em recente artigo “O moderno capitalismo é sustentável?” publicado no site do ProjectSyndicate e, traduzido, em O Globo em 18 de dezembro último, surge com uma “pérola”: “O capitalismo moderno tem tido um extraordinário curso desde o início da revolução industrial dois séculos atrás, tirando bilhões de pessoas comuns da pobreza”.

Ele começa o artigo respondendo a pergunta do título de seu artigo ao dizer que não há um substituto viável à espreita. E aí, fica a vontade para desfiar um rosário de problemas para os quais o capitalismo não tem tido resposta: preços para produtos públicos como ar e energia, desigualdade, saúde, bem estar e crise financeira.

Tanto num caso como no outro o autor, me parece, inverte a questão e transfere os méritos e críticas a um sistema econômico que nada mais é do que o resultado histórico do que foi possível ao homem construir. Pelo relato, parece que sempre existiu e continuará existindo. É claro que se aceitar o óbvio, que é resultado da evolução do sistema feudal, terá que aceitar também que mesmo que não consiga ver, sua superação é inevitável, o que, aliás, parece mais a espreita do que nunca.

É sempre bom lembrar que quem gerou o sistema, quem produziu bens e serviços e quem é responsável pelo progresso social é o próprio ser humano a despeito de formulas econômicas. E a que preço? Sofrimento, fome, miséria para a maioria e que perduram até hoje.

Rogoff termina o artigo com a mesma inversão que faz crer que, criado, aí sim, é que os benefícios do capitalismo se afirmaram, com a pergunta: “Será o capitalismo uma vítima de seu próprio sucesso ao produzir prosperidade maciça?

É, o que é efeito vira causa. E ao fazer a inversão, foge da perspectiva histórica e perde a chance de imaginar e lutar por sua natural, porém traumática, é claro, evolução.

Interessante é que em seu último artigo “Rethinking the growth imperative” cuja tradução foi publicada em O Globo no último dia 5, ao questionar seriamente o crescimento econômico como objetivo, apesar de não tornar explícito no artigo que diminuição do crescimento significa diminuição nas taxas de acumulação e lucro, ele, de fato, parece ter concluído pela insustentabilidade do moderno capitalismo.

Termino sugerindo que você, leitor, participe da pesquisa relacionada ao tema, no post que se segue.

Faz de conta

  1. Utilize a central de comentários para as suas críticas, sugestões e observações. Mais do que bem vindos, os seus comentários ajudam a melhorar e aprofundar o conteúdo deste blog.
  2. Para ler notícias relacionadas à Nova Economia, acesse o link à direita.
  3. A Pesquisa da Semana é sobre o tema tratado no post e está apresentada em seguida a ele.

Bem, para iniciar o ano, um pouco de humor. Por indicação do leitor Edson Franco cheguei ao blog Chá de Burro que faz um breve resumo das consequências da crise na Grécia.

E vamos ao assunto do dia. Recebi do economista Hugo Penteado através da lista “Decrescimento” um e-mail com o título: “Desesperador”. Indignado com as projeções otimistas e a insistência no crescimento econômico como solução ele apresenta uma crítica irônica invertendo os fatos.

É um texto que, de uma forma original, serve também como um resumo dos principais aspectos envolvidos na Nova Economia. Vamos a ele:

Faz de conta que a produção brota do nada.
Faz de conta que a economia está totalmente separada da natureza, do tamanho do planeta, dos serviços ecológicos.
Faz de conta que o crescimento econômico jamais é deseconômico.
Faz de conta que o crescimento gera justiça social e bem estar e não guerras e devastação.
Faz de conta que poderemos dessalinizar e ressalinizar a água dos oceanos a um custo energético mínimo.
Faz de conta que a economia pode ser maior que o planeta.
Faz de conta que iremos usar terras de outros planetas para depositar nossas produções.
Faz de conta que a produção, a partir de um determinado ponto crítico, irá se tornar imaterial.
Faz de conta que as leis da termodinâmica são falsas.
Faz de conta que a economia não é uma pseudo-ciência autista que não se comunica com nenhuma outra descoberta científica relevante, como aquecimento global e a maior extinção em massa de espécies animais e vegetais dos últimos 65 milhões de anos causados por nossa espécie.
Faz de conta que do ponto de vista da biologia não somos todos um e que o ser humano não faz parte dessa teia da vida sem a qual não teríamos água, ar para respirar, comida.

E para finalizar:

Faz de conta que todo esse faz de conta não rege universalmente todas as decisões governamentais e empresariais à nossa volta e que isso não irá causar a extinção da vida desse planeta e da nossa espécie animal.

Faz de conta.

Num segundo e-mail ele menciona que a saúde dos balanços dos sistemas previdenciário, tributário, fiscal, financeiro e empresarial está de tal forma vinculada ao crescimento econômico que apesar de contraproducente, é a única solução que os que decidem, antevem. Claro, sempre afirmando que é o caminho para a salvação social. E os governos, na melhor das hipóteses, fingem acreditar nessa mentira ao se mancomunarem com os interesses corporativos e produzirem as piores atrocidades contra as pessoas. Surreal, diz ele.

Termino sugerindo que você, leitor, participe da pesquisa relacionada ao tema, no post que se segue.

Existe almoço grátis

  1. Utilize a central de comentários para as suas críticas, sugestões e observações. Mais do que bem vindos, os seus comentários ajudam a melhorar e aprofundar o conteúdo deste blog.
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'cat wallpaper only png collection2560x1600ubuntu font29' photo (c) 2011, skand gupt - license: http://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0/Nelson Motta é o irresponsável autor do artigo “Boca Livre high-tech” publicado no Estado de São Paulo e no O Globo na última sexta-feira, dia 14. Infelizmente, não se trata de um homônimo, é mesmo o jornalista, escritor e crítico musical. Lamentável. Indignado, inclusive porque atinge conceitos cruciais para a Nova Economia, enviei-lhe um e-mail, abaixo transcrito.

Antes, um breve resumo do besteirol: diz que o software livre e uma espécie de MST digital. Chama Richard Stalmann de Richard não-sei-o-quê, uma besta, e investe contra os que acreditam em almoço grátis.

Vamos então à resposta a este transloucado artigo:

Desta vez, Nelson Motta, você derrapou feio. E o que espanta é que, em geral, suas colunas tem sido divertidas e oportunas. Mas a de hoje, “boca livre high-tech” errou todas. Também, quem manda falar do que não conhece sem antes estudar um pouco.

Antes de mais nada convido-o a usar o Ubuntu e verá que é muito melhor do que os outros. O Windows e o iOS a ele não se comparam em termos de beleza, funcionalidade, performance e facilidade de uso. E por favor, não comente antes de pelo menos conhecer o dito cujo.

Ah, trata-se de um software livre. Assim, você descobrirá que existem milhares dos melhores programadores trabalhando colaborativamente em torno desta e de milhares de outras aplicações também livres.

Neste ponto já posso dizer-lhe: existe vida após o lucro, Nelson. Aliás, almoço grátis é o que mais existe por aí. Veja só, quando um custo ambiental ou social não é computado é almoço grátis para quem pode usar o recurso. Complicou? Pense na poluição de um automóvel, por exemplo. Este aspecto, é o que os economistas ortodoxos chamam de externalidades. Na verdade, forma elegante de definir privilégios.

Mas existe também o almoço grátis que embeleza a vida, além do software livre. Você Nelson, quando se dedica a seus filhos está lhes oferecendo o que? Se você parar para pensar um pouco verá que a maior parte das atividades humanas são realizadas sem fins lucrativos. Por exemplo, quando você cria, e bem, você está realmente à procura de lucro?

Lembre-se, as mães, os voluntários, uma parte do trabalho do artistas e das pessoas em geral são desconsiderados pela economia tradicional.

Se já não bastasse, leve em conta o incrível acervo criado pela humanidade que está, quando não é apropriado indebitamente, à disposição de todos nós.

Mas eu entendo. Você, com toda sua inteligência, caiu na armadilha que alguns “economistas” espalharam pelo mundo: reduziram a realidade e fazem crer que o reduzido é o todo.

Quanto à comparação com o MST, deve ser coisa do seu inconsciente tentando defender o “bem bom”. Qual o paralelo entre um movimento que revindica terras e um que cria softwares? Nenhum, sem demérito para o MST. A burrice da comparação vem, com certeza, da lembrança que o software livre, como muitas outras criações, tem, em geral, uma licença “creative commons” que incomoda muito pessoas como você.

Ah, duas observações finais. Veja só a lógica de “anta” que você usou: “Como não existe almoço grátis então não existe software livre”. E ainda, Nelson não-sei-o-quê, o Richard Stalmann é simplesmente o fundador da Free Software Foundation e do GNU Project.

Pula fora, meu amigo. Este é o meu almoço grátis para você.

Termino lembrando ao infeliz jornalista que a imagem que ilustra o post está protegida por uma licença “creative commons”. “Chato”, não é? E, sugerindo que você, leitor, participe da pesquisa relacionada ao tema, no post que se segue.

O quanto é o bastante?

1) Novo: Para ler notícias relacionadas à Nova Economia, acesse o link à direita.
2) A Pesquisa da Semana é sobre o tema tratado no post e está apresentada em seguida a ele.

Conforme mencionei anteriormente, o documento “Enough Is Enough“, resultado de uma conferência promovida pelo CASSE e a organização “Economic Justice for All” em 2010 é uma importante referência para a Economia em Equilíbrio.

Cerca de 250 economistas, cientistas e outros interessados se reuniram com dois objetivos:

  • Chamar a atenção a respeito do volume substancial de evidências cientificas que mostram que o crescimento econômico não é ambientalmente sustentável e não está melhorando a qualidade de vida nos países desenvolvidos.
  • Identificar políticas específicas e implementáveis para se chegar à uma Economia em Equilíbrio.

 O documento realça uma importante e interessante ideia: Ao invés de mais, o bastante, baseada na noção que a partir de um nível, dito suficiente, de bens e serviços, mais não significa maior bem estar. É de se supor que o bastante é alcançável e viável para todos. Em sendo, tendo em vista, como vimos em post anteriores, que os desejos dos seres humanos são ilimitados e contidos apenas pela renda disponível, limitar o consumo ao bastante implica em renda compatível com tal nível de consumo.

Bem, sobre o 1º objetivo da conferência, o documento destaca que “a humanidade já ultrapassou 3 (*) de 9 fronteiras do planeta”. Tais fronteiras definem limites cuja ultrapassagem podem causar abruptas e catastróficas mudanças ambientais. E são: mudança climática (*), perda de biodiversidade (*), ciclos de nitrogênio (*) e fósforo, redução da camada de ozônio, acidificação dos oceanos, uso da água, uso da terra, carga de aerosol e poluição química.

Outros indicadores, como a “pegada ecológica” indicam que estamos num estado de esgotamento ecológico global: a devastação de florestas e a pesca ocorrem em ritmo mais rápido do que a reposição. Resíduos como CO2 não mais conseguem ser absorvidos. O resultado é a erosão do estoque de recursos naturais e do suprimento de serviços do ecosistema dos quais a economia e a sociedade, em última instância, dependem.

No documento são identificadas 10 principais políticas para se chegar a uma Economia em Equilíbrio e para cada uma indica porque é necessária e como pode ser implementada. Tais políticas são:

Limitar o uso de recursos e as perdas.
Estabilizar a população.
Distribuição equitativa da renda e riqueza.
Reformar o sistema monetário.
Mudança nos critérios de medida do progresso.
Pleno emprego.
Repensar a estrutura das empresas e os métodos de produção.
Cooperação entre as nações.
Mudança no comportamento do consumidor.
Atrair os políticos e a mídia para a nova realidade.

E salienta a necessidade de uma nova teoria econômica que reformule conceitos fundamentais como investimento, produtividade e propriedade, de forma que a economia gere retornos sociais e ambientais, a produtividade seja otimizada e haja estimulo a cooperativas e outras formas de controle dos empreendimentos.

O documento menciona também o mais importante, o que fazer para se chegar lá, e propõe um plano de transição para avançar em direção a uma Economia em Equilíbrio:

Estimular a mudança comportamental do “mais” para o “necessário”.
Aprofundar as pesquisas relacionadas a uma nova teoria econômica.
Divulgar os males do crescimento econômico e as vantagens de uma Economia em Equilíbrio.
Dar suporte e implementar as políticas de transição para uma Economia em Equilíbrio.

 Vê-se em algumas das políticas propostas a esperança, infundada a meu ver, de que seja possível induzir a mudança no comportamento de cada um. Também, não se menciona o “como” fazer, o que será objeto de um post específico.

Termino sugerindo que você participe da pesquisa de opinião da semana, apresentada no post que se segue, e relacionada ao tema.

As Regras para o Bem Estar

Leitor: A Pesquisa da Semana é sobre o tema tratado no post e está apresentada em seguida a ele.

Ciclista en la paredphoto © 2010 Toni Perelló | more info (via: Wylio)

Conectar-se, ser ativo, estar informado, aprender, dar.

Verdadeira receita de autoajuda.

Bem, vamos ao detalhe da proposta da nef (Five Ways to Well-being) que é baseada em evidências e que busca identificar regras a serem adotadas pelos indivíduos em seu dia a dia e que possam ser objeto da ação de políticas governamentais visando melhorar o bem estar.

Conectar-se: “As relações sociais são críticas para nosso bem estar”. … “O governo pode propor políticas que encorajem os cidadãos a dispender mais tempo com a família e amigos e menos no ambiente de trabalho”. Redução da jornada de trabalho e trabalho local são algumas das recomendações.

Ser ativo: “Exercitar-se melhora o humor e reduz as taxas de depressão e ansiedade”. O uso da bicicleta e mais áreas verdes são sugestões apresentadas.

Estar informado: “Refletir sobre nossas experiências” … “conscientizando sensações, pensamentos e impressões aumenta nosso auto conhecimento e bem estar”. Treinamento e regulação publicitária são algumas das ideias de políticas públicas.

Aprender: “O aprendizado encoraja a interação social, aumenta a autoestima e a sensação de competência”. O aprendizado em todas as fases da vida é a principal recomendação.

Dar: “… o comportamento cooperativo ativa áreas de satisfação do cérebro, sugerindo que nós somos voltados para ajudar-nos mutuamente”. A participação comunitária é o destaque.

Duas observações vêm logo à mente ao ler-se a proposta.

Muita coisa importante para o nosso bem estar ficou de fora, não é mesmo? Onde ficam, nesta estória, os sentimentos, os prazeres, as sensações e tudo o mais que compõe o nosso dia a dia e a nossa vida?

A segunda é ainda mais forte. Como é complicado e perigoso tentar reunir os dois mundos, o do nosso bem estar e o das políticas públicas para melhorá-lo. A ideia que transparece é a de que o agente é o governo e não o contrário, o individuo, que em sua ação dirige, ou ao menos procura, o seu destino.

Termino sugerindo que você participe da pesquisa de opinião da semana, apresentada no post que se segue, e relacionada ao tema.

Simples e Relevante

Leitor: A Pesquisa da Semana é sobre o tema tratado no post e está apresentada em seguida a ele.

Simple 2photo © 2010 Kristian Bjornard | more info (via: Wylio)

Conforme mencionei no post “sustentável?“, o artigo “Simples e Relevante” escrito em parceria pelo diretor do Centro de Desenvolvimento Sustentável da UnB, Elimar Pinheiro do Nascimento, e Gisella Colares, e publicado em O Globo em 25 de fevereiro de 2011, tem grande afinidades com as teses da Nova Economia o que me leva a comentá-lo aqui.

O artigo apresenta de forma simples, original e comunicativa as “3 vias a serem percorridas”:

Desmaterialização da produção – “produzir mais e consumir melhor usando menos recursos naturais”. Produzir mais é inevitável pois será necessário atender os que “deverão ingressar no mercado de consumo, nos próximos vinte anos…, cerca de 2 bilhões e meio de consumidores demandando bens, energia, habitação, transporte e serviços diversos”. Usar menos recursos naturais, imagino que em termos relativos, também, dada a limitação do planeta. Parece-me que somente com a percepção concreta desta limitação (que deve ocorrer a “duras penas”) é que se definirá na prática o quanto de restrição ao consumo será necessária em complemento às inovações tecnológicas.

Descarbonização da economia – “reduzindo a produção de dióxido de carbono, o gás que mais contribui para o aquecimento global”, complementada com maior eficiência energética e redução do consumo de energia per capta.

Desmercantílização da economia – “…estímulo à autoprodução, tanto de bens quanto de serviços, e da troca não mercantil no interior de comunidades, inclusive com moeda própria. Enfim, incentivar as diversas formas de produção e consumo da economia solidária”.

O artigo não aborda, nem me parece que tenha esta intenção, o como fazer para que tais vias sejam percorridas. Neste ponto acredito que o movimento pela Nova Economia tenha uma contribuição importante, apesar de parcial. Hoje, as principais organizações envolvidas com o assunto defendem a ideia que é preciso formular, detalhar e divulgar ao máximos as ideias para que elas estejam disponíveis e sejam conhecidas quando o momento estiver amadurecido para a mudança.

Mas, é claro, para que haja a mudança é preciso mais do que isto: mobilização e luta, assunto que será objeto de um post específico.

Aproveito para informar que incluí o CDS da UnB nos links de referência pela afinidade com as teses da Nova Economia e pelas publicações e informações disponíveis. É provavelmente o centro teórico mais importante sobre o assunto no Brasil.

Em seu “site” existe uma descrição completa das capacidades do centro. Destaco apenas o fato de que, em média, uma tese ou dissertação é defendida por semana desde o ano 2000. E que publica uma revista semestral: “Sustentabilidade em Debate”.

Bem, termino sugerindo que você participe da pesquisa de opinião da semana, apresentada no post que se segue, e relacionada ao tema.

As limitações do PIB como indicador

No sea...photo © 2007 Marina Carvalho | more info (via: Wylio)

 

Há tempos questionei o uso do PIB em comentário a um artigo do Carlos Alberto Sardenberg intitulado “Porque não crescer 10%” e publicado no O Globo. Recebi do autor a seguinte resposta: “Dizia John Kennedy: quando a maré sobe, leva todos os barcos”. É provável que Kennedy tenha feito tal afirmativa em outro contexto, mas, usando a metáfora da maré e os números que mostrei no último post, ao subir a maré, se o “navio” do crescimento econômico chegar a 16 nós, o “navio” da redução da pobreza extrema estará a apenas 0,6 nós. Ora, como a velocidade do comboio é a do navio mais lento, o que ocorre é o abandono deste navio mais lento. Nem abandono, de fato, já que dele nunca fez parte.

Aliás, o irmão, Robert Kennedy, em palestra na Universidade do Kansas em 18 de março de 1968, durante campanha eleitoral, fez uma brilhante síntese das limitações do indicador:

“O Produto Nacional Bruto contabiliza a poluição atmosférica e a publicidade de cigarros. E as ambulâncias para remover os feridos em auto estradas. Considera as fechaduras especiais para as nossas portas e as prisões para as pessoas que as arrombam … Conta a destruição das florestas e a perda, que se espalha caoticamente, de nossas belezas naturais. Ao mesmo tempo, o PNB não leva em conta a saúde de nossas crianças, a qualidade de sua educação e a alegria de suas brincadeiras. Não inclui a beleza de nossa poesia ou a solidez de nossos casamentos, a inteligência de nossos debates públicos ou a integridade de nossos homens públicos … Mede tudo, em resumo, menos aquilo que faz com que a vida valha a pena”.

Mais recentemente, o jornalista Jon Gertner no belo e completo artigo “The Rise and Fall of the GDP” publicado no New York Times de 10 de maio 2010, faz uma divertida comparação entre duas pessoas: Uma, chamada de “Alto PNB” e outra, chamada de “Baixo PNB”. A primeira usa um carro de alto consumo e leva duas horas para chegar ou voltar do trabalho, isto lhe causa “stress” e problemas de saúde, e por aí vai o autor descrevendo a dura vida deste personagem. O outro, caminha para o trabalho, produz uma parte e prepara sua própria comida, e por aí vai o autor, salientando detalhes de um outro tipo de vida. Os hábitos do primeiro são a matéria prima do crescimento econômico, e os do segundo, o caminho para a recessão. Estranho, não?

Nas duas citações acima, parece-me que salta aos olhos a questão da qualidade da medida, a saber, o que está e o que não está sendo medido, muito mais do que como a medida é feita. O desperdício, por exemplo, não é medido nem entra negativamente na contabilização. Em consequência, se a sociedade se mobilizar para reduzir a perda de energia, de alimentos e de bens e serviços em geral, estará contribuindo para a redução do PIB e de empregos.

Este exemplo do desperdício mostra que crescimento econômico só faz sentido quando gera riqueza real. E mesmo assim, vale lembrar, ele está inevitavelmente limitado, conforme mostrado em posts anteriores, pelas imposições ambientais, pelo chamado “pico das energias intensas em carbono” e pelos conflitos sociais, dada a impossibilidade de oferecer a todos padrão de vida similar ao das classes mais favorecidas.

A Economia Solidária

A proposta da economia solidária tem importantes afinidades com o movimento pela Nova Economia. Destaco na entrevista de Paul Singer a afirmação de que aos poucos, muita gente tem optado pela economia solidária, porque trata-se não apenas de melhoria na renda, mas de uma relação de trabalho mais humana, que leva em conta a felicidade pessoal. Este movimento tem ajudado a dinamizar as economias locais, garantir trabalho digno e renda às famílias envolvidas, e promover a preservação ambiental e a conscientização sobre o consumo responsável.

O movimento, no Brasil, iniciou-se nos anos 80 e está hoje bastante difundido. O último mapeamento localizou 22 mil empreendimentos no setor. O número hoje deve ser significativamente maior pois o mapeamento foi feito em 2007 e abrangeu apenas 52% dos municípios. Em 2003 organizou-se através de um fórum nacional autônomo. A ideia foi, desde então, incorporada às políticas públicas em centenas de municípios, em 18 estados e no governo federal e tornou-se objeto de ensino, pesquisa e extensão em mais de 100 universidades em todas as regiões do Brasil.

A marca da economia solidária são as cooperativas, cujos donos são os próprios trabalhadores e gestores. Redes, facilitam a comercialização de produtos e serviços. São iniciativas de projetos produtivos coletivos, cooperativas populares, catadores de materiais recicláveis, redes de produção, comercialização e consumo, instituições financeiras voltadas para empreendimentos populares solidários, empresas autogestionárias, cooperativas de agricultura familiar e agroecologia e cooperativas de prestação de serviços.

Igrejas, sindicatos, universidades, entidades da sociedade civil e governos envolvidos com a economia solidária têm um papel relevante de apoio.

O Fórum Brasileiro de Economia Solidária, fundado em junho de 2003, é o coordenador nacional do movimento e não se confunde com o similar estatal, a Conselho Nacional de Economia Solidária. Seu desafio é apoiar o abastecimento e a comercialização, o uso de moeda social, promover rodadas de negócio, realizar feiras, fazer campanha de consumo consciente, comércio justo e solidário, constituir redes, cadeias produtivas, finanças solidárias e trabalhar no campo do marco legal (especialmente: lei geral do cooperativismo e cooperativa de trabalho). Dele participam entidades como Abcred, Anteag, Concrab, Ecosol, Unicafes, Unisol Brasil, Cáritas Brasileira, FASE Nacional, Ibase, IMS, PACS, Rede ITCPs e Rede Unitrabalho.

O professor Paul Singer, economista e sociólogo da USP é a principal voz do movimento em prol da economia solidária. Além de diversos trabalhos sobre o assunto, ajudou em 1998 a criar a Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares da USP e assumiu a coordenação acadêmica da incubadora. A partir de junho de 2003, passou a ser o titular da Secretaria Nacional de Economia Solidária.

Os 12 tópicos mais relevantes

Cresce em todo o mundo a consciência de que já é possível alcançar um novo patamar de bem estar superando a obsessão pelo crescimento econômico, preservando o meio ambiente, respeitando a limitação dos recursos naturais e reduzindo as desigualdades sociais. E que, para atingir um objetivo deste porte é preciso uma mudança social complexa, sistêmica, integrada e global.

Acreditando que a elaboração teórica, a formulação de propostas, a mobilização de pessoas e o trabalho político possam superar os obstáculos e a reação à mudança, inúmeras organizações civis em todo o mundo estão, de uma forma completa ou parcial, desbravando o terreno e liderando a luta. New Economics Foundation, New Economics Institute, New Economy Network, Tellus e New Economy Working Group, são alguns dos exemplos significativos de organizações dedicadas a este movimento pela Nova Economia.

12 pontos me parecem os mais relevantes da proposta de mudança preconizada pelo movimento por uma Nova Economia. Descrevo-os resumidamente a seguir. Em novos posts abordarei cada um em mais detalhes.

1.Bem estar: A felicidade do ser humano pode ser melhor endereçada subordinando-se o crescimento econômico ao interesse público e não o contrário. Isto, é claro, atendendo as necessidades inerentes a uma qualidade de vida adequada para todos.
2.Custos sociais e ambientais: Inclusão dos custos e benefícios sociais e ambientais no preço de de um produto, serviço e no valor dos investimentos tanto privados quanto públicos, com consequente mudança no perfil, possibilidade e necessidades de consumo.
3.Jornada de trabalho: Redução para 21 horas semanais eliminando o desemprego, gerando tempo livre e enfatizando o trabalho não remunerado e o lazer.
4.Distribuição da renda: Redistribuição do tempo de trabalho, da renda e da riqueza, através de impostos e incentivos, diminuindo as desigualdades.
5.Coprodução: Envolvimento dos favorecidos através da coprodução de bens e serviços públicos em áreas como educação e saúde.
6.Esfera pública: Ampliação e fortalecimento dos bens e serviços públicos entendendo-os como pertencentes a todos e livre atuação do mercado neste contexto.
7.Esfera civil: Fortalecimento do setor sem fins lucrativos atuando em conjunto com os setores público e privado.
8.Decisões locais: Tomada de decisões públicas pelos diretamente afetados e interessados valorizando a especificidade de cada núcleo urbano e cultural, mas sem perder de vista que existem produtos e serviços cuja produção e tomada de decisões pertinentes possam se dar mais adequadamente nos níveis regional, nacional ou internacional.
9.Taxação: Irrigação econômica com a transferência da taxação do trabalho para o consumo, atividades com impacto negativo em termos sociais e ambientais, e atividades especulativas.
10.Instituições financeiras: Vínculo do crédito com a capacidade dos tomadores em criar valor social e ambientalmente, e enfase no atendimento de necessidades locais.
11.Interdependência das nações: Reconhecimento da interdependência das nações no enfrentamento das desigualdades sociais e problemas ambientais.
12.Teoria do bem estar: Formulação de uma nova teoria econômica voltada para o bem estar coletivo.

Cabe ainda mencionar que a publicação “The Great Transition” apresenta uma visão de como pode se dar a transição para a Nova Economia e é uma ótima referência para uma visão detalhada dos pontos apresentados.

Socialismo?

A Nova Economia propõe a redefinição do desenvolvimento econômico conciliando crescimento, justiça social, sustentabilidade ambiental e bem estar. Para tanto advoga a ideia da economia estável onde o crescimento econômico seja substituído pelo aumento do bem estar, evidentemente numa transição que permita a bilhões de pessoas em todo o mundo alcançar um patamar digno de sobrevivência.

Será que isto quer dizer o fim da capitalismo? Acredito que sim, pois sem crescimento a taxa de lucro e a taxa de acumulação do capital produtivo tendem a declinar continuamente. Será então que o que se propõe é uma transição para o socialismo? Certamente que não para o socialismo que preconizava a estatização dos meios de produção.

Os que defendem uma Nova Economia não falam em revolução nem em estatização mas vêm a inevitável necessidade de modernizar e reformar o sistema econômico subordinando os interesses dos detentores do capital e permitindo que a humanidade saia da ameaça socioambiental cada vez mais aguda. Ao mesmo tempo em que lutam pelas mudanças procuram formular uma nova teoria econômica que explique e permita lidar com a nova realidade. Ingenuidade?

Acho que uma boa referência para esta discussão seja o livro “Capitalismo, Socialismo e Democracia” de 1942 de Joseph Schumpeter. Além de sua famosa tese da “destruição criadora” ele detalha no livro sua critica, consistente, séria e respeitosa, à teoria marxista em vários domínios, e vaticina que em algum momento as forças do capitalismo levariam ao seu próprio fim, mas não pela via de uma revolução e estatização dos meios de produção e sim pela evolução cooperativa. Esta é provavelmente a visão mais correta para o que está sendo chamado de Nova Economia. Uma evolução possível e latente já que o mundo moderno alcançou as condições para dar prioridade ao bem estar do ser humano e subordinar os interesses econômicos a tal prioridade. E sem ela, sucumbe.

Complemento estas observações com uma referência ao termo Nova Economia. Em inglês, “economics” tem um sentido preciso, trata-se da ciência social que estuda o sistema produtivo e seus impactos. Já “economy”, simboliza o sistema produtivo, em si. Em português, a mesma palavra, economia, tem estes e outros significados, o que faz com que o termo Nova Economia tenha duplo significado. Interessante é que o termo “New Economics” apesar da imprecisão é usado, por falta de opção, também com os dois significados.

Convém ainda lembrar que o termo foi usado a partir de meados da década 90 para representar a expectativa de um novo “mundo” resultante do impacto das tecnologias de informação nas empresas e na vida das pessoas. Tal ideia chegou ao seu auge com a supervalorização de empresas ligadas à internet e rapidamente desapareceu com o estouro da bolha acionária em 2001.

Antes disto, logo após a revolução russa, Lenin foi obrigado a lançar a Nova Política Econômica, a NPE, para reerguer a nação destruída. Esta e a Nova Economia pouco tem a ver, uma um plano de ação, outra uma visão de futuro em construção.

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