Madoff é o grande mestre

1) Para ler notícias relacionadas à Nova Economia, acesse o link à direita.
2) A Pesquisa da Semana é sobre o tema tratado no post e está apresentada em seguida a ele.

'three horsemen of the apocalypse, greenspan, et al' photo (c) 2009, derek visser - license: http://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0/

Os três cavaleiros do apocalipse: Greenspan (centro), Rubin e Summers

As nações desenvolvidas estão fazendo de suas dívidas enormes pirâmides, agindo como o Madoff. A pertinente afirmação foi feita por Jacques Attali em entrevista para o Le Monde na última 4ª feira e reproduzida no O Globo no dia seguinte.

Bernard Madoff, financista americano, foi quem provocou, em 2008, perdas de 65 bilhões de dólares com o golpe da piramide, pagando a seus investidores altos rendimentos, enquanto pôde, utilizando os recursos advindos dos novos investidores atraídos pelos mesmos altos rendimentos.

Vale lembrar que no post publicado em maio último A Grande Recessão se desdobra e apoiado em estudo da Auvest ficou claro que “o problema de débito excessivo não pode ser resolvido assumindo-se mais débito” e que estamos apenas na 2ª de 5 fases de acirramento da crise global, cujo ápice foi previsto para meados desta década. As ocorrências da última semana, provocadas pelo rebaixamento da classificação da dívida soberana americana e a impossibilidade da Europa gerir a crise da dívida que agora atinge a Espanha, a Itália e a França, por contágio da que se instalou na Irlanda, Grécia e Portugal, indicam que o desfecho pode se dar antes do que o imaginado.

É um mundo em turbulência, com o desemprego instalado e ampliando-se e que leva à revoltas populares na Espanha, Grécia, Norte da África, Israel e Síria, e agora com grande fúria, na Inglaterra.

Retornando à entrevista, o entrevistado vê fundamento no pânico que se instalou na semana passada, já que “a crise não foi resolvida, nem a do endividamento, nem a da governança tanto na Europa quanto nos Estados Unidos. O sistema está super endividado e os mercados sabem que um dia será preciso pagar a conta”.

O problema está concentrado nos países desenvolvidos. No estudo “Debt burden in advanced economies, now a global threat” de Eswar Prasad e Mengjie Ding, tanto o problema quanto a concentração ficam claros: “O percentual do débito líquido em relação ao PIB dos países desenvolvidos foi de 46% em 2007 para 70% em 2011 e chegará a 80% em 2016. Já para as economias emergentes o mesmo percentual foi de 28% em 2007 para 26% em 2011 e chegará a 21% em 2016. Para mais e impressionantes detalhes, comparando países, o leitor poderá cessar o gráfico interativo online do Financial Times mediante registro gratuito.

O entrevistado não para por ai. Ele ressalta que na Espanha e nos EUA já começaram as moratórias no setor privado e que um calote da dívida americana só não ocorre graças ao poder que tem de imprimir dólares. E mencionou que após 2008 o ocidente não fez as reformas estruturais, apenas adiou o problema. Foi como dizer: “um momento, senhor carrasco”.

Mas, capitula na conclusão ao insistir no crescimento econômico como solução. Curiosamente, ele “esqueceu” que da mesma forma que mais dívida não resolve a dívida, mais crescimento somente irá aguçar os problemas que este mesmo gerou.

A crise se acirra e tem desfecho incerto. As guerras impulsionaram, historicamente, a “destruição criadora” teorizada por Schumpeter (ver o post Socialismo?) mas hoje teriam, se entre potencias bélicas, consequências catastróficas. A inflação, dissolveria as dívidas, mas traria efeitos políticos e sociais igualmente graves.

Em algum momento, portanto, a humanidade irá iniciar a transição para uma Nova Economia, forjando um mundo com justiça social, que preserve o meio ambiente e que nos permita maior bem estar.  Infelizmente, não sem grandes traumas sociais já que uma mudança de tal porte somente ocorrerá, previsivelmente, após esgotadas as tentativas via crescimento, guerra e inflação.

Termino sugerindo que você participe da pesquisa relacionada ao tema, no post que se segue.

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Decrescimento – qual a consistência?

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'qual é a dúvida?' photo (c) 2007, Diego Dacal - license: http://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0/

O título deste post, peguei “emprestado” do trabalho “Décroissance: Qual a consistência?” de Elimar do Nascimento e Gisella Colares apresentado no VIII Encontro da Sociedade Brasileira de Economia Ecológica em 2009, e que é uma excelente fonte para um aprofundamento das questões propostas pelo decrescimento, objeto do último post. Ele é a fonte também da citação e resumo transcritos no texto a seguir. Para uma visão geral do trabalho, veja os slides da apresentação feita no encontro.

O leitor encontrará também, no blog, 2 links de sites que se dedicam ao assunto e que contém excelentes informações, indicações de outros sites e bibliografia.

Dito isto, passo aos meus comentários sobre o assunto.

O mais importante é que o movimento pelo decrescimento tem uma abordagem de convivência e diálogo com as obras, autores e outros movimentos que tratam da mesma temática, e que não se vê como detentor exclusivo da visão crítica do papel do crescimento econômico. E isto é muito bom, pois é juntando forças, como diz bem Gus Speth (do Ambientalismo à Nova Economia) que os movimentos ambientalistas, por uma Nova Economia, por uma Economia em Equilíbrio, Decrescimento e outros similares poderão antecipar e viabilizar as mudanças e com isto abreviar o sofrimento, especialmente o das populações carentes.

Um segundo comentário é sobre o nome. Citando Serge Latouche: “…o decrescimento não é um conceito, no sentido tradicional do termo, e que não seria o caso de falar propriamente de “teoria do decrescimento” como os economistas souberam elaborar as teorias do crescimento. O decrescimento é simplesmente um slogan, lançado por aqueles que procedem a uma crítica radical do desenvolvimento a fim de quebrar a rigidez economicista e de desenhar um projeto de reserva para uma política de pós-desenvolvimento”. O termo decrescimento, parece-me pois, é usado para expressar o rompimento com a ideologia do crescimento econômico a qualquer custo.

 Finalmente, ressalto a quase completa afinidade do decrescimento com o movimento pela Nova Economia, o por uma Economia em Equilíbrio e outros. Basta comparar a proposta dos oito erres, de autoria de Latouche, apresentadas resumidamente a seguir, com a “declaração do CASSE” e o documento “The Great Transition” da nef:

“1. Reduzir o consumo em geral, e com isso a produção, afinal é possível viver melhor com menos, pois grande parte de nosso consumo é induzido e pouca relação tem com nossas mais profundas necessidades;

2. Reciclar os produtos existentes para dispensar a produção de novos, criando a cultura da conservação e do reaproveitamento ao invés do descarte;

3. Reutilizar o que já existe de forma inteligente economizando recursos naturais e energia;

4. Reavaliar os nossos consumos, os nossos hábitos, os nossos procedimentos que são na maioria das vezes degradadores da natureza;

5. Reconceituar a nossa vida, o nosso consumo, as nossas relações e vínculos sociais para uma direção mais saudável;

6. Reestruturar, ou seja, adaptar as estruturas econômicas e as instituições políticas e sociais aos novos objetivos de uma sociedade convivial;

7. Redistribuir melhor os bens existentes, incluindo a participação nos processos decisórios, portanto, uma redistribuição econômica, mas também política, cultura e social;

8. Relocalizar a produção, o trabalho, a moradia para que o “não transporte” possa ser disseminado, para que os transportes de mercadorias sejam reduzidos, assim como o de pessoas;”

Termino sugerindo que você participe da pesquisa relacionada ao tema, no post que se segue.

Decrescimento

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2) A Pesquisa da Semana é sobre o tema tratado no post e está apresentada em seguida a ele.

Na Europa, em especial na França e na Espanha, o movimento pelo “decrescimento” vem defendendo ideias que têm muita afinidade com as da Nova Economia. Por isto, convidei Edson Franco, economista e co-moderador da lista brasileira sobre o decrescimento para fazer uma apresentação do tema.

Edson Franco

O avanço da ciência e da técnica tem trazido benefícios para as populações, mas também vários problemas de ordem econômica, política, ambiental e social. O decrescimento é uma proposta para resolver esses problemas de forma profunda e eficaz.

O decrescimento é uma evolução conceitual do pensamento de críticos à modernização de nossas sociedades. Dentre muitos, vale destacar, já no início da década de 60, Ivan Illich (pensador austríaco) e Rachel Carson (bióloga estadunidense) que alertaram para os efeitos negativos da economia contemporânea, Ernst Schumacher, autor do livro “Small is beautiful” lançado em 1973 e Nicholas Georgescu Roegen, que em estudo de 1971 inovou ao utilizar as leis da termodinâmica para demonstrar a limitação do crescimento econômico.

A proposta formal do decrescimento econômico veio a ser lançada somente três décadas depois, mais precisamente em novembro de 2003, através do artigo “Pour une société de décroissance” no jornal “Le monde diplomatique” escrito por Serge Latouche. A ideia ganhou força e conta desde então com a contribuição teórica de Latouche e vários outros pensadores.

Bem a proposito, o simbolo do decrescimento é o caracol, adotando um exemplo trazido por Ivan Illich. O caracol constrói espirais cada vez maiores até bruscamente começar a fazer voltas cada vez menores. Se continuasse crescendo, em apenas uma volta sua concha seria 16 vezes maior inviabilizando sua existência.

'Caracol sobre hoja' photo (c) 2007, Enrique Dans - license: http://creativecommons.org/licenses/by/2.0/É importante destacar que o decrescimento nada tem a ver com o conceito de desenvolvimento sustentável. O decrescimento alerta que não é possível um crescimento infinito num planeta finito. A escassez de recursos naturais e energia, entre outros, faz com que o paradigma do crescimento infinito tenha que ser superado com urgência. Por isso, defender o desenvolvimento sustentável é ludibriar-se.

Uma outra forma de abordar tal limitação ambiental é através da “pegada ecológica” que expressa a quantidade de terra e água necessária para sustentar uma determinada população tendo em vista todos os recursos materiais e energéticos gastos por essas mesma população. A pegada ecológica da humanidade alcançou tamanhos alarmantes. Segundo a WWF, o aumento do consumo dos países subdesenvolvidos, aos índices de consumo dos EUA, representaria a necessidade de outros 6 planetas Terra.

Isso aponta para mais um problema: a superpopulação. E, dados recentes divulgados pela ONU prevendo que a população total da terra em 2100 será de 10,1 bilhões de pessoas mostram que ficará ainda mais agudo. Falta de alimento, água e trabalho, e piora ainda maior na qualidade de vida, violência urbana e desigualdade social são algumas das consequências do quadro demográfico.

Para resolver estes e outros problemas, o decrescimento econômico propõe a diminuição das atividades econômicas: menos produção de bens comerciáveis, menos deslocamentos, menos quantidade de horas trabalhadas, menos poluição e desmatamento. O decrescimento enxerga no menos, o mais, e propõe que as pessoas retirem do seu imaginário o crescimento econômico como um valor inquestionável.

Bem, no próximo post apresentarei mais informações e comentários a respeito.

Termino sugerindo que você participe da pesquisa relacionada ao tema, no post que se segue.

Simplesmente, uma loucura

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Equilibriophoto © 2007 Toni Castillo Quero | more info (via: Wylio)

Bem, o professor Mountebank está em intensa atividade. Divirta-se lendo a entrevista que ele acaba de conceder ao pessoal do CASSE.

Na entrevista ele analisa o artigo “Simply madness” publicado na “National Review” e escrito por Jonah Goldberg no dia 10 de junho último. Este sim, convém levar a sério pois retrata as principais críticas à Economia em Equilíbrio e típicas da parcela conservadora da sociedade americana.

O Artigo começa com uma grotesca negação da bela frase atribuída a Gandhi: “Viva simplesmente para que os outros possam simplesmente viver”, dizendo que a simplicidade não vai resolver os problemas americanos, mas que o crescimento econômico, sim.

E vai daí para pior.

Vou me deter em uma das críticas apontadas na parte que se segue do artigo. As demais, deixo para os leitores a diversão de responder. Vale consultar para isto a seção “Mitos e realidade” no site do CASSE.

Ele compara o estado de equilíbrio com a parte reta e horizontal da curva de um eletrocardiograma. Ou seja, com a morte, que segundo ele é o mais equilibrado de todos os estados. Como diz o José Eli em recentes artigos, nada mais tosco.

Explico. O equilíbrio se dá quando cessam os efeitos transientes de um fenômeno, mas é dinâmico, aspecto aliás muito bem posto, em relação à economia, no livro “The New Economics“. Em outras palavras, equilíbrio é movimento após superadas as ocorrências transitórias.

O oceano, por exemplo, está em equilíbrio (quando não ocorrem tsunamis) mas em permanente movimento. Até nos casos estacionários, o estado é apenas aparente. Por exemplo, quando um objeto é dito em órbita estacionária é porque ele está fixo apenas em relação a um planeta de referência.

Os exemplos confirmam a noção que vale para qualquer fenômeno de que no equilíbrio contínua havendo movimento mas já cessaram os efeitos transitórios.

E, é evidente, o crescimento econômico é característico de uma época e será entendido como um efeito transiente na historia da evolução da capacidade produtiva da humanidade.

Termino sugerindo que você participe da pesquisa relacionada ao tema, no post que se segue.

Mountebank é o novo Nobel

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O post de hoje traz um pouco de ironia e humor. É uma tradução, feita por mim e revista por Fernando Goulart, diretor do CASSE, de um texto postado recentemente pelo diretor executivo do CASSE, Rob Dietz, no site da organização: “Mountebank Wins Nobel for Infinite Planet Theory“. Vamos a ele:

Rob Dietz

 Poucas pessoas leram os densos volumes publicados pelo economista Milton Mountebank, mas sua obra afetou a você, a mim e a cada pessoa do planeta. O Dr. Mountebank revolucionou o pensamento econômico e agora vê seus singulares esforços recompensados. Numa recepção de gala em Estocolmo, Suécia, o presidente do Banco Central da Suécia, Peter Norborg, entregou ao Dr. Mountebank o premio Nobel de economia por sua vida de trabalho dedicada à teoria do planeta infinito.

Na entrega do premio o Sr. Norborg declarou: “O Dr. Mountebank demonstrou imaginação e criatividade além do que uma mente racional possa compreender”. De fato, é devido à suas teorias que nós todos fazemos o que fazemos em termos econômicos. As nações batalham pelo crescimento continuo do GDP e expansão sem fim do consumo graças à teoria do planeta infinito. O Sr. Norborg continuou dizendo: “Todos os bancos, incluindo o Banco Central da Suécia, devemos muito a ele. Nós financiamos a expansão econômica. Nossas ações e decisões seriam moralmente suspeitas caso vivêssemos num planeta finito”.

Dr. Mountebank (foto de Derrick Tyson)

Num momento de descontração durante sua apresentação, o Sr. Norborg afirmou que o Dr. Mountebank é responsável por um benefício ainda maior para a humanidade ao reduzir o estresse dos indivíduos. Melhor do que tudo, ele disse: “É que nos podemos extrair, consumir e digerir recursos, sem culpa. As restrições planetárias foram conquistadas. Elas foram-se da mesma forma que se foram os drontes, o império romano e as principais áreas de pesca”.

Apesar dos livros do Dr. Mountebank não terem atingido grande audiência, seu trabalho teve forte influência sobre a elite política e empresarial. Ronald Reagan é um exemplo proeminente. É famosa a citação do Presidente Reagan: “Não há limites para o crescimento e progresso humano quando os homens e as mulheres são livres para irem atrás de seus sonhos”. Esta é aliás a citação com que o Dr. Mountebank fecha sua obra magna: “O infinito e além – O mágico triunfo da economia sobre a física”. Na mesma linha, Phillip van Uppington, ex vice-presidente do Lehman Brothers afirmou que o Dr. Mountebank teve enorme influência em sua empresa: “Nós costumávamos citá-lo a toda a hora. Um dos pontos altos de minha careira foi um simpósio que eu organizei há poucos anos atrás com Mountebank e Milton Friedman. Nós o chamamos de o dia dos dois Miltons. Eles realmente abriram nossas mentes para as possibilidades das inovações financeiras. Uma vez implementadas as doutrinas dos dois Miltons, nós passamos a ter mais receita do que a maioria das pequenas nações”.

Em seu discurso. o Dr. Mountebank contou como ele desenvolveu a teoria do planeta infinito. “Equações, Equações, Equações”, ele disse, “eu as via dançando ao deitar e de manhã, ao acordar, as escrevia. Fiz isto por três anos seguidos até conseguir finalmente juntá-las”. O núcleo da demonstração matemática da viabilidade do crescimento infinito apresentada por Mountebank foi a equação do escamoteamento, uma nebulosa expressão diferencial multivariável que, aceita-se, é entendida por menos do que 4 economistas no mundo. “Esta é a razão pela qual estou hoje neste palco”, disse Mountebank. “Infelizmente a equação é grande demais para caber na tela atrás de mim, mas é a chave para o crescimento econômico infinito. Felizmente, vocês não precisam ser economistas ou estatísticos para usá-la como um guia em seu dia a dia”.

O Dr. Mountebank continuou, segurando um globo em suas mãos e dizendo: “Nós todos reconhecemos que a terra é uma esfera, e da geometria básica, nós todos compreendemos que a esfera não tem principio nem fim. Se você sair em uma direção da superfície da esfera, não haverá ponto de término – é o infinito”. Ele moveu o globo com seus dedos ao redor dele para provar seu ponto. “C.Q.D, Sem fim. E isto significa que o planeta pode ser explorado ilimitadamente para o ganho econômico”.

A teoria do planeta infinito ganhou aceitação quase unanime nos círculos econômicos, mas tem havido algumas vozes críticas. No dia da premiação um pequeno grupo fez um piquete em frente ao Banco Central. Dentre eles, uma carregava um cartaz dizendo “Steady State”. Perguntado por que estava protestando ela disse: “Mountebank? Você não pode estar falando sério. O Nobel deveria ir para Herman Dale”. O Dr. Dale é conhecido pelo seu trabalho sobre os limites do crescimento e a Economia em Equilíbrio, conceitos que se chocam com a teoria do planeta infinito. Aliás, o Clube de Roma subscreveu tal posição ao publicar o seu “best seller “Os limites do crescimento”.

Em seus escritos, contudo, o Dr. Mountebank desconsiderou a noção de limites. Em uma das passagens do “O infinito e além” afirma: “O fim do petróleo barato, a extinção das espécies, a mudança climática, o desmatamento, o esgotamento de recursos, a pobreza extrema, a perda de serviços do ecossistema e a degradação do solo e dos aquíferos – estes são problemas sem importância, desde que continuemos a crescer a economia em direção ao seu último estágio: o infinito e além. Em nenhuma circunstância nós devemos permitir que pensamentos furtivos a respeito de um planeta finito ou restrições advindas das leis da física interfiram na construção de uma economia maior. E certamente, não devemos ouvir os pessimistas contumazes que continuam a perfilar seus fatos vazios sobre o nosso desfile de crescimento. Crescimento, por si só, é o ideal moral e político”.

O Dr. Mountebank encerrou seu discurso com uma nota pessoal, lembrando como a teoria do planeta infinito aplacou os temores de seus netos. “Eles me disseram que estavam com medo do que estava ocorrendo com o meio ambiente. Eu os acariciei e disse para não terem medo. Porque, acima de tudo, não se consegue prejudicar a natureza num planeta infinito. Por definição, há sempre mais”.

O Dr. Mountebank (cujo nome em português seria Dr. Milton Trapaça) já é o oitavo agraciado com o premio Nobel em economia oriundo da “Fantasia University”.

Termino sugerindo que você participe da pesquisa relacionada ao tema, no post que se segue.

Dúvidas sobre a declaração do CASSE

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Recebi e-mails dos leitores e amigos Mario Simas e Benedito Oliveira com questionamentos a respeito da declaração do CASSE. Ao analisá-los percebi que os pontos levantados e as respostas poderiam ser de interesse dos demais leitores, daí este post, que aborda, a seguir, cada um dos pontos mencionados. Ressalto que o artigo mencionado ao final deste post é uma excelente referência para aqueles que desejarem aprofundar-se nas questões.

1) Estão realmente consolidados os princípios da física e da ecologia indicando limites para o crescimento econômico, e quais são eles?

As duas primeiras leis da termodinâmica, o conceito de nível trófico (cadeia alimentar) e o da exclusão competitiva são os princípios cuja aplicação já está bastante consolidada no estudo e configuração da necessidade de uma Nova Economia.

2) É viável esperar que as nações movam-se em comum acordo na direção de uma Economia em Equilíbrio e que as mais ricas aportem recursos para tanto sem afetar a soberania dos demais?

Acredito que não. As nações estão muito longe de aceitarem a tão mencionada governança global. Assim, é previsível supor que será necessário que as catástrofes ambientais, o aumento do consumo per capita e da massa de consumidores e o acirramento da crise social fiquem mais do que evidentes para que os países se vejam forçados a convergirem para um entendimento, isto, se houver tempo.

3) Porque não não é viável esperar que o progresso tecnológico possa vir a amenizar o conflito entre crescimento econômico, ecologia e bem estar, a longo prazo?

As inovações não tem sido usadas para tal fim e não é de se esperar que o venham a ser por estrem intimamente ligadas ao crescimento econômico e dele depender para o seu financiamento.

4) Por que o aumento do consumo per capita é apenas marginalmente afetado pelo aumento da população?

A incorporação anual ao mercado de cerca de 200 milhões de pessoas faz com que parte do que é produzido seja consumido por estes, mas num quadro em que continua havendo crescimento per capita.

5) No cenário de uma Economia em Equilíbrio, terão as nações mais ricas recursos para apoiar as demais, na transição?

É claro que sim, quando estiverem suficientemente aflitas.

6) Por que é adequado manter-se o aumento do consumo per capita como objetivo para as nações que não tenham atingido patamar estabelecido de bem estar?

Para atender as necessidades das populações carentes.

7) E, por fim, uma questão mais ampla: será que a situação vai realmente ficar tão ruim?

O tempo dirá. Além de indicações muito fortes de crise ambiental e social ainda existe o fato de que já é possível ao ser humano conquistar um maior bem estar saindo da “roda viva” do crescimento econômico. Assim, o quanto antes a humanidade puder agir, melhor.

Observo que, buscando melhor expressar o ponto de vista do CASSE, conversei com o seu presidente, Brian Czech, principalmente sobre as respostas às primeira e terceira perguntas. Observo ainda que consultei, ao responder, o artigo por ele escrito e publicado na “Conservation Biology” e que é, ao meu ver, uma das melhores fontes para aprofundar-se o assunto.

Aproveito para mencionar que o site do CASSE está muito bem feito, apresenta os assuntos de maneira leve e bastante completa além de apresentar uma excelente lista de leitura atualizada e por tópicos.

Termino sugerindo que você participe da pesquisa de opinião da semana, apresentada no post que se segue, e relacionada ao tema.

A “grande recessão” se desdobra

Leitor: A Pesquisa da Semana é sobre o tema tratado no post e está apresentada em seguida a ele.

A Nova Economia é uma resposta concreta à crise ambiental, ao desiquilíbrio social e à procura por um já possível bem estar. Estas são questões que, mesmo urgentes, tendem a ser enfrentadas somente a longo prazo. Um fato contudo, pode levar a que a mudança se antecipe e comece em meados desta década. Trata-se da “Grande Recessão” que ao contrario de estar acabando, tudo indica, está se desdobrando em movimentos ainda mais graves.

Um artigo que acaba de ser publicado no RGE – Roubini Global Economics – “The End of Financial Vandalism – Moving Forward to the Real Economy” de Humayun Shahryar e Santi Rasanayagam no último dia 5, e principalmente o cuidadoso estudo, com o mesmo título, que o embasa e preparado pela Auvest Services Limited traz uma descrição contundente dos mencionados desdobramentos.

Os autores dão consequência em termos de análise a uma constatação já evidente: “O problema de débito excessivo não pode ser resolvido assumindo-se mais débito” e que foi exatamente o recurso utilizado pelos Bancos Centrais dos países desenvolvidos. Isto dá grande solidez à previsão que fazem. No documento a crise é vista em 5 grandes movimentos:

Crise de Crédito Global (já ocorrido): A escalada da alavancagem e o subsequente colapso no preço dos ativos levou a uma crise bancária e contração no crédito. Uma repentina queda no consumo e falta de financiamento para o comercio levou a um acirrado declínio no comércio internacional.

 Suicídio soberano (implementado nos países desenvolvidos): O amplo resgate de bancos e empresas pelo estado e os imensos estímulos fiscais em conjunto com menor receita de impostos resultou na disparada no débito governamental. Já sem opções de políticas fiscais, os bancos centrais recorreram a políticas monetárias não convencionais para gerar crescimento econômico.

A Falência do Mercado Emergente (em curso): O excesso de liquidez esta levando à inflação dos ativos, “commodities” e preços dos produtos e serviços nos mercados emergentes ao mesmo tempo em que cresce a pressão dos países desenvolvidos pela reavaliação das moedas. O aumento da inflação gera conflitos nas políticas econômicas e instabilidade política e social.

A Destruição do Débito (a ocorrer nos países desenvolvidos): O forte aumento no endividamento levará a um aumento no custo de seu financiamento nos próximos anos. Muitos devedores não vão conseguir honrar ou terão que reestruturar suas obrigações e o contágio resultante causará um colapso no preço dos ativos.

O Fim da Globalização (a ocorrer até meados da década): Falta de demanda final, alto desemprego no mundo desenvolvido e inflação nos países emergentes levará ao protecionismo e eventualmente a uma guerra de moedas e de cambio. Um novo sistema monetário terá que substituir o atual.

 Os autores indicam a Índia como o país emergente com maior possibilidade de iniciar a fuga de capitais. Isto devido à inflação, o custo dos alimentos e os déficits fiscal e de conta corrente. Ressaltam também a crise no mercado europeu. Mas, como outras crises têm demonstrado, qualquer acontecimento mais forte, ou mesmo o passar do tempo, pode deflagrar o desdobramento desta.

Sobre a crise europeia em particular, a jornalista Míriam Leitão publicou um excelente artigo, “De novo, a Europa” em O Globo, no último dia 10, onde ressalta que “Em algum momento os países mais fragilizados financeiramente do continente terão que renegociar suas dívidas, dando calote parcial nos bancos”. E mais adiante, reforça a visão de uma crise ainda se desdobrando: “A situação na Europa é crítica. Não há saídas fáceis pela frente. Tudo ainda é consequência da crise que atingiu o mundo desenvolvido em 2008”.

Aliás, ela volta ao assunto de forma ainda mais enfática na coluna de hoje “Na corda bamba” focando na situação da Grécia. “O país enfrenta enorme fuga de capitais dos próprios gregos para outros países”. A renegociação parece inevitável e “… a possibilidade de contágio em caso de calote grego é grande” porque “… a renegociação da dívida implicaria em perda para os bancos, e como a crise americana mostrou todo o sistema está interligado”.

É provável que o Brasil não venha a estar no epicentro da crise já que esta se deslocará para os países desenvolvidos a partir do 4º movimento, mas sofrerá com a inflação, uma forte redução no valor dos ativos (ações, imóveis, etc.) e recessão devida à redução no volume e valor do comércio internacional.

Termino sugerindo que você participe da pesquisa de opinião da semana, apresentada no post que se segue, e relacionada ao tema. 

Os Princípios da Declaração do CASSE

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US 1st Lady Eleanor Roosevelt & Declaration, 1949photo © 2010 Blatant World | more info (via: Wylio)

Antes da apresentação dos princípios, em continuação ao post da última 4ª feira, uma nota que mostra que, aos poucos, a ideia de uma Nova Economia está se difundindo e fortalecendo: A importante “National Wildlife Federation“, em 15 de abril deste ano, emitiu uma resolução condenando o uso do PIB como indicador de bem estar econômico e propondo a adoção de indicadores que reflitam mais apropriadamente o bem estar e a preservação ambiental.

A  2ª parte da declaração pública em favor da Economia em Equilíbrio afirma os princípios que norteiam o trabalho do CASSE:

1) Existe um conflito fundamental entre o crescimento econômico e a proteção ambiental (especialmente em relação à conservação da biodiversidade, à proteção da qualidade do ar e da água e à estabilidade atmosférica);

2) Existe um conflito fundamental entre o crescimento econômico e os serviços ambientais que servem de base para a economia e a vida humana (especialmente, a polinização, a decomposição e a regulação do clima);

3) Não é viável esperar que o progresso tecnológico, que tem tido impactos positivos e negativos, possa vir a amenizar o conflito entre crescimento econômico, ecologia e bem estar, a longo prazo;

4) O crescimento econômico medido pelo aumento do PIB é um objetivo cada vez mais perigoso e anacrônico, especialmente para nações ricas e com população majoritariamente afluente;

5) Uma Economia em Equilíbrio (isto é, com pequena variação no nível de consumo per capita) é uma alternativa viável à uma economia em crescimento e já é um objetivo apropriado para as nações mais ricas;

6) A sustentabilidade a longo prazo de uma Economia em Equilíbrio requer que sejam minimizados os riscos tanto ecológicos quanto de atendimento das necessidades da população na ocorrência de fenômenos naturais e acidentes, como secas e falhas de energia;

7) Uma Economia em Equilíbrio não significa abrir mão do desenvolvimento econômico, processo dinâmico e qualitativo apoiado no uso da inovação tecnológica e na mudança da importância relativa dos setores econômicos ao longo do tempo;

8) É necessário que as nações movam-se em comum acordo na direção de uma Economia em Equilíbrio, que o façam no ritmo adequado ao estágio de desenvolvimento de cada uma e que possam contar para tanto com recursos aportados pelas nações mais ricas.

9) O aumento do consumo per capita, com a qualidade e a minimização do desperdício e perdas próprias de uma Economia em Equilíbrio, mantem-se como objetivo adequado para as nações que não tenham atingido patamar estabelecido de bem estar;

Se você concordou com as premissas e agora concorda com os princípios, e achando importante, assine a declaração.

O documento “Enough Is Enough“, resultado de uma conferência promovida pelo CASSE e a organização “Economic Justice for All” em 2010 é uma importante referência sobre o assunto e vai além apresentando passos concretos para a transição. Vou comentá-lo em um dos próximos posts.

Termino sugerindo que você participe da pesquisa de opinião da semana, apresentada no post que se segue, e relacionada ao tema.

As Premissas da Declaração do CASSE

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Abaixo-assinado em Jundiaíphoto © 2010 Milton Jung | more info (via: Wylio)

Bem, antes de entrar no assunto, registro que este blog atingiu ontem a marca de 5.000 acessos de terceiros computados pelo provedor do serviço, o WordPress, em pouco menos de 7 meses. Um resultado que mostra o interesse que o assunto está começando a despertar no Brasil.

O CASSE (centro de estudos e ação em prol da Economia em Equilíbrio) trabalha ativamente para conquistar adesões para sua declaração pública em favor da Economia em Equilíbrio. A declaração está construída em duas partes. A 1ª estabelece algumas premissas e a 2ª os princípios de sua ação.

A ideia de uma declaração vem da necessidade de deixar claro o posicionamento do centro tanto para aqueles que se interessem em aderir à causa quanto para os que por ela trabalham. E, também, por ser um instrumento de mobilização na luta pela mudança.

Até hoje já houve em todo o mundo, cerca de 200 adesões de organizações e 7.200, individuais, muitas, de pessoas de destaque em suas áreas de atuação.

As premissas são:

1) O crescimento econômico como definido pela teoria econômica vigente resulta do aumento da produção e do consumo de bens e serviços;

2) O crescimento econômico provoca, na grande maioria dos casos, o aumento do consumo per capita, o qual, é apenas marginalmente afetado pelo aumento da população;

3) A economia global, por seus setores agrícola, extrativo, industrial e de serviços, requer crescentes insumos materiais e energéticos e gera perdas e desperdício também crescentes;

4) O crescimento econômico é, via de regra, medido pelo aumento do produto interno bruto (PIB) ou do produto nacional bruto (PNB);

5) O crescimento econômico tem sido o objetivo principal e perene da maioria das sociedades e de seus governos;

6) Princípios consolidados da física e da ecologia indicam que existem limites ao crescimento econômico;

7) É crescente a evidência de que o crescimento econômico global tem impactos negativos a longo prazo tanto para a ecologia quanto para o bem estar;

Se você concorda com as premissas, leia o restante da declaração e concordando e achando importante, assine-a. Ou, aguarde o próximo post que descreve a parte final da declaração.

Termino sugerindo que você participe da pesquisa de opinião da semana, apresentada no post que se segue, e relacionada ao tema.

O CASSE no Rio de Janeiro

Leitor: A Pesquisa da Semana é sobre o tema tratado no post e está apresentada em seguida a ele.

Em sintonia com meu trabalho por uma Nova Economia assumi a responsabilidade de coordenar o CASSE no Estado do Rio de Janeiro.

O CASSE é dedicado á ideia de uma Economia em Equilíbrio, vista como um imperativo ambiental e social que se contrapõe ao crescimento econômico ilimitado. Sua ações principais são a divulgação da ideia e o fomento a estudos sobre a Economia em Equilíbrio e a sua implementação.

O centro tem sede e uma atuação intensa nos EUA, com repercussão também no Canada, Inglaterra, Austrália, Noruega, Colômbia e Brasil.

O CASSE aborda de uma forma original e importante a forma como a Economia em Equilíbrio interage com 13 das principais questões da sociedade: Consumo, População, Família, Liberdade e Governo, Moradia e Comunidades Locais, Cidades, Alimentação e Agricultura, Transporte, Meio Ambiente e Conservação, Trabalho e Negócios, Energia, Dinheiro e Investimento e Tecnologia.

Uma das ações importantes que o CASSE tem conduzido é a de conquistar adesões para um Manifesto em favor da Economia em Equilíbrio. Este manifesto está disponível em várias línguas e busca ser um elemento agregador e mobilizador em torno da causa.

A conquista de adesões para o Manifesto é uma das missões do CASSE do Estado do Rio de Janeiro, além de divulgar as suas ideias, documentos e ações, estimular a produção de documentos focando na realidade brasileira e de promover palestras e encontros sobre o assunto.

Evidentemente, a unidade regional precisa da contribuição de quem se interesse e queira trabalhar pela causa. Desejando contribuir, entre em contato com o autor ou expresse-se através deste blog que passou a ter o objetivo adicional de divulgar os assuntos do CASSE.

Num próximo post entrarei em mais detalhe sobre o conceito de uma Economia em Equilíbrio e especialmente sobre sua interação com as 13 questões mencionadas.

Termino sugerindo que você participe da pesquisa de opinião da semana, apresentada no post que se segue, e relacionada ao tema.

As limitações do PIB como indicador

No sea...photo © 2007 Marina Carvalho | more info (via: Wylio)

 

Há tempos questionei o uso do PIB em comentário a um artigo do Carlos Alberto Sardenberg intitulado “Porque não crescer 10%” e publicado no O Globo. Recebi do autor a seguinte resposta: “Dizia John Kennedy: quando a maré sobe, leva todos os barcos”. É provável que Kennedy tenha feito tal afirmativa em outro contexto, mas, usando a metáfora da maré e os números que mostrei no último post, ao subir a maré, se o “navio” do crescimento econômico chegar a 16 nós, o “navio” da redução da pobreza extrema estará a apenas 0,6 nós. Ora, como a velocidade do comboio é a do navio mais lento, o que ocorre é o abandono deste navio mais lento. Nem abandono, de fato, já que dele nunca fez parte.

Aliás, o irmão, Robert Kennedy, em palestra na Universidade do Kansas em 18 de março de 1968, durante campanha eleitoral, fez uma brilhante síntese das limitações do indicador:

“O Produto Nacional Bruto contabiliza a poluição atmosférica e a publicidade de cigarros. E as ambulâncias para remover os feridos em auto estradas. Considera as fechaduras especiais para as nossas portas e as prisões para as pessoas que as arrombam … Conta a destruição das florestas e a perda, que se espalha caoticamente, de nossas belezas naturais. Ao mesmo tempo, o PNB não leva em conta a saúde de nossas crianças, a qualidade de sua educação e a alegria de suas brincadeiras. Não inclui a beleza de nossa poesia ou a solidez de nossos casamentos, a inteligência de nossos debates públicos ou a integridade de nossos homens públicos … Mede tudo, em resumo, menos aquilo que faz com que a vida valha a pena”.

Mais recentemente, o jornalista Jon Gertner no belo e completo artigo “The Rise and Fall of the GDP” publicado no New York Times de 10 de maio 2010, faz uma divertida comparação entre duas pessoas: Uma, chamada de “Alto PNB” e outra, chamada de “Baixo PNB”. A primeira usa um carro de alto consumo e leva duas horas para chegar ou voltar do trabalho, isto lhe causa “stress” e problemas de saúde, e por aí vai o autor descrevendo a dura vida deste personagem. O outro, caminha para o trabalho, produz uma parte e prepara sua própria comida, e por aí vai o autor, salientando detalhes de um outro tipo de vida. Os hábitos do primeiro são a matéria prima do crescimento econômico, e os do segundo, o caminho para a recessão. Estranho, não?

Nas duas citações acima, parece-me que salta aos olhos a questão da qualidade da medida, a saber, o que está e o que não está sendo medido, muito mais do que como a medida é feita. O desperdício, por exemplo, não é medido nem entra negativamente na contabilização. Em consequência, se a sociedade se mobilizar para reduzir a perda de energia, de alimentos e de bens e serviços em geral, estará contribuindo para a redução do PIB e de empregos.

Este exemplo do desperdício mostra que crescimento econômico só faz sentido quando gera riqueza real. E mesmo assim, vale lembrar, ele está inevitavelmente limitado, conforme mostrado em posts anteriores, pelas imposições ambientais, pelo chamado “pico das energias intensas em carbono” e pelos conflitos sociais, dada a impossibilidade de oferecer a todos padrão de vida similar ao das classes mais favorecidas.

Os 12 tópicos mais relevantes

Cresce em todo o mundo a consciência de que já é possível alcançar um novo patamar de bem estar superando a obsessão pelo crescimento econômico, preservando o meio ambiente, respeitando a limitação dos recursos naturais e reduzindo as desigualdades sociais. E que, para atingir um objetivo deste porte é preciso uma mudança social complexa, sistêmica, integrada e global.

Acreditando que a elaboração teórica, a formulação de propostas, a mobilização de pessoas e o trabalho político possam superar os obstáculos e a reação à mudança, inúmeras organizações civis em todo o mundo estão, de uma forma completa ou parcial, desbravando o terreno e liderando a luta. New Economics Foundation, New Economics Institute, New Economy Network, Tellus e New Economy Working Group, são alguns dos exemplos significativos de organizações dedicadas a este movimento pela Nova Economia.

12 pontos me parecem os mais relevantes da proposta de mudança preconizada pelo movimento por uma Nova Economia. Descrevo-os resumidamente a seguir. Em novos posts abordarei cada um em mais detalhes.

1.Bem estar: A felicidade do ser humano pode ser melhor endereçada subordinando-se o crescimento econômico ao interesse público e não o contrário. Isto, é claro, atendendo as necessidades inerentes a uma qualidade de vida adequada para todos.
2.Custos sociais e ambientais: Inclusão dos custos e benefícios sociais e ambientais no preço de de um produto, serviço e no valor dos investimentos tanto privados quanto públicos, com consequente mudança no perfil, possibilidade e necessidades de consumo.
3.Jornada de trabalho: Redução para 21 horas semanais eliminando o desemprego, gerando tempo livre e enfatizando o trabalho não remunerado e o lazer.
4.Distribuição da renda: Redistribuição do tempo de trabalho, da renda e da riqueza, através de impostos e incentivos, diminuindo as desigualdades.
5.Coprodução: Envolvimento dos favorecidos através da coprodução de bens e serviços públicos em áreas como educação e saúde.
6.Esfera pública: Ampliação e fortalecimento dos bens e serviços públicos entendendo-os como pertencentes a todos e livre atuação do mercado neste contexto.
7.Esfera civil: Fortalecimento do setor sem fins lucrativos atuando em conjunto com os setores público e privado.
8.Decisões locais: Tomada de decisões públicas pelos diretamente afetados e interessados valorizando a especificidade de cada núcleo urbano e cultural, mas sem perder de vista que existem produtos e serviços cuja produção e tomada de decisões pertinentes possam se dar mais adequadamente nos níveis regional, nacional ou internacional.
9.Taxação: Irrigação econômica com a transferência da taxação do trabalho para o consumo, atividades com impacto negativo em termos sociais e ambientais, e atividades especulativas.
10.Instituições financeiras: Vínculo do crédito com a capacidade dos tomadores em criar valor social e ambientalmente, e enfase no atendimento de necessidades locais.
11.Interdependência das nações: Reconhecimento da interdependência das nações no enfrentamento das desigualdades sociais e problemas ambientais.
12.Teoria do bem estar: Formulação de uma nova teoria econômica voltada para o bem estar coletivo.

Cabe ainda mencionar que a publicação “The Great Transition” apresenta uma visão de como pode se dar a transição para a Nova Economia e é uma ótima referência para uma visão detalhada dos pontos apresentados.

Socialismo?

A Nova Economia propõe a redefinição do desenvolvimento econômico conciliando crescimento, justiça social, sustentabilidade ambiental e bem estar. Para tanto advoga a ideia da economia estável onde o crescimento econômico seja substituído pelo aumento do bem estar, evidentemente numa transição que permita a bilhões de pessoas em todo o mundo alcançar um patamar digno de sobrevivência.

Será que isto quer dizer o fim da capitalismo? Acredito que sim, pois sem crescimento a taxa de lucro e a taxa de acumulação do capital produtivo tendem a declinar continuamente. Será então que o que se propõe é uma transição para o socialismo? Certamente que não para o socialismo que preconizava a estatização dos meios de produção.

Os que defendem uma Nova Economia não falam em revolução nem em estatização mas vêm a inevitável necessidade de modernizar e reformar o sistema econômico subordinando os interesses dos detentores do capital e permitindo que a humanidade saia da ameaça socioambiental cada vez mais aguda. Ao mesmo tempo em que lutam pelas mudanças procuram formular uma nova teoria econômica que explique e permita lidar com a nova realidade. Ingenuidade?

Acho que uma boa referência para esta discussão seja o livro “Capitalismo, Socialismo e Democracia” de 1942 de Joseph Schumpeter. Além de sua famosa tese da “destruição criadora” ele detalha no livro sua critica, consistente, séria e respeitosa, à teoria marxista em vários domínios, e vaticina que em algum momento as forças do capitalismo levariam ao seu próprio fim, mas não pela via de uma revolução e estatização dos meios de produção e sim pela evolução cooperativa. Esta é provavelmente a visão mais correta para o que está sendo chamado de Nova Economia. Uma evolução possível e latente já que o mundo moderno alcançou as condições para dar prioridade ao bem estar do ser humano e subordinar os interesses econômicos a tal prioridade. E sem ela, sucumbe.

Complemento estas observações com uma referência ao termo Nova Economia. Em inglês, “economics” tem um sentido preciso, trata-se da ciência social que estuda o sistema produtivo e seus impactos. Já “economy”, simboliza o sistema produtivo, em si. Em português, a mesma palavra, economia, tem estes e outros significados, o que faz com que o termo Nova Economia tenha duplo significado. Interessante é que o termo “New Economics” apesar da imprecisão é usado, por falta de opção, também com os dois significados.

Convém ainda lembrar que o termo foi usado a partir de meados da década 90 para representar a expectativa de um novo “mundo” resultante do impacto das tecnologias de informação nas empresas e na vida das pessoas. Tal ideia chegou ao seu auge com a supervalorização de empresas ligadas à internet e rapidamente desapareceu com o estouro da bolha acionária em 2001.

Antes disto, logo após a revolução russa, Lenin foi obrigado a lançar a Nova Política Econômica, a NPE, para reerguer a nação destruída. Esta e a Nova Economia pouco tem a ver, uma um plano de ação, outra uma visão de futuro em construção.

Do Ambientalismo para a Nova Economia

O professor e ambientalista Gus Speth encerra uma brilhante palestra no Conselho Americano de Ciência e Meio Ambiente em janeiro último com uma ótima citação. Curiosamente, ele cita o expoente do monetarismo e quem hoje seria o mais ferrenho e credenciado opositor às teses da Nova Economia, o que não tira o valor da citação apresentada a seguir, é verdade.

Somente uma crise – real ou pressentida – possibilita reais mudanças. Quando tal crise ocorre, as ações que são tomadas dependem das ideias que estão disponíveis. Esta, eu acredito, é a nossa função básica: desenvolver alternativas às políticas existentes, mantê-las vivas e disponíveis até que o que era politicamente impossível se torne inevitável” – Milton Friedman.

Superando a realidade política e a “arte do possível” Gus Speth propõe na palestra que o ambientalismo amplie seu foco centrando-se em uma nova economia e para tanto, também em uma nova política. Isto, a partir da conclusão de que após 40 anos de lutas pela causa ambiental “ a esperança de real mudança na América está na fusão dos que se preocupam com o meio ambiente, a justiça social e uma democracia forte, gerando uma poderosa força progressista”.

O impulso sem fim pelo crescimento da economia americana mina as comunidades e o meio ambiente, alimenta uma destrutiva procura internacional por energia e outros recursos, e se apoia no consumismo, o que não está atendendo às reais necessidades humanas. Nós estamos substituindo as questões reais que realmente promovam o bem estar humano pelo crescimento e consumismo”.

Antes que seja muito tarde, eu penso que a América deveria mover-se para uma sociedade pós-crescimento onde o trabalho, o meio ambiente, as comunidades e o setor público não sejam mais sacrificados pelo simples objetivo do mero crescimento do PIB”.

Na transcrição da palestra o leitor encontrará um surpreendente histórico das conquistas ambientais desde o início da década de 70, um impressionante relato da situação ambiental atual e tendências, tanto americana quanto mundial, uma crítica detalhada ao modo de vida que a humanidade está sendo levada a praticar, uma caracterização das políticas públicas inerentes à sociedade pós-crescimento imaginada, e o relato de experiências concretas que proliferam-se relacionadas a novos modelos de vida em comunidade e empresas que priorizam a comunidade e o meio ambiente caracterizando um emergente 4º setor e que lhe permite dizer que “as sementes da Nova Economia já estão sendo plantadas por todo o canto”, enquanto, com diz a citação inicial, as condições para a mudança amadurecem.

As pessoas e o planeta importam

 

Inicio este blog com um “post” sobre a nef – New Economics Foundation, um centro de pesquisa e ação inglês ao qual me associei recentemente e que é provavelmente o principal ponto de referência mundial sobre a Nova Economia.

Observo, de saída, que a palavra “economics” não deixa dúvidas. Trata-se de buscar os elementos para uma nova teoria que redefina desenvolvimento econômico conciliando crescimento, justiça social, sustentabilidade ambiental e bem estar da coletividade.

Fundada em 1986 pelos lideres do TOES (The Other Economic Summit) que se confrontava aos encontros do G7 e posteriormente G8, a nef tem uma impressionante produção acadêmica e também uma intensa atuação principalmente na Inglaterra.

A publicação “21 Hours” propondo a semana de trabalho de 21 horas chamou-me a atenção imediatamente por ser a jornada de trabalho uma questão que considero chave. Nas palavras da nef, a sua redução drástica possibilita equacionar “questões urgentes e inter-relacionadas: trabalho excessivo, desemprego, super consumo, alta emissão de carbono, baixo bem estar, desigualdades e falta de tempo para viver sustentavelmente, cuidar do próximo e simplesmente desfrutar a vida”.

A nef tem hoje 5 projetos chave: The Happy Planet Index, Social Return on Investment, Interdependence, Co-production e A new economic model, que são conduzidos por uma ou mais de suas 8 áreas de trabalho: Well-being, Democracy and Participation, Social Policy, Finance and Business, Valuing What Matters, Climate Change and Energy, Connected Economies e Natural Economies.

Hoje, todo este trabalho da nef está articulado em torno de uma campanha pela transição para a Nova Economia e que chama de “The Great Transition”. Esta campanha sugere medidas para efetivar a Nova Economia ao mesmo tempo em que desenvolve uma teoria econômica compatível. As principais medidas abordadas incluem a avaliação dos reais custos de um produto ou serviço levando em conta o impacto social e ambiental, a redistribuição do tempo de trabalho, da renda e da riqueza, o rebalanceamento dos mercados em relação à esfera pública ampliando a definição de bens públicos e preconizando o envolvimento dos favorecidos através da coprodução do bem estar coletivo, a tomada de decisões públicas pelos diretamente afetados e interessados valorizando a especificidade de cada núcleo urbano e cultura, a reeducação que permita que a produção e a tomada de decisões se deem localmente, a irrigação econômica com a mudança nos critérios de taxação e de ação das instituições financeiras, e o reconhecimento da interdependência das nações no enfrentamento das desigualdades sociais e problemas ambientais. Falarei sobre cada um destes assuntos em posts específicos.

Bem, com este breve quadro já é possível perceber o porte, a importância da atuação e a repercussão do trabalho da nef, que na verdade só é possível devido ao crescente reconhecimento pela sociedade da necessidade imperiosa de mudança.

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