Uma civilização entre o extermínio e a mudança?

Maior explosão de todos os tempos. Teste da bomba de hidrogênio pela União Soviética em 1961.

A economia dual pode não vir a ser dominante. Muito pelo contrário.

É claro, este blog mostra, de forma consistente, que além de existir, a economia dual está em  permanente expansão relativamente à de mercado. Tal expansão leva naturalmente a concluir que a economia dual, em algum momento, venha a ser dominante o que provocaria, de uma forma ou outra, uma radical mudança do sistema atual.

Mas, contra tal mudança estão os que se beneficiam do sistema atual e que são capazes de tudo menos de abrir mão dos seus benefícios. E, tem à mão um imenso poder para conter a mudança: militar, institucional, econômico e jurídico.

Contam com aliados decisivos na manutenção do “status quo”: uma grande parte dos que vivem e gostam da  “maravilhosa” aventura consumista em curso. Eles são parte do chamado mercado e se consideram também beneficiados, e em parte o são, apesar do comprometimento de seu bem estar pessoal e familiar.

E, ainda, são favorecidos pela inércia à mudança provocada pelo gigantismo da máquina produtiva global que faz crer que seja  perene e insuperável. Vale notar que a infraestrutura produtiva global não para de se expandir, modernizar e aperfeiçoar. E que seus mecanismos de transporte e distribuição estão fortemente disseminados de forma a garantir que os produtos e serviços estejam disponíveis a todos os que participam do mercado.

É esta força contrária à dominância da economia dual que a torna incerta e leva a considerar outras possibilidades com probabilidade expressiva de ocorrência.

Uma, é nada ser feito para conter a crise ambiental e social decorrente do crescimento exponencial na esperança de que ou não ocorra ou, seja enfrentada com novos recursos tecnológicos. O que gera um enorme risco de extermínio para a civilização atual.

Outra, é o acirramento de conflitos entre potencias atômicas, também, em parte, decorrentes dos impasses do sistema atual. O emprego de bombas atômicas no curso destes conflitos implica também o possível extermínio da civilização atual. A possível reação dos EUA e seus aliados à tentativa da Coreia do Norte de fazer parte do “clube” do qual já participam, entre outros, Israel, China, Paquistão e Índia é assustadora principalmente agora que, tudo indica, a Coreia do Norte explodiu em teste uma bomba de hidrogênio e que já teria o tamanho adequado para ser lançada por míssil de longo alcance o qual o país acaba de demonstrar que dispõe.

Também, não se pode descartar a possibilidade de armas atômicas virem a cair em mãos de grupos dispostos a utilizá-las, gerando retaliações em cadeia.

Ou, ainda, no curso de conflitos “convencionais”, ocorrer a exclusão em guetos dos “despossuídos” o que os transformaria involutivamente numa subespécie humana. Tenebrosa, a massiva “destruição criativa!!!” necessária para tais contenções permite ao sistema, ao mesmo tempo, novos ciclos de crescimento econômico. As 2 últimas grandes guerras são exemplos de que esta possibilidade é tudo menos remota.

Ao detalhar estas outras possibilidades ficam ainda mais evidentes as dificuldades que uma transição para uma economia dual tem que superar. Isto, mesmo supondo que conflitos e crises possam, de alguma maneira, induzir a sua ocorrência.

Esta consideração, realista, não diminui, a meu ver, a importância de focar, expor e detalhar neste blog uma possibilidade concreta para a preservação da civilização atual. Mas, leva a que, caracterizada a economia dual e sua tendência dominante, a enfase passe a ser acompanhar a evolução dos acontecimentos, divulgar notícias relacionadas à economia dual e apresentar resumos e análises de trabalhos relacionados ao tema. Permanece, é claro, a atualização, se necessário, de tal caracterização e a revisão e a classificação dos posts e links do blog de forma a permitir a quem se interessa pelo assunto a ter uma fonte útil para consulta e leitura.

Em decorrência, ao mesmo tempo que em constante atualização, este blog passa a ter postagens em intervalos irregulares, sempre que algum tema esteja pronto para ser apresentado.

É neste novo contexto que uma nova série de posts está em elaboração. Fazem um resumo crítico do livro “Patterning instinct” que apresenta uma história cultural da humanidade e pretende mostrar que a civilização pode ser capaz de encontrar o caminho de sua sobrevivência. Será? A ver.

 

Anúncios

A natureza não pode ser precificada, avaliada, monetizada ou financializada.

“… Nós estamos testemunhando a morte tanto da teoria quanto da prática do capitalismo neoliberal. Esta é a doutrina que afirma que o mercado pode resolver quase todos os problemas sociais, econômicos e políticos.”

(Participe da pesquisa de opinião sobre este post, logo em seguida a ele.)

O Ministro do Meio Ambiente peruano encerra as negociações do COP-20 em Lima.

Externalidades – 4.

Encerro hoje a série sobre a internalização de externalidades com uma relação comentada de alguns artigos e notícias que ajudam a ampliar a compreensão de tema aparentemente complexo mas que na verdade é quase autoevidente, além, é claro, de ser aplicação essencial para a transição para uma Nova Economia.

Antes, retorno à pergunta feita no 1º post: Será que o recente acordo entre os EUA e a China definindo limites a serem alcançados até 2030 e diretrizes para a descarbonização atende aos objetivos de redução da desigualdade, preservação ambiental e bem estar?

Acesse aqui o post completo.

Afinal, taxação e impostos são a mesma coisa?

Simon Kuznets estava errado. Não só o crescimento capitalista não reduz a desigualdade, ele a aumenta.”

(Participe da pesquisa de opinião sobre este post, logo em seguida a ele.)

Externalidades -3.

Volto hoje à questão da internalização de custos sociais e ambientais tratando da taxa Tobin e do uso de impostos. No próximo post, último da série, respondo à dúvida apresentada no 1o sobre o recente acordo ambiental dos EUA e China.

A taxa Tobin, proposta por James Tobin, tornou-se a principal opção em discussão para compensar externalidades apesar de, até hoje, não ter sido implementada, mesmo porque depende de sua aceitação, ao mesmo tempo, pelas economias mais importantes. Essencialmente, trata-se de uma taxa aplicada sobre toda e qualquer transação financeira privada entre países.

Tal taxa, segundo Tobin, é voltada para atender prioridades globais tanto ambientais quanto sociais, ajuda a evitar a volatilidade do mercado cambial e a restaurar a soberania econômica das nações. Estima-se que a receita associada à taxa alcance um valor entre 100 e 300 bilhões de dólares anuais, a partir de um percentual entre 0,1 e 0,25 incidindo sobre as transações especulativas de moeda que alcançam diariamente cerca de 1,8 trilhões de dólares.

Acesse aqui o post completo.

Marina erra, de novo.

“A rede, iniciativa fabulosa, perde sua legitimidade ao atuar como partido político.”

(Participe da pesquisa de opinião sobre este post, logo em seguida a ele.)

Arthur Cecil Pigou

Externalidades -2.

E não é que na última semana Marina Silva anunciou que a Rede Sustentabilidade pretende transformar-se em partido até março do ano que vem. E, como acha que não pode deixar de estar atrelada a um partido, na mesma entrevista informa que deixará o PSB na mesma data.

Será possível que voltará a insistir em criar mais um partido? Talvez, para concorrer nas próximas eleições de prefeitos e vereadores, abocanhar verbas e inevitavelmente fazer concessões para evitar o “mal maior”. Contudo, como não tem vocação para esse papel menor, a rede, iniciativa fabulosa, perde sua legitimidade ao atuar como partido político.

Acesse aqui o post completo.

E a mãe terra, aceitará o recente plano de descarbonização dos EUA e China?

(Participe da pesquisa de opinião sobre este post, logo em seguida a ele.)

“Os economistas tradicionais chamam tais impactos negativos de externalidades, forma confortável de retirar a responsabilidade do que é produzido pelos malefícios que gera.”

Externalidades – 1

O recente acordo entre os EUA e a China definindo limites a serem alcançados até 2030 e diretrizes para a descarbonização faz parecer que o sistema econômico atual é perfeitamente capaz de funcionar num novo ambiente e que está-se, no fundo, é abrindo novas oportunidades de expansão capitalista durante a transição para o uso de energias renováveis.

No embalo, reafirma-se ainda mais a convicção de que que a questão social poderá, mais do que nunca, ser equacionada pelo crescimento econômico.

E, um melhor padrão de vida é tudo o que se precisa para o bem estar, até porque a ideia de que é preciso trabalhar muito para “vencer” na vida é amplamente aceita e até mesmo desejada.

Acesse aqui o post completo.

Mais médicos, menos saúde. Antes de tudo, água corrente e esgoto em 100% das casas.

“Tratar o cocô não dá voto. As obras são subterrâneas e o objeto considerado abjeto”.

Mais médicos, menos saúde.

Comunidade Vila Dique (RS) – 62,7% das doenças entre os moradores estão ligadas a falta de saneamento básico.

No recente artigo “É hora de falar de saneamento“, Ana Paula Barcellos, mesmo num tom excessivamente cauteloso, faz perguntas e afirmativas que vão ao centro da questão (em azul, meu comentário, abaixo de cada item):

Mais médicos e remédios seriam os meios para superar os principais desafios de saúde no Brasil?
– Como se verá mais adiante, o principal problema de saúde pública resulta da falta de saneamento. A autora ressalta, com base em estudo da OMS, que cada dólar gasto com saneamento poupa quatro dólares com gastos em saúde.

O que torna um problema de saúde mais importante que outros? Doenças que afetam mais pessoas devem ter prioridade ou o cuidado de determinados grupos (crianças ou pessoas de baixa renda)?

Acesse aqui o post completo.

Degelo do Ártico abre a exploração de carvão, gás natural, petróleo, cobre, cobalto, níquel e rotas marítimas.

“Derretimento recorde do Pólio Norte assusta cientistas, ameaça o clima do planeta e acirra a corrida de empresas e governos por recursos que não podiam ser explorados até agora. Aquecimento global vira um bom negócio”. Agostinho Vieira.

Saque no Ártico.

Com um dramático paralelo com o saque de um caminhão lotado de produtos, Agostinho Vieira faz em artigo “Mudança$ climática$” publicado na Coluna Economia Verde de O globo de 25 de setembro último um alerta para o que está acontecendo, em escala muito maior, é claro, no Ártico.

Nas palavras do autor:

Nas últimas semanas, especialistas do mundo todo vêm alertando para o nível cada vez mais crítico de degelo na região. Imagens de satélite do Centro Nacional de Dados de Neve e Gelo (NSIDC) dos EUA revelaram que no último dia 16 de setembro a camada de gelo ficou com 3,42 milhões de Km2, a menor extensão desde que começou a ser medida, em 1979. O que representa um nível de declínio no gelo marinho de 13% a cada década. Até 2000, a velocidade de redução era de 6%.

Continue lendo »

As perguntas existenciais do mineiro: quécosô?, oncotô? e proncovô?

Uma das maiores trapaças da tecnologia moderna está na política da obsolescência planejada, ou seja, no envelhecimento premeditado dos objetos, com as mudanças desnecessárias de modelo ou “styling” (este anglicismo já é para enganar), e com peças calculadas para não durarem, ou sistemas que não permitem reparação. O auge desta trapaça está no objeto de um só uso.” José A. Lutzenberger.

Recebi de Dan Moche um excelente comentário ao último post. Com a devida autorização, selecionei trechos, incluindo a citação acima, para apresentá-lo em num post. A versão completa pode ser vista em “comentário de Dan Moche”. Vamos ao post:

Parque Nacional Grande Sertão – Veredas

Post escrito por Dan Moche Schneider:

Um amigo meu lá de Minas, véio Cássio, lixólogo de longuíssima data, foi quem me ensinou que as perguntas existenciais do mineiro: “quécosô?, oncotô? e proncovô?” podem ser úteis não somente para o autoconhecimento mas pra entender muitas situações.

Quécosô?

Já me perguntei muitas vezes; e sempre tive respostas diferentes. O mundo muda a gente muda, de onde concluo que sou mudança, viajante, filho dessa espaçonave Terra, tão extraordinariamente criada, que mantém a vida a bordo em regeneração, a despeito da entropia, graças à energia que obtemos da nave mãe – o Sol , que seguimos por espaços nunca dantes navegados.

Sou imaginação. A imaginação não é um detalhe de nossas vidas, é a própria essência do que somos. Somos co-criadores da nossa realidade. Mas sobre todas as crises, a crise da imaginação é a pior. Qual realidade precisa ser criada? Fecho os olhos, imagino e sinto: a ética controla a técnica; a dança substituiu o ritmo do capital; o antagonismo e controle foram substituídos pelo cuidado entre os homens e deles com a natureza. A economia passou a servir o ser humano. Os objetos já são produzidos para durar e serem compartilhados por todos. Já não um mundo de consumidores, mas de seres criativos, livres e cuidadosos. Um mundo com menos lixo.

Oncotamos?

Estamos numa nave em crise, provocada por modos de produção e consumo que desregulam os sistemas de regeneração da vida a bordo, e cujos timoneiros são incapazes de medidas arrojadas para alterar o curso do desastre. Os sistemas de regeneração de vida da nave, que criam, purificam e reintegram resíduos em ritmo natural, já não acolhem, pelo ritmo industrial em que são produzidos, tantos e tão diferentes tipos de resíduos.

Energia e recursos naturais são crescentemente demandados para a produção de objetos projetados para serem inviabilizados em seu uso prolongado . Pela necessidade de consumo dos objetos produzidos, desenvolveu-se também um complexo sistema de produção de consumidores para os objetos, pela colonização da imaginação. As desigualdades entre os tripulantes da espaçonave se acentuam e, pela primeira vez, a massa de passageiros não é mais necessária para manter o padrão de vida da primeira classe. Nesse sistema, o que, para que e com que consequências se produz, no fundo não interessa.

Proncovamos?

A Política Nacional de Resíduos Sólidos – PNRS, com a Lei Nacional de Saneamento Básico e a Lei de Consórcios Públicos constituem um marco na história recente das políticas ambientais e de saneamento brasileiro e passaram a nortear todas as ações de gestão e manejo de resíduos sólidos.

Depois de mais de vinte de anos de luta por esse marco regulatório, cuja implantação tem pela frente antigas mazelas e novos desafios, vamos proteger a saúde pública e o meio ambiente, segundo a PNRS, pela gestão e gerenciamento de resíduos sólidos:

“Na gestão e gerenciamento de resíduos sólidos, deve ser observada a seguinte ordem de prioridade: não geração, redução, reutilização, reciclagem, tratamento dos resíduos sólidos e disposição final ambientalmente adequada dos rejeitos”.

A PNRS não indica, no entanto, como isso pode ser alcançado. Os desafios portanto permanecem:

– Como proibir a produção de objetos que não possam ser reutilizados ou reciclados?
– Como aumentar significativamente o prazo de garantia sobre objetos produzidos?
– Como estabelecer limites à produção e ao consumo, sobretudo das elites planetárias?
– Para onde direcionar o crescimento econômico nas regiões que ainda não atingiram condições mínimas?

Termino sugerindo que você participe da pesquisa relacionada ao tema, no post que se segue, e que utilize preferencialmente a central de comentários para as suas críticas, sugestões e observações.

Piratas da Somália são europeus

  1. Utilize a central de comentários para as suas críticas, sugestões e observações. Mais do que bem vindos, os seus comentários ajudam a melhorar e aprofundar o conteúdo deste blog.
  2. Para ler notícias relacionadas à Nova Economia, acesse o link à direita.
  3. A Pesquisa da Semana é sobre o tema tratado no post e está apresentada em seguida a ele.
'Pirates of corse' photo (c) 2004, keyboardsamurai - license: http://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0/

Clique na figura para assistir ao vídeo

Recebi do leitor Luiz Rogatto a indicação de um impressionante vídeo, Piratas, sobre a depleção das áreas de pesca e poluição tóxica e radioativa na costa da Somália provocada por países desenvolvidos (?) e com consequências desastrosas para a já combalida população local.

Ganhe 23 minutos de informação preciosa neste cuidadoso vídeo feito por Juan Falque e verá que os “piratas” da Somália surgiram como reação aos que estão de fato saqueando o país aproveitando-se de sua fraqueza e incapacidade de defender-se.

É terrível. A Tsunami de 2004 levou às areias do litoral e revelou o conteúdo do que se despejava nas águas da Somália: resíduos tóxicos e radioativos. E despeja-se até hoje. Quem? Barcos da Espanha, França, EUA, Japão… E a pesca predatória, onde mais de 1/4 do que se pesca é jogado fora do próprio navio? Lamentável, mas de tão terrível, serve para marcar mais fundo na mente a importância da luta por uma Nova Economia.

E como é difícil aguentar a brutalidade dos fatos. Não para a ONU, que tem até observador especial para a Somália e que tem feito inúmeros alertas sobre a situação. Apesar dele e de outros, a entidade nada fez. Pelo contrário, Quando os países desenvolvidos (?) foram atingidos, sob que auspícios, formou-se uma força tarefa militar liderada pela Espanha e a França? Da ONU.

Não é a toa que a nef vem se preocupando cada vez mais com a depleção das áreas de pesca. Recentes e importantes trabalhos da fundação tratam do assunto. Destaco um, pois reforça e explica o que vem acontecendo na Somália e em outros países africanos.

O estudo Fish dependence – 2011 update mostra que “os europeus estão consumindo muito mais peixes do que os seus oceanos podem produzir, tornando-se cada vez mais dependentes da pesca em outras áreas. Se a Europa consumisse somente de suas águas não teria mais peixe a partir de 2 de julho de cada ano, ficando, a partir daí, totalmente dependente de peixe de outras fontes”.

Mas, a questão é global. A conclusão do sumário Scientific facts on fisheries produzido pela GreenFacts em colaboração com o Departamento de Pesca e Aquicultura da FAO, a partir do relatório World review of fisheries and aquaculture retratando a situação ao final de 2008, é dramática: “Cerca de três quartos dos estoques marinhos monitorados em todo o mundo estão totalmente explorados, super explorados ou esgotados. Em consequência, a indicação é que não há potencial para aumento da produção marinha e que o estado corrente dos peixes e de seus ecossistemas deixam pouco espaço para adiamento de ações para o melhor gerenciamento dos estoques de peixes que já deveriam ter sido tomadas nas últimas três décadas”.

E o Brasil não escapa desta realidade. O artigo Pesca no Brasil e seus aspectos institucionais – um registro para o futuro de José Dias Neto publicado na Revista CEPSUL – Biodiversidade e Conservação Marinha em janeiro de 2010 e no Blog do Axel Grael traz além de um resumo da situação mundial uma detalhada análise da crise da pesca no Brasil.

É, estamos diante de mais uma claríssima demonstração de que o crescimento exponencial é inviável e que tem consequências explosivas social e ambientalmente.

Termino sugerindo que você, leitor, participe da pesquisa relacionada ao tema, no post que se segue.

Existe almoço grátis

  1. Utilize a central de comentários para as suas críticas, sugestões e observações. Mais do que bem vindos, os seus comentários ajudam a melhorar e aprofundar o conteúdo deste blog.
  2. Para ler notícias relacionadas à Nova Economia, acesse o link à direita.
  3. A Pesquisa da Semana é sobre o tema tratado no post e está apresentada em seguida a ele.

'cat wallpaper only png collection2560x1600ubuntu font29' photo (c) 2011, skand gupt - license: http://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0/Nelson Motta é o irresponsável autor do artigo “Boca Livre high-tech” publicado no Estado de São Paulo e no O Globo na última sexta-feira, dia 14. Infelizmente, não se trata de um homônimo, é mesmo o jornalista, escritor e crítico musical. Lamentável. Indignado, inclusive porque atinge conceitos cruciais para a Nova Economia, enviei-lhe um e-mail, abaixo transcrito.

Antes, um breve resumo do besteirol: diz que o software livre e uma espécie de MST digital. Chama Richard Stalmann de Richard não-sei-o-quê, uma besta, e investe contra os que acreditam em almoço grátis.

Vamos então à resposta a este transloucado artigo:

Desta vez, Nelson Motta, você derrapou feio. E o que espanta é que, em geral, suas colunas tem sido divertidas e oportunas. Mas a de hoje, “boca livre high-tech” errou todas. Também, quem manda falar do que não conhece sem antes estudar um pouco.

Antes de mais nada convido-o a usar o Ubuntu e verá que é muito melhor do que os outros. O Windows e o iOS a ele não se comparam em termos de beleza, funcionalidade, performance e facilidade de uso. E por favor, não comente antes de pelo menos conhecer o dito cujo.

Ah, trata-se de um software livre. Assim, você descobrirá que existem milhares dos melhores programadores trabalhando colaborativamente em torno desta e de milhares de outras aplicações também livres.

Neste ponto já posso dizer-lhe: existe vida após o lucro, Nelson. Aliás, almoço grátis é o que mais existe por aí. Veja só, quando um custo ambiental ou social não é computado é almoço grátis para quem pode usar o recurso. Complicou? Pense na poluição de um automóvel, por exemplo. Este aspecto, é o que os economistas ortodoxos chamam de externalidades. Na verdade, forma elegante de definir privilégios.

Mas existe também o almoço grátis que embeleza a vida, além do software livre. Você Nelson, quando se dedica a seus filhos está lhes oferecendo o que? Se você parar para pensar um pouco verá que a maior parte das atividades humanas são realizadas sem fins lucrativos. Por exemplo, quando você cria, e bem, você está realmente à procura de lucro?

Lembre-se, as mães, os voluntários, uma parte do trabalho do artistas e das pessoas em geral são desconsiderados pela economia tradicional.

Se já não bastasse, leve em conta o incrível acervo criado pela humanidade que está, quando não é apropriado indebitamente, à disposição de todos nós.

Mas eu entendo. Você, com toda sua inteligência, caiu na armadilha que alguns “economistas” espalharam pelo mundo: reduziram a realidade e fazem crer que o reduzido é o todo.

Quanto à comparação com o MST, deve ser coisa do seu inconsciente tentando defender o “bem bom”. Qual o paralelo entre um movimento que revindica terras e um que cria softwares? Nenhum, sem demérito para o MST. A burrice da comparação vem, com certeza, da lembrança que o software livre, como muitas outras criações, tem, em geral, uma licença “creative commons” que incomoda muito pessoas como você.

Ah, duas observações finais. Veja só a lógica de “anta” que você usou: “Como não existe almoço grátis então não existe software livre”. E ainda, Nelson não-sei-o-quê, o Richard Stalmann é simplesmente o fundador da Free Software Foundation e do GNU Project.

Pula fora, meu amigo. Este é o meu almoço grátis para você.

Termino lembrando ao infeliz jornalista que a imagem que ilustra o post está protegida por uma licença “creative commons”. “Chato”, não é? E, sugerindo que você, leitor, participe da pesquisa relacionada ao tema, no post que se segue.

A economia verde. Ilusão?

1) Para ler notícias relacionadas à Nova Economia, acesse o link à direita.
2) A Pesquisa da Semana é sobre o tema tratado no post e está apresentada em seguida a ele.

'Green Economy resized' photo (c) 2011, Philippe Put - license: http://creativecommons.org/licenses/by/2.0/

Como ressaltei no último post, em junho de 2012 ocorrerá no Rio de Janeiro uma nova conferência de cúpula da ONU centrada no que tem se chamado de economia verde. Convém pois, antes de descrever em mais detalhe o encontro e comentar suas propostas e possibilidades, analisar o seu tema principal. A UNEP define a economia verde “como sendo aquela que resulta em aumento do bem estar e justiça social, e ao mesmo tempo reduz significantemente os riscos ambientais e a escassez ecológica. Em sua expressão simples, pode ser pensada como uma de baixo carbono, eficiente no uso de recursos e inclusiva socialmente”.

Desconsiderando uma certa imprecisão, a semelhança com as propostas por uma Nova Economia logo desaparece, pois, continua: “em termos práticos, a economia verde é uma onde o crescimento e o emprego são movidos por investimentos públicos e privados que reduzem a emissão de carbono e a poluição, aumenta a eficiência energética e de uso dos recursos e evita a perda na biodiversidade e nos serviços do ecossistema”. Ou seja, quer dirigir a onda verde para que ao invés de colidir promova e dê continuidade ao crescimento econômico como objetivo maior para a humanidade. Muito mais do que sobrevida ao desenvolvimento sustentável, a economia verde é uma proposta para “fazer do limão uma limonada” transformando a inadiável transição para o baixo carbono num novo motor do crescimento econômico, superando os impasses da grande recessão em curso.

O passe de mágica da proposta de uma economia verde está na ideia de que “o descolamento relativo” entre a quantidade produzida e o uso de recursos supere os limites naturais cada vez mais evidentes do crescimento econômico.

O “decoupling” realmente ocorre, por força principalmente do avanço tecnológico. Por exemplo, Por 25 anos, até 2006, o CO2 emitido no mundo por uso de energias fósseis caiu de pouco mais de um quilo para 770 gramas por unidade do PIB medido em dólares. Mas, o que realmente importa são os valores absolutos.

Leitor, veja a gravidade da situação. O recomendável é que a humanidade alcance uma redução de 50% nas emissões até 2050, relativamente à 1990. Isto para limitar o aquecimento global a 2º minimizando os riscos de calamidades. Mas, caminhou em sentido contrário. Hoje, em termos absolutos, as emissões globais oriundas do uso de energias fósseis já são 40% superiores às de 1990.

Aprofundando a questão, lembro, conforme o post “Dúvidas sobre a declaração do CASSE” que princípios consolidados da física e da ecologia sustentam a obviedade dos limites ao crescimento econômico. Dentre eles, as duas primeiras leis da termodinâmica, o conceito de nível trófico (cadeia alimentar) e o da exclusão competitiva. Não há como esperar que o “decoupling” evite mais e mais uso de recursos naturais.

Além disto, há a possibilidade, muito bem apresentada no artigo “O grande embaraço da Rio – 2012” de José Eli da Veiga, “da poupança obtida com aumento de eficiência energética ser empregada no consumo de outros bens e serviços com custos energéticos que podem até provocar um jogo de soma zero, situação descrita como “tiro pela culatra”. Basta pensar, por exemplo, em uma economia feita com a aquisição de um carro flex que viabilize a compra de mais uma viagem aérea”.

Bem, fica assim claro que a “economia verde” mesmo com o “descasamento” não é solução.

Interessante é que a economia verde parece estar se dividindo em duas correntes. Uma centrada na transição para o baixo carbono e outra com grande identidade com as propostas por uma Nova Economia. O belo, amplo e profundo trabalho patrocinado pela Conservação Internacional Brasil publicado no número 8 de sua revista eletrônica “Política Ambiental” mostra isto. São 18 artigos de especialistas de diversos setores da sociedade sobre alternativas econômicas e sociais rumo a uma economia de baixo carbono, mais inclusiva e sustentável.

Termino sugerindo que você participe da pesquisa relacionada ao tema.

Os 12 tópicos mais relevantes

Cresce em todo o mundo a consciência de que já é possível alcançar um novo patamar de bem estar superando a obsessão pelo crescimento econômico, preservando o meio ambiente, respeitando a limitação dos recursos naturais e reduzindo as desigualdades sociais. E que, para atingir um objetivo deste porte é preciso uma mudança social complexa, sistêmica, integrada e global.

Acreditando que a elaboração teórica, a formulação de propostas, a mobilização de pessoas e o trabalho político possam superar os obstáculos e a reação à mudança, inúmeras organizações civis em todo o mundo estão, de uma forma completa ou parcial, desbravando o terreno e liderando a luta. New Economics Foundation, New Economics Institute, New Economy Network, Tellus e New Economy Working Group, são alguns dos exemplos significativos de organizações dedicadas a este movimento pela Nova Economia.

12 pontos me parecem os mais relevantes da proposta de mudança preconizada pelo movimento por uma Nova Economia. Descrevo-os resumidamente a seguir. Em novos posts abordarei cada um em mais detalhes.

1.Bem estar: A felicidade do ser humano pode ser melhor endereçada subordinando-se o crescimento econômico ao interesse público e não o contrário. Isto, é claro, atendendo as necessidades inerentes a uma qualidade de vida adequada para todos.
2.Custos sociais e ambientais: Inclusão dos custos e benefícios sociais e ambientais no preço de de um produto, serviço e no valor dos investimentos tanto privados quanto públicos, com consequente mudança no perfil, possibilidade e necessidades de consumo.
3.Jornada de trabalho: Redução para 21 horas semanais eliminando o desemprego, gerando tempo livre e enfatizando o trabalho não remunerado e o lazer.
4.Distribuição da renda: Redistribuição do tempo de trabalho, da renda e da riqueza, através de impostos e incentivos, diminuindo as desigualdades.
5.Coprodução: Envolvimento dos favorecidos através da coprodução de bens e serviços públicos em áreas como educação e saúde.
6.Esfera pública: Ampliação e fortalecimento dos bens e serviços públicos entendendo-os como pertencentes a todos e livre atuação do mercado neste contexto.
7.Esfera civil: Fortalecimento do setor sem fins lucrativos atuando em conjunto com os setores público e privado.
8.Decisões locais: Tomada de decisões públicas pelos diretamente afetados e interessados valorizando a especificidade de cada núcleo urbano e cultural, mas sem perder de vista que existem produtos e serviços cuja produção e tomada de decisões pertinentes possam se dar mais adequadamente nos níveis regional, nacional ou internacional.
9.Taxação: Irrigação econômica com a transferência da taxação do trabalho para o consumo, atividades com impacto negativo em termos sociais e ambientais, e atividades especulativas.
10.Instituições financeiras: Vínculo do crédito com a capacidade dos tomadores em criar valor social e ambientalmente, e enfase no atendimento de necessidades locais.
11.Interdependência das nações: Reconhecimento da interdependência das nações no enfrentamento das desigualdades sociais e problemas ambientais.
12.Teoria do bem estar: Formulação de uma nova teoria econômica voltada para o bem estar coletivo.

Cabe ainda mencionar que a publicação “The Great Transition” apresenta uma visão de como pode se dar a transição para a Nova Economia e é uma ótima referência para uma visão detalhada dos pontos apresentados.

A 3ª Revolução Industrial

No último post, dedicado à Nova Economia no Brasil, mencionei o artigo do professor Carlos Lessa no Valor Econômico intitulado “ A 3ª revolução industrial ainda não está à vista”. Vale a pena comentá-lo. Ele inicia o artigo mencionando que: “a versão realista de desenvolvimento socioeconômico sustentável se orienta para uma era cuja economia, produção industrial e vida social sejam baseadas na baixa emissão de carbono”.

E continua: “Essa nova era exige uma 3ª Revolução Industrial e provocará, em escala ciclópica, a destruição das atuais bases produtivas e equipamentos domésticos”. Mas, “o sistema capitalista resistirá de todos os meios e formas à introdução em massa dos procedimentos do baixo consumo de carbono. O único argumento que aceitará será o preço explosivo que irão assumindo todos os energéticos de carbono fóssil”. Daí o título que afirma que tal mudança não está à vista.

E pensar, que a baixa emissão de carbono, que gera tanta resistência, é apenas uma das componentes, todas com forte oposição, da visão de uma Nova Economia.

Particularizando para o caso brasileiro e ao período em que é forjada a 3ª revolução industrial, o professor menciona com certo pessimismo que “o Brasil, como “celeiro do mundo”, fornecedor de petróleo de alta qualidade e fortalecendo o plantio de cana-de-açúcar, não tem, nesse debate, lugar para o robustecimento da indústria, que é o setor gerador de emprego e renda de qualidade”.

Sobre isto vale argumentar que se o Brasil “celeiro do mundo” beneficiar o que produz, tal posição pode ser muito vantajosa dada a contínua incorporação ao mercado, anualmente, de centenas de milhões de seres humanos. Derivados de soja, café “blended”, açúcar, carne industrializada, aço e assim por diante podem ser produzidos de forma sustentável e serem parte significativa do perfil industrial brasileiro.

Quanto ao petróleo, o mencionado aumento explosivo de preços deve levar, finalmente, os EUA a adotarem uma pesada taxação específica, além da que se discute sobre a emissão de carbono, retendo a renda que seria enviada para os exportadores de petróleo, já que, de qualquer forma, o consumo será duramente afetado. Além disto, o aumento impulsiona e antecipa alternativas energéticas “limpas”. Isto significa que é alto o risco do Brasil, mais uma vez, estar tomando decisões que não estejam embasadas num cenário correto do futuro.

No balanço destas oportunidades e riscos, o Brasil parece estar numa posição bastante favorável. Esta, no entanto, não o retira do cenário mais amplo no qual predomina a incapacidade de resolverem-se os desequilíbrios mais profundos que provocaram a recente crise, em especial o descompasso entre consumo e poupança nos EUA. A persistir este quadro, a reação à mudança não será capaz de se contrapor às pressões pela transição para uma Nova Economia, que pode iniciar-se antes do que se imagina.

%d blogueiros gostam disto: