Xingu: Os Caminhos de um Rio

Leitor: A Pesquisa da Semana é sobre o tema tratado no post e está apresentada em seguida a ele.

Bem, comece vendo o belo (e curto) vídeo produzido pelo Movimento Xingu Vivo para Sempre.

O post desta semana é sobre o artigo da antropóloga Cecília Campello do Amaral Mello “Xingu: os inúmeros caminhos de um rio” publicado em O Globo em 23 de abril último.

O trabalho complementa o vídeo e aponta para aspectos decisivos do porque não construir a usina de Belo Monte. Bem elaborado e de leitura fácil vale a pena ler o artigo. Dele, vou me ater à parte que que se refere aos estilos de vida dos que vivem na área.

Destaco dois trechos. Um após questionar a destinação da energia que será gerada em Belo Monte:

“A perspectiva da justiça ambiental indaga: e se os processos de tomada de decisão política incorporarem seriamente como critério que não deverá haver impactos desproporcionais de grandes obras sobre grupos sociais vulnerabilizados? E se esses grupos puderem fazer ver e valer seu modo de vida e terem respeitados os muitos aspectos não monetarizáveis de seu mundo? E se os grupos potencialmente atingidos puderem mostrar para a sociedade abrangente todas suas riquezas incomensuráveis em relação às quais o nosso modo de vida — baseado no consumo incessante e no uso predatório dos recursos naturais — é cego? O que há no rio Xingu que não pode ser simplesmente esmagado e transformado em mercadoria? O que é este rio para os povos indígenas e ribeirinhos que ali vivem?”

E outro com o qual termina o artigo:

“Como se vê, as crianças e populações indígenas do Xingu têm muito a nos ensinar. Eles nos mostram, por um lado, que um outro modelo de produção e consumo — sustentável e democrático — já existe Brasil adentro. Este modelo, ou melhor, essas saídas sempre criativas e combativas dos que escapam à mercantilização do seu território e modo de vida vêm sendo arduamente defendidas pelos indígenas, ribeirinhos, pequenos agricultores e pescadores do rio Xingu. Esses grupos sociais — que alguns já chamaram de “entraves ao desenvolvimento” — são os poucos ainda capazes de traçar linhas de fuga em relação ao modelo de produção e consumo hegemônico e apontar saídas para os impasses societais que vivemos. As soluções que propõem não envolvem, porém, grandes empreiteiras, empréstimos vultuosos de bancos públicos, construções faraônicas e predação de pessoas. São mais simples e eficientes. Suprem necessidades e vontades e garantem autonomias. Desconfiam do tal “desenvolvimento”.

Os povos do Xingu nos mostram, enfim, que um outro mundo já está sendo possível há muito tempo, nós é que pouca atenção prestamos a ele…”

O que mais me marcou nestes trechos foi perceber que já existem experiências concretas de um “outro mundo” marcado pela desmercantilização (aspecto tratado no post Simples e Relevante) e que estas trazem ensinamentos importantes para o delineamento e implementação de uma Nova Economia.

Infelizmente entretanto, tudo indica que as várias feições de “um outro mundo” somente se tornarão regra quando além da nossa ação consciente, a força dos acontecimentos as imponha. E mesmo assim, com alguma sorte e tremendos custos sociais e ambientais.

Termino sugerindo que você participe da pesquisa de opinião da semana, apresentada no post que se segue, e relacionada ao tema.

Anúncios

As Regras para o Bem Estar

Leitor: A Pesquisa da Semana é sobre o tema tratado no post e está apresentada em seguida a ele.

Ciclista en la paredphoto © 2010 Toni Perelló | more info (via: Wylio)

Conectar-se, ser ativo, estar informado, aprender, dar.

Verdadeira receita de autoajuda.

Bem, vamos ao detalhe da proposta da nef (Five Ways to Well-being) que é baseada em evidências e que busca identificar regras a serem adotadas pelos indivíduos em seu dia a dia e que possam ser objeto da ação de políticas governamentais visando melhorar o bem estar.

Conectar-se: “As relações sociais são críticas para nosso bem estar”. … “O governo pode propor políticas que encorajem os cidadãos a dispender mais tempo com a família e amigos e menos no ambiente de trabalho”. Redução da jornada de trabalho e trabalho local são algumas das recomendações.

Ser ativo: “Exercitar-se melhora o humor e reduz as taxas de depressão e ansiedade”. O uso da bicicleta e mais áreas verdes são sugestões apresentadas.

Estar informado: “Refletir sobre nossas experiências” … “conscientizando sensações, pensamentos e impressões aumenta nosso auto conhecimento e bem estar”. Treinamento e regulação publicitária são algumas das ideias de políticas públicas.

Aprender: “O aprendizado encoraja a interação social, aumenta a autoestima e a sensação de competência”. O aprendizado em todas as fases da vida é a principal recomendação.

Dar: “… o comportamento cooperativo ativa áreas de satisfação do cérebro, sugerindo que nós somos voltados para ajudar-nos mutuamente”. A participação comunitária é o destaque.

Duas observações vêm logo à mente ao ler-se a proposta.

Muita coisa importante para o nosso bem estar ficou de fora, não é mesmo? Onde ficam, nesta estória, os sentimentos, os prazeres, as sensações e tudo o mais que compõe o nosso dia a dia e a nossa vida?

A segunda é ainda mais forte. Como é complicado e perigoso tentar reunir os dois mundos, o do nosso bem estar e o das políticas públicas para melhorá-lo. A ideia que transparece é a de que o agente é o governo e não o contrário, o individuo, que em sua ação dirige, ou ao menos procura, o seu destino.

Termino sugerindo que você participe da pesquisa de opinião da semana, apresentada no post que se segue, e relacionada ao tema.

Medir o bem estar?

Leitor: A Pesquisa da Semana é sobre o tema tratado no post e está apresentada em seguida a ele.

oscar Niemeyer art museum - tile muralphoto © 2006 Ian Burt | more info (via: Wylio)

Parece-lhe adequado, leitor, tentar medir o bem estar humano em toda sua amplitude, material, social e psicológica? Creio que não.

Levanto esta questão porque alguns do movimento pela Nova Economia defendem tal abordagem. Em especial a nef que propõe inclusive uma detalhada quantificação objetiva e subjetiva. É a National Accounts of Well-being. E acaba de produzir um novo documento aprofundando a abordagem: Measuring our Progress.

Acredito que seja prudente preservar a singeleza de de um conceito que expressa o que cada um de nós sente e que é fugaz como a própria vida. E deixar que outras áreas de conhecimento procurem decifrar os enigmas que encerram o bem estar, a felicidade, a satisfação e outros conceitos ligados a nossos sentimentos.

Veja a obra de arte ao lado. Sem dúvida, expressa uma forma de beleza, simplicidade e movimento, que pode ou não ser parte dos valores reais de cada um de nós, mas que, nem por isto, deixamos de admirar.

Isto em nada diminui a importância do bem estar no contexto de uma Nova Economia. Apenas indica que não é conveniente substituir um indicador, o PIB, por outro que expresse de forma completa o bem estar. Ao contrário, o uso de um “painel” de indicadores, retratando as questões ambientais, sociais e do bem estar, na linha do proposto pelo relatório Stiglitz, tem mais a ver com a complexidade do mundo em que vivemos.

Complexidade evidente, dadas as ameaças ambientais, as graves tensões sociais decorrentes da incorporação ao mercado de bilhões de pessoas e de uma incontrolável difusão de informações que leva a todos desejarem os mesmos bens e serviços, e a crescente percepção de que a coletividade já pode prover os meios para que cada um de nós tenha uma vida feliz e plena, dentro das condicionantes, é claro, muito mais amplas, das circunstâncias particulares a cada um de nós.

A polemica vai longe, pois traz o perigoso potencial de ainda maior interferência do estado em nossas vidas. Prova disto, é a recente decisão do governo inglês de se propor a quantificar o bem estar para ajudar na formulação de políticas públicas. Nos próximos posts vou detalhar e criticar as propostas de regras para o bem estar e de quantificação do bem estar e tratar da questão da qualidade de vida, esta sim, apropriada ao contexto da Nova Economia.

Bem, a respeito, deixo-os com uma “máxima” do Riobaldo, personagem do Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa – “Viver é muito perigoso…” – e que retrata por um outro angulo a complexidade mencionada.

E termino sugerindo que você participe da pesquisa de opinião da semana, apresentada no post que se segue, e relacionada ao tema.

Simples e Relevante

Leitor: A Pesquisa da Semana é sobre o tema tratado no post e está apresentada em seguida a ele.

Simple 2photo © 2010 Kristian Bjornard | more info (via: Wylio)

Conforme mencionei no post “sustentável?“, o artigo “Simples e Relevante” escrito em parceria pelo diretor do Centro de Desenvolvimento Sustentável da UnB, Elimar Pinheiro do Nascimento, e Gisella Colares, e publicado em O Globo em 25 de fevereiro de 2011, tem grande afinidades com as teses da Nova Economia o que me leva a comentá-lo aqui.

O artigo apresenta de forma simples, original e comunicativa as “3 vias a serem percorridas”:

Desmaterialização da produção – “produzir mais e consumir melhor usando menos recursos naturais”. Produzir mais é inevitável pois será necessário atender os que “deverão ingressar no mercado de consumo, nos próximos vinte anos…, cerca de 2 bilhões e meio de consumidores demandando bens, energia, habitação, transporte e serviços diversos”. Usar menos recursos naturais, imagino que em termos relativos, também, dada a limitação do planeta. Parece-me que somente com a percepção concreta desta limitação (que deve ocorrer a “duras penas”) é que se definirá na prática o quanto de restrição ao consumo será necessária em complemento às inovações tecnológicas.

Descarbonização da economia – “reduzindo a produção de dióxido de carbono, o gás que mais contribui para o aquecimento global”, complementada com maior eficiência energética e redução do consumo de energia per capta.

Desmercantílização da economia – “…estímulo à autoprodução, tanto de bens quanto de serviços, e da troca não mercantil no interior de comunidades, inclusive com moeda própria. Enfim, incentivar as diversas formas de produção e consumo da economia solidária”.

O artigo não aborda, nem me parece que tenha esta intenção, o como fazer para que tais vias sejam percorridas. Neste ponto acredito que o movimento pela Nova Economia tenha uma contribuição importante, apesar de parcial. Hoje, as principais organizações envolvidas com o assunto defendem a ideia que é preciso formular, detalhar e divulgar ao máximos as ideias para que elas estejam disponíveis e sejam conhecidas quando o momento estiver amadurecido para a mudança.

Mas, é claro, para que haja a mudança é preciso mais do que isto: mobilização e luta, assunto que será objeto de um post específico.

Aproveito para informar que incluí o CDS da UnB nos links de referência pela afinidade com as teses da Nova Economia e pelas publicações e informações disponíveis. É provavelmente o centro teórico mais importante sobre o assunto no Brasil.

Em seu “site” existe uma descrição completa das capacidades do centro. Destaco apenas o fato de que, em média, uma tese ou dissertação é defendida por semana desde o ano 2000. E que publica uma revista semestral: “Sustentabilidade em Debate”.

Bem, termino sugerindo que você participe da pesquisa de opinião da semana, apresentada no post que se segue, e relacionada ao tema.

O Relatório Stiglitz

Leitor: A Pesquisa da Semana é sobre o tema tratado no post e está apresentada em seguida a ele.

Go for Mission Controlphoto © 2007 Mike Renlund | more info (via: Wylio)

Bem, em complemento ao último post que ressalta o dilema entre o desenvolvimento humano e o sustentável, abordo hoje o relatório Stiglitz que, dentre outros assuntos, trata das duas questões, como deve ser, de forma complementar.

Ampliando o esforço para superar as limitações do PIB como indicador, mais recentemente, em janeiro de 2008, o presidente francês encarregou 3 renomados economistas, Joseph Stiglitz, Amartya Sen e Jean-Paul Fitoussi de formarem uma comissão especial e conduzirem um estudo relacionado à medida de performance econômica e ao progresso social. O resultado foi publicado em setembro de 2009 e é conhecido hoje como o relatório Stiglitz.

A proposta resultante vai bem além do IDH ampliado pois considera também as questões da sustentabilidade e do bem estar humano. O relatório trata os assuntos de uma forma abrangente e profunda. Salta aos olhos, por exemplo, o capitulo “Aspectos clássicos sobre o PIB”. Como um exemplo cito o relato dos diferentes pontos de vista e a análise sobre as despesas “defensivas” que seriam aquelas necessárias a manter o nível de consumo e o funcionamento da sociedade e que não trazem portanto um benefício direto e não se constituem num bem ou serviço final.

Além do artigo “The Rise and Fall of the GDP” mencionado no post sobre as limitações do PIB vale a pena ler dois artigos do professor José Eli da Veiga analisando especificamente o relatório: Para além do PIB e do IDH e Trindade para monitorar o desenvolvimento Sustentável.

No relatório são feitas 12 recomendações: 5 sobre as questões clássicas relativas ao PIB, 5 sobre as questões de bem estar e 2 sobre a sustentabilidade. Estas recomendações são apresentadas resumidamente no 1º capítulo do relatório. No cerne das conclusões e das recomendações está a noção de que é preciso monitorar não um mas um conjunto de indicadores que reflitam o desenvolvimento, bem estar e sustentabilidade e desta forma administrar uma realidade muito complexa.

Desde a sua publicação, as recomendações da comissão têm sido debatidas pelas mais importantes agências de estatística e desenvolvimento do mundo. Conforme citado por Jon Gertner, autor do artigo mencionado acima, a esperança de Stiglitz e dos demais autores é que as agências internacionais cheguem a um consenso, e em consequência, os governos, sobre como medir o progresso através de um “painel” com cerca de uma duzia de indicadores focando na economia, sociedade e meio ambiente.

Bem, termino sugerindo que você participe da pesquisa de opinião da semana, apresentada no post que se segue, e relacionada ao tema.

Sustentável?

Leitor: A Pesquisa da Semana é sobre o tema tratado no post e está apresentada em seguida a ele.

Talvez você, leitor, não tenha se detido na questão mas o o conceito “Desenvolvimento Humano Sustentável” proposto pelo PNUD e descrito no último post parece inapropriado. Esta em nada diminui, é claro, o enorme benefício do IDH e demais indicadores mas, precisa ser esclarecida pelas razões que se verá adiante.

Não há, que eu saiba, esclarecimento do PNUD sobre o conceito. Em principio, este seria o do desenvolvimento humano acrescido da condição que atenda ao requisito de preservação dos recursos naturais para as gerações seguintes. Ocorre que o IDH diz respeito à medidas de desenvolvimento humano e que são importantes num mundo com graves disparidades sociais. E mais, num mundo em que a superação de tais disparidades através do modelo de consumo e o estilo de vida decorrente é marcadamente insustentável, como vimos em posts anteriores.

No artigo “O desenvolvimento humano sustentável e os objetivos de desenvolvimento do milênio” escrito em 2006 por Marielza Oliveira, então Coordenadora da Unidade de Parcerias Estratégicas do PNUD, a autora sai do impasse concluindo que o conceito envolve ideias similares ás da Nova Economia. Tal abordagem entretanto nada tem a ver com a do PNUD que está longe de poder, mesmo que alguns de seus dirigentes o queiram, defender uma Nova Economia que substitua o modelo de consumo.

Tal confusão vem se espalhando. Por exemplo, A PUC – Minas criou em conjunto com o PNUD o Instituto de Desenvolvimento Humano Sustentável que em sua ação, da mesma forma que o PNUD, abandona o “sustentável” e se concentra nos temas relacionados aos índices elaborados pela agência das Nações Unidas.

O oposto também ocorre. Pretendo comentar em próximo post o belo artigo “Simples e Relevante” escrito em parceria pelo coordenador do Centro de Desenvolvimento Sustentável da UnB. Ao estudá-lo verifiquei que o Centro está defendendo, o que é muito bom, é óbvio, ideias muito similares às da Nova Economia. Mas, faz isto por dizer que tem uma abordagem multidisciplinar que lhe permite sair de seu objetivo precípuo que é o contribuir para a preservação dos recursos naturais para as gerações seguintes.

Resumindo, parece-me que no primeiro caso seja mais apropriado não se referir à sustentabilidade. E no segundo, adotar a linha proposta pelo professor Gus Speth, que descrevi no post “Do ambientalismo para a Nova Economia“, e que implica em evoluir formalmente da questão ambiental para a da Nova Economia.

Bem, termino sugerindo que você participe da pesquisa de opinião da semana, apresentada no post que se segue, e relacionada ao tema.

Desenvolvimento Humano Sustentável

Leitor: A Pesquisa da Semana é sobre o tema tratado no post e está apresentada em seguida a ele.

Este blog atingiu no domingo a marca de 3.000 acessos de terceiros registrados pelo provedor do serviço, o WordPress, em pouco menos de 5 meses. Um belo resultado que mostra o interesse que o assunto está começando a despertar no Brasil.

Bem, ao analisar a questão do bem estar e depois de abordar as limitações do PIB como indicador, foi necessário mostrar que as pessoas desejam consumir, que tal desejo não tem limites e que a sociedade se mobiliza para isto. Não fossem as restrições ambientais e sociais dificilmente o modelo de consumo e o estilo de vida resultante mudariam. Mas, como é um modelo inviável, as crises e adaptações terão que ocorrer. Chama a atenção que a saída para a recente “grande recessão” está sendo “mais do mesmo”, ou seja cada país tenta sair do impasse através do crescimento econômico sem maiores considerações ambientais e sociais.

Tal caminho só tornarão mais difíceis e dramáticas as soluções. A ver. Aliás, isto torna real para todos, inclusive nós, mais cedo ou mais tarde, a possibilidade de revoltas populares como as que estão ocorrendo nos países do norte da África.

Volto à questão do bem estar, detalhando uma iniciativa da ONU.

Em 1990 o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento – PNUD introduziu em todo o mundo o conceito de desenvolvimento humano sustentável focando nas pessoas e não na acumulação de riquezas o objetivo do desenvolvimento. Para aferir o grau de desenvolvimento humano sustentável de uma sociedade o PNUD utiliza o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) criado pelo professor Amartya Sen e publica anualmente o Relatório de Desenvolvimento Humano comparando 144 países e territórios.

Acione o mapa interativo e veja a versão interativa do quadro acima, inclusive com gráficos evolutivos. Observe que além do IDH o mapa contém 3 outros índices que foram incorporados a partir de 2010. O IDH combina 3 aspectos: saúde (expectativa de vida), educação (tempo de estudo) e renda média. Veja no mapa iterativo o Brasil com 0,699, os EUA com 0,902, a China com 0,663 e Moçambique com 0,284, entre outros.

Os outros 3 índices que também podem ser vistos no mapa interativo procuram um, medir o grau de desigualdade nas variáveis do IDH, outro, a desigualdade feminina e o último o grau de pobreza de cada país. Além destes índices compostos é possível ver a evolução de indicadores específicos sobre saúde, educação, renda, desigualdade, pobreza, gênero, sustentabilidade e segurança humana.

Na base deste trabalho formidável está o conceito de que “a verdadeira riqueza de uma nação são as pessoas”. O mapa, entretanto, evidencia o contrário, a dura situação da imensa maioria das pessoas em termos de qualidade de vida.

E que, infelizmente, com este quadro, não se pode deixar de considerar a possibilidade de uma solução que amplie o fosso entre os que participam do modelo de consumo e os excluídos.

Termino sugerindo que você participe da pesquisa de opinião da semana, apresentada no post que se segue, sobre tal possibilidade.

Um Mundo Irreconhecível em 2050

Crisis in Haitiphoto © 2010 Cliff | more info (via: Wylio)Com este título, O Globo publicou ontem uma reportagem com o subtitulo “População de 9 bilhões, aquecimento e escassez de comida mudarão a terra”. A reportagem é baseada em painel de 20 de fevereiro de 2011 em evento da conferência anual da Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS).

3 renomados pesquisadores “alertaram para um mundo irreconhecível em 2050, com pessoas brigando pelos últimos recursos. A Organização das Nações Unidas (ONU) prevê que a população global chegue a sete bilhões de pessoas este ano e seja de nove bilhões em 2050, com quase todo o crescimento nos países pobres, particularmente África e sul da Ásia”.

“Mais pessoas, mais dinheiro, mais consumo, mas o mesmo planeta” diz um dos pesquisadores.

Como solução a reportagem menciona duas medidas: mudanças na forma de produção de alimentos e enfase nos programas de planejamento familiar para controlar o crescimento populacional.

Esta reportagem é especialmente relevante por ressaltar a dimensão social do diagnóstico que justifica a proposta de uma Nova Economia onde a preservação ambiental, a limitação de recursos naturais, as desigualdades sociais e o bem estar humano, e não apenas o crescimento econômico, sejam considerados.

Veja, leitor, que as soluções descritas na reportagem ainda são parte do contexto de “mais do mesmo” tentando simplesmente remendar o modelo de crescimento e consumo. Esta consideração é aliás a base para a pesquisa da semana.

Sociedade consumista?

 

Vimos até aqui que o que se consome é, via de regra, de utilidade e que a crítica ao individuo consumista é vazia e não leva a mudanças substancias nas práticas de consumo. Vimos, por outro lado, que o estilo de vida moderno, necessário para manter e melhorar o padrão de consumo é altamente estressante e não leva ao bem estar pessoal e social.

Esta é a ótica de cada um de nós. Mas, será que para a sociedade como um todo a crítica ao consumismo se aplica e pode ser transformadora? Metade dos que responderam à pesquisa da semana anterior, cujo resultado é mostrado no espaço da própria pesquisa, acredita que sim. A outra metade divide-se entre os que, parece-me, privilegiam os valores espirituais, e os que, como eu, acreditam que não caiba falar-se em sociedade consumista. Explico-me.

Antes de mais nada, vale citar que poucas exceções no mundo fogem ao modelo que valoriza o consumo de bens e serviços. Um contra exemplo interessante é mostrado no artigo “Crescimento na economia budista“, escrito por Jeffrey D. Sachs para o Project Syndicate em agosto 2010. Em viagem ao país o autor verificou que no Butão a felicidade é vista como uma consequência de um trabalho sério de reflexão interna e de compaixão pelos outros e que o crescimento econômico é subordinado à sustentabilidade ambiental e à preservação da estabilidade psicológica mesmo no curso de mudanças velozes, marcadas pela urbanização e a investida dos meios de comunicação globais.

Mas o fato é que esta experiência de cerca de 700 mil pessoas não consegue se contrapor aos bilhões de pessoas das mais diferentes nações e classes sociais que almejam e estão cada vez mais tendo acesso aos benefícios materiais que o mundo moderno pode propiciar. Não há duvida. A sociedade atual é movida e voltada para o consumo. Contudo, não há indicação neste contexto de uma cultura social baseada no consumo “desenfreado”, supérfluo ou “desnecessário”, que amplie desejos que de outra forma seriam limitados e seja a causa do consumo por comparação e “status”. Sem isto, não há como falar-se em uma sociedade consumista.

Entretanto, mesmo sem a validade da crítica, o mencionado modelo de consumo, como vimos em posts anteriores, não tem como sobreviver às barreiras ambientais e sociais que se ampliam dramaticamente devido a duas razões principais que se realimentam. De um lado, os agentes econômicos precisam do crescimento para que haja excedente, e, para que haja crescimento precisam do aumento constante do consumo para escoar o que produzem. De outro, para que mais pessoas possam consumir mais e melhor é necessário que haja crescimento econômico.

É um impasse que leva inevitavelmente a um novo cenário com a radical diminuição na diferença de renda e do consumo individual e, aí sim, a novos estilos de vida que previsivelmente terão enfase no bem estar. Mudam-se os hábitos para que possamos viver num mundo de recursos finitos e onde, estima-se, 9 bilhões de pessoas o habitarão em 2050. E, aspirando o mesmo padrão.

É a velha história, nossos hábitos e práticas se adequam ao que o momento econômico e social permite e exige, e não o contrário. Qual o preço que humanidade pagará para que tal mudança ocorra é talvez o que mais assusta em todo este quadro. Este é, alias, o objeto da pesquisa desta semana.

Estilo de vida

Vimos no post anterior que o que as pessoas consomem é de utilidade para elas. Se puderem, consumirão cada vez mais, seus estilos de vida continuarão se adaptando à necessidade de consumir e não faltarão novas necessidades despertadas por novos produtos e serviços.

Este estilo de vida é bom ou ruim? Não cabe julgar. Mas é possível dizer, e o resultado da pesquisa da semana anterior confirma isto, que muito provavelmente ele deteriora continuamente o bem estar pessoal e social já que a prática de viver para trabalhar, trabalhar para ganhar e ganhar para consumir, numa corrida incessante dado o aumento continuo das expectativas e possibilidades de consumo e a necessidade de cada um em manter seu padrão relativo praticamente impede que se usufrua a vida.

Nunca é demais lembrar, que a grande marca deste período foi e ainda é o automóvel, cujo uso define em boa medida desde como se dão, entre outros, a urbanização, o transporte público e o perfil de práticas e hábitos de consumo. E que muito provavelmente, os novos tempos virão junto com a sua superação.

É claro que novos conhecimentos, o acesso e a difusão da informação e o nível de educação ampliam-se ao longo do tempo, e isto pode alterar os hábitos e estilos de vida das pessoas na direção de maior bem estar.

É claro também que existe um enorme espaço para a luta pela mudança voluntária de hábitos que vão se afirmando como mais saudáveis. Governos, em seus diversos níveis, inúmeras organizações em todo o mundo e pessoas independentes o fazem em nome da promoção do bem estar pessoal, ou do que consideram exigências ambientais ou sociais.

Mas, é muito duvidoso que um e outro possam mudar radicalmente o estilo de vida moderno na direção de um maior bem estar pessoal e social. Poderia se considerar que isto aconteceria numa longa e penosa mudança de mentalidade e conceitos. Mas, se depender apenas da vontade das pessoas e dos agentes econômicos essas mudanças tendem a ter um caráter contraditório. Basta ver o que ocorre atualmente, onde convivem uma aumento da noção da importância de uma dieta equilibrada para uma vida saudável e o aumento no consumo de álcool, da obesidade e do sedentarismo.

Bem, até aqui, analisamos a questão do consumismo sob a ótica do individuo. No próximo post encerramos esta breve analise do consumismo abordando sua relação com a sociedade como um todo. Até lá, deixo-os com a pesquisa da semana.

Consumo inútil (2ª parte)?

Mercado de Barcelonaphoto © 2005 Pedro Dias | more info (via: Wylio)

Terminei o último post com duas questões relacionadas à utilidade dos bens. Uma, diz respeito à eficácia da manipulação do consumo e a outra, à validade da desqualificação do desejo por bens. A primeira foi objeto da pesquisa da semana anterior e na qual a opinião da totalidade dos que responderam foi diferente da minha. Repensei o assunto, é claro, mas continuo achando que o meu ponto de vista está correto.

A teoria afirma e inúmeros exemplos confirmam que a manipulação dos desejos pode ter um efeito até negativo se os produtos e serviços ofertados não corresponderem ao proposto e esperado e, principalmente, se não atenderem de fato a uma necessidade concreta, mesmo que nova. O que me leva a acreditar que a manipulação apesar de intensa é, em geral, inócua. É nociva, claro, pois exacerba desejos existentes, os anúncios de cerveja são um ótimo exemplo entre inúmeros, mas limita-se a isto.

Quanto à segunda questão, da desqualificação, além de infrutífera, não cabe dar ao desejo das pessoas um sentido positivo ou negativo, interpretar às “reais” necessidades humanas e propor controles à opção individual.

Este último argumento vale também para negar a afirmação de que a comparação com os outros e o “status” que se pretende adquirir pelo consumo sejam fatores não válidos de decisão.

Esta questão da utilidade fica ainda mais aguda quando se considera que o incessante avanço tecnológico, a evolução no transporte, a revolução nas comunicações e a globalização, permitem produtos e serviços novos ou em contínua evolução e com preços relativamente menores. Isto faz com que em todos os segmentos as possibilidades de consumo sejam praticamente ilimitadas. Os bens ofertados o são porque têm utilidade para as pessoas e seu consumo é contida apenas por razões econômicas e sociais. Fica claro, portanto, que do ponto de vista individual, os desejos por bens não são limitados.

Exemplifico o que foi dito até aqui através do segmento da alimentação. O leitor, certamente, terá muitos outros exemplos. Quanto melhores a variedade da dieta, a frescura dos produtos, a sua qualidade e preparo, os complementos, os serviços, entre outros, maior a satisfação individual. É isto que abre o espaço para que os agentes econômicos ofereçam incessantemente melhorias e ampliações nos produtos e serviços oferecidos.

Concluindo, verifica-se, frente a argumentação apresentada, que por qualquer um dos ângulos de abordagem, o significado do termo consumismo, do ponto de vista individual, é vazio. Questioná-lo, não leva a lugar nenhum.

O que não que dizer que consumir não tenha implicações. Têm, e muitas, entre elas o alto preço que cada um de nós paga para ter seus desejos atendidos. Este será o tema do próximo post. Até lá, deixo-os com a pesquisa da semana.

Publicado em Bem estar. Tags: , . 1 Comment »

Consumo inútil (1ª parte)?

Un dia en logos

Primeiro, um comentário sobre a última pesquisa cujos resultados estão apresentados na própria pesquisa. A maioria optou pela mobilização das pessoas. O item mais votado foi a mobilização através de ONGs. Durante a semana, mudei de opinião (mas não o voto) passando a achar que o essencial para a transição é a mobilização das pessoas, “punto e basta”. A ação através de ONGs é apenas uma das formas da mobilização. O bem sucedido movimento “Ficha Limpa”, parece-me, confirma isto.

Agora sim, apresento minha explicação da discordância aos principais conceitos sintetizados no termo consumismo.

Relembrando, a noção de consumismo tem pelo menos 3 aspectos importantes. Afirma a significância do consumo “desenfreado”, supérfluo ou “desnecessário”. Imagina que os desejos humanos são limitados. E, por fim, critica a comparação com os outros e o “status” que se pretende adquirir pelo consumo como fator importante de decisão.

A noção engloba dois ângulos. Um, o do individuo consumista. Outro, o da sociedade consumista. Noto que a argumentação a seguir refere-se ao primeiro. Em novo post, mais adiante, abordarei o outro.

Considero inicialmente que a melhor forma para abordar o consumo “desenfreado”, supérfluo ou “desnecessário” e o quanto estes pesam no consumo em geral é tratar da utilidade dos bens consumidos.

A utilidade, por sua vez, está intimamente ligada ao desejo das pessoas por bens, que é obviamente limitado por um lado, pela possibilidade econômica e por outro, pelas restrições sociais. É dentro deste espaço que os desejos de consumo na sociedade atual são manipulados pelos agentes econômicos tentando ao máximo induzir as pessoas a ampliarem o que consomem.

O desejo por bens, é claro, se manifesta em todos os extratos sociais. Os mais pobres são obrigados a limitar fortemente o seu atendimento. A classe média, à medida que sua renda aumenta consegue ampliar o atendimento de seus desejos. E a classe alta, tem um leque ainda maior de vontades atendidas.

Isto dito, surgem duas questão básicas em relação à utilidade. Uma, se os agentes econômicos, via de regra, provocam o consumo que, de outra forma, não ocorreria? Outra, se é válido desqualificar o desejos das pessoas e desta forma negar a utilidade do que é ofertado?

Termino minha explicação no próximo post. Até lá deixo-os com a pesquisa desta semana sobre uma de tais questões.

Publicado em Bem estar. Tags: , . 1 Comment »

Consumismo, fato ou mito?

Comprasphoto © 2007 Daniel Lobo | more info (via: Wylio)

Será que os afluentes praticam o chamado “consumo desenfreado” adquirindo sem cessar o que não precisam e tendo como principal motivação o status que a posse dos bens lhe dá?

Será que uma vez que as pessoas tenham o suficiente para satisfazer suas necessidades básicas e possam sobreviver com razoável conforto, níveis maiores de consumo tendam a não representar níveis maiores de satisfação ou bem estar?

Será que consome-se não somente para sobreviver e aproveitar a vida, mas para indicar quem se é e qual a respectiva posição no mundo, o que leva a inflar o que se acha que se precisa e o que satisfará as necessidades para muito além do que é realmente necessário para viver bem?

Acredito que não. O que significa dizer que não concordo com os principais conceitos sintetizados no termo “consumismo”. E explico no próximo post.

Tal posição, é claro, não altera minha visão sobre o esgotamento do modelo de crescimento do consumo e a crise aguda que gera para as pessoas, a sociedade e o planeta, aspectos já abordados em vários posts. Sobre isto, leitor, gostaria de contar, além de seus comentários, com a sua resposta  à  pesquisa desta semana e que reflete, de fato, a dúvida de como se dará a inevitável mudança social.

Bem Estar

Definitivamente, um assunto quase proibido. Por razões econômicas, históricas, culturais e religiosas, pensar e procurar o bem estar parece algo indevido para muitos. Duvida-se que a infraestrutura econômica seja capaz de prover condições adequadas de vida para todos, o rigor das praticas trabalhistas impõe regras espartanas de comportamento e a tradição luterana e de outras religiões ainda mantém forte reverência ao valor moral do trabalho.

O fato é que nesta fase de nossa civilização ainda estamos pouco acostumados a procurar diretamente o bem estar e não levamos isto a sério. O máximo a que se chega é a uma suposição de que havendo crescimento econômico haverá melhora da bem estar da humanidade, este entendido como melhor nível e qualidade de vida.

Infelizmente, o crescimento econômico é uma forma extremamente ineficiente de se alcançar a redução da pobreza. De acordo com dados do livro The New Economics, entre 1990 e 2001, para cada USD 100 de crescimento da renda per capta mundial apenas 0,60 USD contribuiu para reduzir a pobreza dos que estão abaixo da linha de 1 USD por dia. Reduzir à metade os que estão nesta faixa é, por sinal, um dos objetivos do milênio estabelecidos pela ONU, a ser atingido até 2015.

No estudo da nef National Accounts of Well-being esta realidade é bem descrita: “As economias são organizadas explicitamente em torno da necessidade de aumento do PIB…. Os modelos de negócio buscam a maximização dos lucros dos acionistas. e as pessoas são levadas a acreditar que quanto mais renda disponham, e consequentemente, quanto mais consumam, mais felizes serão. Mas, os indicadores econômicos nada dizem se as pessoas estão de fato percebendo que suas vidas estão indo bem. Existe uma urgente necessidade por uma melhor e mais direta forma de medir a performance da sociedade em termos do objetivo de melhora do bem estar”.

E continua: “Medir o progresso somente em temos econômicos faz esquecer um ponto chave de que a economia é um meio e não um fim em si mesma. Uma forte e saudável economia pode ser desejável, mas o é porque nos permite fazer as coisas que são realmente importantes: viver vidas felizes e plenas”.

Aos poucos e crescentemente, o PIB vem sendo contestado e complementado. Em 1990 o Programa das Nações Unidas para o desenvolvimento – PNUD introduziu em todo o mundo o conceito de desenvolvimento humano sustentável focando nas pessoas e não na acumulação de riquezas o objetivo do desenvolvimento. Para aferir o grau de desenvolvimento humano sustentável de uma sociedade o PNUD utiliza o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) criado pelo professor Amartya Sen e publica anualmente o Relatório de Desenvolvimento Humano comparando 144 países e territórios.

Mais recentemente, em janeiro de 2008 o presidente francês encarregou 3 renomados economistas, Joseph Stiglitz, Amartya Sen e Jean-Paul Fitoussi de formarem uma comissão especial e conduzirem um profundo estudo relacionado à medida de performance econômica e ao progresso social. O resultado foi publicado em setembro de 2009 e é conhecido hoje como o relatório Stiglitz.

No já mencionado estudo sobre Bem Estar, feito pela nef, o assunto é tratado de uma forma ainda mais abrangente. Enfrenta de forma entusiasmante a subjetividade do tema e busca mais do que a satisfação, entender as dimensões sociais e pessoais e medir sentimentos, funcionalidades e recursos psicológicos.

Em todas estas iniciativas há um pressuposto que parece bastante razoável de que ao se medir os aspectos relativos à qualidade de vida e bem estar e identificar os problemas se estará pressionando a própria sociedade a buscar mudanças, que são estruturais, nesta direção.

O assunto é complexo e amplo. Voltarei a ele analisando em posts algumas de suas dimensões mais salientes: Os problemas do PIB como indicador, a questão do consumismo, os indicadores do PNUD, o relatório Stiglitz e a medida do bem estar.

Termino este post perguntando se o irrealismo que muitos supõe ser enfatizar o bem estar, não estaria justamente no seu contrário, a saber, acreditar que seja possível continuar a não o fazer?

%d blogueiros gostam disto: