Referendo no Reino Unido – decisão direta mas inconsistente.

O líder vitorioso, xenófobo e o derrotado preso à tecnoburocracia e ao austericídio da UE.

Um esclarecedor e aprofundado artigo intitulado “Brexit, Grexit, União Europeia e a desglobalização” sobre o referendo que decidiu pela saída do Reino Unido da União Europeia e escrito por José Eustáquio Diniz Alves é uma referência obrigatória para quem deseja uma análise histórica, cultura, econômica e política sobre um acontecimento que traz impactos previsivelmente dramáticos.

O 1º parágrafo já dá um ideia do alcance do artigo:

“A ideia da União Europeia (UE) ou dos “Estados Unidos da Europa” é um sonho antigo no sentido de unir e tornar pacífico um continente que foi responsável pelas maiores guerras mundiais nos últimos 500 anos. A integração de países heterogêneos sempre foi uma ideia progressista e que buscava superar os interesses provincianos e a estreiteza da soberania nacional em nome de uma soberania regional que pudesse abrigar uma maior diversidade e o livre fluxo de pessoas que falam diferentes línguas e possuem diferentes culturas. O grande sonho seria uma União mundial pacífica com democracia e livre circulação de pessoas, intercâmbio e ideias. A União Europeia seria um primeiro passo para um mundo sem fronteiras e a União Global. Mas ao invés da união e da solidariedade entre os povos, um espectro ronda a Europa, o espectro da divisão, do nacionalismo, do isolacionismo e da xenofobia.”

Em complemento ao artigo e a sua bela visão de um mundo sem fronteiras, saliento alguns aspectos que me parecem importantes e preocupantes:

  • A consulta popular levou a um desfecho que contradiz a essência da democracia direta: cerca de 1,27 milhão de pessoas decidiu por um eleitorado de 46,5 milhões e por um público votante de 33,5 milhões, dividido sobre o assunto. E serve de alerta para o perigo das decisões por maioria simples, qualquer que seja o grupo decisório, em assuntos de importância. Maioria qualificada e um processo de decisão em etapas, no caso: local, regional e após, aí sim, nacional, de forma a explicitar, aprofundar e detalhar o que esta em jogo é o caminho para o amadurecimento do assunto e uma decisão consistente.
  • Os mais jovens, 75% na faixa até 25 anos e 56% na faixa até 50 anos preferiram manter-se unidos à UE. Quer dizer, os mais velhos tomaram a decisão de sair e os que vão responder por ela são outros. Estranho, não é?
  • O erro brutal do político conservador que, por pressão de grupo minoritário eurofóbico de seu próprio partido, resolveu após uma vitória eleitoral consistente, no ano anterior, bancar uma nova, desnecessária e custosa aventura. Renunciou em seguida ao resultado inesperado e deixa a conta para o país e o mundo resolverem.

Enfim, como diz José Eustáquio ao final de seu artigo:

“Para usar os termos do sociólogo Zigmunt Bauman, a modernidade sólida se desmanchou e a modernidade líquida está fervendo em função do calor da crise econômica e do aquecimento global.

Parece que o mundo vai passar por grandes dificuldades em decorrência da conjugação das crises econômica, social e ambiental.”

Parece não, já está passando.

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