A ênfase nas comunidades locais não é a chave para o paraíso.

Mesmo Marx, ao elogiar as cooperativas de trabalhadores como o prenuncio de uma nova ordem reconheceu que tais cooperativas não tem como deixar de reproduzir todas as deficiências do sistema vigente.

Assembleia Geral discute temas de interesse das comunidades locais de Tiquié e baixo Uaupés.

Nos EUA e em alguns países da Europa, principalmente, tem havido uma forte disseminação da ideia de que o foco no desenvolvimento local é a chave para a humanidade superar a crise ambiental e social e promover o bem estar individual. A proposta central desta solução “comunitária” consiste em substituir localmente os produtos hoje importados para a região. Lotes menores de produção, métodos de fabricação mais intensivos em mão de obra, tecnologia adequada à escala e otimização do transporte representam uma expansão do movimento de produção sustentável de alimentos.

Afirma-se mesmo que está ocorrendo a proliferação de modelos inovadores de economias “de vida local”, comunidades sustentáveis, cidades de transição, bem como modelos de negócios inovadores, incluindo empresas sociais, de propriedade e em prol de seus trabalhadores e que priorizam a comunidade e o meio ambiente sobre o lucro e crescimento”, dito, entre outros, por Gus Speth em artigo parcialmente transcrito no último post.

Mais especificamente, tal modelo está apoiado no fortalecimento de cooperativas, em especial as de trabalhadores, e a propriedade dos empreendimentos por aqueles que neles trabalham, visando construir comunidade sólidas , resilientes e com empreendimentos democráticos.

Gar Alperovitz em seu artigo intitulado “O socialismo na América está mais próximo do que você pensa” expande o modelo incluindo a propriedade pública de bens e meios de produção mas, de uma forma descentralizada e democrática.

Inclui os fundos locais de propriedade de terras, corporações municipais, bancos municipais e estaduais e a disseminação do acesso à Internet. Menciona ainda que muitos estados tem utilizado a posse e uso de terras, imóveis e direitos minerais para constituir fundos sociais e diminuir os impostos.

E se pergunta sobre o que fazer em relação às grandes industrias e corporações pelo inevitável poder institucional que têm. Como solução, aventa a alternativa de se contrapor a elas focando em regiões ao invés do país como um todo. Ou, lutar para que as grandes corporações sejam reestruturadas para incluir seus trabalhadores, a comunidade e instituições regionais em sua gerência e propriedade.

Cita que que cerca de 25% da energia elétrica nos EUA é fornecida por empresas publicas e cooperativas. E que são inúmeros os casos de municípios que detêm a propriedade de hospitais, hotéis, centros de convenção, sistemas de transporte, aeroportos, dentre outros.

O mesmo Gar Alperovitz em artigo com dois outros autores e intitulado “Além de cidades descartáveis: como construir uma economia local sem o risco de evasão” salienta que o objetivo central da construção de riqueza em comunidade sustentáveis é aumentar a proporção do capital detido por agentes comprometidos com a comunidade no longo prazo. E com isto reduzir o impacto das empresas de capital aberto cujo objetivo é maximizar o lucro para os acionistas e que podem sair da comunidade se seus interesses estratégicos assim o determinarem. Empresas públicas, empresas de propriedade dos trabalhadores, empresas de propriedade de distritos e organizações sem fins lucrativos todas estão enraizadas em suas comunidades. Comunidades com maior proporção deste tipo de empreendimento estão em melhor posição para alcançar a estabilidade econômica e terem um futuro viável num mundo de “baixo carbono”.

Vale ainda mencionar um estudo intitulado “Empresas geridas por seus trabalhadores” abrangendo empreendimentos nos EUA, Europa e América Latina e que concluí que além do benefício pessoal tais empresas são mais produtivas, seus trabalhadores operam melhor e mais inteligentemente e a produção é organizada de forma mais eficiente.

É de se notar que a concepção bate de frente com os benefícios do capitalismo e não é páreo para ele. Mesmo Marx, ao elogiar as cooperativas de trabalhadores como o prenuncio de uma nova ordem reconheceu que tais cooperativas não tem como deixar de reproduzir todas as deficiências do sistema vigente.

Mais contundente, o estudo intitulado “As cooperativas e empreendimentos de propriedade dos trabalhadores não terão sucesso ao competir nos termos estabelecidos pelo capitalismo” afirma que tais grupos de trabalhadores tornam-se essencialmente os seus próprios capitalistas. Eles têm direitos de propriedade, mobilizam suas próprias finanças, controlam e reinvestem “seu” excedente em sua própria vantagem, mas não tem como alavancar capital e tecnologia capaz de enfrentar a concorrência.

Além destas críticas lembro que a própria ideia de comunidade local pouco tem a ver com a concentração urbana que se observa em todo o mundo. Não se consegue sequer imaginar tais ideias aplicadas em metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiro ou mesmo cidades de médio porte e onde se localiza a imensa maioria da população. No Brasil, somente nas 25 regiões metropolitanas mais populosas, em meados de 2013, havia 87,0 milhões de habitantes, 47% do total da população.

Com estes dados em vista é fácil também concluir que é enorme o risco de isolamento daqueles que optarem por aderir a opções comunitárias na esperança de estarem ajudando a construir um ambiente sustentável e resiliente.

Todavia, tomadas as devidas precauções, tais experiências podem muito bem serem sementes do novo já que este, e não pode ser diferente, nasce do existente.

Mas, como tenho insistido aqui, o novo se expressa na economia dual e que é baseada no trabalho livre e não em variantes mais ou menos democráticas de empreendimentos que se criam dentro do sistema.

E mais, como tenho procurado mostrar, está em expansão já que a atividade produtiva voltada para atender ao mercado vem reduzindo o emprego de mão de obra devido a inúmeros e conhecidos fatores.

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2 Respostas to “A ênfase nas comunidades locais não é a chave para o paraíso.”

  1. Valentina Sena Says:

    Muito enfatico! O que vc diz sobre cautelas nos empreendimentos, tal como vc discorrou, o que podem ser?


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