Por que os EUA tem a maior taxa de pobreza dentre as 20 economias mais desenvolvidas?

Procurar a reforma dentro do sistema pode ajudar, mas o que agora é desesperadamente necessário é a mudança transformadora do próprio sistema. Gus Speth.

84 aviões F-15 e a modernização de outros 70 aparelhos por US$ 80 bilhões. Operações semelhantes a esta com a Arábia Saudita são feitas pelos EUA em todo o mundo.

84 aviões F-15 e a modernização de outros 70 aparelhos por US$ 30 bilhões. Operações semelhantes a esta com a Arábia Saudita são feitas pelos EUA em todo o mundo.

Curiosamente, o 2º post deste blog, publicado no final de 2010, foi motivado por uma palestra de Gus Speth sobre a eminente necessidade de conjunção de esforços de ambientalistas e ativistas sociais. E agora, no início desta nova fase do blog, apoio-me num novo, oportuno e excelente artigo do mesmo ativista, agora clamando pela transformação (revolução), intitulado “Os EUA são o melhor país se o critério for estar em último lugar”.

Ele começa, explicando a razão de ser do título, comparando os EUA às outras 19 economias mais desenvolvidas do planeta. Dentre os 20 países, os EUA têm:

 

 

. a maior taxa de pobreza, geral e das crianças;
. a maior desigualdade de renda;
. o menor mobilidade social;
. a pontuação mais baixa em índice de “bem-estar material das crianças” da ONU;
. a pior pontuação no Índice de Desigualdade de Gênero da ONU;
. os maiores gastos em cuidados de saúde em percentagem do PIB, mas todo esse dinheiro acompanhado pela maior taxa de mortalidade infantil, a maior prevalência de problemas de saúde mental, a maior taxa de obesidade, o maior percentual de pessoas sem cuidados de saúde devido ao custo, o maior consumo de antidepressivos per capita e a expectativa de vida mais curta no nascimento;
. a penúltima menor pontuação de desempenho dos estudantes em matemática e desempenho mediano em ciências e em leitura;
. a maior taxa de homicídio;
. a maior população prisional em termos absolutos e per capita;
. as emissões mais elevadas de dióxido de carbono e o maior consumo per capita de água;
. a pontuação mais baixa de desempenho ambiental pelo índice de Yale (à exceção da Bélgica) e a maior pegada ecológica per capita (com exceção da Dinamarca);
. a menor despesa em desenvolvimento internacional e assistência humanitária como uma percentagem do rendimento nacional (exceto Japão e Itália);
. o maior gasto militar, tanto no total quanto em percentagem do PIB;
. o maior valor total de venda internacional de armas.

E, continua explicando porque isto acontece na nação mais rica do mundo:

As empresas hoje são chamadas de “máquinas de externalização”, tal o modo com que estão comprometidas em manter os custos reais das suas atividades fora de suas responsabilidades.

… Dada tal ênfase no crescimento inexorável e no lucro, a expansão constante do mercado para novas áreas pode ser muito cara ambiental e socialmente. Como Karl Polanyi descreveu em seu livro de 1944, “A Grande Transformação”, permitir que o mecanismo de mercado seja o único diretor do destino dos seres humanos e de seu meio ambiente . . . resultaria na demolição da sociedade. . . .

… Cabe a nós como cidadãos injetar valores de justiça, equidade e sustentabilidade este sistema, e o governo é o principal veículo que temos para fazer isso.

… E esperamos de alguma forma que um raio surja e que os ventos venham se mover a nosso favor.

Mas, fica cada vez mais claro que essas abordagens reformistas não estão tendo sucesso. As forças titânicas desencadeadas pelo estilo americano de capitalismo são muito poderosas. A busca incessante de lucros, crescimento e poder e outros imperativos de sistema mantêm a torneira do problema totalmente aberta. Reformas raramente lidam com as causas profundas que sustentam tais problemas. E, as forças que deram origem a esses problemas continuam a impedir mudanças reais. E a nossa vida política enfraquecida, cada vez mais nas mãos de corporações e indivíduos poderosos e de grande riqueza, não é páreo para essas forças.

Procurar a reforma dentro do sistema pode ajudar, mas o que agora é desesperadamente necessário é a mudança transformadora do próprio sistema. Para lidar com sucesso com todos os desafios que a América enfrenta agora, por isso, devemos complementar as reformas com os esforços pelo menos equivalentes destinados à mudança transformacional que venha a criar um novo sistema operacional que proporcione intrinsecamente bons resultados para as pessoas e o planeta.

… Sabemos que tal mudança transformadora sistêmica vai exigir uma grande luta, e não virá rapidamente. Os novos valores, prioridades, políticas e instituições que constituem uma nova economia política capaz de permitir regularmente bons resultados não estão à mão e não estarão por muitos anos. A verdade é que ainda estamos na fase de projeto de construção de um novo sistema operacional. Esse sistema não será o socialismo de ontem, a propósito, mas não vai ser o capitalismo americano de hoje, também.

… Neste período de declínio, são três os imperativos que enfrentamos como cidadãos: abrandar e, em seguida, parar a descida, minimizando o sofrimento humano e os danos planetários ao longo do caminho e impedindo um colapso e o surgimento de um mundo de guetos, ou qualquer um dos outros terríveis cenários traçados na ficção científica e que são cada vez mais considerados seriamente; minimizar o tempo de transição e começar a implementar um novo sistema operativo; e para completar, vivenciar e florescer na diversidade de arranjos sociais alternativos, cada um deles muito superior aos que vamos ter deixado para trás.

… As pessoas acabarão por despertar, protestar vigorosamente e exigir grandes mudanças. Isso já está acontecendo com alguns grupos e em diversos lugares. Isto vai crescer e se tornar um movimento nacional e global de transformação por um mundo melhor.

À medida que o velho sistema entra sua agonia, já estamos vendo a proliferação de modelos inovadores de economias “de vida local”, comunidades sustentáveis, cidades de transição, bem como modelos de negócios inovadores, incluindo empresas sociais, de propriedade e em prol de seus trabalhadores e que priorizam a comunidade e o meio ambiente sobre o lucro e crescimento. Iniciativas que podem parecer pequenas ou locais podem ser as cunhas iniciais que levem a mudanças maiores. Estas iniciativas oferecem modelos de inspiração para como as coisas poderiam ser em uma nova economia política dedicada a sustentar comunidades humanas e preservar o meio ambiente. Tais iniciativas estão crescendo rapidamente nos Estados Unidos.

Falta, é claro, mostrar como a transformação ocorre num mundo onde o controle das manifestações é cada vez mais eficaz e está não mão dos que não querem as transformações defendidas pelo Speth. É claro também que a força das mudanças não consegue ser, ao longo do tempo, barrada pela repressão. Trata-se, pois de um conflito permanente e anunciado cujo resultado pode ser desastroso para a civilização.

É claro, também, que o novo nasce a partir do existente, e não pode ser diferente. Mas, como tenho insistido aqui, o novo se expressa na economia dual e não em variantes mais ou menos democráticas de empreendimentos que se criam dentro do sistema. Defender isto é até uma contradição ao próprio argumento do Speth.

Uma economia dual baseada no trabalho livre é que vem se fortalecendo. A consciência disto é que permite uma transição mais curta e menos sofrida.

Esta questão, crucial, da inviabilidade de empreendimentos que concorrem dentro do capitalismo mas com objetivos “teoricamente” mais nobres será objeto do próximo post. E, em seguida, volto a abordar o tema da mudança.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: