A Petrobras, o pré-sal e o tiro no pé.

“O fato é que o pré-sal tem fracassado e, de certa forma, contribuiu para que o Brasil passe pela maior recessão de sua história. O sonho do Eldorado que forneceria recursos para a educação, a saúde e os municípios virou pesadelo. Em vez de industrialização liderada pelos combustíveis fósseis, temos uma grande desindustrialização do país e aumento das taxas de desemprego.” José Eustáquio Diniz Alves.

Alguns dos recentes “estrategistas” da Petrobras.

Em 2006 ocorreu a descoberta de petróleo no pré-sal brasileiro. De “olho grande” cada vez maior à medida que novas descobertas aconteciam os “estrategistas” brasileiros seguraram a partir de 2008 novas licitações pelo regime de concessão para que um novo modelo voltado para os “interesses nacionais” fosse implantado.

Passaram-se cerca de 5 anos sem novas licitações pelo regime de concessão enquanto se discutia, preparava e aprovava o novo regime, agora de partilha. Em 22 de dezembro de 2010 foi assinada a lei do novo marco regulatório para a exploração do petróleo no País. E, mais 2 anos se passaram na interminável discussão da repartição dos royalties.

Novas licitações voltaram a ocorrer, já sob o novo marco regulatório, somente a partir de 2013.

E foi exatamente neste período de 5 anos que o Brasil perdeu as maiores oportunidades de atrair capitais e aumentar sua produção. De lá para cá, a questão ambiental tornou-se imperativa, o preço do barril de petróleo despencou e a recessão global mostra que crise mundial instalada em 2008 veio para ficar.

É verdade que a produção do pré-sal contribui decisivamente para a produção nacional. Oito anos após a primeira descoberta, em 2006, e dez meses após a marca dos 500 mil barris diários de produção, obtida em junho de 2014, alcançou-se a produção de mais de 800 mil barris por dia no pré-sal.

A conquista do pré-sal demonstrou a imensa capacidade técnica brasileira e ao mesmo tempo o terrível despreparo de nossa elite política que desprezou cenários e apostou todas as fichas num caminho que viria a ser a nossa ruína, e também a deles. Um verdadeiro tiro no próprio pé.

Um excelente artigo do pesquisador José Eustáquio Diniz Alves intitulado “Novas regras para o pré-sal e o desinvestimento em combustíveis fósseisconfigura bem o desastre. Transcrevo abaixo alguns trechos que reforçam o afirmado acima.

O sonho do Eldorado do pré-sal foi por água abaixo. Ou melhor, continua debaixo d’água, pois é difícil extrair lucro das riquezas localizadas abaixo dos cinco mil metros de profundidade de rochas que, por sua vez, estão debaixo de 2 mil metros de água do oceano Atlântico. Iludiu-se quem esperava rios de dinheiro do “ouro negro” abissal e dos royalties do pré-sal para a educação e a saúde.

O Brasil está pior hoje do que estava há 10 anos, antes da descoberta do pré-sal. A maldição do petróleo atingiu em cheio o país. Contando com o “ovo na cloaca da galinha”, o Brasil comprou fiado e disparou a comer omelete. Houve endividamento geral da Petrobras, dos estados e dos municípios. Benfeitorias foram pessimamente planejadas e viraram esqueletos de malfeitorias. O Brasil continua com pouco petróleo, mas com muita dívida, “elefantes brancos”, desemprego e muita sucata espalhada por cidades como Itaboraí, no Rio de Janeiro.

Reportagem do jornal El País constata o fracasso do polo petroquímico Comperj – que foi apresentado “como o maior empreendimento único da Petrobras e um dos maiores do mundo no setor”: “Quase uma década depois de seu anúncio, o Comperj é talvez a melhor ilustração da corrupção, das ineficiências e do intervencionismo político que gangrenam a Petrobras, a maior empresa do Brasil, guardiã das reservas de petróleo e até pouco tempo motivo de orgulho nacional.

O Brasil continua um país importador líquido de petróleo, apesar de todo o dinheiro gasto e da enorme dívida que a Petrobras contraiu. O fato é que o consumo manteve-se sempre maior do que a produção e o sonho de país exportador líquido de petróleo ainda está distante.

Outro elemento que complexifica a equação é a variável meio ambiente e a necessidade que o Brasil tem de cumprir o Acordo de Paris, que estabelece o objetivo de manter o aumento da temperatura média global abaixo de 2º C ou até mesmo abaixo de 1,5º C. Isso significa que a humanidade não poderá emitir mais do que 850 bilhões de toneladas de CO2 daqui para frente. Isto traz uma pressão para se manter as reservas no subsolo, para evitar o aumento da emissão dos gases de efeito estufa. Enquanto houver necessidade de reduzir as emissões, o risco do investimento no pré-sal se manterá alto. Assim, o futuro do pré-sal fica comprometido devido ao preço baixo do petróleo no mercado internacional e a necessidade de se enfrentar o aquecimento global

O fato é que o pré-sal tem fracassado e, de certa forma, contribuiu para que o Brasil passe pela maior recessão de sua história. O sonho do Eldorado que forneceria recursos para a educação, a saúde e os municípios virou pesadelo. Em vez de industrialização liderada pelos combustíveis fósseis, temos uma grande desindustrialização do país e aumento das taxas de desemprego.

O mundo está em uma encruzilhada e o caminho alternativo está nas energias renováveis, na eficiência energética e na redução das atividades antrópicas.

O preço do petróleo exerceu uma atração fatal sobre os nossos “estrategistas”. O barril do tipo “brent crude” chegou ao seu auge em 2008 atingindo USD 145. Excesso de produção e declínio relativo no consumo fizeram com que em 11 de fevereiro último chegasse ao mínimo no período, USD 27, inviabilizando, entre outros, a extração do xisto nos EUA e o pré-sal. De lá para cá subiu um pouco, para cerca de USD 40, com a expectativa de redução da produção a ser negociada por parte dos produtores em reunião em Doha no próximo mês mas que já começou a se desfazer por diversas razões, dentre elas, a aparente determinação da Arabia Saudita de inviabilizar a produção americana baseada na produção via xisto.

Outro erro grosseiro, e não só da Petrobras, foi e continua sendo o da estimativa do crescimento da frota de veículos elétricos. Enquanto a indústria petrolífera estima que se manterá em 1% dos carros novos, o impulso que se verifica na produção indica que a produção anual de carros em 2040 chegue a 50% do total.

E, além da variável mais importante de todas, a ambiental, até o Citibank reconhece e prevê o aprofundamento da recessão global.

É o que dá.  Aproveito um ditado do Tom Jobim que diz que o Brasil não é para principiantes, para afirmar que, menos ainda, o é para governantes neófitos. Especialmente nesta época em que a a humanidade está sendo exigida a transitar para o pós-capitalismo sob pena de não o fazendo, extinguir-se.

O pior é realizar o quanto estivemos perto, na década de 70, em plena ditadura, e, novamente, na década passada, no período inicial do governo do PT, de uma estratégia diversificada na área de energia, valorizando o biocombustível e as fontes solar e eólica.

E de como seria diferente a situação da Petrobras, hoje, tivesse ela adotado uma estratégia diversificada. Veja, leitor, sobre isto, o relatório do Pnuma que mostra que em 2015 o mundo bateu o recorde no investimento em fontes renováveis, USD 286 bilhões, mais do que o dobro do que se investiu em usinas de carvão e gás. China, Índia e Africa do Sul ostentaram os maiores crescimentos. Já o Brasil reduziu, no período, 11% dos investimentos em fontes renováveis.

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