Crescimento desqualificado e exponencial – a marca comum das propostas do PT e do PMDB.

“… não estão nem um pouco preocupados em explicar como um padrão de consumo da classe média das economias desenvolvidas possa ser expandido para bilhões de pessoas sem explodir o planeta. Quem sabe, pensem apenas num jeitinho de incluir uma parte dos brasileiros nesta “boquinha” que aliás não é tão boa assim.”

É curioso, as recentes propostas do PT (O futuro está na retomada das mudanças) e do PMDB (uma ponte para o futuro) são conflitantes apenas na aparência e no jargão. No fundo ambas defendem o mesmo e “esquecem” o principal. Achei especialmente importante trazer isto à tona porque além de criarem uma esperança vã, tais propostas, com pequenas nuances, são a base do credo de todos os partidos existentes e dos que estão por se criar.

Não há preocupação com a qualidade do crescimento econômico e o que seu percentual significa. Sob a capa de que o índice apenas reflete o esforço produtivo oculta-se que ele revela o que foi feito mas não o que foi desfeito, perdido, destruído. É claro, do ponto de vista das empresas preocupadas em maximizar lucros o que importa é mais e mais produção. Aparentemente, esta lógica seria a mesma da população que quer consumir mais e mais.

A preservação ambiental é esquecida e não por acaso. De fato, ela atrapalha o objetivo maior. Nem pensar em internalizar custos ambientais e sociais pois isto aumenta os custos, atrapalha o andamento dos negócios e reduz o consumo. O recente terrível derramamento de rejeitos no Rio Doce é um dos exemplos mais claros do que pode causar a inconsequência empresarial. Para contrabalançar a forte queda do preço internacional do minério a Vale e seus sócios não pensaram duas vezes, aumentaram a produção para tentar manter a receita e mesmo o lucro já que o que pagam pela exploração é irrisório e pelo dano, nada.

E passam longe da questão do bem estar humano mostrando que não entendem que o sistema produtivo possa ser voltado para objetivos maiores da civilização. Trazem a marca da crença do efeito indireto. É preciso crescimento econômico para que, aí sim, o “povo” prospere. Em nenhum ponto menciona-se a essencial questão da redução da jornada de trabalho. Afinal, ela só traria redução nos ganhos de quem trabalha e aumentaria os custos de quem produz, conflitando com o objetivo maior de expandir o consumo.

O termo desenvolvimento é usado por ambos como sinônimo de crescimento, o que lhes é muito conveniente.

Ambos falam também que é imprescindível contar com o apoio do congresso nacional, fato que já se sabe impossível a menos de acordos que acabam por desfazer o próprio núcleo das propostas.

Bem, neste ponto, vale a pena comparar algumas “pérolas” do “pensamento” dessa gente. Divirtam-se:

. As modernas democracias de massa não parecem capazes de conviver passivamente com o fim do crescimento econômico e suas oportunidades, nem com a limitação da expansão dos gastos do governo (PMDB).
. A sociedade brasileira ainda está muito distante do padrão de vida das famílias nas economias desenvolvidas. Ao contrário, a maioria absoluta da população ainda sofre de baixo poder de compra e de consumo e mesmo suas necessidades humanas básicas ainda não estão atendidas. Crescer a economia não é uma escolha que podemos fazer, ou não. É um imperativo de justiça, um direito que a população tem diante do Estado (PMDB).
. O principal objetivo do ciclo que estávamos abrindo era deslocar o eixo da economia para a construção de um mercado interno de massas, que pudesse alavancar o consumo e o investimento, eliminando gradualmente a submissão aos imperativos do capital rentista (PT).

Ou seja, não estão nem um pouco preocupados em explicar como um padrão de consumo da classe média das economias desenvolvidas possa ser expandido para bilhões de pessoas sem explodir o planeta. Quem sabe, pensem apenas num jeitinho de incluir uma parte dos brasileiros nesta “boquinha” que aliás não é tão boa assim.

. Só o Estado pode criar e manter em funcionamento as instituições do Estado de Direito e da economia de mercado, e só ele também pode suprir os bens e serviços cujos benefícios sociais superam os benefícios privados (PMDB).
. Desde a primeira gestão do presidente Lula, com erros e acertos, nosso esforço teve o sentido de transformar paulatinamente o modelo econômico herdado do período anterior, nas difíceis condições políticas de um governo popular sem maioria parlamentar de esquerda e sem hegemonia no Estado (PT).

Sempre acreditando, como bem interessa a eles, que é o estado que tudo pode e tudo deve fazer.

. Para o Brasil, o tripé de qualquer ajuste duradouro consiste na redução estrutural das despesas públicas, na diminuição do custo da dívida pública e no crescimento do PIB (PMDB).
. Nossa convicção é que a saída para a crise se encontra na retomada do combate à desigualdade de renda e riqueza como princípio reitor de um segundo ciclo de desenvolvimento com inclusão social (PT).
. Essa orientação tem três pilares fundamentais: 1) a drástica redução das transferências financeiras do Estado para grupos privados; 2) a implementação de mudanças tributárias progressivas; 3) a adoção de um plano audacioso de investimentos públicos e expansão dos gastos sociais (PT).

Tripé? 3 Pilares? No fundo, expressão de crenças sem apoio na realidade.

. Qualquer voluntarismo na questão dos juros é o caminho certo para o desastre. Tentativas anteriores de baixar a taxa básica, sem amparo nos fundamentos, fracassaram e cobraram o seu preço (PMDB).
. Juros tão altos diminuem nossa capacidade de crescer, afetam o nível dos investimentos produtivos e realizam uma perversa distribuição de renda (PMDB).
. Esse ciclo, no entanto, começou a se esgotar durante o governo da presidenta Dilma Rousseff, particularmente quando a longa crise de superprodução do mundo capitalista levou à depressão de preço e volume dos produtos extrativistas (PT).
. A adoção de medidas para desoneração e isenção tributária para empresas, embora com o correto objetivo de preservar empregos, resultou em comprometimento do orçamento federal, além de não ter se revelado capaz de substituir o impulso direto ao consumo, que havia vigorado até 2010. As corporações recompuseram suas margens sem majorar investimentos, mesmo quando a taxa de juros, entre 2012 e 2013, chegou ao seu mais baixo nível (PT).
. A história recente demonstra, de toda maneira, a correção do rumo implementado entre 2008 e 2010. O agravamento das crises interna e internacional, ao contrário de anular esse caminho, deve nos levar à hipótese de dobrar a aposta na opção então adotada pelo presidente Lula, com mais investimento público, mais desenvolvimento industrial, mais mercado interno, mais integração regional, mais políticas públicas, mais salário e emprego (PT).

Dobrar a aposta, depois dessa confissão de incompetência?

Bem, para terminar num tom mais otimista aproveito um recente trabalho “Por que menos é mais quando se tratar de avaliar o sucesso de uma nação?” que contou com o apoio de pesquisadores e colaboradores de cerca de 50 instituições e coordenado pela nef.

Em síntese, diagnosticam que a proeminência do Produto Interno Bruto (PIB) faz o governo se desconcentrar dos resultados econômicos, sociais e ambientais que realmente importam. E, propõem cinco novos indicadores-chave: trabalho, bem estar, meio ambiente, equidade e saúde, com exemplos concretos de sua medição.

O assunto, por sinal, foi detalhado em diversos posts deste blog sob a rubrica Bem estar. Recomendo, em especial, um sobre O Relatório Stiglitz.

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