Além da economia de mercado.

O socialismo fracassou e agora, vinte anos após a queda do muro de Berlim, assistimos à falência do capitalismo e de seu fundamentalismo de mercado.”

Vinte anos da queda do muro de Berlim.

O artigo do historiador britânico Eric Hobsbawn intitulado “Beyond the free market” ajuda, e muito, a caracterizar o que se entende por pós-capitalismo. Vamos a ele, traduzido para o português, e, bom proveito.

O breve século XX foi uma era de guerras religiosas entre ideologias seculares. Por razões mais históricas do que lógicas, o século passado foi dominado pela oposição entre dois tipos de economia mutuamente excludentes: o “socialismo”, identificado com as economias centralmente planejadas do tipo soviético, e o “capitalismo”, que cobriu todo o resto.

Esta aparente oposição radical entre um sistema que tentou eliminar a busca do lucro pela empresa privada (ou seja, o mercado) e outro que procurou eliminar qualquer restrição do setor público e outras sobre o mercado, nunca foi realista. Todas as economias modernas devem combinar o público e o privado de variadas maneiras e intensidades e de fato o fazem.

As duas tentativas de viver a qualquer custo dentro da lógica binária dessas definições de “capitalismo” e “socialismo” fracassaram. As economias comandadas pelo planejamento de estado do tipo soviético não sobreviveram aos anos 80, e o “fundamentalismo do mercado” anglo-norte-americano, então em seu apogeu, se fez em pedaços em 2008.

O século XXI terá de reconsiderar seus problemas em termos mais realistas. De que maneira o fracasso afetou os países anteriormente comprometidos com o “modelo socialista”? Sob o socialismo, eles não foram capazes de reformar seus sistemas de economia planificada, embora seus técnicos tivessem plena consciência de seus defeitos fundamentais, que eram internacionalmente não competitivos e continuavam sendo viáveis apenas na medida em que estivessem isolados do resto da economia mundial.

O isolamento não pôde ser mantido e, quando o socialismo foi abandonado, seja pelo colapso dos regimes políticos, como ocorreu na Europa, ou pelo próprio regime, como sucedeu na China e no Vietnã, esses estados mergulharam no que para muitos parecia a única alternativa à disposição: o livre mercado extremado que então dominava o capitalismo global.

Os resultados imediatos na Europa foram catastróficos. Os países da ex-União Soviética ainda não superaram seus efeitos. Felizmente para a China, seu modelo capitalista não se inspirou no neoliberalismo anglo-norte-americano, mas no modelo muito mais dirigista dos “tigres” do Leste asiático. A China lançou seu “grande salto adiante” econômico com escassa preocupação por suas implicações sociais e humanas.

Este período agora está chegando ao fim, tal como ocorre com o domínio do liberalismo econômico anglo-norte-americano, embora ainda não saibamos quais mudanças trará a atual crise econômica mundial, a mais profunda desde 1930, depois de superados os efeitos da sacudida dos últimos dois anos. Somente uma coisa é clara, há um importante deslocamento das velhas economias do Atlântico Norte para o Sul e, sobretudo, para o Leste da Ásia.

Nesta situação, os ex-estados socialistas (incluindo aqueles ainda governados por partidos comunistas) enfrentam problemas e perspectivas muito diferentes. Mesmo com diferentes alinhamentos políticos, a maioria continua relativamente frágil. Na Europa, alguns estão assimilando o modelo de capitalismo social da Europa ocidental mas, com um nível de renda muito inferior. Nenhum dos países da antiga União Soviética ou do sul da Europa fez o mesmo ou se espera que venham a fazê-lo.

O mais difícil de ver é o futuro do sudoeste da Europa, mais subdividido do que nunca e abalado por guerras, corrupção e crime. É provável que emerja uma economia dual no âmbito da união europeia.

A Rússia, tendo se refeito até certo ponto da catástrofe da década de 90, ficou reduzida a ser uma forte, mas vulnerável, exportadora de matérias-primas e energia, e até agora não foi capaz de reconstruir uma base econômica mais balanceada. A reação contra os excessos da era neoliberal levou a certo retorno para uma forma de capitalismo de Estado com uma reversão a aspectos da herança soviética. É evidente que a simples “imitação do Ocidente” deixou de ser uma opção.

Isto é ainda mais óbvio na China, que desenvolveu seu capitalismo pós-comunista com considerável êxito. Tanto é assim que futuros historiadores poderão muito bem ver a China como a verdadeira salvadora da economia do mundo capitalista na atual crise. Em resumo, já não é possível crer em uma única forma global de capitalismo ou de pós-capitalismo.

Porém, modelar a economia futura talvez seja o assunto menos importante de nossas preocupações. A diferença crucial entre os sistemas econômicos está não em suas estruturas, mas em suas prioridades sociais e morais. A este respeito vejo dois problemas:

O primeiro é que o fim do comunismo significou o súbito fim de valores, hábitos e práticas sociais com os quais várias gerações viveram, não apenas dos regimes comunistas, mas também os do passado pré-comunista e que foram preservados sob tais regimes. É preciso reconhecer o profundo choque e calamidade humana decorrente deste abrupto e inesperado terremoto social.

Exceto para os nascidos depois de 1989, este senso de ruptura e desorientação mantém-se mesmo com os apuros econômicos já não sendo predominantes para população pós-comunista. Inevitavelmente, serão necessárias várias décadas antes que as sociedades pós-comunistas encontrem um modo de viver estável na nova era. E isto, sabendo que algumas das consequências da ruptura social, da corrupção e do crime institucionalizados levarão ainda mais tempo para serem erradicadas.

O segundo problema é que tanto o neoliberalismo ocidental quanto as políticas pós-comunistas por ele inspiradas deliberadamente subordinam o bem-estar e a justiça social à tirania do Produto Interno Bruto, sinônimo do máximo e deliberadamente desigual crescimento. Desta forma se sufoca, e em alguns países ex-comunistas se destrói, o sistema de segurança social, os valores e os objetivos do serviço público.

Em síntese, não existem bases para o “capitalismo com rosto humano” da Europa das décadas posteriores a 1945 nem tampouco para composições de sistemas pós-comunistas que sejam satisfatórias. O fato é que o propósito de uma economia não é o lucro mas, o bem-estar de todas as pessoas, assim como a legitimação do Estado é seu povo e não seu poder.

O crescimento econômico não é um fim, mas um meio para criar sociedades boas, humanas e justas. Não importa como denominamos os regimes com tais objetivos. O que importa é como e com quais prioridades combinaremos os elementos públicos e privados em nossas economias mistas. Esta é a questão política chave do século XXI.”

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Uma resposta to “Além da economia de mercado.”

  1. Maria madalena nazario Says:

    Amei matéria ,e grande importancia ,para meu curso acadeço ,atencisamete.


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