A natureza não pode ser precificada, avaliada, monetizada ou financializada.

“… Nós estamos testemunhando a morte tanto da teoria quanto da prática do capitalismo neoliberal. Esta é a doutrina que afirma que o mercado pode resolver quase todos os problemas sociais, econômicos e políticos.”

(Participe da pesquisa de opinião sobre este post, logo em seguida a ele.)

O Ministro do Meio Ambiente peruano encerra as negociações do COP-20 em Lima.

Externalidades – 4.

Encerro hoje a série sobre a internalização de externalidades com uma relação comentada de alguns artigos e notícias que ajudam a ampliar a compreensão de tema aparentemente complexo mas que na verdade é quase autoevidente, além, é claro, de ser aplicação essencial para a transição para uma Nova Economia.

Antes, retorno à pergunta feita no 1º post: Será que o recente acordo entre os EUA e a China definindo limites a serem alcançados até 2030 e diretrizes para a descarbonização atende aos objetivos de redução da desigualdade, preservação ambiental e bem estar?

Para responder, vou apoiar-me em trechos da transcrição de brilhante palestra de George Monbiot na Universidade de Sheffield, “The Pricing of Everything”, e publicada no site do Guardian em 24 de julho de 2014. Aliás, o ponto mais forte do artigo é lembrar-nos que a natureza não tem preço nem é passível de valoração e que, portanto, os mecanismos de internalização de externalidades devem ser usados sem tal intuito.

… Nós estamos testemunhando a morte tanto da teoria quanto da prática do capitalismo neoliberal. Esta é a doutrina que afirma que o mercado pode resolver quase todos os problemas sociais, econômicos e políticos.

Justamente neste momento … alguns ambientalistas tropeçam e dizem: ” é a resposta para salvar o mundo natural.” E inventam uma série de ideias, teorias e mecanismos para fazer o que temos sido incapazes de fazer por outros meios para proteger o mundo do espoliação e degradação.

Trata-se da precificação , avaliação, monetização e financialização da natureza em nome de salvá-la.

A natureza agora é chamada de capital natural. Processos ecológicos são chamados serviços ecossistêmicos. Isto porque, é claro, eles só existem para nos servir. Montanhas, florestas, rios são termos fora de moda. Eles agora são chamados de infraestrutura verde. Biodiversidade e habitats? Nós agora os chamamos de classes de ativos em um mercado ecossistemas.

Um primeiro problema é que os esforços para precificar o mundo natural são completa e absolutamente ridículos. Nós estamos lidando com valores que não são comensuráveis.

Um segundo problema é que se está efetivamente empurrando o mundo natural ainda mais para dentro do sistema que o está comendo vivo. … Vale lembrar o que disse o Presidente da Comissão da Capital Natural: “O meio ambiente é parte da economia e precisa ser devidamente integrado na mesma, de modo que as oportunidades de crescimento não sejam perdidas.” Ou seja, … Todas as coisas que têm sido tão prejudiciais para o planeta vivo estão sendo vendidas para nós como sua salvação: comoditização, crescimento econômico, financeirização e abstração.

O terceiro problema … é a velha questão do poder. Os governos não estão fazendo valer a vontade política na direção correta.

Mas o problema mais importante surge relacionado a valores e referências.

Não adianta tentar convencer pessoas que simplesmente não se importam com o mundo natural. Como poderemos convencê-los a mudar de ideia se eles não compartilham os mesmos valores? Para mim a resposta é simples: Nunca. Não é assim que a politica funciona.

Bem, o que fazer então? … A única coisa que funciona: Mobilização. É a única coisa que deu certo, a única coisa que pode funcionar.”

Ao ler-se a transcrição da palestra pode-se ficar com a impressão que toda e qualquer forma de internalização de custos significa aderir ao mesmo sistema de valores e referências dos que não se importam com o mundo natural. É claro que não. A taxa do carbono, a taxa Tobin e a taxa proposta por Piketty, ao contrário, provocam profundas modificações no “status quo”, o que é, aliás, parte da tese central deste blog.

Também, a proposta de mobilização é vaga e pressupõe que as pessoas devem se unir em torno de seus valores mais profundos e com isto provocar a reorientação dos governos, como se estes não fossem a simples expressão do poder dominante.

E é sempre bom lembrar que a humanidade pode destruir-se mas não levará junto a natureza que é sempre capaz de se refazer e reinventar.

Mas, o texto de Monbiot ajuda muito a responder à questão posta no início deste post. O fato é que o real sentido do acordo entre os EUA e a China, pressionados pela realidade e sem maior apreço pelo mundo natural, é fazerem o mínimo possível. Em outras palavras, estes e os demais países estarão sempre pelo menos um passo atrás em relação ao que é necessário.

Bem, termino com a relação comentada de artigos e notícias complementares e de interesse:

  1. José Eli da Veiga mostra as dificuldades dos acordos climáticos em artigo especialmente relevante após o resultado a que se chegou em Lima no último domingo (“COP20: consenso em Lima abre caminho para acordo global em 2015”). O acordo, entre 195 países, continua sem definir limites e uma forma clara de atingi-los. O artigo intitula-se “O tormento climático” e foi publicado no Valor Econômico.

  2. George Monbiot mostra que adaptar-se ao longo do tempo ou esperar que soluções inteligentes irão surgir são desejos impossíveis para resolver a crise climática, no artigo: “Loss Adjustment”.

  3. Artigo de Míriam Leitão comenta a posição do FMI contra os subsídios aos combustíveis fósseis em: “O FMI verde – Míriam Leitão: O Globo”.

  4. Deborah Gordon analisa os impactos do preço do petróleo na mudança climática. Veja em: “How Low Oil Price Will Impact Climate Change – Carnegie Endowment for International Peace”.

  5. Jon Rosales aborda de maneira original a questão da sustentabilidade em: “Steady Statesmanship Goes Global – Center for the Advancement of the Steady State Economy”.

  6. Michael Klare trata do uso de alternativas extremas de extração energética e a consequências também extremas em entrevista: “Extreme Energy, Extreme Implications – EconoMonitor”.

  7. Nigel Morris analisa a mudança relativa nos custos de energia considerando a energia solar, as externalidades e os subsídios, em: “Measuring the Subsidy Related Costs of Energy – The Energy Collective”.

  8. Jonathan Harris da UFC apresenta “4 Teoria das Externalidades Ambientais”.

  9. John Fullerton analisa o livro de Piketty e dize que este subestimou a contradição central do capitalismo, em “The Central Contradiction of Capitalism that Piketty Overlooked”.

  10. Duro aprendizado”, artigo de Ricardo Young mostrando que as Empresas não foram pensadas para o combate ao desperdício.

  11. A experiência de adoção da taxa de carbono na Africa do Sul em: “South Africa’s Carbon Tax: a Far-Sighted Move Towards a Greener World”.

  12. A experiência de adoção da taxa de carbono na Irlanda em: “In Ireland, Carbon Taxes Pay Off – NYTimes.com”.

  13. Allan J. Spessoto compara em: “The opposite poles of environmental accounts of Canada and the United States – Live Research Bulletin” os EUA e o Canada em termos de internalização de externalidades.

  14. Carolynn Look analisa a incorporação de impactos ambientais nas contas públicas europeias em: “Accounting for the Environment in Europe—Progress and Lessons – Live Research Bulletin”.

  15. Um exemplo das distorções apontadas por Monbiot: o trabalho acadêmico “Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) como Instrumento de Política de Desenvolvimento Sustentável dos Territórios Rurais: O Projeto Protetor Das Águas de Vera Cruz, RS” por Jorge Luiz Amaral de Moraes.

  16. Uma ampla análise do fraturamento hidráulico sob os prismas tecnológico, ambiental e da compensação das externalidades é feita por Ed Dolan no artigo: “Fracking and the Environment: An Economic Perspective – Econ Blog”.

  17. O célebre estudo de R.H. Coase sobre externalidades: “The Problem of social Cost”.

  18. Max Kummerow mostra, numa análise original, exemplos onde os preços excluem significativamente as externalidades que a atividade causa, em: “The Visible Hand: Manipulating Market Prices by Influencing Laws and Regulations – Center for the Advancement of the Steady State Economy”.

  19. Ed Dolan mostra como a aplicação da taxa do carbono pode ajudar a resolver o desperdício ocasionado pela queima de gás nas extrações de combustíveis fósseis em: “Too Much Flaring of Natural Gas? How a Carbon Tax could Help – Econ Blog ”.

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5 Respostas to “A natureza não pode ser precificada, avaliada, monetizada ou financializada.”

  1. Hugo Penteado Says:

    Nicholas Georgescu Roegen fez essa crítica (impossível precificar a natureza) no final dos anos 1960 e um monte de professores que o conheceram a ignoraram e ficaram, não sei como, adeptos da idéia do crescimento sem impacto na natureza, da precificação, da possibilidade de “limpar a energia”, da autoregulação comportamental e outras baboseiras que deixam ainda para trás a crítica que Roegen fez e que infelizmente ainda segue ignorada, para a tragédia de todos os comuns e precisamente os recém-chegados, os jovens e crianças e nós mesmos ou toda a humanidade, que pode ficar sem futuro algum se não mudarmos de verdade.

    Estamos colhendo as consequências e precisamos urgente mudar o sistema inteiro. O buraco da camada de Ozônio interferiu com apenas uma atividade, ao passo que a mudança climática e o fim da água atinge toda a economia, todos os setores, nada fica fora dessa vez, ou seja, é necessária a revogação do modelo inteiro. Está na hora de “intelectuais de salinha” pararem de criar adereços para o sistema atual, ficarem dentro da mesma teoria e fingindo para eles mesmos ou para os outros uma reformulação. Até agora não mudamos a rota em direção ao colapso, apesar de tanto blablablá as variáveis críticas continuam piorando perigosamente e ou reduzimos o consumo absoluto em 30-40% de matéria e energia para colocar nossas atividades dentro de um planeta e não dois, três, quatro, etc. ou iremos para um desencarne coletivo. Precisamos focar na sustentação e distribuição dos resultados desse novo modelo entre todos e não apenas para alguns, como é hoje. Por enquanto, todos seguem como adoradores do crescimento, dentro e fora da economia tradicional autista, todos seguem com os mesmos objetivos, qual seja, terminar como Roegen avisou quase 60 anos atrás: “Se a economia de crescimento do descarte imediato dos bens e do desperdício continuar, seremos capazes de entregar a Terra ainda banhada em sol apenas à vida bacteriana.”

    Quando vamos usar a evidência do fim da água de São Paulo como uma prova do erro fatal da teoria econômica tradicional e não aceitar mais as recomendações que são ventiladas por 100% dos aplicantes dessa teoria nos governos, nas empresas e no mundo afora que se resume apenas em crescimento do PIB?

    • Christopher Says:

      Boa tarde Hugo,
      É. Tudo indica que é dificílimo, quase impossível, mudar a rota deste Titanik.
      A mobilização, lembrada pelo Monbiot, pressão e confronto são única saída. Evidentemente não pode se dar por canais estabelecidos, dentre eles, partidos políticos.
      Um movimento capaz disto não está a vista em nenhuma parte do mundo, penso. Para tanto precisamos de um núcleo central, irradiador e que se expanda, objetivos claros e bandeiras de luta. E recursos, que me parece uma questão mais simples.
      Preservação ambiental, redução da desigualdade e bem estar são objetivos claros e simples. O problema, como sabemos, é que desestabilizam totalmente o sistema vigente e os interessados nele percebem isto claramente.
      A resistência, no entanto, não impede a luta, que parece-me deve se dar em torno de duas questões de interesse imediato e que minam o sistema: a redução da jornada de trabalho e a taxação do carbono e de outros impactos ambientais e sociais, sem que isto, signifique, de forma alguma, precificar a natureza.
      Enfim, o desafio é constituir tal grupo de ação e ter consenso quanto a objetivos e táticas. E agir.
      Christopher.

  2. luis Says:

    O texto toca superficialmente, se toca, no enfoque também predatório das marxistas ou afins.

  3. Christopher Says:

    Utilize preferencialmente a central de comentários, no menu principal.


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