Objeções a uma semana de trabalho de 21 horas.

Mais tempo livre permite ao ser humano ter uma vida mais plena dando vazão ao seu potencial criativo e atendendo aos seus e à sua comunidade.”

 

É claro que a reação à redução radical da jornada é enorme, certamente pela percepção dos que controlam e se beneficiam do sistema econômico vigente de que sua implementação força a mudança, desfavorável para eles, na direção de uma sociedade, como previu Keynes, com jornadas de 15 horas semanais e voltada para o bem estar.

Isto faz com que uma medida óbvia seja alvo de um sem número de objeções buscando impedi-la e com isto eliminar o risco de perdas. Mesmo sabendo disto e com a argumentação já apresentada nos posts anteriores, encerro esta série, rebatendo, a seguir, o que considero serem as 10 principais objeções.

 

  1. Colapso econômico, pois a atividade econômica está organizada da forma possível e não segundo idealizações.

    Antes de mais nada, é bom lembrar que a jornada de trabalho não é um produto da natureza e sim da civilização humana. Sua evolução desde o início da revolução industrial mostra que a resistência à redução tem mais a ver com ideologia e preservação de margens de lucro do que qualquer argumento “econômico”.

    No post E pensar que em 1930 a semana de trabalho era de 40 horas e que assim permanece –2” pode-se verificar que muitos países já tem reduzido sua jornada, com por exemplo a Alemanha que tem hoje uma jornada abaixo de 1.400 horas anuais, o que mostra que o alvo de 1.092 horas não implica em qualquer tipo de colapso econômico.

    Muito interessante também, como mostrado no mesmo post, é a pesquisa da nef mostrando que na Inglaterra ao longo das 24 horas e de todos os dias da semana, mulheres entre 16 e 59 anos e homens entre 16 e 64 anos, perfazem 19,6 horas por semana em trabalho remunerado e 30,9 horas por semana em trabalho não remunerado.

    Aliás, colapso é o que temos pela frente, ocorrência que inspira a ilustração deste post, se a humanidade não agir rapidamente em prol do equilíbrio ecológico, justiça social e bem estar.

  2. Não haverá redução significativa do desemprego além de incentivar, ainda mais, a inovação tecnológica e ao aumento de horas extras.

    Realmente, conforme mencionado no post “O que aconteceria se adotada a semana de 21 horas de trabalho no Brasil?” a redução da jornada é um incentivo a fazer mais em menos tempo eliminando o trabalho inútil e desnecessário e a acelerar a inovação tecnológica. O que são fatos mais do que desejados. O aumento das horas extras pode ser uma ocorrência inicial, mas é um recurso que não tem folego para se impor pelo aumento que leva aos custos de produção. Estas três ocorrências podem implicar no alongamento de um dos ganhos da redução, a saber, o da eliminação do desemprego, mas, é inevitável que ocorra.

    Curiosamente, as inovações e mudanças no ambiente tecnológico não levam em geral a um benefício imediato em termos de aumento de “produtividade”. Um ótimo exemplo é o da informática. Durante toda a década de 90, na maioria dos casos, não se observou de imediato um aumento da produtividade e consequente redução da necessidade de mão de obra, impondo-se, isto sim, por razões, principalmente, operacionais.

  3. Os empregados não aceitariam a redução de salários.

    A objeção pode até ser verdadeira, já que na mudança está implícita a mudança de padrões de consumo e de vida, mas, a reação tem horizonte curto já que a redução traz fortes benefícios para a imensa maioria da população. Trata-se apenas de administrar a transição, minimizando conflitos.

  4. O setor informal e o dos que trabalham por conta própria não estão sujeitos a regras o que torna a medida ineficaz para mais do que 60 % do mercado de trabalho.

    De forma alguma. O estabelecimento de um novo padrão de horas trabalhadas pelos empregados se irradia por todo o sistema produtivo. Executivos, profissionais liberais e mesmo o setor informal tendem a se alinhar ao padrão.

  5. Stress nos já precários transportes públicos pois, praticamente dobraria o seu uso.

    É claro que não. O que se pode antecipar é uma melhor distribuição de uso durante o dia. Haveria, durante o período de adaptação uma demanda maior por transportes públicos, o que o beneficia.

  6. Não pode ocorrer isoladamente em um único país, pela perda de competitividade que isto acarretaria.

    Poder, pode, já que muitos fatores contribuem para a competitividade, não só um menor custo de mão de obra. A Alemanha e a França, por exemplo, já praticam jornadas mais reduzidas sem perda de competitividade, ao contrário.

  7. O desemprego é relativamente pequeno fazendo com que se provocasse forte escassez de mão de obra qualificada.

    O desemprego medido não reflete o real potencial e desejo de trabalhar. Dentre outros, muitos deixam de procurar emprego e saem das estatísticas. A maior pressão por mão de obra pode ser dosada ao longo do tempo e representa um fato muito bem vem vindo já que reforça a necessidade do foco na qualificação.

  8. Não é necessário correr tantos riscos já que ocorrerá naturalmente a partir de regras flexíveis e desburocratizadas para o mercado de trabalho.

    Não é isto que se vê na maioria dos países. Neles a jornada permanece desde a década de 30 entre 44 e 40 horas semanais.

  9. Incentivo ao 2º trabalho, em alguns casos, e indolência e ócio, em outros.

    Bem estar nada tem a ver com indolência e ócio. Ao contrário, mais tempo livre permite ao ser humano ter uma vida mais plena dando vazão ao seu potencial criativo e atendendo aos seus e à sua comunidade. Já a pressão dos que procurarão um 2º trabalho é apenas transitória, diluindo-se à medida que os benefícios se tornem evidentes.

  10. A competição dos que trabalham em escritório (“supertrabalhadores”) leva-os a ignorar jornadas preestabelecidas e, boa parte dos que se aposentam desejariam ou manter a renda ou continuar ocupados.

    O ambiente criado pela valorização da vida inevitavelmente se estende aos supertrabalhadores que normalmente trabalham em escritórios levando-os a adotar, ao longo do tempo, outros e mais importantes objetivos. É, simplesmente, a imposição do trabalho não remunerado com fator preponderante da atividade produtiva. Sobre isto, vale a pena ler: Profissionais com status alto sofrem mais sequelas de estresse e Carioca não quer parar de trabalhar.

Anúncios

Uma resposta to “Objeções a uma semana de trabalho de 21 horas.”

  1. Christopher Says:

    Utilize preferencialmente a central de comentários, no menu principal.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: