O mercado, dizem os especialistas, é essencialmente um instrumento da democracia.

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“Ora, acontece que democracia e capitalismo não andam juntos. Basta lembrar como são geridas as unidades básicas do capitalismo, as suas empresas. O comando e as decisões são simplesmente ditatoriais. Nelas, não há o menor espaço para decisões democraticamente tomadas pelos interessados.”

Parte 3, final, sobre a mão invisível do mercado.

Só faltava esta.

Os especialistas, no caso, são os economistas Gustavo Franco e André Lara Resende, relata Merval Pereira no artigo já referido no último post. As funções do mercado que atingem tão nobre resultado seriam a de transmissor de informações e a de expressar a opinião pública.

Mais uma vez vemos a lógica indireta. O mercado livre produz democracia.

Vale a pena recorrer a trechos do artigo “Os rumos do capitalismo” do próprio André Lara Resende.

Do fim do século XIX até o último quarto do século XX, a crítica marxista foi intelectualmente predominante.
De forma esquemática, a crítica marxista ao capitalismo tem quatro vertentes, dentre elas:
3. A política, segundo a qual a democracia capitalista é uma impostura. A alienação cultural impediria os trabalhadores de compreender que não há interesses comuns, mas sim interesses de classes, que não podem ser reconciliados na democracia representativa capitalista.

E, mais adiante:

Ao longo do século XX, a crítica marxista, sempre como referência, foi sendo gradualmente enfraquecida.
A crítica política à democracia representativa capitalista foi desmoralizada pelo autoritarismo, pela violência oficial e pela falta de liberdades cívicas dos regimes comunistas. A começar pelo soviético, mas também pelo dos seus satélites no Leste Europeu, assim como em Cuba, na China e em toda parte onde o comunismo de inspiração marxista foi instaurado.

Observe o leitor que democracia é substituída por democracia representativa capitalista. E, mais uma vez, o confronto entre socialismo e capitalismo é o sinal para que se afirme as suas virtudes. Abre-se em consequência o espaço para associar a supremacia do mercado à afirmação da democracia.

Ora, acontece que democracia e capitalismo não andam juntos. Basta lembrar como são geridas as unidades básicas do capitalismo, as suas empresas. O comando e as decisões são simplesmente ditatoriais. Nelas, não há o menor espaço para decisões democraticamente tomadas pelos interessados.

Também, como tenho mencionado diversas vezes, o sistema representativo atual, pouco tem de democrático. Representantes e representados são desassociados pela pressão dos interesses econômicos dos que sustentam os primeiros.

E, quanto à alegação de que a transmissão de informações e a expressão da opinião pública instrumentam a democracia e são funções típicas do mercado livre, mesmo que fizessem sentido, e não fazem, serviria apenas para apequenar a noção de democracia à dimensão econômica de uma sociedade.

Finalmente, aproveito para expor trechos de uma outra parte do artigo, muito interessante, e que me parece, ironicamente, uma defesa candente de uma Nova Economia:

A crítica econômica (preconizada pelo marxismo) foi desacreditada pela receita de John Maynard Keynes, na “Teoria Geral da Renda e do Emprego”, de 1936. Formulada depois da Grande Crise dos anos 1930, foi refinada durante os anos 50 e 60, até culminar com a chamada “síntese macroeconômica” dos anos 80. A fórmula para evitar as grandes flutuações macroeconômicas das economias capitalistas havia sido encontrada. A receita era ter a dívida pública sob controle, uma política fiscal contracíclica, uma política monetária pautada por metas inflacionárias e a taxa de cambio flutuante. Nas últimas décadas do século XX, consolidou-se a impressão de que os ciclos macroeconômicos haviam sido finalmente eliminados. Uma nova era, “A Grande Moderação”, havia chegado, com a descoberta do remédio para a instabilidade crônica da economia capitalista.

O quadro mudou com a crise de 2008. A “Grande Moderação”, conquistada com a aplicação da “Síntese Macroeconômica”, revelou-se um equívoco.

Quatro anos depois do inicio da crise, ainda não há solução à vista. Não há nem mesmo consenso sobre como proceder. O debate, hoje, tanto na Europa quanto nos Estados Unidos, parece estar polarizado entre o imperativo contraditório de manter o endividamento público sob controle e relançar o crescimento, através do estímulo keynesiano de mais gastos públicos.

À primeira vista, crescer parece ser a solução. O crescimento reduz o valor relativo das dívidas. Sem crescimento, ao contrário, as dívidas nunca serão digeridas. A lógica sugere que não se deve tentar controlar a dívida pública enquanto a economia está estagnada, pois o resultado é uma política fiscal pró-cíclica, que pode levar à queda da renda e ao agravamento da relação entre a dívida pública e o produto.

Ocorre que a terapia keynesiana foi concebida para a economia que passou pela depressão e eliminou o excesso de dívidas, para a economia que está paralisada, mas pronta para reagir ao estímulo dos gastos governamentais.

A aplicação do remédio keynesiano é hoje questionável. A possibilidade de que estejamos próximos de duas restrições, que eram ainda distantes nos anos 1930, exige, efetivamente, repensar os rumos do capitalismo. A primeira é o limite do tolerável – no sentido de não vir a se tornar disfuncional – da participação do Estado na economia.

A segunda nova restrição é a proximidade dos limites físicos do planeta. É evidente que não será possível continuar indefinidamente com a série de ciclos de expansão do consumo material, alimentado pela turbina do crédito, até uma nova crise, que só se resolve com mais crescimento.

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Uma resposta to “O mercado, dizem os especialistas, é essencialmente um instrumento da democracia.”

  1. Christopher Says:

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