E pensar que em 1930 a semana de trabalho era de 40 horas e que assim permanece – 1

Originalmente publicado em 4 de junho de 2014.

(Participe da pesquisa de opinião sobre este post, logo em seguida a ele.)

“E a famosa previsão de Keynes feita em 1930 de que no início do século 21 a semana de trabalho teria sido cortada dramaticamente, para 15 horas?”

Movimento por 10 horas Diárias

Resultado do movimento por 10 horas Diárias

Parte 1.

Como mencionei no primeiro post da série, considero dois estudos suficientemente abrangentes para caracterizar a redução radical da jornada de trabalho. O principal deles está retratado numa publicação, traduzida para o português, da New Economics Foundation (nef) intitulada “21 horas. Porque uma semana de trabalho menor pode ajudar todos nós a prosperar no século XXI?”. E o outro, um artigo contendo resultados do grupo de trabalho inteiramente dedicado ao assunto, mantido pela nef, e que podem ser vistos em “Our Work: Work &Time”.

Aliás, tais estudos reforçam a principal tese deste blog, a da existência de uma economia dual à de mercado e resultado do trabalho livre e não remunerado. Dito de uma forma diferente e, talvez, menos precisa, dizem:

Apesar do enorme progresso social e tecnológico no século passado, a nossa atitude em relação à jornada de trabalho permanece fundamentada na revolução industrial, e não há reconhecimento real do valor do núcleo de nossa economia – a não remunerada. Rever o sistema “9 às 5” e promover a redistribuição de tempo pago e não pago, ajudaria a restaurar o equilíbrio, com benefícios para a nossa economia, a sociedade e o meio ambiente.

O que nos lembra que a jornada de trabalho não é um produto da natureza e sim da civilização humana. Sua evolução desde o início da revolução industrial mostra que a resistência à redução tem mais a ver com ideologia e preservação de margens de lucro do que qualquer argumento “econômico”. Relato um pouco desta historia, a seguir.

Com o “Movimento por 10 horas Diárias” que começou na década de 1830 na Inglaterra chegou-se à adoção, em 1847 (Factory Act), na indústria têxtil, da semana de trabalho de 58 horas por semana, para mulheres e menores de 18 anos. Um marco histórico. De lá até a última década do mesmo século a jornada de 10 horas foi estendida a todos os setores e trabalhadores, além de firmadas conquistas trabalhistas básicas, como a idade mínima de 11 anos para crianças trabalharem e a licença maternidade. Isto, é claro, sempre com muita luta. Não é a toa que comemoramos em todo o mundo, menos nos EUA, curiosamente, o dia do trabalho em 1º de maio, dia em que na década de 1880 ocorreu o massacre de trabalhadores em Chicago.

Veja bem, parece absurdo, mas é verdade, isto ocorreu no século 19 e não no século passado.

E a luta continuou até que por volta do início da 2ª guera mundial a semana de trabalho de 40 horas (5 dias por semana, 8 horas por dia) passou a ser a prática “normal” no mundo desenvolvido. No Brasil, nem isto, continuamos com uma jornada de 44 horas semanais. O incrível é que de lá para cá, nada, mesmo com a famosa previsão de Keynes feita em 1930 de que no início do século 21 a semana de trabalho teria sido cortada dramaticamente para 15 horas, isto baseado no aumento de produtividade que de fato ocorreu.

Na época, Keynes previu que 15 horas seria o suficiente para satisfazer nossas necessidades materiais e antecipou uma outra forma de uso do tempo do ser humano. Ocorreu que o resultado do aumento de produtividade não convergiu para os trabalhadores, o mercado se ampliou e se globalizou levando as pessoas a comprarem e consumirem mais e mais. E com isto, precisaram manter as longas horas de trabalho.

Parece-me óbvio, contudo que a explicação da “falha” na previsão é mais profunda. Jornadas de 15 horas alteram a própria essência do sistema econômico, voltando-o para, como disse Keynes na mesma previsão, uma sociedade de lazer ou voltada para o bem estar.

O que significa dizer, que a redução radical somente ocorrerá naquele contexto. E é, por isto mesmo, que a luta por uma jornada de 21 horas é parte essencial, junto com a internalização dos custos sociais e ambientais, da estratégia para se alcançar a mudança preconizada pela Nova Economia.

Mas, por que 21 horas, e não 20 ou 25 horas? Bem, o artigo continua na próxima semana começando pela explicação.

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Uma resposta to “E pensar que em 1930 a semana de trabalho era de 40 horas e que assim permanece – 1”

  1. Christopher Says:

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