O lucro é motivação subordinada aos objetivos sociais dos empreendimentos, e o 8º princípio.

O lucro nunca foi motivação exclusiva. Mas, agora, a ideia de que somente com a vazão do espírito “animalesco” do empresário é que se pode obter eficiência e “progresso”, desabou.”

Princípios macroeconômicos – parte 3.

Este post continua o detalhamento dos princípios de uma teoria macroeconômica de transição para a nova Economia relacionados anteriormente.

Antes, uma palavra sobre o termo teoria macroeconômica e o papel dos princípios na sua formulação. Para tanto vou recorrer a um trecho do estudo de Bresser Pereira “Os dois métodos da Teoria Econômica”:

A teoria clássica do desenvolvimento econômico, fundada por Smith e Ricardo, teve em Marx e em Schumpeter seus dois grandes continuadores. A teoria neoclássica representou uma contribuição fundamental para a teoria econômica quando Jevons, Menger, e Walras desenvolveram a abordagem marginalista, quando o último concebeu o modelo de equilíbrio geral, e quando Marshall deu certa praticidade à teoria microeconômica. Finalmente, a teoria macroeconômica fundada por Keynes e Kalecki, que afinal transformou a teoria econômica em um instrumento efetivo de política econômica, teve como principais continuadores Harrod, Hicks e Minsky.

Quando eu faço referência a três grandes escolas de economia – a clássica, a neoclássica, e a keynesiana – e vejo nelas três grandes contribuições, como posso ser coerente? Na medida em que essas três teorias apresentam conflitos importantes entre elas, não seria eu obrigado, por uma questão de rigor metodológico, de consistência lógica, a adotar apenas uma delas e rejeitar as demais? Embora estas sejam boas perguntas, a resposta a elas se torna relativamente simples se rejeitarmos, como eu rejeito, a existência de qualquer grande teoria abrangente para a economia ou, mais amplamente, para as ciências sociais. Podemos ter, e temos, três grandes teorias econômicas – as três acima citadas –, e algumas teorias menores, como, em diferentes cortes analíticos, a teoria do comércio internacional, ou a teoria evolucionária, ou a teoria da inflação inercial latino-americana. Essas teorias, embora não sejam coerentes entre si, explicam, de forma melhor do que as outras,determinados aspectos do sistema econômico. A escola neoclássica estuda melhor do que qualquer outra o equilíbrio de uma economia abstrata de mercado; a escola clássica é insuperável em analisar e mostrar os fatos estilizados do desenvolvimento do capitalismo; a escola keynesiana, é de longe aquela que melhor explica o funcionamento no curto prazo dos grandes agregados econômicos, e a que melhores instrumentos oferece para conduzir a política macroeconômica. Seria, portanto, pouco científico da minha parte rejeitar duas delas e ficar apenas com uma, apenas por uma questão de consistência abrangente. Contento-me com uma consistência menos abrangente.”

E ainda:

“O método histórico-dedutivo ou do fato histórico novo: A alternativa mais geral ao método neoclássico de partir do equilíbrio e dos mercados eficientes para analisar realidades econômicas complexas seria evidentemente a de abandonar esses pressupostos e procurar fazer uma análise mais realista. Nesse caso, porém, ainda não se poderia falar no uso de um método histórico-dedutivo ou do fato histórico novo. Para que isto realmente ocorra é necessário que o observador identifique os fatos históricos novos que mudaram a realidade anterior, que a teoria anterior explicava ou procurava explicar. Identificados esses fatos novos que tornaram necessário um novo modelo, o pesquisador busca empiricamente as novas regularidades que devem ter surgido, indaga-se sobre as motivações racionais dos novos comportamentos, e então estará em condições de construir a nova teoria e de testá-la.”

A minha visão é de que a importância do trabalho não remunerado e livre e a economia dual que dele decorre são um fato histórico novo, conforme definição acima, que demanda uma nova teoria, por elaborar. E, ao propor princípios, tenho em mente não nortear uma nova teoria econômica mas, sim, chamar a atenção para alguns aspectos decisivos para uma teoria de transição para uma Nova Economia, também por fazer, e que será o que acima é chamada de teoria menor, por estar alinhada a uma estrutura teórica existente.

Vamos então ao detalhamento do 7º e 8º princípios:

7. O lucro é motivação importante da economia de mercado mas, subordinado aos objetivos sociais dos empreendimentos.

O lucro nunca foi motivação exclusiva, apesar de sermos expostos à exaustão ao argumento de que somente com a vazão do espírito “animalesco” do empresário é que se pode obter eficiência e “progresso” e que tal desejo só é atendido pela expectativa e realização de lucro. A prova de tal argumento, segundo os que o defendem, é a ineficiência do setor estatal, como se este não fosse mais um braço a seu serviço.

Interessante nesta história é que o que não dá lucro mas é necessário ao funcionamento do sistema não entra no rol da ineficiência. Educação e saúde de massa, segurança, ciência e tecnologia, e por ai vai, são criticados apenas na medida em que a crítica abre ou mantém as oportunidades para planos de saúde, escolas particulares, segurança privada, etc.

É claro, como já foi exposto neste blog diversas vezes, que existem outras motivações, além do lucro, que levam o ser humano a desenvolver atividades produtivas, até mesmo “empresários”. O atendimento de necessidades de sua família, o desejo de ser produtivo e útil ao próximo e dar vazão a sua criatividade são, talvez, os mais importantes.

E que mesmo as empresas, principalmente as de grande e médio porte, estão sendo levadas a a se adaptar a um novo modelo corporativo de gestão onde a transparência, os interesses dos principais envolvidos – acionistas, empregados e comunidades onde atuam – e não apenas os dos controladores e executivos, a necessidade de se mostrarem agindo em favor da sustentabilidade e o cuidado para não criar novos prejuízos sociais, estão se impondo. Dois artigos de Ricardo Abramovay: “A apropriação da sustentabilidade pelas grandes marcas globais”“Participação da sociedade civil no mercado contemporâneo”, ilustram muito bem tal ocorrência.

Neste ponto, vale a pena separar os empreendimentos nascentes das organizações já consolidadas. Para estas, já não há nem espaço para se falar em espírito animalesco, a menos que seja a disputa entre executivos pelo poder. Nas nascentes, pode até haver, mas junto com um conjunto de outros fatores que levam alguém a criar, lançar e gerir um empreendimento. Dar vazão à sua criatividade, poder decidir sobre o seu próprio trabalho, ser reconhecido são alguns bons exemplos de desejos além do lucro.

O fato é que há muito desabou a alegação da necessidade de dar vazão ao pior do ser humano para que as organizações prosperem.

8. O retorno financeiro tem importância secundária nas decisões de investimentos tanto privados quanto públicos.

As decisões de investimentos estão cada vez mais complexas, tanto públicas quanto privadas. Aliás, via de regra as duas estão intimamente interligadas. Evidentemente que se está tratando de empreendimentos intensivos em capital.

Mesmo o setor privado já relativiza a prioridade do retorno financeiro levando em conta sua análise estratégica e imposições de suas nações de origem. Risco político, imagem e “segurança nacional” são alguns exemplos de restrições ao ganho “máximo”.

É claro que tentam contornar tais restrições utilizando basicamente um mecanismo para preservar seus lucros e que é o de atuar em segmentos que possam ser oligopolizados ou que já o sejam. Isto vale tanto para empresas locais quanto multinacionais. No Brasil, o setor de comunicações, publicidade, distribuição de remédios e construção são bons exemplos. Internacionalmente, a fabricação de remédios, armamentos, automóveis e finanças são bons exemplos, também.

Mas, mesmo assim, as empresas, pelas razões apresentadas no item anterior, são, mais e mais, induzidas a, pelo menos, dar importância a objetivos significativos para a sociedade.

O detalhamento dos 2 últimos princípios será apresentado em post a ser publicado no dia 16 de outubro.

Termino sugerindo que você participe da “pesquisa” relacionada ao tema, no post que se segue, e que utilize preferencialmente a “central de comentários” para as suas críticas, sugestões e observações.

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Uma resposta to “O lucro é motivação subordinada aos objetivos sociais dos empreendimentos, e o 8º princípio.”

  1. Christopher Says:

    Utilize preferencialmente a central de comentários, no menu principal.


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