A existência de uma economia dual. Respostas ao espanto, dúvida e reação.

“… se os benefícios da inovação e do aumento de produtividade convergirem para as pessoas, estas terão que exercer cada vez menos trabalho remunerado.”

Questionamentos.

A afirmação da existência, hoje, de um outro sistema produtivo e, ainda por cima, em expansão, causa espanto, dúvida e reação. Para ajudar a supera-los, relaciono a seguir os que me parece serem os principais questionamentos:

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  • Existe trabalho doado e será que é mesmo tão expressivo quanto o remunerado?

Quatro posts sobre o assunto mostram que sim: Trabalho não remunerado – 1, Trabalho não remunerado – 2, O setor sem fins lucrativosTrabalho doado no Brasil. Em especial, vale lembrar a importância crescente do voluntariado e da criação digital gratuita.

  • Será que falar em trabalho não remunerado significa englobar nele todas as atividades humanas?

Não. Trata-se apenas de reconhecer dentre as atividades humanas aquelas que se destinam a gerar um bem ou serviço. A vida é muito mais do que isto, obviamente. A convivência, o lazer, o descanso, o cuidado pessoal, viver enfim, estão bem além do mundo produtivo. É sempre bom lembrar, contudo, dos que precisam de 4 a 5 horas para se transportarem ao trabalho e lá passam pelo menos 10 horas por dia, e tudo isto para receberem apenas o necessário para a sobrevivência dos seus.

  • Mesmo existindo trabalho doado, faz sentido imaginar uma economia dual à de mercado?

Não se trata, propriamente, de fazer sentido ou não. O fato é que existe e é expressiva. Seu reconhecimento facilita e orienta as inevitáveis mudanças econômicas e sociais.

  • A economia dual se opõe e se pretende que substitua a economia de mercado?

Em nenhum momento, se antevê que a economia dual substitua inteiramente a economia de mercado. Trata-se, sim, de uma outra atividade produtiva que ganha força e é complementar à de mercado. É um outro sistema que convive e forma o todo da atividade produtiva. O que ocorre é que cada vez menos horas de trabalho são necessárias para a produção de bens e serviços a serem adquiridos fazendo com que a economia de mercado perca importância, gradualmente.

  • A chamada “gift economy” se confunde com a economia dual?

Não. A característica principal da “gift economy(em português, me informou um leitor, é denominada “economia do dom”) é a de idealizar e propor um novo tipo de sociedade baseada na doação de bens e serviços entre seus membros. Ou seja, propõe que através do convencimento as pessoas evoluam para esta forma superior de convívio e felicidade humana. A economia dual, nada mais é do que o reconhecimento da existência do trabalho não remunerado e de suas consequências. Uma, é um ideal. A outra, um fato.

  • Como é apropriado o resultado do trabalho doado?

Depende do tipo. Os serviços domésticos, por exemplo, são utilizados pela família. A criação digital, por quem o desejar. O trabalho voluntário tem sua apropriação intermediada e definida pela organização para a qual o trabalho é realizado. E assim por diante.

  • A que mundo pertencem as cooperativas, associações e a economia solidária?

Via de regra, ao da economia de mercado. A despeito de terem um enfase menor no lucro são formas de organização do trabalho remunerado e que produzem bens e serviços com valor de troca. Erradamente, ao meu ver, destacados pensadores da Nova Economia acreditam que estimular estas formas de produção seja o caminho para alcançar os seus objetivos.

  • Como são tratados os bens comunitários nos dois mundos?

Os bens comunitários se referem aos recursos culturais e naturais acessíveis à todos os membros da sociedade, incluindo bens como o ar, a água e a natureza em geral. Incluem também todo o acervo criado pela nossa civilização, iniciada a cerca de 10.000 anos. Tais bens pertencem à coletividade. Acredito que a grande diferença é a de, num caso, não existir a apropriação privada de bens coletivos, sejam da natureza, sejam os criados pelo homem. Um bom exemplo é o do conhecimento. Quem o adquire não pode deixar de reconhecer que boa parte dos bens e serviços que presta tem embutido esta característica, que pertence à coletividade.

  • E a propriedade privada, como fica?

Não há alteração no conceito, mesmo porque a economia de mercado permanece como parte do todo produtivo. O que é previsível é que a noção e valor de bens possuídos privadamente venha a se tornar menos importante ao longo do tempo.

  • A economia dual pode operar sem capital?

Normalmente não, mas como descrito no post anterior esta conta com formas de dispor de capital para as atividades produtivas que o necessitem.

  • Quem controla o trabalho doado e o seu resultado?

Depende. Se exercido isoladamente, como o trabalho de uma mãe, por exemplo, a própria pessoa. Se exercido em uma organização, a organização.

  • Qual a produtividade da trabalho doado?

Não há razão para supor que o trabalho doado seja exercido de forma indolente ou sem o uso da tecnologia e recursos adequados.

  • Como sobrevive quem participa da economia dual?

Como mencionado no post anterior, em geral, cada um de nós precisa exercer o trabalho remunerado para poder adquirir os bens e serviços necessários à sua sobrevivência e dos seus. Mas, se os benefícios da inovação e do aumento de produtividade convergirem para as pessoas, estas terão que exercer cada vez menos trabalho remunerado.

  • A proposta de uma Nova Economia se confunde com a noção de economia dual?

Não. Primeiro vou me referir ao que penso ser uma simples, concisa e adequada definição de economia fornecida pelo dicionário “Webster”: é uma ciência social que trata da produção, distribuição e consumo de bens e serviços. Ou seja, a economia abrange o conjunto de atividades produtivas do ser humano, sejam elas destinadas ou não à troca, venda ou uso remunerado. Estas últimas seriam mais bem caracterizadas, consequentemente, como sendo parte do sistema econômico de mercado.

Daí deduz-se que o sistema econômico é parte de uma intrincada rede de relações da vida social. Nela influi e por ela é influenciado. Uma parte dele, o sistema econômico de mercado, abrange uma parcela do esforço produtivo e responde por apenas uma parte do conjunto de inter-relações da vida social moderna.

A Nova Economia pretende ser uma proposta para a vida social como um todo, buscando reforçar as atividades relacionadas ao trabalho doado e limitar as de mercado, neste caso valorizando as formas de trabalho mais próximas do trabalho cooperativo e solidário. E, buscando dar resposta às restrições ambientais, às necessidades sociais e ao desejo de de bem estar.

Termino sugerindo que você participe da pesquisa relacionada ao tema, no post que se segue, e que utilize preferencialmente a central de comentários para as suas críticas, sugestões e observações.

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Uma resposta to “A existência de uma economia dual. Respostas ao espanto, dúvida e reação.”

  1. Christopher Says:

    Utilize preferencialmente a central de comentários, no menu principal.


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