A economia dual. Um outro mundo já existe e se expande – parte 2.

A sociedade civil, apoiada na força da expansão da economia dual, vai, ao longo do tempo, pressionando e criando os mecanismos para que se reformulem ou sejam substituídas as instituições de todos os tipos, governamentais ou não, deixando estas de ser o que são hoje, em sua maioria, instrumentos do sistema econômico de mercado.”

A economia dual – Parte 2.

Como vimos, o trabalho doado assume, hoje, uma dimensão equivalente ao remunerado e com uma tendência de forte expansão relativa. Isto faz com que a economia dual, que dele deriva, tenda a ser a força principal na orientação das relações econômicas e sociais.

Convém, neste ponto, detalhar um pouco mais uma das figuras apresentadas na parte 1, agora incluindo os principais fatores envolvidos em cada tipo de economia e os tipos de bens e serviços que cada uma gera, o que é mostrado na figura 1 abaixo, complementada por explicações apresentadas logo a seguir.

Retrato atual

Figura 1 – Retrato atual

Como dito em post anterior, quem exerce o trabalho remunerado precisa também, em sua maioria, exercer o trabalho doado por razões pessoais e sociais. E, quem faz trabalho doado precisa também buscar remuneração para sua sobrevivência, no nível que lhe seja possível e desejado, apesar de, como visto no exemplo brasileiro, cerca de 30% de sua população já desenvolve ou tem potencial para o trabalho doado e não exerce trabalho remunerado.

Ou seja, uma mesma pessoa poderá exercer, em geral, os dois tipos. Num caso, a pessoa é forçada a exercer a atividade. No outro, não. Não há nenhuma razão pela qual alguém trabalhe numa fabrica de calçados, por exemplo, se não for pela remuneração. Ou, numa fazenda. Ou, num banco.

O capital e os insumos da economia dual podem vir da própria ou transferidos da economia de mercado via doação, taxação e impostos. A filantropia é um exemplo clássico. Mais recentemente, as políticas de transferência de renda, afirmaram-se como outro exemplo importante.

Os bens e serviços da economia de mercado são valorados e podem ser gerados pelos dois tipos de trabalho, mas, principalmente pelo 1º. Já os bens e serviços da economia dual não são objeto de troca, podem ser gerados pelos dois tipos de trabalho, mas o são principalmente pelo 2º.

Portanto, a produção de bens e serviços valorados define a economia de mercado. Já a produção de bens e serviços não destinados à troca caracterizam a economia dual à de mercado. A interseção entre elas contém bens e serviços que utilizam, ao mesmo tempo, trabalho remunerado e doado. Conforme visto anteriormente, alguns bens e serviços que envolvem o voluntariado são os exemplos mais marcantes, como as olimpíadas e o uso comercial do espaço aberto pelos que disponibilizam sua criação pela internet.

A forma de transferência de bens e serviços na economia de mercado é pela aquisição para consumo, investimento ou estoque. Já a da economia dual, pela apropriação orientada pela necessidade. E é aqui que se revela a radical diferença e conflito entre as duas.

Mesmo atendendo igualmente aos setores agropecuário, industrial e de serviços, os tipos de bens e serviços de uma e outra economia tendem a ser, neste momento, marcadamente distintos. Os primeiros, intensivos em capital, produzidos em massa e ofertados através do mercado. Neste caso as pessoas precisam trabalhar para obterem a remuneração que lhe seja possível e com ela comprarem os bens e serviços para sua sobrevivência. Já a economia dual, gera bens e serviços originados da produção e atendimento familiar, das ONGs e associações, dos movimentos sociais, da criação livre e inúmeras outras.

Existem, é claro, bens e serviços que podem ser ao mesmo tempo dos dois tipos, por exemplo, serviços domésticos, a construção civil e a produção agropecuária. E, é de se esperar que isto se acentue com o decorrer do tempo.

É interessante lembrar que a inovação tecnológica e o aumento de produtividade tendem a causar a redução progressiva da jornada de trabalho remunerado. Já os impactos sociais e ambientais negativos da atividade produtiva para o mercado tendem a a reorientar e nivelar os perfis de consumo. Felizmente, ao mesmo tempo, prevê-se, devido às mesmas razões e outras, a estabilização da população mundial ainda neste século, o que pode evitar uma crise sem precedentes no atendimento, mesmo limitado, das necessidades materiais dos seres humanos. Enfim, sendo ou não otimista, aumenta o tempo livre, e com isto fica cada vez mais viável ao indivíduo poder atender suas necessidades e desejos, dentre eles, o de ser útil ao próximo. Ou seja, buscar seu bem estar.

Por fim, cabe entender que não se pode visualizar o impacto da economia dual com os olhos de quem está acostumado com as instituições que se moldaram à luz da de mercado. As instituições requeridas por uma e outra são, via de regra, radicalmente distintas, forçando sua mudança.

Tal mudança vem da mobilização da sociedade civil que, apoiada na força da expansão da economia dual e com muita luta, é verdade, para superar o estabelecido, vai, ao longo do tempo, pressionando e criando os mecanismos para que se reformulem ou sejam substituídas as mencionadas instituições.

Tratam-se de instituições de todos os tipos, governamentais ou não, de todos o níveis, multinacionais, nacionais, estaduais, municipais e locais, e de todas as funções, executivas, legislativas, judiciárias e associativas.

Aos poucos, em alguns casos, e abruptamente, em outros, tais instituições perdem a função de preservação do atual sistema econômico passando a ser agentes ativos da redução da desigualdade, preservação do meio ambiente e promoção do bem estar, florescendo juntamente com novas práticas verdadeiramente democráticas e essenciais para o exercício da cidadania pela sociedade civil.

Termino sugerindo que você participe da pesquisa relacionada ao tema, no post que se segue, e que utilize preferencialmente a central de comentários para as suas críticas, sugestões e observações.

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Uma resposta to “A economia dual. Um outro mundo já existe e se expande – parte 2.”

  1. Christopher Says:

    Utilize preferencialmente a central de comentários, no menu principal.


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