O trabalho não remunerado. Os muitos e importantes bens e serviços que dele dependem – parte 2.

Somente bem mais recentemente, com o modo de produção capitalista, é que o trabalho remunerado se impôs como relação dominante na produção dos bens e serviços seja para consumo seja para investimento.”

Trabalho não remunerado – Parte 2.

Soa como uma contradição, tal a crença que se formou que trabalho e remuneração andam juntos.

Mas não. Basta relembrar que outros tipos além do remunerado ocorreram com maior ou menor intensidade ao longo da história, dentre eles o trabalhos isolado, cooperativo, coletivo, não remunerado, escravo e feudal. Uma ou mais destas formas de trabalho e de sua apropriação parcial ou total por terceiros foram dominantes em cada época. Algumas, se mantém até hoje.

Inicialmente o trabalho humano era uma atividade rudimentar e esporádica destinada a atender as necessidades básicas dos seres humanos. Mas, este foi se modificando, especialmente com o início da vida em sociedade, que remonta há cerca de dez mil anos, para formas cada vez mais exigentes em termos de dedicação, conhecimento e organização.

É com base naqueles vários tipos de trabalho que o ser humano, além de atender as suas necessidades do dia a dia, que foram se sofisticando, construiu, ao longo de centenas de gerações um incrível acervo de conhecimento, cultura e bens materiais em todas as áreas.

Somente bem mais recentemente, com o modo de produção capitalista, é que o trabalho remunerado se impôs como relação dominante na produção dos bens e serviços seja para consumo seja para investimento.

O foco no desenvolvimento da economia de mercado que se justificou durante os estágios de consolidação do sistema obscureceu uma outra parcela do trabalho humano, principalmente o não remunerado, realizado fora dos contornos do mercado. Isto, além de atender aos interesses dominantes, simplificou o entendimento do sistema econômico global e de sua inter-relação com os demais aspectos da vida contemporânea.

Chega a surpreender, ao se detalhar e exemplificar o trabalho doado, como foi possível ignorar uma atividade tão importante. Mas, foi.

Os tipos de trabalho livre não remunerado mais importantes são o voluntário, a criação digital, o doméstico, o de auto-subsistência, o do investimento pessoal, a criação artística, cultural ou científica, as atividades sociais e as atividades amadorísticas. Vamos à uma rápida menção a cada um deles.

  • A atividade voluntária será vista em post específico sobre o setor sem fins lucrativos, já que é essencial ao setor é é nele que ocorre, principalmente. Só a título de exemplo, a Anistia Internacional é um movimento global com mais de 3 milhões de apoiadores, membros e ativistas, em sua grande maioria atuando voluntariamente e visando proteger os direitos humanos.

  • A criação digital, fenômeno relativamente recente, ganhou incrível força com a internet e a possibilidade que trouxe a milhões de pessoas em todo o mundo de escreverem, através de blogs e sítios próprios, para centenas ou milhares de outras, subvertendo totalmente a forma com a difusão da informação se dava até então. Ah, isto sem falar no software livre. Este blog, por exemplo, apoia-se no Ubuntu (Linux), no LibreOffice, no Mozilla Firefox e no Ubuntu One (nuvem), todos livres e que acho bem melhores que os equivalentes disponíveis no mercado.

  • O mais importante deles, a meu ver, é o trabalho doméstico, em especial o das mães, que se entregam na criação e educação de seus filhos. Bilhões de mães em todo mundo dão o exemplo, dia a dia.

  • A auto-subsistência ocorre em grande escala em países onde parte da população está fora dos contornos de mercado, e curiosamente, é uma possibilidade, parcial, imaginada para um mundo pós mercado.

  • E as bilhões de pessoas que investem em si mesmos estudando e se aprimorando?

  • Ao contrário do que se diz, as criações artística, cultural e científica são essencialmente uma atividade de doação em que os autores procuram, antes de tudo, produzirem e com isto, se realizarem.

  • Os movimentos sociais e todas as outras atividades de cunho associativo, formais ou informais, são também de grande expressão e marcadamente levados a frente pela doação e abnegação dos envolvidos.

  • Os clubes são um bom exemplo de atividade amadorística onde muitos se dedicam a garantir as atividades fins em geral esportivas ou recreativas.

Incrível, não?

Finalmente cabe mencionar que quem faz trabalho remunerado preciso também, em sua maioria, exercer o trabalho doado por razões pessoais e sociais. E, quem faz trabalho doado precisa também buscar remuneração para sua sobrevivência, no nível que lhe seja possível e desejado.

Ou seja, uma mesma pessoa exercerá, em geral, os dois tipos. O que em nada prejudica a ideia de uma economia dual à de mercado.

Termino sugerindo que você participe da pesquisa relacionada ao tema, no post que se segue, e que utilize preferencialmente a central de comentários para as suas críticas, sugestões e observações.

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Uma resposta to “O trabalho não remunerado. Os muitos e importantes bens e serviços que dele dependem – parte 2.”

  1. Christopher Says:

    Utilize preferencialmente a central de comentários, no menu principal.


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