O trabalho não remunerado. Os muitos e importantes bens e serviços que dele dependem – parte 1.

Apesar das evidências, pode-se imaginar um certo irrealismo ao crer que seja possível existir trabalho não remunerado, tal o peso da crença que se cristalizou de que o que motiva o ser humano é o ganho material e o que o obriga a trabalhar é a necessidade de sobrevivência.”

Trabalho não remunerado – Parte 1.

As dúvidas que enumerei no último post serão respondidas ao longo dos próximos posts e também em post específico ao final daqueles, consolidando as respostas.

Bem, como dito no penúltimo post, o trabalho doado ou não remunerado por decisão própria é a base da economia dual à de mercado e está em expansão ao contrário do trabalho remunerado que declina.

O trabalho não remunerado sempre existiu, e de forma expressiva. A produção de bens e serviços para o consumo familiar, o serviço doméstico, o estudo, treinamento e aprimoramento formais e informais, uma parte substancial da criação artística e científica, a atividade altruísta e a participação quando não remunerada e compulsória em guerras, conquistas, lutas sociais e de reconstrução após catástrofes e guerras são historicamente os exemplos mais interessantes. É a sua presença que, em boa parte, explica o surgimento e o progresso das civilizações.

Mais recentemente, a ação voluntária e a produção de informação digital destacaram-se e tornaram ainda maior e crescente a importância do trabalho não remunerado.

São três as principais razões para tal expansão do trabalho não remunerado. Em primeiro lugar, o trabalho remunerado tem sido profundamente afetado pela inovação tecnológica e pela globalização tornando inevitável uma maior disponibilidade do ser humano para o lazer e para o trabalho não remunerado.

Uma segunda razão é que a sociedade civil está cada vez mais capacitada para o estimulo e uso efetivo do trabalho voluntário principalmente através de organizações presentes em praticamente todos os setores da vida humana. A construção de moradias em mutirão, a assistência social e a defesa do meio ambiente são alguns exemplos desta atuação.

A ação voluntária através de ONGs, associações, mutirões, partidos e outras organizações vem se expandindo rápida e consistentemente. A ação destas e outras organizações sem fins lucrativos assumiram uma dimensão tão importante a ponto de existirem muitas tentativas, expressivas mas conceitualmente erradas, de adaptar o modelo da economia de mercado acrescentando-se ao setor privado e governamental, um terceiro setor.

A outra razão é que a disseminação ampla e global da informação em meio digital graças à Internet abriu um novo e enorme espaço para a expressão da criatividade humana fazendo com que uma parcela significativa e crescente da informação digital disponível seja resultado de trabalho não remunerado.

Hoje, ao contrário da mídia tradicional, milhões de pessoas criam obras que serão vistas através da Internet por, em geral, centenas ou milhares de outras. Sítios próprios, blogs, fóruns, comunidades e grupos de discussão tem sido a principal forma encontrada para a divulgação do trabalho de criação individual ou em grupo.

Mesmo tão expressivo, o trabalho não remunerado, em todas as suas facetas, não é contabilizado e analisado no âmbito do sistema econômico de mercado. E não precisa nem dever ser, mesmo no caso do exercido dentro dos limites do que a ONU denomina “setor sem fins lucrativos”. Como se verá, a economia dual à de mercado deve ser vista com olhos de quem percebe o outro lado da moeda e medida com foco no trabalho doado.

Apesar das evidências, pode-se imaginar um certo irrealismo ao crer que seja possível existir trabalho não remunerado, tal o peso da crença que se cristalizou de que o que motiva o ser humano é o ganho material e o que o obriga a trabalhar é a necessidade de sobrevivência.

No entanto, a existência de trabalho não remunerado pode ser explicada pelo fato do ser humano precisar atender necessidades pessoais e as dos que lhe são próximos, desejar ser produtivo e querer ser útil ao semelhante e com ele interagir em ONGs, associações, mutirões, partidos, e outras organizações, além é claro da criação cultural, apoio familiar e tantas outras atividades não reconhecidas pela economia tradicional.

Imaginar, ao contrário, que o que o ser humano necessita e deseja quando não está realizando um trabalho obrigatório e remunerado é exercer uma atividade contemplativa ou de lazer é que não encontra respaldo no dia a dia das pessoas.

Sobre isto, cabe lembrar a conhecida e alardeada argumentação de Domenico Di Masi em “O ócio criativo”, que, ao contrário do que o título possa dar a entender, não afirma nem concluí que ócio seja só o que as pessoas desejem e exerçam quando não estão dedicadas ao trabalho remunerado.

De fato, o que Masi apresenta é a ideia de que trabalho, jogo, e estudo se deem concomitantemente, pois isto permite o florescimento da criatividade necessária para que o ser humano exerça melhor as atividades do mundo contemporâneo cada vez mais abstratas. Tal formulação, muito interessante, vale para os dois mundos, o do trabalho remunerado e o do doado.

O assunto continua nos próximos posts com o detalhamento do trabalho doado e do chamado setor sem fins lucrativos, a estimativa do trabalho doado no Brasil de hoje, a resposta às principais dúvidas que se possa ter sobre a economia dual e com a análise de consequência do reconhecimento de uma economia dual maior que a de mercado e em expansão.

Termino sugerindo que você participe da pesquisa relacionada ao tema, no post que se segue, e que utilize preferencialmente a central de comentários para as suas críticas, sugestões e observações.

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3 Respostas to “O trabalho não remunerado. Os muitos e importantes bens e serviços que dele dependem – parte 1.”

  1. Mah Says:

    Apagamento das protagonistas que historicamente realizam o trabalho invisível da reprodução, o trabalho doméstico e de cuidados não remunerado e imprescindível, uma leitura sobre a economia feminista pode ajudar.

  2. Christopher Says:

    Utilize preferencialmente a central de comentários, no menu principal.


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