A divulgação de documentos militares americanos pelo WikiLeaks foi decisiva para a eclosão da “primavera árabe”.

….Lembro da “audácia da esperança”.… Quem pode negar que o presidente dos EUA seja mesmo muito audacioso?! Não é muita audácia dizer, na 3ª-feira (após sua releição), que “os EUA apoiaram as forças da mudança” na Primavera Árabe”? Julian Assange.

Julian Assange Award, foto de Stefan Wermuth, Reuters. 2011.

Premio da Fundação pela Paz sediada em Sydney, Austrália.

A perseguição a Assange.

5 de abril de 2010: É divulgado o vídeo Collateral Murder mostrando disparos de um helicóptero de guerra americano contra civis iraquianos. Os soldados confundem uma câmera fotográfica com uma arma e atiram. E depois destroem uma camionete de transporte de crianças.

25 de julho de 2010: (Afghanistan War Logs) cerca de 92 mil documentos militares americanos sobre a guerra no Afeganistão são revelados. Eles relatam o crescimento da insurgência Taleban, o desapontamento dos civis com seu governo e a queixa de falta de recursos para empreender a guerra.

22 de outubro de 2010: (Iraq War Logs) cerca de 400 mil documentos militares americanos são revelados e mostram que 63% das mais de 109 mil mortes é de civis, casos de abusos e descontrole de seus soldados, que o exército americano ocultou casos de tortura dentro das prisões iraquianas e que haviam equipes encarregadas de perpetrar torturas e assassinatos.

28 de novembro de 2010: (Cablegate) cerca de 250 mil documentos da diplomacia americana são revelados. Eles contém informações sobre a atuação ilegal do país em todo o mundo desde fins da década de 60. A investigação de membros da ONU e segredos do programa nuclear do Irã vêm à tona.

 As revelações são feitas ao mesmo tempo pelos jornais The Guardian e The New York Times e pela revista Der Spiegel. A partir de julho, os jornais El País e Le Monde passam a compor o grupo. O responsável por fornecer aos veículos as informações é o site WikiLeaks (veja o infográfico do Estadão: “A pedra no sapato dos governos”) através de seu fundador, Julian Assange, que coordena toda a operação de divulgação.

A reação do governo americano é a de repúdio à divulgação de informações confidencias. Não entram no mérito nem se preocupam em explicar as ocorrências. Tampouco tomam providências para evitar a repetição do ocorrido.

6 de julho de 2010: O soldado Bradley Manning de 22 anos, analista de inteligência do exército americano sediado em Bagdá, é acusado de ser a fonte do vídeo em função de uma informação privilegiada obtida por um jornalista americano. Posteriormente, é acusado de ser a fonte das demais informações. O WikiLeaks recusa-se a identificar suas fontes e o soldado nega que seja ele. Bradley esteve preso em Bagdá, depois no Kuwait e transferido para a prisão de segurança máxima em Quantico no estado da Virgínia, onde ficou por 9 meses sem julgamento, quando o prazo máximo para prisão sem julgamento, pela lei militar dos EUA, é de 120 dias, em cela solitária e submetido a violência grave. O Relator Especial da ONU para Torturas, Juan Mendez, investigou e formalmente acusou de responsabilidade os EUA. Ele continua preso, agora em Fort Leavenworth, sem julgamento.
Nas palavas de Assange: “Bradley “foi degradado, agredido, psicologicamente torturado pelo próprio governo de seu país. Foi acusado de crime para o qual a lei prevê a pena de morte. …tudo que o governo dos EUA fez contra Bradley Manning visou, sempre, a conseguir obrigá-lo a testemunhar em processo contra WikiLeaks e contra mim”.

7 de dezembro de 2010: O Bank of America, VISA, MasterCard, PayPal e Western Union iniciam o bloqueio financeiro do WikiLeaks impedindo o acesso a cerca de 97% das doações ao site.

21 de agosto de 2010: A Justiça da Suécia expede dois mandados de prisão contra Assange, um deles por estupro e o outro, por agressão sexual. Assange estava então na Suécia para uma série de palestras. A mulher no centro da alegação, disse à polícia que fez sexo consensual com Assange, mas acordou na manhã seguinte e percebeu que ele estava fazendo sexo com ela outra vez, sem o seu consentimento e sem o uso de preservativo. Pouco depois, a Justiça sueca anunciou a retirada da ordem de prisão. Uma das denunciantes, Ana Ardin, é cubana e anticastrista.

1 de setembro de 2010: A justiça da Suécia reabriu o processo de estupro e agressão sexual contra Assange. No dia 20 de novembro, as autoridades suecas pediram à Interpol que ele fosse capturado, com fins de extradição. Assange nega as acusações, entrega-se à polícia inglesa e obtém liberdade condicional.

31 de maio de 2012: A corte suprema do Reino Unido anunciou sua decisão a favor da extradição de Julian Assange para a Suécia.

19 de junho de 2012: Assange se refugia na embaixada do Equador em Londres, obtendo, depois, asilo político. O maior temor de Assange é que caso seja extraditado para a Suécia, seja posteriormente extraditado para os Estados Unidos, onde seria julgado por espionagem. No caso de extradição para os Estados Unidos, seus advogados temem que ele possa ser enviado para a Prisão de Guantánamo. Assange contratou o jurista espanhol, conhecido por sua intransigente defesa dos direitos humanos, Baltasar Garzón para que a Inglaterra cumpra as leis internacionais e permita a sua saída do país. No momento permanece sem poder sair das dependência da embaixada em Londres.

Estamos diante da evidência, com as revelações, de que o governo dos EUA viola institucionalmente os direitos humanos. E de uma bárbara perseguição ao “mensageiro”, no caso, o WikiLeaks e Assange e à suposta fonte, que ao contrário de um crime teria, se o fez, agido em defesa de valores que estão acima da “segurança nacional”. Não fizeram espionagem. Não são traidores da pátria. Ao contrário, como disse Daniel Ellsberg, analista militar que liberou para o New York Times um dossiê militar secreto sobre a guerra do Vietnã (“Pentagon Papers”) em 1971:“Se o fez, Bradley é um herói”.

É sempre bom lembrar que a divulgação dos documentos liberados pelo WikiLeaks é considerada a principal causa da Primavera Árabe, à qual, depois de ocorrida, os EUA tentam se mostrar favoráveis. Nas recentes palavras de Assange em transmissão para a ONU (leia o texto “O tempo das belas palavras acabou” em português e veja o vídeo):

O governo dele (Barack Obama) já agiu mais, na direção de criminalizar a liberdade de expressão, que todos os presidentes dos EUA antes dele, somados. Lembro da “audácia da esperança”. Não é muita audácia dizer, na 3ª-feira (após sua reeleição), que “os EUA apoiaram as forças da mudança” na Primavera Árabe?

A história da Tunísia não começou em dezembro de 2010. Nem Mohammed Bouazizi pôs fogo no próprio corpo exclusivamente para que Barack Obama seja reeleito. A morte dele é bandeira do desespero que teve de suportar sob o governo de Ben Ali. O mundo soube, depois de ler o que WikiLeaks publicou, que o regime de Ben Ali e seu governo foi beneficiado pela indiferença, quando não pelo apoio, dos EUA – que sabia perfeitamente de seus excessos e crimes.

Por tudo isso, muito deve ter surpreendido os tunisianos a notícia de que os EUA apoiaram as forças da mudança no país deles.

Também deve ter sido enorme surpresa para os jovens egípcios, que lavaram os olhos para livrar-se do gás lacrimogêneo norte-americano, que o governo dos EUA apoiaram a mudança no Egito. Também com enorme surpresa, muitos ouviram Hillary Clinton insistir que o regime de Mubarak era “estável”. Sobretudo depois que todos já sabiam que não era, e que seu odiado chefe de inteligência, Omar Suleiman – que nós provamos que os EUA sabiam perfeitamente que era torturador – apareceu para assumir o lugar de Mubarak.

Grande surpresa deve ter sido para todos os egípcios, ouvir o vice-presidente Joseph Biden declarar que Hosni Mubarak era bom democrata, e que Julian Assange era terrorista high tech.

É faltar ao respeito com os mortos e os encarcerados do levante do Bahrain dizer que os EUA “apoiaram as forças da mudança.” Isso, sim, é audácia.

Quem pode dizer que não é audacioso o presidente – interessado em posar como líder do mundo – que olha para aquele mar de mudança – mudança que o povo fez – e declara que a mudança é dele?”

Vale a pena ver o documentário, legendado em português, “WikiLeaks – Segredos e Mentiras” apesar dos jornalistas entrevistados revelarem, aos poucos e depois da fase em que seus veículos obtiveram o resultado do impacto da divulgação dos documentos, alinhamento com a posição oficial americana tentando, pela difamação, minimizar os fatos. Aliás, foi vergonhoso ver o Merval Pereira de o Globo, flagrado informante dos EUA pelo WikiLeaks, jogar sujo e atacar Julian Assange em artigo onde diz que este desmascarou-se ao pedir asilo ao Equador e que “cairia no ridículo se tentasse pedir asilo a uma democracia verdadeira”.

Enfim, para os que acham correto o que os EUA fazem, nada tenho a dizer. Para os que têm dúvidas sobre terem armado um golpe contra Assange, pergunto: Por que os EUA simplesmente não declaram que não têm um caso jurídico formado contra Assange liberando-o para ser julgado na Suécia sem risco de ser extraditado de lá? Ou, por que a Suécia não declara que não permitirá a extradição?

Termino sugerindo que você participe da pesquisa relacionada ao tema, no post que se segue, e que utilize preferencialmente a central de comentários para as suas críticas, sugestões e observações.

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