Uma leitura crítica do artigo “Emergente tardio” de Cristóvão Buarque

“Emergimos em direção a um objetivo que não mais satisfaz. É como uma família plebeia que emergisse à nobreza na Rússia Czarista na véspera da revolução socialista”.

'Precipicio' photo (c) 2009, ramos alejandro - license: http://creativecommons.org/licenses/by/2.0/Emergente tardio.

Um excelente artigo que faz pensar e por isto mesmo desperta a crítica. A tese central do “Emergente tardio” é a de que o foco no crescimento do PIB pelos países emergentes se dá no momento em que o desafio é justamente superar o PIB como orientador da atividade econômica. E, no caso particular do Brasil, este tem uma tradição histórica de buscar objetivos ultrapassados.

Além de concordar com a tese, lembrei-me imediatamente da política nacional de informática que começou corretamente com o BNDE (na época) apoiando, a partir de meados da década de 60, centros de excelência em universidades brasileiras. A partir daí suas propostas ficaram sempre um passo atrás. Na época que os microcomputadores eram o caminho óbvio, financiou-se e privilegiou-se a fabricação nacional de minicomputadores. Um novo passo atrás deu-se quando a ligação em rede era o caminho e optou-se pela produção de microcomputadores. E seguiu nesta toada. Quando apostar em software era evidente, manteve-se a prioridade no hardware. E quando a informação mostrava-se ser o elemento critico, foi a vez da opção pelo software nacional. Depois disto, sumiu do mapa.

Ih!, acabo de ler que ressurgiu. Mais 500 milhões vão para o TI maior, novo “programa estratégico de software e serviços de tecnologia de informação”. É claro, “esqueceram” do software livre, os governos continuarão comprando softwares proprietários, a internet 2.0 continuará voltada para setores “prioritários” em geral do próprio governo, a criação multi-mídia, a comunicação e a interação de “muitos com públicos específicos”, possível novo paradigma que já se vislumbra, e o uso dos canais digitais, ainda sob domínio dos antigos detentores do espaço analógico, para a difusão da banda larga de verdade e de baixo custo continuarão a não merecer consideração, mantendo assim a tradição do “sempre um passo atrás”.

Bem, voltando ao artigo, ao lê-lo, constatei algumas incongruências que acho importante mencionar.

De início cita que “o mundo desenvolvido tem por base quatro grandes princípios: a Democracia Política, o Crescimento Econômico, o Bem-Estar Social e a Inovação Técnica”. Será? A democracia política via representação mostrou-se incapaz de promover os reais interesses dos representados. E, o bem estar social não é algo que esteja disseminado nos países desenvolvidos. Resta, sim, o crescimento econômico, com a inovação técnica a reboque e o voto e a seguridade social no papel de atenuador de tensões.

Continua dizendo que este países estão mudando devido a “…quatro novos fatores: os limites ecológicos ao crescimento, a mega concentração de renda, uma revolução científica e o descolamento do setor financeiro em relação tanto à realidade econômica quanto às fronteiras nacionais”. Os fatores, é verdade, existem, mas não há sinais de mudança.

Reforça o argumento dizendo que “daqui em diante, os países do Primeiro Mundo, países ricos, estão sendo obrigados a fazer escolhas entre continuar o crescimento econômico em direção a uma grave crise ecológica; restringir os benefícios sociais em direção ao equilíbrio fiscal; equilibrar suas economias nacionais em um mundo integrado; ajustar seus empregos aos tempos da nova ciência e tecnologia; dominar a mega concentração de renda sem ferir a democracia; cumprir compromissos presidenciais com uma população que vive mais anos”. Não, a escolha deles já está feita, e é pelo crescimento econômico a despeito das evidencias de consequências nefastas.

O artigo termina dizendo que “…o mundo evolui para mais tempo livre, maior produção cultural, melhor distribuição e mais qualidade nos serviços públicos, respeitando o meio ambiente; mais atenção à saúde pública, aos idosos e às crianças; revolução no atendimento universal e no conceito de educação por toda a vida; preocupação com o bem-estar e até com a felicidade…”. Não, não é verdade a despeito do desejo de muitos, mas que estão completamente à margem dos centros de decisão.

O fato é que emergentes, subdesenvolvidos e desenvolvidos estão juntos privilegiando o PIB, num salto para o inviável. E, não parece nem um pouco razoável que os emergentes e subdesenvolvidos possam provocar a mudança de caminho.

Termino sugerindo que você participe da pesquisa relacionada ao tema, no post que se segue, e que utilize preferencialmente a central de comentários para as suas críticas, sugestões e observações.

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3 Respostas to “Uma leitura crítica do artigo “Emergente tardio” de Cristóvão Buarque”

  1. Paulo Garcia de Souza Says:

    Me parece que a premissa do Emergente Tardio assim como a tese da Desindustrialização Precoce e também as propostas do blog Nova Economia são coerentes e refletem a percepção, aos poucos generalizada, que emergimos em direção a um objetivo que não mais satisfaz.
    Me lembra de certa forma o “ponto futuro” onde Gerson lançava e deixava Jarzinho na cara do gol.

    • Christopher Says:

      Olá Paulo,
      Não sou muito otimista quanto à percepção. As análises e soluções que estão sendo apresentadas são certamente um “ponto futuro” mas, pelo visto, dependem de um cenário de crise aguda.
      Abraços,
      Christopher.

  2. Christopher Says:

    Utilize preferencialmente a central de comentários, no menu principal.


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