Pobreza Extrema: apenas uma questão de renda?

1) Para ler notícias relacionadas à Nova Economia, acesse o link à direita.
2) A Pesquisa da Semana é sobre o tema tratado no post e está apresentada em seguida a ele.

Niños de mi almaphoto © 2008 Mario Torres Montoya | more info (via: Wylio)

Vejam só um exemplo das limitações da democracia representativa salientadas no último post num tema particularmente importante para a Nova Economia, pois o bem estar, seu objetivo central, somente poderá existir se, entre outras condições, não existirem pessoas vivendo em condições indignas.

No artigo “Metas antipobreza” publicado no jornal A Folha de São Paulo no último dia 8 o professor José Eli da Veiga esbraveja dizendo que “nada pode ser mais imoral do que ajeitar a linha de pobreza extrema especialmente talhada para tornar factível o mito de “erradicação” em poucos anos”.

Ele claramente refere-se ao plano do governo brasileiro “Brasil Sem Miséria” que define a pobreza extrema pela renda familiar per capita mensal de até R$ 70. Para o atual governo, os miseráveis seriam hoje um contingente de 16,2 milhões de pessoas, 8,6% da população, que, se alcançado o objetivo do plano, o deixariam de ser no horizonte da administração atual.

Corretamente, a meu ver, e apoiado em estudos e recomendações de medidas de erradicação da pobreza feitos pela União Europeia (“Estratégia de Lisboa”) e pelos EUA (“Supplemental Poverty Measure”), ele ressalta que a renda, no caso brasileiro, não é o fator mais importante, pois “quanto mais pobre é um país, mais” a “pobreza de condições de vida” supera em importância a tradicional “pobreza de renda” (ou “monetária”). Ao contrário do que ocorre com as nações mais avançadas.

Para tanto, diz que é preciso acrescentar que “é miserável qualquer família que viva em condições insalubres (seja qual for sua renda)”, tornando portanto a universalização do saneamento, um pré-requisito. Isto, sem falar no “acesso a outros bens públicos (principalmente educação e saúde)”.

Ora, mas o que espera ele de um governo que tem que apresentar resultados no curto prazo para sobreviver à eleições a cada 2 anos? O fato é que as políticas sociais, por conta disto, são limitadas, apesar de trazerem resultados e ajudarem a mudar a realidade do país, mas num ritmo lento.

Tanto é que a fome devia ser zero, virou Bolsa Família e continua existindo. Dados do IBGE indicam que existem hoje cerca de 44 milhões de pessoas que estão na pobreza absoluta (até 1/2 salário mínimo mensal per capita) e portanto sob permanente ameaça de não terem o necessário para alimentar-se.

 Faltam, portanto, pelo menos cerca de 28 milhões de pessoas no plano do governo, além das sem saneamento, educação e saúde. Ou, seguindo o raciocínio do José Eli, não seria miserável quem está em permanente ameaça de fome?

 É uma dura verdade, mas a realidade do sistema político contribui decisivamente para que este quadro de fome e pobreza extrema continue existindo e não consiga ser eliminado, já que, desconsideradas as sua demais mazelas, traz, inerentemente a ele, a impossibilidade de agir com objetivos estratégicos e o uso de expedientes táticos.

E, ainda, outras mazelas à parte (corrupção, gastos desordenados, e mais), a limitação da democracia por representação responde também pelo ranço burocrático, que pode facilmente ser percebido lendo-se o plano do governo, e por prioridades da economia desviadas dos interesses dos representados, ambos, agravando o problema.

Enfim, é tempo de ao invés de aceitarmos passivamente a frase de efeito do Churchill: “a democracia é o pior regime, exceto todos os outros” e que não qualifica o que seja democracia, considerar que é possível construirmos um regime democrático adequado, o que, aliás, é parte da proposta da Nova Economia.

 Termino sugerindo que você participe da pesquisa relacionada ao tema, no post que se segue.

Anúncios

12 Respostas to “Pobreza Extrema: apenas uma questão de renda?”

  1. Os pobres vão herdar a Terra « Notícias e textos sobre a Nova Economia Says:

    […] post da semana passada Pobreza Extrema: apenas uma questão de renda? gerou um interesse muito grande. Em um só dia foram 152 acessos. E diversos comentários ao longo […]

  2. Christopher Says:

    Os comentários são centralizados no último post publicado.

  3. Benedito F. Oliveira Says:

    Ainda quando o Bolsa Família não tinha mostrado seus bons resultados, eu vi uma entrevista do Prof. Eli da Veiga fazendo todas aquelas afirmações pessimistas e desabonadoras, não somente contra esse Programa mas contra o Governo Lula.
    Felizmente suas previsões não se confirmaram e basta andar nos aeroportos, nos supermercados, nos shoppings e em tantos outros locais para ver o maior e mais rápido exemplo de mobilidade social positiva já acontecida nesse país.
    Mas os intelectuais como o Prof. Veiga continuam renitentes. Eles preferem se deixar levar por seus azedumes ideológicos e, sem nenhum pudor, torcem para que tudo dê errado no Brasil. Segundos esses doutos intelectuais, o “Plano Brasil sem Miséria” não deve e não pode, sob hipótese alguma, dar certo.
    Novamente eles se arriscam a serem atropelados pelos fatos. Assim, será melhor para nós, brasileiros de todas as classes, continuaremos todos a ganhar, felizmente.

    • Christopher Says:

      Benedito, como disse no post, a superação da miséria e da fome é pré-requisito para que possamos evoluir para uma Nova Economia que considere a preservação ambiental, a justiça social e o bem estar como os reais motivadores do que e como se produz. Não me parece, portanto, razoável combater medidas na direção certa e sim apontar os entraves que impedem que a superação realmente se dê. Em resumo, ajuda muito aceitar que o possível raramente leva ao necessário, você não acha?

      • Benedito F. Oliveira Says:

        Prezado amigo Christopher, saudações.
        Sim, realmente não me parece razoável combater e invalidar medidas na direção certa e que estão produzindo excelentes resultados em nome de uma perfeição que, muitas vezes, é uma fantasia má intencionada. A maneira mais certeira de desvalorizar o trabalho de alguém é dizer “tá bom, tá bom, mas poderia ser muito melhor”. É assim que o artigo do Prof. Veiga trata os avanços sociais do Brasil nos últimos anos.
        Portanto, se o amigo me permite, eu não acho que o possível raramente leva ao necessário, ao contrário, o possível é o único caminho ao necessário, pois é o caminho factível, é o caminho que pode efetivamente ser percorrido.
        Finalmente, acho que a discussão que o CASSE propõe é de uma natureza bem diversa da que é colocada por esse artigo da Folha de São Paulo que parece ter, na realidade, motivações políticas não muito explícitas e bem menos interessantes.

        • Christopher Says:

          Benedito, você apresenta um belo argumento. Afinal, o pior de tudo é não fazer nada. Por outro lado, a inquietude é essencial para esticar os limites do possível. Quanto ao José Eli, digo-lhe que ele tem comigo uma atitude de desconsideração pessoal, talvez por ser muito ocupado ou por se colocar numa posição intelectual acima dos “simples mortais”. Mas, esta é uma questão menor porque seus textos e estudos são de altíssima qualidade, eticamente inatacáveis e oportunos. Ele também mantém uma lista de pessoas a quem informa diariamente (apesar da desconsideração, me mantém nela) o conteúdo de artigos, e-mails que recebe e links que na sua grande maioria me tem sido muito úteis, mas que tem, estes sim, um certo e razoável viés. Dê uma olhada no site dele (o link está no post) e verá que a ligação dele com a Marina é mais uma consequência e não causa de seus argumentos e estudos. Observo também que o artigo do José Eli é apenas parte da sustentação do texto do post, sendo minha a responsabilidade pelo que está escrito.

  4. Eliane Chaves Says:

    Não preciso falar nada além de PERFEITO!

  5. Deborah Says:

    Infelizmente em nosso país, ser cidadão é se consumidor…o que promove uma distorção no que se refere ao acesso às necessidades básicas, bem como anestesia a sociedade brasileira em questionar o pressuposto. Assim, a ideia individual de obtenção de bens de consumo se sobrepõe a idea coletiva de acesso a bens públicos. Não se questiona a falta de saneamento básico, a precariedade do transporte público, da escola pública, etc. Cada vez que se enfatiza o acesso ao consumo como progresso, se amortece a pressão sobre as transformações estruturais da sociedade brasileira. Desse modo, comemoramos a queda no IPI de carros, lutamos pela queda do preço da gasolina, ficamos indignados com o preço dos planos de saúde, reclamações que não superaram o patamar individual. Como consequência, a medida que nos tornamos um país de classe média pelo consumo apenas, postergamos as reais chances de superarmos o subdesenvolvimento.

    • Christopher Says:

      Deborah, se é que posso acrescentar algo ao seu belo comentário, ressalto com tenho feito em vários posts, que a questão do consumismo é mais uma consequência do que causa. Acho importante dizer isto para evitar ações que pretendam mudar a realidade a partir do comportamento individual.

      • marcusmartins Says:

        Chistopher,
        é o comportamento individual que muda a realidade. Desde que a ação seja ideológica e coordenada por movimentos políticos coletivos.

        • Christopher Says:

          Marcus, eu não estou tão seguro disto. Veja o caso do consumismo. Devemos combater o consumista? Ele é causa ou consequência? E os que dão o exemplo anticonsumismo, abrindo mão de confortos que a modernidade propicia, estão no caminho correto? Enfim, acho que você tocou no assunto mais difícil relacionado à Nova Economia e para qual não vi equação satisfatória, a saber, como promover a mudança? Hoje, temos uma boa ideia do porque fazer, uma ideia razoável do que fazer mas, estamos muito longe de saber e propor o como fazer.


Comentários encerrados.

%d blogueiros gostam disto: