Sociedade consumista?

 

Vimos até aqui que o que se consome é, via de regra, de utilidade e que a crítica ao individuo consumista é vazia e não leva a mudanças substancias nas práticas de consumo. Vimos, por outro lado, que o estilo de vida moderno, necessário para manter e melhorar o padrão de consumo é altamente estressante e não leva ao bem estar pessoal e social.

Esta é a ótica de cada um de nós. Mas, será que para a sociedade como um todo a crítica ao consumismo se aplica e pode ser transformadora? Metade dos que responderam à pesquisa da semana anterior, cujo resultado é mostrado no espaço da própria pesquisa, acredita que sim. A outra metade divide-se entre os que, parece-me, privilegiam os valores espirituais, e os que, como eu, acreditam que não caiba falar-se em sociedade consumista. Explico-me.

Antes de mais nada, vale citar que poucas exceções no mundo fogem ao modelo que valoriza o consumo de bens e serviços. Um contra exemplo interessante é mostrado no artigo “Crescimento na economia budista“, escrito por Jeffrey D. Sachs para o Project Syndicate em agosto 2010. Em viagem ao país o autor verificou que no Butão a felicidade é vista como uma consequência de um trabalho sério de reflexão interna e de compaixão pelos outros e que o crescimento econômico é subordinado à sustentabilidade ambiental e à preservação da estabilidade psicológica mesmo no curso de mudanças velozes, marcadas pela urbanização e a investida dos meios de comunicação globais.

Mas o fato é que esta experiência de cerca de 700 mil pessoas não consegue se contrapor aos bilhões de pessoas das mais diferentes nações e classes sociais que almejam e estão cada vez mais tendo acesso aos benefícios materiais que o mundo moderno pode propiciar. Não há duvida. A sociedade atual é movida e voltada para o consumo. Contudo, não há indicação neste contexto de uma cultura social baseada no consumo “desenfreado”, supérfluo ou “desnecessário”, que amplie desejos que de outra forma seriam limitados e seja a causa do consumo por comparação e “status”. Sem isto, não há como falar-se em uma sociedade consumista.

Entretanto, mesmo sem a validade da crítica, o mencionado modelo de consumo, como vimos em posts anteriores, não tem como sobreviver às barreiras ambientais e sociais que se ampliam dramaticamente devido a duas razões principais que se realimentam. De um lado, os agentes econômicos precisam do crescimento para que haja excedente, e, para que haja crescimento precisam do aumento constante do consumo para escoar o que produzem. De outro, para que mais pessoas possam consumir mais e melhor é necessário que haja crescimento econômico.

É um impasse que leva inevitavelmente a um novo cenário com a radical diminuição na diferença de renda e do consumo individual e, aí sim, a novos estilos de vida que previsivelmente terão enfase no bem estar. Mudam-se os hábitos para que possamos viver num mundo de recursos finitos e onde, estima-se, 9 bilhões de pessoas o habitarão em 2050. E, aspirando o mesmo padrão.

É a velha história, nossos hábitos e práticas se adequam ao que o momento econômico e social permite e exige, e não o contrário. Qual o preço que humanidade pagará para que tal mudança ocorra é talvez o que mais assusta em todo este quadro. Este é, alias, o objeto da pesquisa desta semana.

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Uma resposta to “Sociedade consumista?”

  1. Christopher Says:

    Os comentários são centralizados no último post publicado.


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