As limitações do PIB como indicador

No sea...photo © 2007 Marina Carvalho | more info (via: Wylio)

 

Há tempos questionei o uso do PIB em comentário a um artigo do Carlos Alberto Sardenberg intitulado “Porque não crescer 10%” e publicado no O Globo. Recebi do autor a seguinte resposta: “Dizia John Kennedy: quando a maré sobe, leva todos os barcos”. É provável que Kennedy tenha feito tal afirmativa em outro contexto, mas, usando a metáfora da maré e os números que mostrei no último post, ao subir a maré, se o “navio” do crescimento econômico chegar a 16 nós, o “navio” da redução da pobreza extrema estará a apenas 0,6 nós. Ora, como a velocidade do comboio é a do navio mais lento, o que ocorre é o abandono deste navio mais lento. Nem abandono, de fato, já que dele nunca fez parte.

Aliás, o irmão, Robert Kennedy, em palestra na Universidade do Kansas em 18 de março de 1968, durante campanha eleitoral, fez uma brilhante síntese das limitações do indicador:

“O Produto Nacional Bruto contabiliza a poluição atmosférica e a publicidade de cigarros. E as ambulâncias para remover os feridos em auto estradas. Considera as fechaduras especiais para as nossas portas e as prisões para as pessoas que as arrombam … Conta a destruição das florestas e a perda, que se espalha caoticamente, de nossas belezas naturais. Ao mesmo tempo, o PNB não leva em conta a saúde de nossas crianças, a qualidade de sua educação e a alegria de suas brincadeiras. Não inclui a beleza de nossa poesia ou a solidez de nossos casamentos, a inteligência de nossos debates públicos ou a integridade de nossos homens públicos … Mede tudo, em resumo, menos aquilo que faz com que a vida valha a pena”.

Mais recentemente, o jornalista Jon Gertner no belo e completo artigo “The Rise and Fall of the GDP” publicado no New York Times de 10 de maio 2010, faz uma divertida comparação entre duas pessoas: Uma, chamada de “Alto PNB” e outra, chamada de “Baixo PNB”. A primeira usa um carro de alto consumo e leva duas horas para chegar ou voltar do trabalho, isto lhe causa “stress” e problemas de saúde, e por aí vai o autor descrevendo a dura vida deste personagem. O outro, caminha para o trabalho, produz uma parte e prepara sua própria comida, e por aí vai o autor, salientando detalhes de um outro tipo de vida. Os hábitos do primeiro são a matéria prima do crescimento econômico, e os do segundo, o caminho para a recessão. Estranho, não?

Nas duas citações acima, parece-me que salta aos olhos a questão da qualidade da medida, a saber, o que está e o que não está sendo medido, muito mais do que como a medida é feita. O desperdício, por exemplo, não é medido nem entra negativamente na contabilização. Em consequência, se a sociedade se mobilizar para reduzir a perda de energia, de alimentos e de bens e serviços em geral, estará contribuindo para a redução do PIB e de empregos.

Este exemplo do desperdício mostra que crescimento econômico só faz sentido quando gera riqueza real. E mesmo assim, vale lembrar, ele está inevitavelmente limitado, conforme mostrado em posts anteriores, pelas imposições ambientais, pelo chamado “pico das energias intensas em carbono” e pelos conflitos sociais, dada a impossibilidade de oferecer a todos padrão de vida similar ao das classes mais favorecidas.

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2 Respostas to “As limitações do PIB como indicador”

  1. Christopher Says:

    Os comentários são centralizados no último post publicado.

  2. Paulo Garcia de Souza Says:

    O World Economic Forum (www.weforum.org) no report sobre Metals & Mining Year 2030 propoe uma serie de cenários futuros que imagino possam ser de seu interesse e dos leitores do blog.
    Obviamente os cenários propostos extrapolam aspectos relacionados a mineração, e abrem um tema instigante de discussão. (see video of the report on http://www.weforum.org/issues/industry-scenarios?fo=1)


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