Bem Estar

Definitivamente, um assunto quase proibido. Por razões econômicas, históricas, culturais e religiosas, pensar e procurar o bem estar parece algo indevido para muitos. Duvida-se que a infraestrutura econômica seja capaz de prover condições adequadas de vida para todos, o rigor das praticas trabalhistas impõe regras espartanas de comportamento e a tradição luterana e de outras religiões ainda mantém forte reverência ao valor moral do trabalho.

O fato é que nesta fase de nossa civilização ainda estamos pouco acostumados a procurar diretamente o bem estar e não levamos isto a sério. O máximo a que se chega é a uma suposição de que havendo crescimento econômico haverá melhora da bem estar da humanidade, este entendido como melhor nível e qualidade de vida.

Infelizmente, o crescimento econômico é uma forma extremamente ineficiente de se alcançar a redução da pobreza. De acordo com dados do livro The New Economics, entre 1990 e 2001, para cada USD 100 de crescimento da renda per capta mundial apenas 0,60 USD contribuiu para reduzir a pobreza dos que estão abaixo da linha de 1 USD por dia. Reduzir à metade os que estão nesta faixa é, por sinal, um dos objetivos do milênio estabelecidos pela ONU, a ser atingido até 2015.

No estudo da nef National Accounts of Well-being esta realidade é bem descrita: “As economias são organizadas explicitamente em torno da necessidade de aumento do PIB…. Os modelos de negócio buscam a maximização dos lucros dos acionistas. e as pessoas são levadas a acreditar que quanto mais renda disponham, e consequentemente, quanto mais consumam, mais felizes serão. Mas, os indicadores econômicos nada dizem se as pessoas estão de fato percebendo que suas vidas estão indo bem. Existe uma urgente necessidade por uma melhor e mais direta forma de medir a performance da sociedade em termos do objetivo de melhora do bem estar”.

E continua: “Medir o progresso somente em temos econômicos faz esquecer um ponto chave de que a economia é um meio e não um fim em si mesma. Uma forte e saudável economia pode ser desejável, mas o é porque nos permite fazer as coisas que são realmente importantes: viver vidas felizes e plenas”.

Aos poucos e crescentemente, o PIB vem sendo contestado e complementado. Em 1990 o Programa das Nações Unidas para o desenvolvimento – PNUD introduziu em todo o mundo o conceito de desenvolvimento humano sustentável focando nas pessoas e não na acumulação de riquezas o objetivo do desenvolvimento. Para aferir o grau de desenvolvimento humano sustentável de uma sociedade o PNUD utiliza o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) criado pelo professor Amartya Sen e publica anualmente o Relatório de Desenvolvimento Humano comparando 144 países e territórios.

Mais recentemente, em janeiro de 2008 o presidente francês encarregou 3 renomados economistas, Joseph Stiglitz, Amartya Sen e Jean-Paul Fitoussi de formarem uma comissão especial e conduzirem um profundo estudo relacionado à medida de performance econômica e ao progresso social. O resultado foi publicado em setembro de 2009 e é conhecido hoje como o relatório Stiglitz.

No já mencionado estudo sobre Bem Estar, feito pela nef, o assunto é tratado de uma forma ainda mais abrangente. Enfrenta de forma entusiasmante a subjetividade do tema e busca mais do que a satisfação, entender as dimensões sociais e pessoais e medir sentimentos, funcionalidades e recursos psicológicos.

Em todas estas iniciativas há um pressuposto que parece bastante razoável de que ao se medir os aspectos relativos à qualidade de vida e bem estar e identificar os problemas se estará pressionando a própria sociedade a buscar mudanças, que são estruturais, nesta direção.

O assunto é complexo e amplo. Voltarei a ele analisando em posts algumas de suas dimensões mais salientes: Os problemas do PIB como indicador, a questão do consumismo, os indicadores do PNUD, o relatório Stiglitz e a medida do bem estar.

Termino este post perguntando se o irrealismo que muitos supõe ser enfatizar o bem estar, não estaria justamente no seu contrário, a saber, acreditar que seja possível continuar a não o fazer?

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2 Respostas to “Bem Estar”

  1. Christopher Says:

    Os comentários são centralizados no último post publicado.

  2. Alvaro Soares Says:

    Muito bom, continue firme com este proposito.
    Grande abraço,
    Alvaro


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